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Dez 13
Soljenítsin e as cicatrizes do totalitarismo

Aleksandr Soljenítsin (1918-2008), escritor russo nascido em Kislovodsk - URSS, ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1970. A sua postura crítica sobre o esmagamento da liberdade individual pelo Estado omnipresente e totalitário implicou a expulsão do autor do país natal e a retirada da respectiva nacionalidade. Viria a regressar a casa, em 1994, após o desmantelamento da URSS. Parte essencial do drama na sua obra é o confronto entre o individual e o social. Em «”A Casa de Matriona” seguido de “Incidente na Estação de Kotchetovka”» (Sextante), o autor russo fragmenta a perspectiva, de forma a expor as suas dúvidas.
Na primeira ficção, «A Casa de Matriona», Ignátitch tem necessidade de sair do centro urbano e entrar num esconso local, longe da amálgama humana. A disformidade da condição individual motiva-o a afastar-se para observar e pensar. Ele precisa de reencontrar-se e reconhecer a essência da sua pátria, uma Rússia profunda, campestre, mas também muito pobre.

«À noite, quando Matriona já dormia e eu estava a trabalhar à mesa, o som da rara e breve corrida dos ratos sob o papel de parede era abafado pelo restolhar uniforme e incessante das baratas para lá da divisória, como o ruído distante do oceano. Esse rumorejar era a vida delas.» (pág. 19)
Uma vez na aldeia, é confrontado com obstáculos inesperados A organização social, hipoteticamente montada a pensar na libertação do indivíduo, é uma máquina burocrática e intolerante. O “Kolkhoz”, propriedade rural colectiva, é uma microssociedade estatal regulada e controlada por um presidente e respectivas forças de policiamento. O que seria uma organização para a libertação do homem, preso pelo capitalismo, transforma-se num grupo de autocontrolo, onde cada elemento é observado pelos restantes habitantes, formando, assim, um mecanismo social de (auto) censura.
Quando em pobreza, a diferença apresenta-se, para Ignátitch,  como simples de explicar:
«Ora pois, dantes [os camponeses] roubavam ao senhor, agora tiram a turfa ao Estado» (pág. 124)
A relação da pessoa, individual ou colectiva, com os bens é de avidez e acumulação, seja para subsistência ou riqueza. A perda, tal como é descrito na pág. 60, é considerada vergonhosa e estúpida. Mas Matriona é diferente. A pobre senhoria de Ignátitich sobrevive com dificuldade perante as adversidades climáticas, sociais e individuais. Ela é uma mulher que «tivera seis filhos e que tinham morrido todos, um após o outro, ainda muito pequenos, de tal modo que nunca teve dois vivos ao mesmo tempo». (pág. 36)
A complexidade desta personagem é surpreendente, e será esta complexidade a prender a atenção de Ignátitch. A análise sobre o indivíduo, e a sua problemática relação passiva com o poder, incidirá sobre Matriona, enquanto a análise social será sobre a aldeia. Tudo numa relação de interdependência. Matriona é o contraponto da ambição, pois «não se matava a trabalhar para comprar coisas e depois cuidar delas mais do que da sua vida». (pág. 64)
Já em «Incidente na estação de Kotchetovka» estamos perante a (auto) censura, novamente.
Zótov é um burocrata empenhado, mas com muitas e incomodativas dúvidas perante o avanço do exército alemão, durante a II Guerra Mundial. O colectivo impõe a (auto) censura ao indivíduo.
Zótov repete, para afastar o sentimento de culpa e o medo, versos ouvidos:
«Se a causa de Lenine assim morrer/ para que continuo eu a viver?» (pág. 74)
Ele não fala nem quer pensar. É uma tortura silenciosa. O sentido da sua vida está dependente da sua utilidade na Revolução. No momento crucial desta ficção, o peso do vínculo ao colectivo irá enfrentar a consciência de Zótov.
Tal como em «A Casa de Matriona», a construção da consciência individual e/ou colectiva é a essência deste texto. Interdependentes, elas são também contraditórias.
A excelência de Soljenítsin percebe-se, inclusivamente, na utilização de estratégias de narração demonstrativas da interrogação sobre os limites da ficção e da veracidade.
O estilo indirecto livre tem as características ideais para a simbiose entre o pensamento do autor, do narrador e personagens.
Soljenítsin utiliza a ficção, a realidade e o biografismo como matéria-prima na construção das suas obras literárias. Já o havíamos mencionado, quando escrevemos, no Diário Digital, a crítica literária a «Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch», também da Sextante.
Sobre «A Casa de Matriona», o escritor russo referiu-a como «autobiográfica e autêntica». A autenticidade do episódio contado em «Incidente na Estação de Kotchtovka» é destacada, também. Os acontecimentos narrados aconteceram em 1941 e foram noticiados nos jornais Nóvi Mir e Outubro.

Soljenítsin interroga, mesmo que não seja a sua principal intenção, as fronteiras entre a realidade e a ficção, entre o que é o facto e a respectiva interpretação /recriação. As palavras são a sua pele marcada com as cicatrizes do totalitarismo.



Mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 18:40

17
Out 12


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=593433

“Um dia na vida de Ivan Deníssovitch”, de Aleksandr Soljenítsin,  é uma obra que continua a gerar expectativas entre os leitores. Essas expectativas indicam que o texto continua a ser procurado e lido, justificando, desta forma, o aparecimento de novas edições.
É sobre este princípio que a a editora Sextante, do grupo Porto Editora, decidiu lançar uma nova tradução desta obra. É a primeira tradução directamente do Russo para Português.
Reservando um lugar na história para si mesmo ao expor, pela primeira vez, as condições de existência dentro dos campos de trabalhos forçados, Soljenítsin viu “Um dia na vida de Ivan Deníssovitch” ser utilizado como símbolo da abertura política de Krutchev em suposta antagonia para com a política até ali implementada por Estaline. No entanto, a importância do livro não se resume à ruptura com o cânone temático imposto pela ditadura estalinista. Os livros mais conceituados do autor russo continuam a apresentar uma problemática interessante mesmo que subtraída da carga política. Se se considerar que a veracidade do facto reside e acaba no mesmo facto e que a observação já pertence ao domínio da interpretação, o leitor fica perante um dilema ao ler na nota final do autor  “Todas as outras personagens são reais, recolhidas da vida no campo, e as suas biografias são autênticas”. Assim sendo, onde está a fronteira entre a ficção e a realidade?
Esta problemática não está somente presente em “Um dia na vida de Ivan Deníssovitch”.
É inquietante quando Soljenítsin afirma, nas primeiras páginas de “O Arquipélago de Gulag”, uma das suas obras mais polémicas, que “ No presente livro não há personagens imaginárias, nem acontecimentos imaginários”  mais afirmando, ao referir-se aos factos, “Mas tudo se passou realmente assim”.
O biografismo de Soljenítsin presente em “Um dia na vida de Ivan Deníssovitch” credibiliza a narrativa como criação geneticamente ligada à realidade. No entanto, a dialéctica entre ficção e a realidade não é excluviva do autor e depende da activação do sentido por parte de uma entidade: o leitor.
A recepção do texto por parte do leitor é mais ou menos profunda conforme o conhecimento que tem sobre a época em que decorre a narrativa.
“Um dia na vida de Ivan Deníssovitch” remete para dois momentos importantes e distintos: o contexto histórico em que  foi escrito (campos de concentração, onde o escritor esteve preso durante o regime estalinista); os contextos históricos em que é publicado. A interpretação do leitor contemporâneo é necessariamente diferente da do leitor na ocasião da primeira edição (1962). Ambas as interpretações estão separadas por uma distância cronológica que permite a abordagem ao texto com condições emocionais distintas.
O livro só se enriquece com tal facto. As interpretações pluralizam-se; não se substituem.
Ao longo desta obra, o leitor tem a possibilidade de acompanhar Chúkov, durante um dia, dentro de um campo de concentração. A narração, através do dirscurso indirecto livre, permite ao autor aproximar e afastar-se dos acontecimentos e formar uma simbiose entre o seu pensamento e os pensamentos e emoções das personagens. Ao mencionar o biografismo e ao optar por esta estratégia narrativa, o autor coloca o leitor muito próximo do que é descrito e consegue credibilizar o que é narrado. Numa primeira leitura, a possivel divergênca entre a verdade histórica e a ficção esbate-se. O interesse concentra-se na aceitação, por parte de quem lê, de uma só verdade: a que pertence ao texto.
No caso de um texto escrito numa língua estrangeira, existe um intermediário, na construção do sentido, entre o escritor e o leitor:
O tradutor.
A mediação efectuada pelo tradutor tem uma influência vital na recepção do texto.
A tradução directamente do russo para o português, por António Pescada, apresenta-nos diferenças muito relevantes em relação à tradução feita por H. Silva Letra para a Europa-América, em 1972..
António Pescada imprime na sua tradução substanciais diferenças sintácticas, semânticas e lexicais. Estamos perante o mesmo texto de Soljenítisin, mas somos confrontados com uma tradução bem diferente daquela que foi feita por H. Silva Letra.
Analise-se as seguintes frases a título de exemplo:
Tradução de António Pescada para a Porto Editora
“Lá dentro pairava um nevoeiro como na sauna – o frio que entrava pela porta e o vapor da sopa. As brigadas estavam sentadas às mesas ou acotovelavam-se à espera de que vagassem lugares. Gritando uns para os outros no meio daquele aperto, dois ou três trabalhadores de cada brigada transportavam tabuleiros de madeira com as tigelas de sopa e de papas e procuravam espaços nas mesas onde os colocar.” Pág. 16
Tradução de H. Silva Letra para a Europa América
A atmosfera estava tão espessa como a de um balneário. Uma corrente de ar gelado introduziu-se através da porta e chocou com o vapor que se evolava da sopa aguada. Os componentes dos grupos estavam sentados ou esperavam no intervalo entre estas. Gritando uns para os outros por entre a multidão comprimida, dois ou três homens de cada grupo transportavam tigelas de sopa e kasha em tabuleiros de madeira e tentavam encontrar espaço para os pousar na mesa”
Pág 21
A descodificação do sentido (semântica), da ordem (sintaxe) e da matéria (léxico) é executada com diferenças relevantes pelos dois tradutores.
Assim sendo, a edição desta obra de Aleksandr Soljenítsin pela Sextante ganha uma enorme relevância.
A “ Um dia na vida de Ivan Deníssovitch” seguir-se-á a publicação, também pela Sextante, de “A casa de Matriona” e “Zacarias Escarcela e outros contos”. Seria muito interessante que as edições das obras deste autor russo abrangessem, mais tarde, “O Pavilhão dos Cancerosos” e “Arquipélago de Gulag”
Mário Rufino

publicado por oplanetalivro às 17:08

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