22
Mai 14


Manuel Jorge Marmelo (n.1971; Porto) olhou para a história da literatura e fez dela matéria-prima na construção de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” (Quetzal), Prémio Correntes d`Escritas 2014.
O narrador, nunca nomeado, de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” leva consigo um livro intitulado “Cidade Conquistada”, cujo conteúdo foi construído com leituras diversas e apropriação de textos (recortes, transcrições, etc.).
O único exemplar existente de“Cidade Conquistada”, do irreal autor Oscar Schidinski, tem uma capa que prende a atenção dos passageiros/leitores dos transportes públicos.
Conquistada a atenção dos leitores, o narrador recria em cada leitura sua o conteúdo do livro. Personagens como o Homem-Zebra de Polvorosa, o marinheiro Albrecht e a sua maldição, Cassiano Consciência e o seu amigo Afonso Cão e ainda Marcos Sacatepequez habitam o imaginário do contador destas histórias e dos seus ouvintes.
Manuel Jorge Marmelo construiu, desta forma, uma narrativa complexa, formada por vários caminhos que se cruzam, originando um interessante labirinto textual.
“Cidade Conquistada”, Oscar Schidinski e as histórias do narrador não são verdadeiras. No entanto, a verdade, ou melhor dizendo a realidade, é o menos importante.
Se fisicamente pouco ou nada do que é contado existe, o mesmo não se passa no plano intelectual. Se é nomeado, se é referido, existe num outro plano que não o visível.
O aspecto progressivo e mutante da leitura/ recriação por este narrador dota a obra de capacidade de sobrevivência e de interesse. Neste caso, cria-se um facto baseado em algo inexistente. Em consequência, a ficção influencia a realidade, e esta torna-se menos real do que a ficção. “Cidade Conquistada” é tão perfeita e plural, no que respeita a interpretações e adaptações, como uma utopia.
A entrada no cânone está dependente disto mesmo: da constante actualização do texto. A ficção sai do controlo do ficcionista, pois o público interage e muda o decurso da história. A transmissão oral, que remete para os primórdios da literatura, é simbólica. O narrador endossa e espalha a palavra.
A Estética Literária, em interacção com o conceito de Belo, é mutável e produto de “negociação” entre escritor, narrador e leitor.

O cânone, o historicismo, o biografismo, o conceito de Obra Aberta, a intertextualidade, as influências literárias, o “tomar emprestado” ou o plágio são assuntos abordados com muita inteligência por Manuel Jorge Marmelo. O autor consegue a simbiose entre ensaio e ficção. Mesmo para o leitor sem conhecimentos teóricos sobre a Literatura, a construção ficcional motiva a continuação da leitura. Este diálogo com a história e teoria da literatura é declarado na pág. 20:
“é absolutamente fundamental que Schidinski seja sempre o responsável por uma profunda ruptura sistémica na arte narrativa do seu tempo, inaugurando, se assim se pode dizer, um novo e genial capítulo da história da literatura”.
Essa responsabilidade não se esgota no acto de renovação ou inovação; é necessário que o autor, neste caso, Oscar Schidinski, seja celebrado como o génio causador dessa ruptura.
A (procura de) celebridade é uma constante ao longo do texto. O narrador reivindica-a também para si. A ânsia de reconhecimento é assumida quando afirma: “sinto a fama como algo que me seja devido do mesmo modo que um trabalhador tem direito ao seu salário” Pág.44
As deslocações de autocarro, metáfora da viagem na literatura, são um pretexto para o (re) criador de “Cidade Conquistada”. Ele deseja ser reconhecido pelo público. No entanto, uma outra “irrealidade”, tão ou mais Sublime do que a Literatura, mudará o destino do narrador do livro de Schidinski.

Manuel Jorge Marmelo declara, em “Uma Mentira Mil Vezes Repetida”, o seu amor pelo poder transformador da palavra. A Literatura, desde os seus alicerces teóricos até à manipulação da frase, é o principal tema desta obra premiada com o Prémio Correntes d`Escritas 2014.
O leitor tem acesso, através deste texto literário, a uma lição sobre a efemeridade, a instabilidade e a incoerência da formação do gosto.

Uma mentira mil vezes repetidaUma mentira mil vezes repetida by Manuel Jorge Marmelo
My rating: 4 of 5 stars

Manuel Jorge Marmelo (n.1971; Porto) olhou para a história da literatura e fez dela matéria-prima na construção de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” (Quetzal), Prémio Correntes d`Escritas 2014.

http://oplanetalivro.blogspot.pt/2014...



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publicado por oplanetalivro às 10:40

13
Mai 14



Ler Platão é ler parte essencial da formação do pensamento ocidental. A sua obra perdura e influencia a realidade das civilizações ocidentais há cerca de 2400 anos.
Platão é um eterno contemporâneo.

“O Político” (Temas e Debates) é uma obra importante na demonstração da filosofia de Platão (427 ou 428 a.C. - 347 ou 348 a.C.), embora não tenha a preponderância de “A República” ou, numa outra fase, de “Górgias”.
Enriquecido por uma pedagógica introdução de Carmen Isabel Leal Soares, que também assume a tradução e notas, “O Político” situa-se diacronicamente na obra do filósofo grego entre “A República” e “As Leis”, não havendo uma data precisa para a sua primeira edição.
Tanto “As Leis”, considerada a obra derradeira do autor, como “O Político” são contextualizados pela terceira e última fase da produção literária de Platão.
É comummente aceite que esta fase é composta por “O Sofista”, “O Político”, “Filebo”, “Timeu”, “Crítias” e “As Leis”.
Adverte Carmen Isabel Soares que o substantivo “Politikos”, que está contemporaneamente presente no substantivo “Político”, “não corresponde exactamente ao conceito moderno”.
Nesta obra, Platão, através da proposta de Teodoro a o Estrangeiro e a Sócrates, o moço (não confundir com Sócrates, o filósofo), propõe fazer o retrato completo do Homem Político.
Ainda segundo Carmen Isabel Soares, “Estamos, pois, perante um tratado metodológico, que ensina a arte de filosofar”.
O Estrangeiro (relacionado com ser desconhecido em casa onde se discute e não com o aspecto geográfico) procura ensinar ao seu discípulo Sócrates, o moço, a função de três utensílios filosóficos na prática da dialéctica. São eles “a divisão ou diérese, a invenção e interpretação de mitos e os paradigmas funcionais”.
O pensamento platónico vai sendo demonstrado através do dinamismo dialéctico imposto pelos intervenientes. A sistematização do pensamento passa pela relação entre o homem político e as diversas e mútuas influências. Refiro-me ao mito, à constituição do poder, ao bom e à virtude.
Os exemplos de “bom” e de “virtude” são abordados em “O Político”, mas a dado ponto o diálogo não aprofunda e assume outra direcção. O aprofundamento acontece mais em “Górgias”, onde Platão filosofa sobre a desejável ligação entre a arte da Retórica e a Bondade.
Górgias afirma, a certo ponto da sua exposição, que a Retórica deve ser usada como todas as armas de competição. “Lá porque se aprendeu o pugilato, o pancrácio e o combate com as armas de modo a poder vencer amigos e inimigos, não se vai agora fazer uso disso contra toda a gente, a ponto de ferir, trespassar, ou matar os próprios amigos” (em “Górgias”).
O homem político deve, assim, usar o seu poder retórico para alcançar o bem comum e não em proveito próprio.
O Bem, para Platão, é a finalidade da vida, objectivo supremo. Dele depende o conhecimento. É a causa criadora que sustenta o mundo. É objectivo da Dialéctica o apreender a essência de todos seres e substâncias; o ser capaz de distinguir a natureza ideal do Bem, isolando-a de todas as outras coisas.
Na dialéctica platónica, O uso dessa “arma” fundamental é sublinhado, em alguns momentos, pela ironia (ignorância simulada). Em “A República”, livro anterior a “O Político” e pertencente a os quatro grandes mitos escatológicos (Górgias, Fédon, República e Fedro), Trasímaco diagnostica diversas vezes essa ignorância simulada usada por Platão na voz de Sócrates.
Será comparando “O Político” com, precisamente, “A República”, situada na já mencionada terceira fase da produção literária-filosófica do autor, que poderemos perceber as mudanças no pensamento do filósofo grego.
A evolução filosófica de Platão durante o período a começar em “A República”, passando por “O Político”, até chegar a “As Leis”, leva autores como Julia Annas ou Carmen Isabel Soares a denotar a mudança de uma antidemocracia em Platão para a aceitação da democracia como forma de governar os cidadãos.
O ideal “homem pastor”, de “A República”, é derrotado pela consciencialização histórica da sua falibilidade.

Abordar o homem político como homem nobre parece algo distante do pensamento contemporâneo. A retórica ganhou um sentido pejorativo, pois com ela vem, agora, a mentira e a camuflagem da acção.
A lucidez de Platão ilumina o que a mediocridade vem embutindo como normal na nossa realidade; ilumina para eliminar.
 A política é um acto nobre quando vinculado ao conceito de Bem e de Virtude. A Retórica é uma “arma” que deve ser utilizada com parcimónia e sujeita ao cumprimento do bem comum.
A reedição de textos canónicos como os de “O Político”, enriquecida com a qualidade informativa e pedagógica da introdução de Carmen Leal Soares, são sempre de louvar e de (re) ler.
Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 14:49

28
Fev 14

" (...)uma parábola com a capacidade de demonstrar o pensamento do autor sobre os percursos possíveis de uma existência. “A visão de Teodoro, o eremita de Tenerife, encontrada na sua cela” é uma viagem simbólica, que parece dialogar com “A Divina Comédia”, de Dante.

No entanto, há oposição entre Morte (em Dante) /Vida (em Johnson), percurso descendente (inferno) /ascendente (montanha), desespero/esperança: “Filho da Perseverança, quem quer que sejas, e cuja curiosidade te trouxe até aqui, lê e sê sábio”.

http://p3.publico.pt/cultura/livros/11061/paginas-escolhidas-de-samuel-johnson



publicado por oplanetalivro às 19:31

02
Fev 14

«O Barril Mágico»: Malamud e o caminho da Salvação


“O Barril Mágico” (Cavalo de Ferro), de Bernard Malamud (1914-1986), foi finalmente editado em Portugal. Esta obra, composta por 13 narrativas breves, proporcionou o “National Book Award”, em 1959, ao autor norte-americano nascido em Brooklyn.

A excelência de Malamud neste género narrativo viria a suscitar na crítica literária comparações com outros dois grandes escritores judeus: Roth e Bellow. Flannery O`Connor afirmou, conforme se pode ver na própria capa do livro, “Descobri um autor de contos que é o melhor em absoluto, inclusive melhor do que eu”
A austeridade imposta pelas condições financeiras e pelo conservadorismo familiar não permitiu a Malamud, na sua infância, um desenvolvimento cultural satisfatório. O falecimento da mãe, o sofrimento causado pela Grande Depressão e o exíguo bairro a que ele estava confinado foram essenciais na formação do escritor. As suas fraquezas foram transformadas em matéria prima. Esse desamparo afectivo, cultural e económico é recriado na ficção.
Os pais, judeus russos estabelecidos em Brooklyn, eram donos de uma mercearia no interior de um pequeno e pobre bairro. Os poucos rendimentos auferidos com o comércio permitiam somente enganar a pobreza.
Em “O Barril Mágico” existe esse ambiente obscuro, onde são contextualizadas personagens complexas, imperfeitas na sua humanidade, e ansiosas por salvação.
As figuras das histórias são projecções da sua infância. O autor norte-americano junta apontamentos do fantástico ao conhecimento empírico, aliando o realismo à fantasmagoria. Parte de si está nas personagens, tal qual afirma em entrevista à Paris Review nº 52:
“Every character you invent takes his essence from you; therefore you’re in them as Flaubert was in Emma—but, peace to him, you are not those you imagine. They are your fictions.”
O autor diagnostica as situações, confronta os intervenientes e aponta-lhes a possível salvação. Ele é o demiurgo que mostra o caminho, mas têm de ser as criaturas - maioritariamente judeus desfavorecidos- a dar o último passo, abandonando pífios comportamentos. Esse movimento final é, na sua essência, a aproximação a um Outro. É no altruísmo que reside a salvação. O indivíduo projecta a sua imagem. E ao contrário de Narciso, ele não gosta do seu reflexo. Ao procurar a redenção desse outro, procura a sua redenção, também.
Dominadas pela angústia e melancolia, as criações de Malamud, em “O Barril Mágico”, vêem essa salvação surgir em epifania, numa variação de “Deus Ex Machina” (atente-se a “O Anjo Levine”).
Estamos perante exemplos de pessoas desfavorecidas, proscritas e arredadas do sucesso, que habitam histórias cativantes e, por vezes, surpreendentes.
O minimalismo das descrições fomenta a sugestão. A utilização da ironia caricatura, muitas vezes, aspectos merecedores de realce.
“Escritor estéril procura fim de esterilidade através de relação epistolar satisfatória com senhora escritora” (pág. 33)
Na mesma entrevista à Paris Review, o autor menciona ter aprendido o ritmo, o sentido de comédia e a surpresa com os filmes de Charlie Chaplin.
Estas características são detectáveis em “O Barril Mágico”.
A aproximação aos textos bíblicos é concretizada desde a formação da sensibilidade dos avatares, tão imbuídos na culpa e na respectiva expiação, da profissão como parte importante da personalidade (Manischevitz, o alfaiate; Schlegel, o porteiro, etc.) até à constituição da história através da parábola.
A hermenêutica religiosa está muito presente; as influências literárias remetem para o Antigo Testamento.
“Os primeiros sete anos” são um excelente exemplo do paralelismo entre episódios bíblicos e ficção.
Mas o conto essencial deste livro é precisamente o que o denomina: “O Barril Mágico”. É na história de Leo Finkel, última do livro, que reside a ideia chave desta obra de Malamud:
“viu nela [Stella] a sua própria redenção” (pág. 205)
As 13 histórias de “O Barril Mágico” estão subordinadas aos percursos, traçados para uma possível salvação, das personagens. A empatia sentida pelo autor é evidente. Talvez ele também tenha procurado exorcizar os seus demónios através destas complexas (re) criações de pessoas e ambientes da sua infância e adolescência. Talvez. Mas certa é a sua mestria na construção de contos plenos de significado e complexidade capazes de estimular o pensamento do leitor.
publicado por oplanetalivro às 09:57

12
Jan 14

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=677642


A alquimia de David Foster Wallace.

David Foster Wallace (1962-2008; n.Nova Iorque) é um alquimista. A sua capacidade em transformar um tema monótono e desprovido de interesse num texto hilariante e entusiasmante caracteriza-o como um escritor raro.
O conjunto de temas em “Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer” (Quetzal) seria banal (um cruzeiro de luxo, um festival de lagosta, o discurso televisivo…), se não houvesse um elemento comum a todos eles: David Foster Wallace (DFW).
O autor norte-americano consegue extrair o mais valioso das situações mais enfadonhas e melindrosas. A sua prosa motiva o leitor a adoptar pontos de análise diferentes para poder aceder ao insólito. O absurdo é capturado e desmantelado para gáudio do leitor. E o autor diverte-se com isso.
Os textos, publicados entre 1992 e 2005 em diversas revistas e jornais, têm características formais ímpares. A miscigenação de géneros é enriquecida com extensas notas de rodapé.
O leitor acompanha o raciocínio do autor sobre o voyeurismo ou os esgotos da casa de banho; a “falta de pau” dos actores porno ou a complexidade psíquica de David Lynch; a arte no ténis de Federer ou a (in) capacidade da lagosta em sentir dor quando está a ser cozida.
Essa dimensão transversal do discurso também é assinalado no (menos conseguido) ensaio “A vista da casa da senhora Thompson”. Perante o “Horror”, assim é denominado o 11 de Setembro, o autor aponta no discurso de George W Bush “a sensação de que algumas das coisas que diz são quase idênticas, a roçar o plágio, às proferidas há uns anos por Bruce Willis (no papel de um maluquinho de extrema-direita, não se esqueçam) em Estado de Sítio. (…) Não há aqui, nem de perto nem de longe, ninguém suficientemente sofisticado para apresentar a doentia e óbvia queixa pós-moderna: «Já vimos isto.» Pág. 389
Em “Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer”, texto que denomina o livro, a propósito de um ensaio do escritor Conroy sobre os cruzeiros de luxo, Foster Wallace delineia as bases do ensaio, tanto no geral como em particular. Conroy foi pago pela Celebrity Cruises por esse texto. Não foi o caso de Foster Wallace, viajante incógnito.
“ (...) a Celebrity Cruises está a apresentar a resenha de Conroy acerca do cruzeiro 7NC que fez como ensaio e não como texto publicitário. Isso é terrivelmente mau. Quer as honre bem quer não, as obrigações fundamentais de um ensaio devem ser para com o leitor. O leitor, mesmo que a um nível inconsciente, compreende isso e portanto tende a abordar um ensaio com um nível relativamente alto de credulidade. Mas um texto publicitário é um animal muito diferente.”pág. 47
Esta é a sua postura sobre o ensaio e a reportagem em oposição ao texto publicitário e é esta mesma postura que percorre a construção do tão conhecido texto “Pensem na Lagosta”.
No grande festival da lagosta, onde esta é cozinhada de 1001 formas, o leitor tem acesso ao folclórico inerente a qualquer festival e também aos bastidores, aos assuntos menos debatidos ou desenvolvidos pelos participantes.
A problemática da consciência e da necessidade de espectáculo, já demonstrada no texto “Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer”, continua presente.
Num texto pleno de ironia, é debatido o sofrimento imposto à lagosta. Cozer em água a ferver é menos doloroso do que no microondas? Dar uma facada na cabeça antes de a cozer é ser piedoso? Arrancar as patas da lagosta para esta não tentar, em aflição, escalar a panela é tortura?
Estranhamente, tudo faz sentido.
A “sociedade do espectáculo” é analisada nas suas diversas vertentes. A raiz será a mesma. Em textos como “E Unibus Pluram: a televisão e a ficção americana” e “O grande filho vermelho” a pornografia e diversos programas televisivos são sintomas da necessidade do ser humano em observar sem ser observado. Nestes dois ensaios é abordada a influência do discurso televisivo tanto no quotidiano, onde cada americano vê 6 horas, em média, de televisão, como na forma e no conteúdo da literatura norte-americana. De forma bem fundamentada, Foster Wallace demonstra a partilha do papel de voyeur entre telespectador e escritor.
As diferenças estão, essencialmente, em quem é observado. Quando na televisão, os observados efectuam uma performance de acordo com as expectativas dos telespectadores. A relação com o expectável chega a um nível em que a própria TV, numa estratégia de auto-referencialidade, aproveita o voyeurismo para iniciar uma textualidade em que ela própria é tema. As personagens, na TV, comportam-se como a indústria pensa que se devem comportar.
Em comparação, o escritor tem acesso a uma maior naturalidade, pois o observado não tem noção de existir alguém a observá-lo. Resta saber até que ponto a artificialidade da TV influencia hábitos de conduta.
Estes dois textos partilham com “Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer” assuntos como a necessidade de entretenimento, distracção, e de fuga a uma realidade pouco atraente. As companhias turísticas não vendem viagens, nem a indústria de filmes pornográficos vende filmes. Ambas vendem fantasias.
Já em “David Lynch não perde a cabeça”, a perspectiva de Foster Wallace incide sobre as influências de autores como DeLillo no cinema de David Lynch, na capacidade do cineasta em romper com a narrativa linear e lógica, na obsessão do realizador em demonstrar, nos filmes, a coabitação entre o mal e o bem em cada indivíduo. É um outro tipo de discurso, em que o tangível é subordinado a conceitos morais.
“Lynch não está interessado em transferências de responsabilidade nem está interessado em fazer juízos morais das personagens. Pelo contrário, está interessado nos espaços psíquicos em que as pessoas são capazes do mal. Está interessado na Escuridão. E a Escuridão, nos filmes de David Lynch, tem sempre mais do que uma cara.” Pág. 278
A necessidade de evasão, a incontrolada projecção e fantasia continua a ser diagnosticada em “Como Tracy Austin me partiu o coração”.
“Os grandes atletas são profundidade em movimento. Permitem que abstracções como poder, elegância e controlo não só ganhem corpo como possam ser transmitidas pela televisão. Ser um atleta de elite, em ação, é ser aquele requintado híbrido de animal e anjo que nós, espectadores banais e nada lindos, temos tanta dificuldade em ver dentro de nós próprios.”
Pág. 393
Mas mais do que assistir, o público necessita de conhecer a privacidade desses heróis modernos. As autobiografias vieram preencher esse espaço. No entanto, nunca estão à altura das expectativas dos leitores, pois a mitologia não tolera a sua desmistificação.
O poder das redes sociais, que veio baralhar o conceito de privacidade, ainda não se fazia exercer no tempo de DFW. De qualquer forma, as redes são ferramentas; DFW aponta para a motivação na utilização dessas ferramentas de descodificação/codificação da privacidade.
Continuam a existir pontos de contacto com ensaios anteriores: a questão do voyeurismo e a contaminação de discursos entre o que se realidade expectável e realidade factual.
Além da “predilecção pelos mesmíssimos clichés com que nós, fãs de desporto, tecemos o véu do mito e do mistério”, há a sensação de que a estrela de ténis adapta a sua vida ao formato e às fórmulas da biografia. E tal como em “O grande filho vermelho”, a pessoa deixa de representar quando, por breves momentos, se esquece de que na sua opinião o tem de fazer. O mais interessante para o voyeur concentra-se no prazer que tem ao detectar uma pequena imagem de realidade, umas palavras reveladoras, um orgasmo não fingido.
O tenista Federer, em “ Federer: carne e não só”, parece contrariar as expectativas frustradas.
Ver o tenista suíço no court de ténis de Wimbledon é “o raio de uma experiência religiosa”. É o chamado “Momento Federer”.
Quem já assistiu a um jogo do tenista suíço reconhece a capacidade de Foster Wallace em escrever o que é sentido pelo espectador.
Roger Federer consegue aliar a excelência psicomotora e a inteligência à elegância. Observamo-lo no court e pensamos no ténis como ficção clássica, em que o suíço enfrenta Nadal, sua Némesis; pensamos no ténis como Arte.
“Esta final de Wimbledon possuía a narrativa da vingança, a dinâmica do rei versus o regicida, os absolutos contrastes de personalidade. Trata-se do machismo impetuoso do Sul da Europa versus a intrincada e clínica mestria do Norte. Dionísio e Apolo. Cutelo e bisturi. Canhoto e destro” Pág. 414
Foster Wallace, antigo jogador de ténis, amplia o conceito de Estética a áreas diferentes das tradicionais.
A textualidade, o campo a interpretar, está presente em tudo. Nós somos texto. A partir deste princípio, a capacidade de interpretação, a descodificação, pode ser mais ou menos profunda conforme a capacidade do interpretante. O valor destes ensaios deve-se à capacidade do autor em aliar essa capacidade de descodificação a uma escrita fluida, descomplexada e provocadora.
O último dos 9 textos é “A água é isto”, único discurso dado pelo autor, que pode ser importante na elucidação do pensamento de DFW.
David Foster Wallace procurou o outro lado da narrativa acomodada ao expectável. Conseguiu com a classe já demonstrada, também, no romance “A Piada Infinita” (Quetzal).

Mariorufino.textos@gmail.com



publicado por oplanetalivro às 10:08

02
Nov 13

Por vezes, somos deslumbrados por um livro que nos faz sentir pequenos.
“Para onde vão os guarda-chuvas” (Alfaguara) é um dos mais belos livros que li nos últimos anos.

Baseando-se num episódio passado com Gandhi, Afonso Cruz (1971; Figueira da Foz) recria uma história tão pura quanto isto: um muçulmano (Fazal Elahi) vê o seu filho (Salim) ser assassinado por soldados americanos.
Ele não consegue suportar a dor pela perda do filho. Decide oferecer a sua fortuna (fábrica de tapetes) a quem o ajudar a acabar com esse sofrimento. A solução é apresentada por um hindu (Nachiketa Mudaliar): adoptar uma criança americana.
Fazal Elahi parte à procura de pacificação. Ele precisa de se completar.
São 620 páginas de procura da bondade pela bondade, do perdão pelo perdão, sem recompensa nem retribuição além do acto em si. Desta forma, a ligação entre tudo e todos poderá ser o mais pura possível. É que para Elahi, tudo o que acontece na vida das pessoas está ligado “como se fosse um tapete, o primeiro ponto não está separado do último, e se alguém mexer num deles mexe inevitavelmente nos outros.” Pág.202
Ao longo do livro, o leitor será acompanhado por Badini, Isa, Ilia Vassilyevitch Krupin, Salim, Bibi, Aminah e muitas outras personagens concebidas pela intensa criatividade do autor português. São muitas personagens e muitas histórias que evoluem em narração intercalada. Os vários fios da narrativa são urdidos com a mestria de um hábil artesão. Afonso Cruz pega em cada personagem, em cada história, e tece um tapete voador como o do pai de Fazal Elahi. O progenitor do nosso personagem principal via magia no tapete de oração. “Para onde vão os guarda-chuvas” é isso mesmo: um mágico tapete de oração. É sobre ele que nos debruçamos para seguir uma prece ao amor, à tolerância, à Literatura.

As personagens são peças, com diferente importância, num tabuleiro de xadrez (metáfora da vida). No entanto, a dicotomia entre Bem e Mal, entre peças negras e brancas, entre espaços brancos e negros não é nítida. O Bem não elimina o Mal; incorpora-o e domina-o.
As acções, sejam com intuitos bondosos ou maldosos, têm, por vezes, o efeito contrário ao pretendido, e o sujeito passivo, mergulhado na incompreensão, reage o melhor que consegue.
O tímido e “invisível” Elahi sobrevive como pode, debatendo-se sempre com essa incompreensão. As suas interrogações são a sua maldição. Ele gostava de ser uma sombra numa parede, mas as perguntas que lhe surgem perante o mal que sobre ele se abate não o deixam sossegar, pois as “perguntas são a porta da rua. Quando nos interrogamos, quando duvidamos das nossas paredes, é porque estamos a passar pela porta. O facto de nos espantarmos com o que se passa à nossa volta é sinónimo de vida” Pág. 318.”

“Para onde vão os guarda-chuvas” captou esse nosso espanto, esse deslumbramento perante o que nos rodeia.
O universo de Afonso Cruz não se limita a criar empatia entre as palavras e a pré-existente sensibilidade do leitor. Não. O seu universo expande-se a cada livro. O leitor é transportado para sítios desconhecidos, “mentiras” com verdade no seu interior, ficção que quebra limites da realidade.
As personagens vão aparecendo, com maior ou menor relevância, em diversas obras. Elas não habitam um livro; elas visitam o leitor quando ele menos espera.Há intertextualidade entre vários livros do autor. Uma obra reflecte algo de uma obra anterior e, pode, inclusive, abrir uma janela para o leitor espreitar o que vem a seguir.
A filosofia é a essência da escrita de Afonso Cruz.
A sua linha de pensamento vai dar a outra linha pensamento. E a outra. Há uma miscigenação de ideias cristãs, islâmicas, judaicas, hinduístas.
Em “Para onde vão os guarda-chuvas” tanto podemos estar perante o esoterismo e misticismo da Cabala, ou os ensinamentos do profeta Maomé, ou a reencarnação hinduísta, ou mesmo perante a manifestação da dor como purificação cristã. Estranhamente (ou não) tudo faz sentido. Tudo se reflecte em tudo. É a rede mencionada pelo escritor em entrevista ao Diário Digital:
“A noção de fora e de dentro é uma ilusão. Os budistas têm uma maneira muito interessante de descrever isto: a rede de Indra. Eles descrevem uma rede, onde, no cruzamento dos fios, há umas pedras preciosas. Essas pedras reflectem todas as outras pedras preciosas. Cada uma reflecte todas as outras, ou seja elas todas estão dentro daquela. Apesar de estarem todas separadas, estão dentro e fora da pedra preciosa.”
Elahi é uma pedra muito preciosa neste xadrez. O autor construiu um personagem que sofre perdas irremediáveis, sente revolta, medo, cai, se ergue e… perdoa.
A sua fé parece curar tudo. No entanto, ele nunca deixa de se interrogar sobre o “equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado” vigente no mundo.
Badini, o dervixe (monge muçulmano) mudo, também é uma figura inesquecível. O dervixe de cabelo, pestanas e sobrancelhas rapadas “fala” com as mãos. É através dele que Afonso Cruz substitui o fonema pela acção. As mãos de Badini agem para o bem do ser mais próximo. Longe está o tempo em que Badini era espancado pelo pai.
“Olhou para o filho, que estava ainda agarrado à porta, e pisou-lhe a perna. Badini não se mexeu, nem quando sentiu o tornozelo a estalar e o osso a aparecer de fora, como se espreitasse pela janela.”Pág154
A violência, nas suas diversas facetas (exploração infantil, maus-tratos a crianças, violência sobre a mulher, delito de opinião, intolerância religiosa, terrorismo), exerce uma posição angular neste livro. As formas de expressão escolhidas na abordagem destes assuntos vão além da prosa. No interior deste livro existem ilustrações sarcástimas, em “Histórias de Natal para crianças que já não acreditam no Pai Natal”, existe a prosa em que nos é apresentado Elahi, enriquecida com fotografias tiradas pelo autor, e ainda um livro de citações intitulado “Fragmentos Persas”.
 Afonso Cruz, em entrevista ao Diário Digital, fez suas (ou ao contrário?) as palavras de uma personagem ao afirmar: Em relação às histórias, penso também que as histórias são uma espécie de reencarnação hinduísta porque se me perguntarem qual é a coisa mais importante ou qual é a coisa que quero salvar minha, não penso que queira salvar o meu corpo ou o carácter. Isso não está sequer em questão. Gostava de preservar as minhas ideias.”

Pode ser este O Livro que preservará as ideias do escritor. O Tempo o dirá.
A história de Fazal Elahi, o “cego”, poderá ficar por muitos anos: “Disse Ali: A bondade é um cego a segurar uma lâmpada. Não lhe serve de nada, mas ilumina o caminho aos outros”Pág. 618

Por agora, pode-se afirmar que “Para onde vão os guarda-chuvas” alimenta a crença no poder redentor da Literatura. Já não é pouco.

Mário Rufino



Entrevista:  http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=624640

Para onde vão os guarda-chuvasPara onde vão os guarda-chuvas by Afonso Cruz
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o meu texto sobre "Para onde vão os guarda-chuvas", de Afonso Cruz.
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...


"Por vezes, somos deslumbrados por um livro que nos faz sentir pequenos. “Para onde vão os guarda-chuvas” (Alfaguara) é um dos mais belos livros que li nos últimos anos."



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publicado por oplanetalivro às 08:43

10
Out 13

http://p3.publico.pt/cultura/livros/9546/o-da-joana-de-valerio-romao

Em torno da agonia da personagem principal, é desenhado um movimento heliocêntrico. O ritmo é rápido, com poucas paragens para respirar, ou assimilar as imagens e emoções que são propostas. O foco da narração mantém-se muito perto dos movimentos e das expressões das personagens. Não há escapes, não há “travelling”, não há descanso.



publicado por oplanetalivro às 07:10

20
Set 13
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=655493


Cavar fundo para encontrar a maldade.

“Pássaros Amarelos” (Bertrand), vencedor dos prémios “PEN/Hemingway” e do “Guardian First Book”, é um consciente exercício catártico.
Kevin Powers (n. 1980; Richmond, Virgínia) serviu no Iraque (Mossul e Tal Afar) entre 2004 e 2005, como operador de metralhadora. Regressou à sua terra natal com muito para contar.
O biografismo é evidente. Powers usa as suas experiências de guerra na construção da narrativa. E utiliza-as de forma equilibrada, optimizando os pontos dramáticos num texto reflexivo e reflectido.
Já nos EUA, depois da guerra, o personagem Bartle recorda as atrocidades que mataram centenas de soldados e que viriam a transformá-lo num indivíduo inadaptado. Os principais inimigos são a memória e a consciência. Ele saiu da guerra, mas a guerra não saiu dele. O inferno, ou pelo menos a consciência do inferno, começa quando Bartle tem tempo para pensar e recordar. Até então, existira sobrevivência, morte, putrefacção e incompreensão.
Murphy, companheiro de armas, é presença essencial no inferno de Bartle.
O autor intercala, na narração, o tempo em que cumpre serviço militar e o período em que se encontra no seu país (antes de se alistar e após Al Tafar)
Em Al Tafar, Bartle combate numa guerra que vai, paulatinamente, destruindo-o. A morte é um ritual quotidiano.

“Percorríamos vielas. Víamos os inimigos que restavam onde estes se encontravam emboscados, afastávamo-los das armas com as botas. Rígidos e pestilentos, os cadáveres inchavam ao sol. Alguns encontravam-se em posições estranhas, com as costas curvadas ligeiramente afastadas do solo e outros estavam torcidos formando ângulos absurdos, com a sua decomposição a repercutir qualquer geometria mórbida” Pág. 120
Para sobreviver, o soldado segue as ordens; não as discute. A primeira vítima é o livre arbítrio. A opinião é destruída em benefício da disciplina militar. Ele e Murphy são obrigados a encontrar o pior deles próprios para saírem vivos de uma guerra que não escolhe vítimas.
Só têm de cavar fundo e de encontrar a maldade dentro de vocês” Pág. 46
Matar e não morrer. Só isso interessa.
Em “Pássaros Amarelos”, Bartle tenta reconstruir-se emocionalmente, exorcizando os seus demónios. O leitor está perante a visão subjectiva de um soldado que o aproxima do inferno da guerra mais mediatizada da História
A guerra no Iraque não serve de motivo para uma aventura para entreter leitores. O autor vai muito mais longe.
Não é caso invulgar quando a Literatura serve de instrumento de reflexão sobre a história pessoal e/ou colectiva, mas só um país com muita maturidade consegue olhar para as suas feridas quando elas ainda estão tão abertas.
Na sua estreia literária, Kevin Powers, autor e soldado, toca onde mais dói.

Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com




publicado por oplanetalivro às 08:48

06
Set 13

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=651337

Maria é carne.

Colm Tóibín (n. 1955; Enniscorthy, Wexford), autor irlandês várias vezes nomeado para o Man Booker Prize e detentor de diversos prémios literários, publica em Portugal o belo e inquietante “O Testamento de Maria” (Bertrand).
O texto de Tóibín é, sobretudo, sobre a condição feminina e sobre a infidelidade da palavra escrita à sua condição oral e primeira.
Maria, já no final da sua vida, relata a vida do seu filho desde o nascimento até à crucificação (foz e/ou nascente de muitas das suas recordações). Maria não sabe ler nem escrever. Marcos, que virá a ser considerado o fundador do Cristianismo em Alexandria, ouve e escreve.
“Sei que escreveu sobre coisas que nem ele nem eu vimos. Sei que deu também forma ao que eu vivi e a que ele assistiu, e que se certificou de que essas palavras terão peso, serão ouvidas” Pág. 11
De forma consciente, a matéria narrada pela mãe de Jesus é manipulada para adquirir conceitos universais. Marcos, tal como Tóibín, utiliza diversas técnicas narrativas, apropriadas à ficção, para contar o que foi visto por Maria. Ele ouve, adapta e regista. A oralidade tem, principalmente nesta época, um efeito imediato sobre um público presente e reactivo. A escrita não; o autor deste Evangelho tem em atenção as características do discurso escrito. O Evangelho segundo Marcos é, possivelmente, o mais antigo dos Evangelhos.
Tóibín sugere as limitações da escrita quando regista o discurso oral. A infalibilidade da palavra bíblica é posta em causa.

Marcos é, nesta obra, um homem mais político e pragmático do que crente. A sua perspectiva sobre Maria, por metonímia de mulher, é de distância e desvalorização.
“Por vezes, é difícil resistir à tentação de falar com ele, embora eu saiba que a minha mera voz o enche de desconfiança ou de um sentimento próximo da repulsa. Mas ele, tal como o colega, tem de me ouvir, é para isso que cá vem. Não tem alternativa” Pág. 15
A dinâmica de “O Testamento de Maria” deve muito à clivagem entre a perspectiva dos apóstolos e a condição de Maria, como testemunha, mulher e mãe.
O Jesus de Maria é matéria que nasce da matéria. O Espírito Santo é secundarizado pela perspectiva maternal. Jesus é seu filho, foi gerado no seu útero. Não é parte integrante da Santíssima Trindade.
É uma mulher cercada: pelos discípulos, que lhe dão comida e providenciam abrigo, pelos informantes, pelo remorso e pelo medo – especialmente pelo medo. Maria é uma mulher dominada pela memória negra do dia da crucificação.
“ (...) apesar do pânico, apesar do desespero, dos gritos, apesar de o coração e da minha carne, apesar da dor que senti, uma dor que nunca me abandonou e que irá comigo para a campa, apesar de tudo isto, a dor era dele não minha. E quando se pôs a hipótese de eu ser levada à força e asfixiada, a minha primeira – e última – reacção foi fugir” Pág. 89
A Palavra é o corpo da interpretação.
Maria é carne.


Mário Rufino

Mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 20:44

03
Set 13


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=647297

DuBose Heyward, escritor nascido nos Estados Unidos da América (Carolina do Sul), em 1885, é autor de um dos livros mais representativos das condições sociais do Sul, tanto materiais como psicológicas, do período pós-Secessão: «Porgy», editado agora entre nós pela Sistema Solar.


A história do negro Porgy, pedinte de “profissão” e com deficiência física (pernas) na Carolina do Sul, faz com que DuBose Heyward pertença a uma plêiade de autores, com temática pós-Secessão e/ou de características sulistas, como Margaret Mitchell, Erskine Caldwell, Carson McCullers, Truman Capote, Robert Penn Warren, Flannery O´Connor e William Faulkner.
 O autor e Dorothy Heyward, sua esposa, adaptaram o livro para um musical intitulado “Porgy and Bess”. Devido ao enorme sucesso da peça encenada por Gershwin, o próprio livro tem vindo a ser traduzido como “Porgy e Bess”.
 Aníbal Fernandes, com o seu texto nesta edição da Sistema Solar, fornece importante contextualização para a construção do sentido da obra.
 Com um enredo simples, que se concentra no essencial, “Porgy e Bess” é, além de um romance que se apoia nestas duas personagens, um retrato sociológico pós-libertação dos escravos negros nos EUA. DuBose Heyward não resiste à adopção de um certo romantismo e paternalismo, quando analisa as condições psicológicas e sociais dos negros.
 A pobreza honrada e a moralidade da microssociedade representada aproximam-se da postura de, por exemplo, Kipling (n. Índia, 1865-1936) em relação à dialéctica colonizador-colonizado/dominador-dominado, que, por sua vez, viria a ser satirizada por Coetzee (n. África do Sul, 1940- ) em “Foe”.
 “Porgy”, publicado em 1925, mantém a contemporaneidade e a relevância presente em obras mais recentes como as de Coetzee, de Naipaul ou dos ensaios de Fannon e Said, entre outras obras e autores.     
 A construção sintáctica e a utilização lexical nos diálogos da comunidade atribuem ao texto propriedades do realismo.
 “fiquei a saber quem você és... um porco danado, vendilhão das droga que dá cabo do lar dos preto feliz.” (pág. 115)

A imagética da comunidade negra é composta por uma complexa coexistência entre o cristianismo e o paganismo. Os seus hábitos são influenciados pela estrutura moral que advém dessa combinação. A canção, laudatória a Deus (Gospel) ou não, é um recurso muito utilizado, seja no lamento ou na alegria. Espelha, também, as condições sociais e evolução histórica da comunidade negra.
«Ai é mesmo duro ser preto
Ai é mesmo duro ser preto
Ai é mesmo duro ser preto
Onde tu meteu
os direito que te deram?
No colchão de pau dormi
sem melhor para desejar;
mas veio um branco dizer:
agora és livre; vai trabalhar, vai trabalhar!»
Depois, todos se lhe juntaram em coro
«Ai é mesmo duro ser preto...» (pág. 74/75)

“Porgy e Bess”, extraordinária viagem de 170 páginas pela Carolina do Sul, é habitado por personagens com capacidade para criar empatia com o leitor. Porgy é um personagem belo e invulgar.


publicado por oplanetalivro às 08:19

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