22
Mai 14


Manuel Jorge Marmelo (n.1971; Porto) olhou para a história da literatura e fez dela matéria-prima na construção de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” (Quetzal), Prémio Correntes d`Escritas 2014.
O narrador, nunca nomeado, de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” leva consigo um livro intitulado “Cidade Conquistada”, cujo conteúdo foi construído com leituras diversas e apropriação de textos (recortes, transcrições, etc.).
O único exemplar existente de“Cidade Conquistada”, do irreal autor Oscar Schidinski, tem uma capa que prende a atenção dos passageiros/leitores dos transportes públicos.
Conquistada a atenção dos leitores, o narrador recria em cada leitura sua o conteúdo do livro. Personagens como o Homem-Zebra de Polvorosa, o marinheiro Albrecht e a sua maldição, Cassiano Consciência e o seu amigo Afonso Cão e ainda Marcos Sacatepequez habitam o imaginário do contador destas histórias e dos seus ouvintes.
Manuel Jorge Marmelo construiu, desta forma, uma narrativa complexa, formada por vários caminhos que se cruzam, originando um interessante labirinto textual.
“Cidade Conquistada”, Oscar Schidinski e as histórias do narrador não são verdadeiras. No entanto, a verdade, ou melhor dizendo a realidade, é o menos importante.
Se fisicamente pouco ou nada do que é contado existe, o mesmo não se passa no plano intelectual. Se é nomeado, se é referido, existe num outro plano que não o visível.
O aspecto progressivo e mutante da leitura/ recriação por este narrador dota a obra de capacidade de sobrevivência e de interesse. Neste caso, cria-se um facto baseado em algo inexistente. Em consequência, a ficção influencia a realidade, e esta torna-se menos real do que a ficção. “Cidade Conquistada” é tão perfeita e plural, no que respeita a interpretações e adaptações, como uma utopia.
A entrada no cânone está dependente disto mesmo: da constante actualização do texto. A ficção sai do controlo do ficcionista, pois o público interage e muda o decurso da história. A transmissão oral, que remete para os primórdios da literatura, é simbólica. O narrador endossa e espalha a palavra.
A Estética Literária, em interacção com o conceito de Belo, é mutável e produto de “negociação” entre escritor, narrador e leitor.

O cânone, o historicismo, o biografismo, o conceito de Obra Aberta, a intertextualidade, as influências literárias, o “tomar emprestado” ou o plágio são assuntos abordados com muita inteligência por Manuel Jorge Marmelo. O autor consegue a simbiose entre ensaio e ficção. Mesmo para o leitor sem conhecimentos teóricos sobre a Literatura, a construção ficcional motiva a continuação da leitura. Este diálogo com a história e teoria da literatura é declarado na pág. 20:
“é absolutamente fundamental que Schidinski seja sempre o responsável por uma profunda ruptura sistémica na arte narrativa do seu tempo, inaugurando, se assim se pode dizer, um novo e genial capítulo da história da literatura”.
Essa responsabilidade não se esgota no acto de renovação ou inovação; é necessário que o autor, neste caso, Oscar Schidinski, seja celebrado como o génio causador dessa ruptura.
A (procura de) celebridade é uma constante ao longo do texto. O narrador reivindica-a também para si. A ânsia de reconhecimento é assumida quando afirma: “sinto a fama como algo que me seja devido do mesmo modo que um trabalhador tem direito ao seu salário” Pág.44
As deslocações de autocarro, metáfora da viagem na literatura, são um pretexto para o (re) criador de “Cidade Conquistada”. Ele deseja ser reconhecido pelo público. No entanto, uma outra “irrealidade”, tão ou mais Sublime do que a Literatura, mudará o destino do narrador do livro de Schidinski.

Manuel Jorge Marmelo declara, em “Uma Mentira Mil Vezes Repetida”, o seu amor pelo poder transformador da palavra. A Literatura, desde os seus alicerces teóricos até à manipulação da frase, é o principal tema desta obra premiada com o Prémio Correntes d`Escritas 2014.
O leitor tem acesso, através deste texto literário, a uma lição sobre a efemeridade, a instabilidade e a incoerência da formação do gosto.

Uma mentira mil vezes repetidaUma mentira mil vezes repetida by Manuel Jorge Marmelo
My rating: 4 of 5 stars

Manuel Jorge Marmelo (n.1971; Porto) olhou para a história da literatura e fez dela matéria-prima na construção de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” (Quetzal), Prémio Correntes d`Escritas 2014.

http://oplanetalivro.blogspot.pt/2014...



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publicado por oplanetalivro às 10:40

14
Mai 14



"Satírico, provocador, polémico. Eis “Coração de Cão” (Alêtheia), de Mikhail Bulgakov (n. Kiev; 1891-1940)."

TEXTO EM P3/PÚBLICO:  http://p3.publico.pt/cultura/livros/12015/quotcoracao-de-caoquot-de-mikhail-bulgakov


publicado por oplanetalivro às 07:25

13
Mai 14



Ler Platão é ler parte essencial da formação do pensamento ocidental. A sua obra perdura e influencia a realidade das civilizações ocidentais há cerca de 2400 anos.
Platão é um eterno contemporâneo.

“O Político” (Temas e Debates) é uma obra importante na demonstração da filosofia de Platão (427 ou 428 a.C. - 347 ou 348 a.C.), embora não tenha a preponderância de “A República” ou, numa outra fase, de “Górgias”.
Enriquecido por uma pedagógica introdução de Carmen Isabel Leal Soares, que também assume a tradução e notas, “O Político” situa-se diacronicamente na obra do filósofo grego entre “A República” e “As Leis”, não havendo uma data precisa para a sua primeira edição.
Tanto “As Leis”, considerada a obra derradeira do autor, como “O Político” são contextualizados pela terceira e última fase da produção literária de Platão.
É comummente aceite que esta fase é composta por “O Sofista”, “O Político”, “Filebo”, “Timeu”, “Crítias” e “As Leis”.
Adverte Carmen Isabel Soares que o substantivo “Politikos”, que está contemporaneamente presente no substantivo “Político”, “não corresponde exactamente ao conceito moderno”.
Nesta obra, Platão, através da proposta de Teodoro a o Estrangeiro e a Sócrates, o moço (não confundir com Sócrates, o filósofo), propõe fazer o retrato completo do Homem Político.
Ainda segundo Carmen Isabel Soares, “Estamos, pois, perante um tratado metodológico, que ensina a arte de filosofar”.
O Estrangeiro (relacionado com ser desconhecido em casa onde se discute e não com o aspecto geográfico) procura ensinar ao seu discípulo Sócrates, o moço, a função de três utensílios filosóficos na prática da dialéctica. São eles “a divisão ou diérese, a invenção e interpretação de mitos e os paradigmas funcionais”.
O pensamento platónico vai sendo demonstrado através do dinamismo dialéctico imposto pelos intervenientes. A sistematização do pensamento passa pela relação entre o homem político e as diversas e mútuas influências. Refiro-me ao mito, à constituição do poder, ao bom e à virtude.
Os exemplos de “bom” e de “virtude” são abordados em “O Político”, mas a dado ponto o diálogo não aprofunda e assume outra direcção. O aprofundamento acontece mais em “Górgias”, onde Platão filosofa sobre a desejável ligação entre a arte da Retórica e a Bondade.
Górgias afirma, a certo ponto da sua exposição, que a Retórica deve ser usada como todas as armas de competição. “Lá porque se aprendeu o pugilato, o pancrácio e o combate com as armas de modo a poder vencer amigos e inimigos, não se vai agora fazer uso disso contra toda a gente, a ponto de ferir, trespassar, ou matar os próprios amigos” (em “Górgias”).
O homem político deve, assim, usar o seu poder retórico para alcançar o bem comum e não em proveito próprio.
O Bem, para Platão, é a finalidade da vida, objectivo supremo. Dele depende o conhecimento. É a causa criadora que sustenta o mundo. É objectivo da Dialéctica o apreender a essência de todos seres e substâncias; o ser capaz de distinguir a natureza ideal do Bem, isolando-a de todas as outras coisas.
Na dialéctica platónica, O uso dessa “arma” fundamental é sublinhado, em alguns momentos, pela ironia (ignorância simulada). Em “A República”, livro anterior a “O Político” e pertencente a os quatro grandes mitos escatológicos (Górgias, Fédon, República e Fedro), Trasímaco diagnostica diversas vezes essa ignorância simulada usada por Platão na voz de Sócrates.
Será comparando “O Político” com, precisamente, “A República”, situada na já mencionada terceira fase da produção literária-filosófica do autor, que poderemos perceber as mudanças no pensamento do filósofo grego.
A evolução filosófica de Platão durante o período a começar em “A República”, passando por “O Político”, até chegar a “As Leis”, leva autores como Julia Annas ou Carmen Isabel Soares a denotar a mudança de uma antidemocracia em Platão para a aceitação da democracia como forma de governar os cidadãos.
O ideal “homem pastor”, de “A República”, é derrotado pela consciencialização histórica da sua falibilidade.

Abordar o homem político como homem nobre parece algo distante do pensamento contemporâneo. A retórica ganhou um sentido pejorativo, pois com ela vem, agora, a mentira e a camuflagem da acção.
A lucidez de Platão ilumina o que a mediocridade vem embutindo como normal na nossa realidade; ilumina para eliminar.
 A política é um acto nobre quando vinculado ao conceito de Bem e de Virtude. A Retórica é uma “arma” que deve ser utilizada com parcimónia e sujeita ao cumprimento do bem comum.
A reedição de textos canónicos como os de “O Político”, enriquecida com a qualidade informativa e pedagógica da introdução de Carmen Leal Soares, são sempre de louvar e de (re) ler.
Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 14:49

10
Mai 14




O Planeta Livro esteve presente, findava a tarde do dia 09 de Maio, na Livraria Ler Devagar para assistir à apresentação de “Mal Nascer” (Casa das Letras), o mais recente romance de Carlos Campaniço (n.Moura; 1973).
A apresentação ficou entregue a Maria do Rosário Pedreira (editora) e Afonso Cruz, escritor recentemente premiado com o prémio Sociedade Portuguesa de Autores, devido ao seu livro “Para onde Vão os Guarda-Chuvas”.

Maria do Rosário Pedreira caracterizou “Mal Nascer” como “romance de retorno”. Tal qual Ulisses, em “Odisseia”, Santiago Barcelos, personagem principal, regressa à sua terra para perceber que, ao contrário das suas dolorosas memórias, não havia reconhecimento da sua identidade por parte dos conterrâneos.
“Mal Nascer”, finalista do Prémio Leya, é “literatura preocupada com o outro”, segundo Maria do Rosário Pedreira.
Afonso Cruz defendeu também a ideia de retorno num romance contextualizado pelas lutas entre liberais e absolutistas.
Para o autor recém-premiado, que demonstrou ser um exímio contador de histórias, o personagem principal tem questões difíceis de assumir nessa época: Ser-se pobre, ateu e liberal.
Com uma “linguagem cuidada” e um “enredo muito cativante”, “Mal Nascer” aborda a questão política e, principalmente, a situação de pobreza.
Carlos Campaniço, por último, afirmou haver um pensamento sempre presente no seu livro:
Em tempo de guerra, em tempos difíceis, são sempre as mulheres e as crianças que mais sofrem.
“Estar ao lado dos pobres nunca foi o caminho mais fácil”, afirmou.
“Mal Nascer”, tal qual “Os Demónios de Álvaro Cobra” (Teorema), vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada de 2012, baseia-se no Alentejo, região de origem do autor. A cultura alentejana é essencial na criação da sua imagética literária.
A apresentação terminou após algumas perguntas do muito público presente.

O Planeta Livro já teve oportunidade de abordar o livro anterior de Carlos Campaniço: “Os Demónios de Álvaro Cobra”.
Este romance, onde o leitor tem a possibilidade de acompanhar o extraordinário personagem chamado Álvaro Cobra, foi considerado, por Planeta Livro, um dos melhores romances lidos em 2013.
Brevemente, os leitores do blogue poderão ler a crítica a “Mal Nascer”.




LINKS ÚTEIS:

Texto sobre “Os Demónios de Álvaro Cobra”:

OS MELHORES DE 2013:


SITE INTERACTIVO DO ROMANCE:


fotos: Sofia Madalena Escourido



  
publicado por oplanetalivro às 19:18

01
Mai 14
Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana

Como Explicar a presença do mal?”

“De fingimentos de verdade e de verdade de fingimentos se fazem, pois, as histórias”[1]
José Saramago

A capacidade de Maria Manuel Viana (n.1955, Figueira da Foz) em desafiar o leitor e em estimular o gosto pela dificuldade é entusiasmante.
Em “Teoria dos Limites” (Teodolito), estamos perante o domínio da possibilidade, do “talvez”, campo tão fértil à criação artística.
O romance é composto por 3 partes: “O que não pode ser dito”, “O que talvez seja dito” e “O que irá ser dito”.
A história tem como ponto central a morte de um escritor afamado e candidato ao Nobel. A sua última e inacabada obra é mitificada. Não existem certezas sobre se o escritor a terminou. Sabe-se, no entanto, que a ideia do romance começou quando ele tomou conhecimento da obra de Leibniz.
Durante o funeral, reúne-se o núcleo familiar composto por a mãe, Mariana (filha), Ana Sofia e Ana Lúcia (sobrinhas) e o irmão. Será este o momento inicial da história narrada de forma complexa, contrastiva, e com uma prosa trabalhada como filigrana.
Logo no início, é demonstrada a dicotomia entre a criação e a morte, entre a ficção e a realidade, entre o pai e o Escritor. A escolha da maiúscula quando o Escritor é referido demonstra a divinização da sua figura. A influência do Escritor é abrangente e angustiante. Apesar de morto, Ele continua a ser fundamental na conduta das personagens. A sua influência limita a independência dos seus familiares e admiradores (as).
Maria Manuel Viana aproveita acontecimentos familiares para estudar o comportamento das personagens e especular, filosoficamente, sobre a literatura. Além de figura paternal (falhada), que não consegue detectar o drama da sua filha, o Escritor impõe o seu pensamento. Não é mais somente um drama de família. Estamos no campo da Teoria da Literatura, mais concretamente na rejeição do Biografismo, na Mimese (mais platónica do que aristotélica) na Morte do Autor (Barthes é muito mencionado) e, principalmente, na bloomiana Angústia da Influência.

A filha Mariana, sob esta influência, “decidira não ir para a faculdade após o secundário e, em vez disso, tirar um curso breve de estenodactilografia para ajudar o Pai que, por essa altura, já só escrevia e começava a ser O Escritor”. Posteriormente, ela decide continuar a escrever o livro inacabado. Mariana procura, constantemente, a aceitação/validação do seu pai/Escritor.
 A fragmentação do “eu-narrativo”, tão próxima da morte do autor e do pensamento de Derrida, afasta a voz narrativa da voz da autora. Através desta estratégia, a autora parece indicar que a única verdade existente é aquela que está no texto, independentemente das inevitáveis ligações com a realidade. “O fingimento” é potencializado pela adopção da voz das várias personagens.
A intertextualidade com outros livros e disciplinas é verificável pelas constantes menções a escritores, mas não deve ser reduzível a essa evidência; há, em “Teoria dos Limites”, intrínsecas influências e interdependências de outras obras e escritores. A mais evidente é com a de Leibniz e com algumas das suas teorias.
Os universos paralelos de Leibniz estão presentes no paralelismo temporal da narração. Na procura da resposta à pergunta de Leibniz “Como Explicar a presença do mal?”, a autora parece seguir a trindade presente na Teodiceia do autor alemão na explicação do mal: a vertente física (abuso sexual de Mariana, morte do Escritor), metafísica (filosofia, teoria literária), e moral (a culpa está muito presente).
O Monadismo, tão mencionado em “Teoria dos Limites”, é sobretudo detectável na Mutiplicidade (na estrutura narrativa e na caracterização das personagens) e na Percepção dos acontecimentos.
Leibniz está para o Escritor como o Escritor está para a filha. Há uma relação problemática com a anterioridade. A relação com a Obra Anterior é uma relação de empréstimo e influência. A fronteira entre “pedir emprestado” e o plágio é conceptualizada, mas não definida. Na Obra Nova existem todos os antecessores lidos pelo autor dessa obra. A dialéctica entre a antiguidade e a novidade é, quando idealizada, produtora de sentidos novos ou actualizados. Isto quando a novidade não é uma versão piorada do texto canónico. Esta é uma problemática presente desde o princípio em “Teoria dos Limites”.
Na sua introspecção sobre a influência, Maria Manuel Viana utiliza a margem de manobra dada por o Romance. A autora portuguesa experimenta os limites deste género narrativo ao utilizar estratégias próprias do ensaio. A miscigenação de géneros é uma característica importante no livro da escritora portuguesa.
“Não estou a falar de um mero jogo de combinações e articulações, à maneira de um puzzle, e sim da literatura como experiência limite, porque a literatura é uma experiência sobre aquilo a que chamamos os limites, sobre o limes, que em latim significava também fronteira, delimitação, portanto, metonimicamente, um espaço onde o confronto e a experiência da morte são possíveis.”

Através do paralelismo temporal e da pluralização de perspectivas, Maria Manuel Viana escreveu uma obra literária com qualidades suficientes para incentivar a releitura; a impossibilidade de apreensão do sentido numa só leitura deve-se à existência de interpretações poliédricas.
Maria Manuel Viana exige do leitor o que exigiu da sua construção literária: a formação do sentido através da pluralização e oposição de pontos de vista. O todo é muito mais do que a soma das partes.
O personagem principal, assim como qualquer ser humano, é composto por vários discursos, por várias narrativas.
O conhecimento possível, oriundo da pluralidade de perspectivas sobre determinada personagem e/ou acontecimento, é a plataforma viável na caracterização dessa mesma personagem e/ou acontecimento. A Verdade é uma utopia para o indivíduo. Não é nem pode vir a ser alcançável devido ao instrumento utilizado para a alcançar: a interpretação. Esta é sempre exterior ao facto.
Na última parte do livro, que reúne os escritos do falecido Escritor, Maria Manuel Viana potencia e amplia as possibilidades de significação do texto. A Palavra associa-se à matemática e à geometria. A interpretação é uma combinação de possibilidades.
Maria Manuel Viana desafia o hábito estabelecido de introdução-desenvolvimento-conclusão ao propor uma estrutura textual em que criador (escritor) e recriador (leitor) têm de reconciliar os códigos de interpretação.
“Teoria dos Limites” é uma obra aberta, muito inteligente e desafiante.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=698558

Mariorufino.textos@gmail.com




[1] “O autor como narrador”, em Revista Ler nº 38, págs. 36 a 41
publicado por oplanetalivro às 13:59

28
Abr 14

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=697237


Harold Bloom apresenta os 100 autores mais criativos da história da Literatura


A Crítica Literária, sendo uma área com regras próprias, é dependente da existência da Literatura. O crítico literário existe por existir um escritor. No entanto, a força da crítica literária pode ser tanta que obrigue o corpus canónico da literatura a abrir para a receber. Poucos autores têm a capacidade de construir um texto cujas características providenciem a sua própria emancipação e existam como Literatura. Refiro-me a Steiner, a Eduardo Lourenço e a Harold Bloom. As respectivas abordagens críticas são, elas mesmas, literatura.

Harold Bloom (n. Nova Iorque, 1930) é um dos mais prestigiados críticos literários da actualidade. Obras como “O Cânone Ocidental” e a “A Angústia da Influência” depressa se transformaram em bibliografia de teses, objecto de estudo e fonte de polémica. Harold Bloom não se limita a diagnosticar e expor. O autor tem capacidade para ser influente e mudar o pensamento. Ele é um elemento da História da Literatura.
Em “Génio - os 100 autores mais criativos da história da literatura” (Temas & Debates/Círculo de Leitores), Harold Bloom continua a delinear o mapa do cânone idealizado, quase 10 anos antes, em “O Cânone Ocidental”. Apesar de afirmar que “claro que não são «os cem mais» no julgamento de ninguém, incluindo o meu. Queria escrever sobre estes”, as afirmações presentes no julgamento sobre diversos autores contrariam esta declaração inicial. Os 26 autores presentes em “Cânone Ocidental” passam a 100 em “Génio”. Mantém-se a mesma metodologia de trabalho. O estudo concentra-se na procura e isolamento das características que tornam os autores em canónicos.
A entrada no corpus canónico acontece através de forças como a Estética, o domínio da linguagem figurativa, originalidade, poder cognitivo e saber.
A obra nova é julgada em comparação com os padrões do passado. Há uma ordem preestabelecida e institucionalizada.
A organização do livro demonstra a intertextualidade presente nas análises do crítico norte-americano. Bloom organizou o livro “em forma de mosaico, por acreditar que é fonte de contrastes significativos e inspiradores.”
Na concepção de “Génio”, o crítico norte-americano afirma que “a imagem das Sefirot cabalísticas permaneceu na minha mente. Os meus dez conjuntos levam os nomes mais comuns para as Sefirot (...) Como os cabalistas defendiam que Deus criou o mundo a partir de si mesmo, sendo ele o Ayin (nada), as Sefirot traçam o caminho do processo da criação”. As Sefirot são fases da criatividade. A análise dos 100 autores assenta nesta estrutura e tem, como paradigma, a Cabala e o gnosticismo, pois de acordo com o autor, após ter passado uma vida em meditação sobre o gnosticismo, o gnosticismo é a religião da literatura.
“Génio” está dividido em dez capítulos, cada um com dois Lustros compostos por cinco autores cada um. A composição dos capítulos e Lustros demonstram várias qualidades dentro de uma hierarquia.
O objectivo de “Génio”, é simples: “despertar o génio da apreciação nos meus leitores, se puder”.
Para despertar esse génio de apreciação, foram escolhidos somente escritores já falecidos. Entre autores como Cervantes, Montaigne, Dante, Virgílio, São Paulo, Maomé, Shakespeare (o autor mais amado por Bloom) existem Luís Vaz de Camões (VII Nezah-Lustro 13), Fernando Pessoa (VIII Hod- Lustro 15) e José Maria Eça de Queirós (IX Yesod - Lustro 17). Note-se a necessidade de justificação por parte de Bloom sobre a ausência de Saramago: o autor português estava vivo (o livro foi escrito em 2002). Sintomático da qualidade e importância da Literatura Portuguesa, quando se pensa na densidade demográfica em Portugal.
Apesar de divididos em capítulos, o autor de “Génio” faz questão de sublinhar as muitas e prolíficas dependências entre vários autores.
A interacção entre escritores implica um processo de interpretação gerador de valor estético. Essa “arte de pedir emprestado” existe e obriga a que, na apreensão do significado, se avalie um autor em contraste e comparação com outros.
Esse processo de influência pode deslizar para a já mencionada angústia. É curioso perceber que o próprio Bloom sente o peso dessa influência:
“O meu herói particular entre estes cem é o doutor Samuel Johnson, o deus da crítica literária, mas não tenho coragem de enfrentar o seu julgamento.”
A grande escrita, segundo Bloom, é sempre reescrita que abre as obras antigas aos sofrimentos recentes. A ansiedade da influência elimina os mais fracos, mas motiva aqueles que se inscrevem no cânone.
A obra canónica sobrevive independentemente da época em que foi escrita. Se há necessidade de contextualizar a obra de um autor para confirmar qualidade, então essa obra está ultrapassada. Daí, a avaliação do historicismo ser, por Bloom, negativa. De acordo com o seu pensamento, o historicismo deve existir na sua forma mais minimalista, pois é quase irrelevante.
Harold Bloom é um autor indispensável na crítica literária. Será lido, arrisco a pensar, durante muitos e muitos anos. Talvez tantos como o seu mestre Samuel Johnson.
“Génio - os 100 autores mais criativos da história da literatura” é um livro indispensável para os estudiosos do milagre da linguagem: a Literatura.
publicado por oplanetalivro às 12:43

22
Abr 14

«A Segunda Morte de Anna Karénina»: jogo de máscaras


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=660519


Ana Cristina Silva constrói a sua mais recente obra literária, “A Segunda Morte de Anna Karénina” (Oficina do Livro), apoiando-se num clássico enredo de traição e vingança. A interrogação espalha a sua sombra da primeira à última página. Algumas perguntas terão resposta, outras não.

Violante procura reconciliar-se com o passado. Interroga-se sobre o que seria de si caso não tivesse dado o único filho (Rodrigo) para adopção. O ex-marido procura saber se é pai do filho de Violante, ou se o filho é fruto da traição. Rodrigo encontra a sua resposta perante as interrogações apresentadas pela sua identidade sexual. Eduardo, o amante de Rodrigo, recalca os seus desejos sexuais.
Em todos existe um jogo de máscaras. O jogo entre o real e o irreal e entre a verdade e o fingimento deixa o leitor em suspenso. A relação entre Violante (actriz) e Luís Henrique (actor), seu ex-marido, confunde-se com os papéis por eles representados no teatro. O fingimento é parte integrante do casamento. A veracidade das palavras e dos sentimentos é obscura. A separação entre real e representado é problemática. O já mencionado jogo de máscaras mantém-se na ligação entre Rodrigo e Eduardo, além de nas suas relações com as correspondentes famílias. A Literatura assume, em ambos os casais, um papel fundamental na construção da personalidade.
Violante debate-se com a ausência de qualquer instinto maternal, mesmo a dor é, para ela, inacessível. No funeral do seu filho percebe que “ (…) a cerimónia fúnebre não lhe desperta a mínima comoção. A dor, que lhe parecia iminente antes de ali chegar, é na verdade inalcançável” (pág. 10).
O filho Rodrigo faleceu na Batalha de Lalys (09-29 de Abril de 1918), Primeira Guerra Mundial. Durante o combate nas trincheiras escreve diversas cartas ao seu amante, Eduardo. É através da leitura desses textos que o leitor tem oportunidade de observar a evolução emocional de um homem que se debate com as suas tendências sexuais. Rodrigo, a personagem mais bem construída deste romance, conta ao seu amante o percurso que trilhou até à aceitação e pacificação.
A autora consegue, com sucesso, fazer o paralelismo entre a guerra em França e a guerra social. As provações nas trincheiras reduzem o juízo social ao que realmente é: “O meu amor por ti tinha poder para perturbar o modo de vida burguês em que cresci. Também disso tive medo. Aqui, as consequências são, sem dúvida, menores, tiros e obuses podem tirar-me a vida, mas nunca a reputação de homem honrado” (pág. 42)
Mas Eduardo tem uma perspectiva diferente. Para ele, a homossexualidade baseia-se em “vícios de carácter”, ou defeitos no seu espírito.
O desenvolvimento desta tensão entre os dois e dentro deles próprios é muito bem gerido pela autora. A velocidade da narração potencia o drama, sem cair em sentimentalismos, e permite ao leitor entender a complexidade emocional destes dois personagens. A menor eficiência na gestão dessa mesma velocidade, quando acompanha Violante, leva a crer que a autora se sente mais confortável quando adopta o tom confessional na 1ª pessoa narrativa. No entanto, a homogeneidade da narrativa nunca é posta em causa.
De forma similar a outros livros, a autora opta por diferentes perspectivas na construção do romance. O leitor é entregue à visão de uma 3ª entidade, quando acompanha Violante, mas tem a possibilidade de interpretar, através do discurso directo, a comunicação epistolar entre Rodrigo e Eduardo.
A estrutura é mais conservadora neste livro do que no anterior, “O Rei do Monte Brasil”. Há dois fluxos narrativos diferentes, intercalados, em “A Segunda Morte de Anna Karénina”. O drama de Rodrigo é paralelo, mas não independente, ao de Violante, sua mãe.
A sombra de “Anna Karénina” pousa sobre o livro de Ana Cristina Silva. A intertextualidade entre a obra de Tolstoi e a da autora portuguesa é logo declarada no título. As personagens da escritora portuguesa partilham características com Vronski, Lévine, Kitty e Anna: A oposição entre amor carnal e físico, aproveitamento e sacrifício, vida e morte, o comportamento social e o individual.
Ana Cristina Silva- autora de “Cartas Vermelhas” (2011), livro seleccionado como Livro do Ano pelo jornal Expresso e finalista do Prémio Literário Fernando Namora, e de “O Rei do Monte Brasil” (2012), finalista do Prémio SPA/RTP e vencedor do Prémio Urbano Tavares Rodrigues 2013, tem conquistado, gradualmente, leitores e críticos.
“A Segunda Morte de Anna Karénina”, seu décimo romance, é mais uma etapa na consolidação da sua presença na Literatura Portuguesa.
publicado por oplanetalivro às 06:47

03
Abr 14
Um grande Livro!

http://p3.publico.pt/cultura/livros/11481/quothabitante-irrealquot-de-paulo-scott


http://p3.publico.pt/cultura/livros/11481/quothabitante-irrealquot-de-paulo-scott
publicado por oplanetalivro às 14:11

27
Mar 14

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=691361

Estará a crítica literária condenada, actualmente, ao livro e à revista especializada? Em época de banalização da crítica literária, Teresa Cerdeira (n.1949) presenteia o leitor com “A Tela da Dama - Ensaios de literatura” (Editorial Presença).


Num conjunto de ensaios sobre autores como Fernando Pessoa, Herberto Hélder, Saramago, Sophia Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Torga, Mourão-Ferreira, Estêvão Coelho e Hélder Macedo, a autora e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro dá ao leitor mais avisado instrumentos de descodificação textual importantes para o aprofundamento da leitura.
A sua prosa é clara, subtraída de termos obscuros, sem cair em facilitismos e banalização.
Os dados biográficos dos autores existem em proporção para iluminar aspectos das obras, e a sinopse contextualiza, de forma objectiva
Os ensaios são elucidativos, objectivos e didácticos.
O leitor encontra descodificação do texto literário em detrimento do texto homogeneizado e superficial que substitui, hoje, a crítica literária. É um outro universo.
A capacidade analítica da autora é bem demonstrada - principalmente- em “Os abismos da arte na escrita de Hélder Macedo” ou em “Do labirinto textual ou da escrita como lugar de memória” (sobre Saramago).
As ligações de Macedo com o cinema, a música e a pintura são identificadas e fundamentadas. A dialéctica do autor português com Camões está muito presente tanto na prosa como na poesia.
Já em Saramago, a autora brasileira abordou o “primeiro grande ciclo narrativo” da obra do Nobel Português: - Desde “Levantado do chão” (1980) até “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1994). Neste período, identificou a presença -tal como em Hélder Macedo- da intertextualidade camoniana. Além disso, a mesma intertextualidade é constante com os Evangelhos.
A dialéctica entre Saramago e a tradição é parte essencial da obra do Nobel: “seja para a reverenciar ou a ler na contracorrente da canonização, o texto novo exerce sobre o passado a função regeneradora de o eleger para sair de si próprio e ganhar, deste modo, enquadramentos inesperados.”
Tanto Saramago como Macedo -e esta característica é extensível aos outros autores presentes no livro- têm uma relação de possibilidade com a Literatura. O campo da literatura é o da possibilidade; não é o do dogma.
Após a leitura destes dois ensaios, as obras de Macedo e Saramago poderão ser lidas com outra profundidade.
Teresa Cerdeira diagnostica e analisa as leituras e influências formadoras dos autores estudados no seu livro.
A pergunta é inevitável:
E que leituras ou autores formam a perspectiva de Teresa Cerdeira?
Em “A Tela da Dama” ecoam as vozes de Eco, Barthes, Scholes e Benjamin.
Os conceitos de “Obra Aberta” e de “Textualidade” são denunciados logo em “Brevíssima apresentação”, quando a ensaísta afirma que a sua obra é “produtora de significações que geram opções interpretativas sempre múltiplas e cambiantes.”
Reparemos: “opções”, “múltiplas” e “cambiantes”.
A vivência de cada leitor é transportada para o acto de leitura, originando opções múltiplas e cambiantes.
A Tela “serve de lugar de intersecção de saberes”. É um lugar de contaminações, onde a tradição literária e outras artes confluem num sentido renovado e plural.
A crítica literária tem uma relação de dependência com a literatura. Raramente se emancipa, mas pode- e este é o caso- intensificar a fruição do texto por parte do leitor, pois este entra nos livros dotado de outras “armas”, de forma a descodificar a significância com outro aproveitamento.
Este livro de ensaios, apesar do seu enorme valor intrínseco, é uma chave de leitura, uma porta para outros textos. Não se esgota em si mesmo e merece releitura.
“As leituras fundamentais nunca são anódinas e são elas que constituem a biblioteca pessoal de quem escreve e de quem lê”
Que o leitor se veja como o que é - inteligente -  e “tome para si” crítica literária com esta claridade e substância, numa apropriação mútua de quem no roubo entrega mais do que leva.
publicado por oplanetalivro às 08:17

28
Fev 14

" (...)uma parábola com a capacidade de demonstrar o pensamento do autor sobre os percursos possíveis de uma existência. “A visão de Teodoro, o eremita de Tenerife, encontrada na sua cela” é uma viagem simbólica, que parece dialogar com “A Divina Comédia”, de Dante.

No entanto, há oposição entre Morte (em Dante) /Vida (em Johnson), percurso descendente (inferno) /ascendente (montanha), desespero/esperança: “Filho da Perseverança, quem quer que sejas, e cuja curiosidade te trouxe até aqui, lê e sê sábio”.

http://p3.publico.pt/cultura/livros/11061/paginas-escolhidas-de-samuel-johnson



publicado por oplanetalivro às 19:31

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