23
Out 12

Caro aluno e leitor,
Permite-me, antes de tudo, tratar informalmente o meu amigo. Somos da mesma família e partilhamos as mesmas preocupações.
Hesitei em escrever-te devido à minha incapacidade em ser sucinto. A minha ideia era adaptar a mensagem à forma vigente de comunicação, mas não consegui. Tentei enviar um SMS, mas não deu resultado. "Não leias" pareceu-me muito redutor. Tentei uma mensagem electrónica, mas mesmo assim não fiquei satisfeito. "Não leias. Não percas tempo a ler só por ler. Pratica desporto. Tens mais sorte com as raparigas" pareceu-me melhor, mas insuficiente. Perdoa-me, mas tem de ser por carta.
Aflige-me perceber que estragas o teu tempo a fazer autópsias. A barriga rebela-se e agiganta-se durante o tempo em que estás sentado. Não te admires que ela te tape a visão.
Diz-me..porque perdes tempo a autopsiar um cadáver quando podes saber como foi a sua vida? Não és tu aborrecente? Ou já não passaste tu pela adolescência? Puxa pelo pouco de positivo que tem essa fase e insurge-te. Há direitos adquiridos. Tu não tens de ser torturado.

Ouve o que te vou dizer:
Estuda. Deves estudar Literatura. Não sei muito bem o que é Literatura, mas deixemos isso para depois. Tens de estudar, lamento, mas terás oportunidade de te vingares.
Quando acabares os testes, agradece à professora ou professor o facto de te ter ensinado tanto sobre economia doméstica. E explica-lhe, pois certamente ela/ele não vai entender. De tanto ouvires falar de narrador omnisciente, discurso directo, indirecto ou diabo-a-sete, de fazeres um levantamento do vestuário que as personagens usavam em "Os Maias", por exemplo, de caçares interjeições na "Odisseia" de Homero tu juras por tudo que não vais cometer a ousadia de gastares dinheiro com um livro! Afirma com todas as tuas células que jamais te passará pela cabeça tentares perceber, após aquela tortura medieval, o que é a Literatura. Deus te valha! Que te sirva de lição! Olha bem para a figura dos professores!!!
Certamente fazem parte da elite que começou a ler "Guerra e Paz" antes de provar alimentos sólidos e já sabia ler, escrever e compor poesia antes de andar. Diz-lhes isso e lamenta, do fundo do coração, a sua sorte.
Aprende!
Felizes são aqueles que começam a ver o Patinhas quando são crianças e ainda não sabem ler.
Observa!
Se te disserem que nasceram entre livros, repara bem se não sofrem de asma devido ao pó! É o único efeito que os livros têm naquela idade. Os pais deviam ser denunciados à Segurança Social por deixarem uma criança pequena, desprotegida, pegar em "A Divina Comédia".
Deixa-me dar-te um conselho, dentro dos meus limitados conhecimentos:
Chateia quem pensa que estabelece as regras. Eu sei que já o fazes, mas aprende a fazer melhor. Quando te derem um livro para ler, pergunta "Porquê este e não outro?"; quando te pedirem para dissecares o conteúdo, pergunta "Porquê assim e não assado?» E não fiques por aqui! Espera o contra-ataque. Eles vão ripostar. Convém estares preparado. Vai a uma biblioteca e lê o livro que os professores te disseram para ler e mais uns quantos que pensares serem apropriados. O critério de escolha depende de ti. Escolhe por peso, tamanho ou proximidade. Mas pega neles e lê. Depois, quando te disserem que tal livro pertence ao programa da escola, insiste  «Porquê?». Vão ficar furiosos contigo. Acredita. O meu filho faz-me isto e resulta sempre. Não baixes as defesas! Não te deixes surpreender quando te perguntarem "Então...diz-me lá...o que é que tu lerias?" Na realidade, eles não querem saber o que tu queres ler. E pensam que tu não sabes responder. Sorri e questiona-os sobre o que acham deste ou daquele livro. Olha para a face e repara na mudança de pigmentação na pele. Faz-lhes perguntas... Não sobre o narrador, por amor a Deus!!! "Que tipo de relação é que determinado livro tem com outro livro?" "E o autor? Que influências é que teve?" "Poderá dizer-se que a interpretação do texto é plural ou está consolidada nos manuais?"
Por esta altura mandam-te embora, mas tu já tiveste a tua vingança. Olha...faz isto só no fim do ano lectivo. Por muito que batalhes, vais ter sempre de escrever sobre a omnisciência do narrador desde o primeiro teste até ao último. Vais aprender uma lição muito triste. As pessoas não gostam de que lhes façam perguntas para as quais não sabem as respostas. É como os políticos. Antes de irem para os debates precisam de saber, mais ou menos, quais são as perguntas que estão estabelecidas.

A carta já vai longa. Não prometo que não te volte a escrever. Se precisares de ajuda...

Abraço e força!!!! Tem paciência!

Mário
publicado por oplanetalivro às 15:21

05
Set 12


It crossed my mind 



A Mulher

A possibilidade da palavra conter a morfologia da mulher é a impossibilidade de estimação da linguagem. A nudez da mulher é insaciável dos sons que moram nas cascas de alfabeto.

Na mulher há demasiada substância para as palavras que temos.
E o Homem derrota-se antes de abrir a boca.





                                                                    A Linguagem
 
A linguagem e o objecto
Entre o objecto e a palavra há a impossibilidade a percorrer.
  
O meu cérebro é pilhado, diariamente, pelas minhas mãos que, incompetentes, não levam mais do que sombras das palavras.
publicado por oplanetalivro às 16:51
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28
Abr 12
A Palavra não define o objecto. A Palavra conceptualiza a ideia que temos do objecto.




publicado por oplanetalivro às 00:03
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14
Dez 11

publicado por oplanetalivro às 09:17
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23
Set 11

"Em cada acto de leitura, a irremediável alteridade do escritor e do leitor é equilibrada e contrariada por esse desejo de reconhecimento e de compreensão entre os dois parceiros. Como leitores, não podemos ignorar as intenções dos escritores sem incorrer num acto de violência textual que ameaça a nossa própria existência como seres textuais. Mas também nos não é possível preencher por inteiro a lacuna comunicativa e, em muitos casos, temos de reconhecer que tal lacuna é de facto bastante ampla"
Robert Scholes

http://www.brown.edu/Departments/MCM/people/facultypage.php?id=10114
publicado por oplanetalivro às 15:58
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31
Ago 11

O silêncio não é a voz da solidão.

A solidão é ruidosa, informe, e impõe-se como não-criação. 
A solidão aniquila a interrogação.
É a sua informidade, o seu caos sonoro que afoga a voz singular, mas que permite, depois, o nascimento do silêncio necessário à génese da individualidade.
O silêncio, o húmus, alimenta a criação

silêncio:interrogação:criação?

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 21:50
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19
Ago 11


A propósito da linguagem:

Humboldt, em Junho de 1822, numa conferência intitulada «Ueber das Entstehen der grammatischen Formen und Einfluss auf Ideenentwicklung»[1] visou a articulação entre a linguagem e a experiência humana. Ele afirma que a linguagem é um terceiro universo situado entre a realidade do mundo empírico e as estruturas interiorizadas da consciência.
A linguagem é abordada como sendo universal. No entanto, cada língua é diferente de outra língua e a forma do mundo que daí advém é necessariamente diferente.
A língua, para Humboldt, é o órgão de formação do pensamento. A visão linguística do mundo de determinada sociedade retracta o seu comportamento colectivo.
Edward Sapir tem a seguinte explicação:
«O certo é que o «mundo real» é em larga medida inconscientemente construído a partir dos hábitos linguísticos do grupo. Não há duas línguas que se assemelhem o bastante para representarem a mesma realidade social. Os mundos em que as vivem as diferentes sociedades são mundos distintos, e não simplesmente o mesmo mundo coberto de etiquetas diferentes.»
A língua organiza a experiência, estando essa organização sob influência do comportamento colectivo dos falantes. Existe uma dialéctica onde as línguas geram diferentes sociedades e estas geram a diferença entre línguas.


[1] Sobre a diferenciação da estrutura da linguagem humana, e a sua influência sobre a evolução espiritual da raça humana.
publicado por oplanetalivro às 20:20
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16
Ago 11

As palavras, as frases e o texto marcam o limite da nossa percepção, são o horizonte do nosso conhecimento. Não são a Verdade.
publicado por oplanetalivro às 17:55
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O signo necessita do silêncio.
Ferdinand Sassure, pai da linguística moderna, caracterizou o signo como a junção do significado (conceito) com o significante (morfologia e som).
Reafirmo: o signo depende do silêncio.
A linguagem nasce com o homem e o homem nasce com a liguagem. É a partir desta que ele organiza o pensamento. A limitação de um implica a limitação do outro. A comunicação pura e virgem, a manifestação do sentido, acontece no primeiro grito do recém-nascido. A partir desse momento*, todo o acto comunicativo implica repetição.
Estamos dentro do vazio, do grande silêncio, enquanto nos aproximamos de uma misteriosa mancha negra. Caminhamos até ela, entramos e conseguimos distinguir, lentamente, sons e letras e números. De forma abstracta, o primeiro grito simboliza o agonizante início da descoberta do mundo e do mistério da linguagem. É o único "Incipit" do ser humano, se não considerarmos este grito como repetição da Criação. Tentamos organizar sons, colocar letra após letra, em busca de um sentido, sempre dentro de um espaço (mais ou menos) pequeno, talvez claustrofóbico, a que chamamos cultura.
Comunicamos e ainda não percebemos que tudo é um jogo de inclusão e exclusão de som, de conceito, de forma. Descobrimos o tempo passado, o presente e o futuro e, em consequência, a angústia inerente à condição humana emerge:
"Eu não existia (não ERA) quando isto aconteceu"
"Eu não sei se estarei( SOU/SEREI) cá amanhã para ver o que vai acontecer"
Não sabemos se continuamos a ser o que somos hoje. Porque se há passado, também há futuro.
A Linguagem é o espelho da alma e/ou (in)consciência do Homo Sapiens.
II
O Homem não é estúpido. Pode ser mau, mas não é estúpido. O imbecil nunca conseguiria divorciar o som da forma e, assim, criar universos sonoros (música); jamais pegaria em pedras e construiria uma cidade e diria "olhem como tudo o que faço tem uma mensagem" e nunca, mas nunca, poderia usar o seu corpo como um complexo aparelho fonador para musicar o grito original através de vogais, consoantes, palavras e frases. Jamais conseguiria concentrar o que há de mais belo em palavras tão pequenas, "Fé", tão simples, "Amizade", tão vivas, "Paixão" e tão intemporais como "Amor".



publicado por oplanetalivro às 13:55
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