19
Jul 13


“É verdade. Nós todos macaqueamos Deus na sua ausência”[i]
Mathias Énard

Imitação da Vida


Como é possível terem cortado a árvore? Como é possível terem eliminado o tronco, os ramos, as folhas que cabem na palavra “árvore”?
A palavra é a mesma quando o objecto já é diferente ou não existe?
Não posso rachá-la como racharam a árvore. Caiu seca no chão. Braços a rangerem com as folhas nos dedos até se confundirem com o pó. E depois a sombra. Uma mancha negra dentro da nuvem amarela e intoxicante.
Uma sombra que se diluiu na terra quando, antes, pousava nela. A luz do céu olhava para os ramos e desenhava-os no solo.
Os doentes gostavam de se sentar na imitação da árvore. Os babantes, senhor doutor, e os não-andantes são imitações deles próprios. Seres imateriais. Como a sombra. Nós, os depositados, somos imperfeições de um logro, de uma enorme imitação.
E o que faço agora com esta palavra? Mantenho-a? Por que razão a cortaram?
- Penso que estava doente.
Não estamos todos?
- Poderia cair em cima das pessoas.
Por isso estamos aqui. Para não cairmos estupidamente em cima de alguém que não quer ser incomodado.
- Estão aqui para serem tratados.
Não me lixe. Querem tratar-me da saúde...
- Por que se preocupa tanto com isso? Praticamente não sai do edifício.
Por que razão haveria de sair?
- Veria pessoas, falaria com elas…
Doutor, sofro de esquizofrenia. Já tenho muita gente dentro da minha cabeça. De qualquer forma, não me preocupo com a árvore. Preocupo-me com a falência da palavra. É tudo o que tenho. Vejo que me trai.
Árbol, Albero, Baum, Drvo, Tree… para um só ser.
As palavras multiplicam-se, mas o objecto é só um. Entende a minha ansiedade?
Se o objecto desaparece, a palavra deveria morrer.
- Mas há mais árvores…
Não para mim. Esta era a única que via. Não vou ver mais nenhuma. Não sairei deste sanatório. Mato a palavra que há em mim. Recordo-me dela, do objecto dela, mas não a utilizarei mais.
- Mas existe em si. Recorda a imagem….
Mesmo matando a palavra, o objecto mantém-se independente…é o que me diz? Então está viva.
- Como assim?
A partir da palavra construo o objecto. Se a palavra não é o objecto, então eu posso providenciar o que é requerido pela minha realidade. Se a realidade é construída pelas palavras, então posso sair daqui. Mais! A partir da palavra posso contruir um bairro, uma cidade, uma nova realidade! Posso dizer que estou livre!!!
- Mas não está.
Não no seu mundo. Estou livre desta merda de sanatório, das suas sessões, das fraldas, dos comprimidos, das velhas sem dentes, dos purés…
- Ficciona-se.. Acha que está mais perto da verdade, dessa forma?
Verdade… se estamos a falar de alguma coisa, não é de verdade. As palavras não mostram a verdade. Mostram o que conseguimos ver. Elas são o limite da nossa percepção; o horizonte do nosso conhecimento. Não lhe estou a contar verdade segundo os seus termos.

- Então o que me está a contar? A história da árvore?
Não há nenhuma história. Há sombras e margens.

Mário Rufino


[i]“Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” Pág. 119
publicado por oplanetalivro às 09:02
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30
Abr 13


"Last man standing"

Quando tudo se move, não há nada mais perigoso do que a imobilidade.



Todos os dias saio do metro e corro para o comboio, atravesso o túnel de acesso à estação, valido o bilhete e entro numa carruagem. Conheço algumas pessoas que comigo viajam à mesma hora. Ouço as suas histórias, sei onde trabalham, lembro-me do que dizem, mas só de uma ou duas é que consegui memorizar o nome.
Tenho inveja dos passageiros que adormecem no comboio. Não consigo cair naquela inconsciência. As bocas abertas, a cabeça encostada ao vidro, o livro no colo, aberto, mas inacessível…
Temos de correr atrás do tempo. Não podemos parar. A máxima aplica-se: “Tempo é dinheiro”
Aquele dia não era diferente. A porta do metro abriu, comecei a correr devagar, olhei para o relógio pendurado no tecto, eu estava atrasado, corri mais depressa, ultrapassei algumas pessoas, comecei a transpirar, e, de repente, uma anomalia. As pessoas desviavam-se, cambaleavam, houve uma ou duas que caíram, mas depressa o medo do ridículo as levantou
«Mexe-te idiota!!»
e elas continuaram a correr.
Um homem mantinha-se imóvel, de pé, a observar o fluxo de gente que vinha no seu sentido.
A inacção interrogava a velocidade das pessoas que passavam. Era uma questão mecânica. Aquela peça havia deixado de funcionar como previsto. As pessoas desviaram-se e rejeitaram a anomalia. Não podia ser de outra forma. Tudo nele era falibilidade. E eu, como todos, evitei-o e continuei no meu caminho. A máquina tem de funcionar. As peças que não funcionam como indicado são substituídas por outras.
Os seus dedos roçaram na minha roupa. Tive quase a certeza de que ele esticara o braço, pois tentei passar o mais distante dele.
Voltei para trás, olhei para ele e parei.
Uma rapariga chocou contra mim, interrompendo o seu trajecto predefinido. Surpreendida, olhou para os meus olhos e seguiu a linha que os unia àquele homem. Ele, ela e eu não nos movimentámos mais e, desta forma, contrariámos tudo o que de nós era esperado.
Uma peça avariava outra peça que avariava outra peça…
Os braços puxavam-no para baixo, de mãos abertas. A gravata amarrava-lhe o pescoço e o fato colava-se à pele que transpirava.
Eu não conseguia prever o comportamento, as reacções. Há padrões que são necessários para sabermos o que fazer. Fiquei parado, só isso, e percebi que mais e mais pessoas se juntavam a mim. Os acessos à estação ficaram bloqueados, ninguém passava e cada vez menos pessoas se moviam. O som foi diminuindo e diminuindo até quase desaparecer. O túnel ficou cheio de gente, cheio de silêncio somente rasgado pela chegada e partida do metro. Mas até isso deixou de acontecer. As buzinas dos carros calaram-se, os motores desligaram-se e o trânsito parou. Muitas pessoas ficaram nos passeios e na estrada a olhar umas para as outras. Pararam. Saíram dos cafés e espreitaram pelas janelas para ver. O trânsito foi acumulando e formaram-se enormes caudas metálicas. Os carros ficaram vazios e cada pessoa olhou para a pessoa mais próxima que olhou para outra e para outra até chegar a ele. O som foi caindo devagar até deixar de existir. Vilas e cidades e depois regiões e depois países e continentes suspenderam a acção.
O olhar convergia para aquele homem. Um pequeno perímetro de espaço vazio protegia-o do contacto físico. Somente ele se distinguia na multidão. Então reparei que os seus olhos mexiam-se. O seu olhar observava tudo o que estava à sua frente. Nós éramos observados por aquele indivíduo.
Todos nos olhávamos e sem saber como, a solidão encheu-nos as mãos e o peito. Deixámos de ter pressa e o tempo pareceu ausentar-se. Ficámos sem mais nada para fazer senão pensar… O pensamento libertou-se e começou a criar ligações entre informação e recordações que eu julgava não ter. Havia demasiada luz, queria levar as mãos aos olhos, parar aquela angústia, preencher aquele vazio que se instalou no meu peito. Mas não conseguia. Ouvia a minha respiração, ouvia a respiração da rapariga que estava ao meu lado e reparei na sua agonia, nos olhos cheios de lágrimas e nos lábios comprimidos. Tinha de me mexer. Não aguentava mais aquilo. Tornou-se insuportável, ninguém aguentou.
Um bebé chorou, uma mulher debruçou-se para o corpo do bebé, ouviu-se a voz maternal, outra pessoa olhou, e outra e outra e os corpos começaram a movimentar-se e todos ficaram aliviados quando a mancha humana começou a confluir para a estação. Uma buzina rasgou o ar, o trânsito lento e rezingão desaguou nos diversos destinos e todos voltaram a andar rapidamente. O som de cada voz foi enrolado naquele novelo de sons.
Comecei a correr, também. Fugi daquele espaço, daquele olhar que parecia saber mais de mim do que eu próprio. Não olhei mais para trás. «Se o corpo pára», pensei, «o pensamento emerge».
As autoridades explicaram que tinha sido uma quebra de energia. Algo em rede que tinha afectado todo o mundo. Talvez uma sabotagem que queria parar a movimentação social, os transportes, os serviços…. As imagens foram escassas. Ninguém protestou. Por um instante, cada pessoa viu-se por inteiro e jamais alguém quis falar sobre isso.
Só agora me atrevo a imaginar o que aconteceu.

O homem ficou entregue à sua alienação lúcida.

Mário Rufino


publicado por oplanetalivro às 11:45
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07
Dez 12

Cicatriz 
(de "O Engano")

Os meus dedos dobram a carta pelos mesmos vincos, agora frágeis e enegrecidos pelo tempo. Visito esta folha, esta única folha com uma só frase, e resgato, ritualmente, as suas palavras ao passado.
«Quando te quiseres vingar…»
Trago-as sempre comigo, desenhadas no papel dobrado e marcado pelas sombras sanguíneas dos meus dedos, dentro da carteira, dentro cabeça, dentro de tudo o que faço.
«… estarei à tua espera.»

Enfiou-me a carta no bolso e encostou-me a faca à cara. Eu pensei que ele tinha roubado o dinheiro e não quis saber, pois estava aterrorizado pela lâmina na minha pele. Os meus braços estavam presos, e a força havia sido esgotada numa luta sem glória.
Faca na cara. Ele fazia-a rodopiar sobre a ponta, como se fosse um pião, na minha testa. «Espero por ti» e empurrava devagar.
Finalmente, aliviou o peso do seu corpo que prendia o meu, e comecei a mexer-me devagar. Tentei levantar-me, ergui a cabeça, mas o pescoço sucumbiu ao esforço. Senti os meus cabelos a serem puxados e a lâmina a marcar uma linha vermelha de carne, sangue e medo, desde o ouvido à boca. Antes de ele fugir, sussurrou uma acidez que me tem corroído dia após dia.
«Não morres, porque eu não quero. Viverás em vergonha contigo mesmo até ao dia em que te quiseres vingar»
Durante anos e anos, disse e repeti «não quero vingança! Não quero nada! Só o esquecimento!». Mas todos os dias me olhei ao espelho e todos os dias a linha cicatrizada renovou a memória. As palavras revoltaram-se, «Não quero vingança», libertaram-se da pele de réptil e adquiriram novas tonalidades, «Não quero vingança?», novos brilhos, «Não quero nada?», e surgiram pungentes, cheias de vida e de sede e com o sentido alterado.
«Não! Quero vingança!»

Mário Rufino @copyright

publicado por oplanetalivro às 19:27
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16
Jan 12
O meu conto de Janeiro na Revista "Letras et Cetera"




http://nanquin.blogspot.com/2012/01/colicas.html


Cólicas

As cólicas provocavam-lhe uma agonia sem vómito.

Tentou distrair-se enquanto escrevia mais um texto, mas as guinadas eram cada vez mais agudas. Não havia palavra que não fosse terminada com uma dor violenta que obrigava o corpo a debruçar-se sobre o teclado. Pousou as duas mãos na barriga. Só assim conseguia estar imóvel.
Tinha arrepios de frio, as pernas não conseguiam estar quietas, a boca rasgava-se em dor e uma indefinível inquietação preenchia o seu ânimo.
Os dedos voltaram a insistir nas vogais e consoantes do teclado. Guinada. Dor. Abriu a boca para o corpo expulsar o mal que havia nele, mas nada saiu. Correu para a casa de banho, não sabia por onde sairia toda aquela agonia, e ficou sem saber, pois voltou para o escritório com as mesmas dores, com a mesma obstipação.
Tinha estado numa livraria, de manhã. Lentamente, o incómodo foi crescendo e crescendo até, ao pegar num livro, ter levado uma mão à boca. Não se mexeu. As pernas ficaram amarradas pela vergonha. Olhou em volta, percebeu que ninguém tinha visto, pousou o livro, e saiu.
«Preciso de ar fresco»
Telefonou para desmarcar um encontro.
«Tens de fazer dieta e comer melhor», disseram-lhe. Sorriu e minimizou a importância do seu próprio tamanho. «Sou pessoa de três dígitos», respondeu.
«Tens falta de fibra»
«Não digas isso…»
«Bebe chá. Tens falta de chá.»
«De que tipo?»
«Sei lá… vai experimentando.»

O caminho para casa foi demasiado longo. Cada sinal de trânsito provocava um momento de desespero.
«Não vou chegar a tempo, não vou chegar a tempo...». Mas conseguiu chegar a casa sem sofrer qualquer acidente.
Entrou, despiu o casaco e passou a mão pelas gotas que escorregavam na pele do rosto.
Pousou as chaves, foi para o escritório, sentou-se à secretária e ligou o computador. Pousou as duas mãos na barriga .
Olhou para as fotos sobre a secretária, espreitou os jornais on-line e decidiu enfrentar o cursor que aparecia e desaparecia na página vazia.
Começou a escrever palavras ao acaso, sem sentido, à espera de que o texto aparecesse. As frases começaram a surgir e a dor aumentou. Batia furiosamente com os dedos nas teclas, com grande velocidade, empenho, percebendo que havia algo ali de que gostava muito. Os arrepios de frio percorriam o seu corpo, mas não parava de escrever, as dores de barriga aumentavam, mas não desistia. Olhava para o teclado e mal corrigia o que aparecia na folha em branco até lhe chegar um odor desagradável, pestilento, das suas mãos. Cheirou-as, olhou para a cadeira e sem mais demora correu para a casa de banho. Puxou a roupa para baixo e sentou-se com alívio. 
Deixara a porta aberta. A casa cheirava a algo morto. O cursor piscava, implacável.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

publicado por oplanetalivro às 12:44
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15
Dez 11


"Last man standing" 


http://nanquin.blogspot.com/2011/12/last-man-standing.html 


"Last man standing"



Quando tudo se move, não há nada mais perigoso do que a imobilidade.

Todos os dias saio do metro e corro para o comboio, atravesso o túnel de acesso à estação, valido o bilhete e entro numa carruagem. Conheço algumas pessoas que comigo viajam à mesma hora. Ouço as suas histórias, sei onde trabalham, lembro-me do que dizem, mas só de uma ou duas é que consegui memorizar o nome.
Tenho inveja dos passageiros que adormecem no comboio. Não consigo cair naquela inconsciência. As bocas abertas, a cabeça encostada ao vidro, o livro no colo, aberto, mas inacessível…
Temos de correr atrás do tempo. Não podemos parar. A máxima aplica-se: “Tempo é dinheiro”
Aquele dia não era diferente. A porta do metro abriu, comecei a correr devagar, olhei para o relógio pendurado no tecto, eu estava atrasado, corri mais depressa, ultrapassei algumas pessoas, comecei a transpirar, e, de repente, uma anomalia. As pessoas desviavam-se, cambaleavam, houve uma ou duas que caíram, mas depressa o medo do ridículo as levantou
«Mexe-te idiota!!»
e elas continuaram a correr.
Um homem mantinha-se imóvel, de pé, a observar o fluxo de gente que vinha no seu sentido.
A inacção interrogava a velocidade das pessoas que passavam. Era uma questão mecânica. Aquela peça havia deixado de funcionar como previsto. As pessoas desviaram-se e rejeitaram a anomalia. Não podia ser de outra forma. Tudo nele era falibilidade. E eu, como todos, evitei-o e continuei no meu caminho. A máquina tem de funcionar. As peças que não funcionam como indicado são substituídas por outras.
Os seus dedos roçaram na minha roupa. Tive quase a certeza de que ele esticara o braço, pois tentei passar o mais distante dele.
Voltei para trás, olhei para ele e parei.
Uma rapariga chocou contra mim, interrompendo o seu trajecto predefinido. Surpreendida, olhou para os meus olhos e seguiu a linha que os unia àquele homem. Ele, ela e eu não nos movimentámos mais e, desta forma, contrariámos tudo o que de nós era esperado.
Uma peça avariava outra peça que avariava outra peça…
Os braços puxavam-no para baixo, de mãos abertas. A gravata amarrava-lhe o pescoço e o fato colava-se à pele que transpirava.
Eu não conseguia prever o comportamento, as reacções. Há padrões que são necessários para sabermos o que fazer. Fiquei parado, só isso, e percebi que mais e mais pessoas se juntavam a mim. Os acessos à estação ficaram bloqueados, ninguém passava e cada vez menos pessoas se moviam. O som foi diminuindo e diminuindo até quase desaparecer. O túnel ficou cheio de gente, cheio de silêncio somente rasgado pela chegada e partida do metro. Mas até isso deixou de acontecer. As buzinas dos carros calaram-se, os motores desligaram-se e o trânsito parou. Muitas pessoas ficaram nos passeios e na estrada a olhar umas para as outras. Pararam. Saíram dos cafés e espreitaram pelas janelas para ver. O trânsito foi acumulando e formaram-se enormes caudas metálicas. Os carros ficaram vazios e cada pessoa olhou para a pessoa mais próxima que olhou para outra e para outra até chegar a ele. O som foi caindo devagar até deixar de existir. Vilas e cidades e depois regiões e depois países e continentes suspenderam a acção.
O olhar convergia para aquele homem. Um pequeno perímetro de espaço vazio protegia-o do contacto físico. Somente ele se distinguia na multidão. Então reparei que os seus olhos mexiam-se. O seu olhar observava tudo o que estava à sua frente. Nós éramos observados por aquele indivíduo.
Todos nos olhávamos e sem saber como, a solidão encheu-nos as mãos e o peito. Deixámos de ter pressa e o tempo pareceu ausentar-se. Ficámos sem mais nada para fazer senão pensar… O pensamento libertou-se e começou a criar ligações entre informação e recordações que eu julgava não ter. Havia demasiada luz, queria levar as mãos aos olhos, parar aquela angústia, preencher aquele vazio que se instalou no meu peito. Mas não conseguia. Ouvia a minha respiração, ouvia a respiração da rapariga que estava ao meu lado e reparei na sua agonia, nos olhos cheios de lágrimas e nos lábios comprimidos. Tinha de me mexer. Não aguentava mais aquilo. Tornou-se insuportável, ninguém aguentou.
Um bebé chorou, uma mulher debruçou-se para o corpo do bebé, ouviu-se a voz maternal, outra pessoa olhou, e outra e outra e os corpos começaram a movimentar-se e todos ficaram aliviados quando a mancha humana começou a confluir para a estação. Uma buzina rasgou o ar, o trânsito lento e rezingão desaguou nos diversos destinos e todos voltaram a andar rapidamente. O som de cada voz foi enrolado naquele novelo de sons.
Comecei a correr, também. Fugi daquele espaço, daquele olhar que parecia saber mais de mim do que eu próprio. Não olhei mais para trás. «Se o corpo pára», pensei, «o pensamento emerge».
As autoridades explicaram que tinha sido uma quebra de energia. Algo em rede que tinha afectado todo o mundo. Talvez uma sabotagem que queria parar a movimentação social, os transportes, os serviços…. As imagens foram escassas. Ninguém protestou. Por um instante, cada pessoa viu-se por inteiro e jamais alguém quis falar sobre isso.
Só agora me atrevo a imaginar o que aconteceu.

O homem ficou entregue à sua alienação lúcida.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com


publicado por oplanetalivro às 11:58
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25
Nov 11

Pulseira Electrónica





Eu não seria mais feliz sem pulseira electrónica. Afastei as pessoas, fechando-as do lado de fora.
Gosto da inércia. É com ela que me dou bem e a ela sou militantemente fiel. A inércia permite poupar palavras, economizar movimentos.
A minha liberdade existe fora do espaço público.
Em casa, o murmúrio de um casal e o guinchar, semanal, da cama no andar do lado atravessa a parede do meu quarto. Quando o marido está no emprego, deito-me na minha cama e ouço a experiência religiosa e tão maternal daquela esposa, tão devota, quando chama por Deus e pela mãe em gritos anunciadores.
A minha janela é uma tela de cinema, onde vejo a estéril comédia inquieta das pessoas. Dentro de casa, mantenho-me exterior a tudo o que é mundano. Mas foi o que fiz lá fora que me permite estar aqui dentro.
Naquele dia, algo se rasgou em mim. Tinha acendido um cigarro enquanto olhava para a rua. A janela do apartamento dela oferecia uma vista ampla. Estava muito transpirado e não vesti mais do que as calças. Ela levantou-se, satisfeita, passou as mãos pelo meu peito e beijou-me no pescoço. Um arrepio assaltou-me o sossego e escorregou pelo meu corpo.
«Não fumes aqui»
«E se eu abrir a janela?»
«Não sejas tonto. Está frio e sabes que o cheiro fica dentro de casa»
«És castradora»
«Hum…», as mãos deslizaram pela minha barriga, «não me parece faltar nenhum bocado»
Vesti-me enquanto ela estava na casa de banho e saí com o cigarro na mão.
Há nos elevadores antigos uma incompatibilidade entre a saída e a entrada. Entra-se por uma porta, dá-se meia volta e sai-se por outra. Os elevadores modernos são mais económicos. Saímos pela porta por onde entramos.
Carreguei no botão de chamada, carreguei novamente, bati na porta do elevador, mas não havia qualquer intenção de o mesmo subir. Resolvi descer as escadas e, sem esperar mais, acendi o cigarro ainda dentro do prédio.
A grade, que tem de ser puxada depois de a porta fechar, ainda deveria estar aberta. O elevador nunca subiria. Desci até ao rés-do-chão e quando me preparava para fechar a grade, assustei-me com o velho que estava lá dentro. De perfil para mim carregava insistentemente no botão sem surtir qualquer efeito.
«Desculpe…»
Ele não ouviu e julguei ser impossível não me ter visto.
«Desculpe…»
«DESCULPE», gritei e toquei-lhe no braço.
Virou-se muito devagar e encostou os óculos ao rosto. Um tubo no nariz permitia que respirasse. O outro braço ficou imóvel, sem vontade, ao longo do corpo. Reparei numa pequena bilha de oxigénio que ele deveria transportar como se de um cachorro se tratasse.
«A GRADE ESTAVA ABERTA». E puxei-a com força. A porta do elevador fechou-se. Fiquei a aguardar que subisse. O silêncio permitia ouvir a pesada respiração. Esperei. Quando ia abrir a porta para ver o que se passava, o elevador soluçou e subiu. O cigarro fora comido pelo lume até ao filtro. Esmaguei-o num canto da parede, deitei-o no lixo e acendi outro. Chovia. Não estava com vontade de me molhar por causa de um cigarro, mas não queria deixar de o fumar. Subi dois lanços de escada e refugiei-me no escuro.
A ponta do cigarro iluminava-me o rosto e a mão cada vez que o levava à boca. Ritualmente, nascia no escuro uma fugaz auréola de luz. Depois, a penumbra escondia-me, outra vez. A porta da rua foi aberta e bateu com estrondo quando se fechou. Espreitei e vi um homem de fato, sem o rosto visível, e percebi que haveria problemas. Subi mais um ou dois degraus, mantendo-me sentado. Ouvi alguns passos enquanto subiam as escadas…
«Cheira a tabaco»
…para depois deixarem de se ouvir. Reconheci aquela voz. Era o marido. Se não fosse pelo cigarro, teria sido apanhado em casa dela e na cama dele ainda a cheirar a sexo e ao corpo da sua mulher. O cigarro salvou a minha integridade física.
Se cumprisse com as suas funções, eu não seria obrigado a cumpri-las por ele. As relações abrem brechas, e é nelas que eu entro. Todas têm os seus pontos fracos. Eu aproveito o melhor de todas, sem obrigações, sem fidelidade, emprestando o corpo em troca de outro corpo. E fim. Nada mais do que isso. As obrigações são para os maridos e não para mim. Quando todos as cumprirem, eu sou aliviado desse trabalho.
Assim que ele entrasse no elevador, eu sairia do prédio. Tinha deixado o telemóvel e carteira dentro casaco, ainda pendurado numa cadeira da sala. Ser apanhado implica drama, gritos, ameaças e, possivelmente, confronto físico. Dá muito trabalho. Não estava e não estou para isso.
O elevador subiu e imediatamente desceu. Escondi o cigarro para não espalhar muito cheiro. Não ouvia nada a não ser o soluçar metálico do elevador. A porta foi aberta, a grade puxada, mas não o ouvi a entrar. Esperei e concentrei-me em decifrar os sons. Duas pessoas. Os sons eram distintos. Um guinchar de rodas, um cumprimento, um compasso de espera, a grade a fechar e o elevador a subir.
Levantei-me e espiei o Hall de entrada do prédio. O velho estava novamente no mesmo sítio. Parecia confuso, apoiado no carrinho que transportava a bilha de oxigénio.
A bilha estava à sua frente e ele apoiava as mãos no carrinho, tentando perceber o que havia acontecido. Olhou à sua volta, encostou os óculos à cara, a sua mão tremia muito e a sua boca continuava amordaçada pelo silêncio. A sua cabeça inclinou-se em desistência. A mão direita desceu o rosto e parou sobre o nariz.
Ele não conseguiu sair no seu andar e caminhar para sua casa. Mal tinha chegado, o elevador desceu sem ele perceber que estava a voltar ao ponto de partida. A sua mão estava sobre o seu nariz, sobre o tubo. Puxou e arrancou-o das narinas. A bilha estava no limiar da primeira escada.
Fiquei inquieto. Teria de o socorrer, mas isso implicaria ser detectado pelo marido.
O peito estava ansioso devido à falta de ar.
Sentei-me, novamente, nas escadas. Pensei em correr e sair antes de ele cair puxado pelo carrinho.
Fechou os olhos. As mãos apoiaram-se nas pegas metálicas.
Apaguei o cigarro.
As rodas estavam quase a cair.
Levantei-me para correr.
Arrastou os pés para trás, meteu o tubo no nariz, o peito acalmou.
Não conseguiu quebrar a forçada ligação que o mantinha agarrado pela vida. Era um movimento que haveria de romper com um estado lastimável para entrar num período de descanso. Ele procurava quebrar a visceral inércia do corpo em tomar nas mãos a decisão de se soltar. O velho estava preso em si mesmo.
Corri escada acima para perceber em que andar morava. Um, dois, corri mais um pouco, três, continuei a subir, até pararmos no andar imediatamente inferior àquele de onde eu tinha saído e o marido entrado.
Escondi-me e esperei que o velho abrisse a porta. Apareci rapidamente junto dele e agarrei-o pelo braço. O meu peito arfava mais do que o dele. O que estava eu a fazer? O que é que pretendia com aquilo? Entrámos e fechámos a porta. Do hall consegui ver o quarto. Dirigimo-nos para lá. Ele largou o oxigénio. Fui eu quem empurrou o carrinho. Deitei-o na cama com muito cuidado. Não queria que se magoasse. Não ofereceu resistência.
Fiquei a olhar para ele, sem sentir o tempo a passar e sem saber o que fazer. Sobre a sua mesa-de-cabeceira, estava uma fotografia do casamento e outra do que presumi ser do seu filho. Pediu-as. Eu coloquei-as sobre o seu peito. Fechou os olhos, arrancou o tubo do nariz e agarrou as fotos com ambas as mãos. Eu teria de cumprir com a minha parte. Tirei o tubo que passava por cima de ambas as orelhas, puxei-o e pousei-o sobre a bilha de oxigénio. Toquei-lhe nas mãos, mas ele não abriu os olhos. Empurrei o carrinho para a divisória mais distante do quarto. Voltei para ver o seu corpo imóvel sobre a cama e saí de sua casa.
Ainda não tinha fechado a porta quando ela apareceu com o meu casaco e o meu telemóvel nas mãos. Descera as escadas empurrada pelo medo. Eu não disse nada: Ela não disse nada. Entrei no elevador, já com o casado vestido e o telemóvel no bolso, mas ainda a vi entrar em casa do velho. Caminhei para aqui, acendi outro cigarro e esperei que a polícia aparecesse.
Eu gosto da polícia. Foram eles que me ajudaram a estar aqui. Gosto dos juízes, também. Foram eles que me ofereceram esta pulseira.
Chove. Adoro tempestades quando estou em casa.


Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com
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31
Out 11


Tempo em branco




A criadita mais a sua filha querem assassinar-me. Tenho a certeza de que esperam ver-me cair morto. Em todas as refeições elas metem veneno no meu prato. Não quero comer o que elas me dão. Se não me dão o que exijo, levo a refeição para o quarto. Peço para me ligarem a televisão. Não sei como se faz. Espero que saiam, fecho a porta e despejo tudo pela janela. Resisto. Só recebo alimento do meu anjo, da minha Lucília. Das mãos dela recebo o amor e nas suas mãos mora a honestidade e a confiança. Quando ela não vem, como sempre o mesmo, seja a que refeição for. Recuso tudo o que elas me dão além disso. Insistem e insistem, mas não me derrotam. Peço ao meu anjo que traga três latas de atum, três batatas grandes e três garrafas de vinho, de 25cl, por cada dia em que ela não está. Fico de pé a observar a destreza das mãos da criadita e da sua filha para ter a certeza de que não me metem nada na comida. A água a ferver faz um barulho nervoso e a lata a abrir provoca-me um calafrio. Será assim que abrem os mortos?
Quase interrompo o silêncio para perguntar que peça é aquela que abre a lata, ou a outra que puxa a rolha da garrafa. Mas não encontro as palavras.
Não me deixam cozinhar desde que a cozinha ardeu parcialmente. Dizem que me esqueci de apagar o lume do fogão. Não acredito. Tenho a certeza de que foi a criadita que deixou tudo arder só para trazer a sua filha.
Malditas sejam. Querem que eu engula vários comprimidos, mas eu sou mais esperto do que elas. Deixo-os ficar debaixo da língua, engulo a água e, quando se vão embora, cuspo para a sanita a pasta multicolor que se formou na minha boca. Fico diante do espelho a observar o meu rosto enrugado. Estico a língua e observo o padrão escorregadio a descer até pingar para o lavatório.
Há muitos tempos brancos, vazios, na minha cabeça. Tento preenchê-los, mas eles reaparecem maiores e em sítios diferentes. Fico furioso porque sei que a culpa é delas. Algum veneno desmancha o meu cérebro e provoca esta confusão. Perco a paciência, mas tenho razão para isso. Elas roubam-me o que sei. O veneno come devagarinho as minhas memórias. Tenho a minha estratégia, claro. Três é um número sagrado. Três latas de atum, três batatas, três garrafas de vinho, três maços de cigarros e três isqueiros na terceira gaveta. Três são os cigarros que fumo de manhã e também três são os que fumo à tarde. São três os dias em que o meu anjo branco não vem. Por muito que insistam, esta é a organização do universo e não a conseguirão desmantelar. Se o tentam e percebo, então eu bato com toda a força que tenho.
Percebo que ela não vem quando a criadita tem de me dar banho. Acho que foi ontem, ou noutro dia, que ela despiu-me, tirou-me a fralda e sentou-me dentro da banheira. Não estou habituado aos seus movimentos. Meteu as mãos entre as minhas pernas e eu dei-lhe uma bofetada. Caiu desamparada no chão e com sangue na boca. O choro incomodava-me e mandei-a calar. Só Lucília pode mexer aqui e a criadita sabe disso. A filha veio ajudá-la. Ficaram as duas no chão, a chorar, enquanto eu arrefecia na pouca água dentro da banheira. “Mas ninguém me ajuda?”
Elas olharam para mim e lembro-me de a criadita dizer “Estupor! Eu sou a tua mulher!» e apontou para a aliança. Eu também tinha uma aliança no meu dedo. A partir desse momento nada mais conseguiu surpreender-me. Como é possível as pessoas tentarem enganar um velho como eu? Não há moral neste mundo?
Fiz alguma força para conseguir tirar o anel. Assim que saiu, meti-o na boca e engoli-o.
“Tu não és minha mulher”
A filha ajudou-a a levantar-se.
“Vou casar-me com a Lucília”
Elas saíram e deixaram-me sentado ao frio. Fiquei zangado por me terem sujado o chão com sangue. A filha veio, limpou-o e enrolou-me numa toalha. Tive de gritar com ela. Queria derramar sobre ela todas as ofensas que conhecia, mas estranhamente não saiu nenhuma palavra da minha boca. Grunhi e tentei mordê-la. Ela não fugiu, só chorava e chorava até conseguir vestir-me e pôr-me na cama. Fiquei algum tempo sozinho. Despi as calças com alguma dificuldade, arranquei a fralda suja e atirei-a pela janela. 
Não as vi a fazer a comida. Deitei tudo fora. Não comi durante algum tempo.
A campainha tocou uma, duas, três vezes. O homem dos correios toca uma vez e o zumbido é longo e único. A Lucília toca três vezes... ou serão quatro… não…três é o número do universo.
Não me fala desde que soube da bofetada. Só depois de conversar com a criadita é que veio ter comigo, limpou-me, despiu-me o pijama e vestiu-me. Já passaram alguns dias e ela ainda não me fala. Quero estar sozinho, no meu quarto, agarrado à almofada. Apaguei a luz, baixei os estores, encolhi-me na cama e aqui estou, no escuro, com a boca cheia de silêncio e o corpo sem alimento nem fome. Recuso a comida, a água e o banho. O quarto cheira a merda e a urina. Não deixo que me mudem a fralda.
Ela não podia continuar calada. Fico ansioso por ouvi-la abrir a porta, puxar os estores, devagar, até pequenas linhas rasgarem a penumbra.
«Fez uma grande asneira»
«Não quero saber»
«Aquilo não se faz a ninguém, muito menos à sua esposa»
«Ela não é minha esposa! Não a conheço. Eu vou casar-me contigo»
«Engoliu a sua aliança? Recupero-a na próxima fralda»
A minha cara está muito quente. Devo estar corado. A aliança não me interessa. «Lucília, conta-me a história daquela família, por favor»
«Quer que a conte, novamente?»
Os olhos dela são tão bonitos…
«Deixa dar-lhe banho? Não quero que aquilo aconteça outra vez.»
«Sim, claro». O banho é um momento de jovialidade. Quando ela passa as mãos por mim, sinto-me novo.
 «Pelo que vejo, está mais “animado”.»
 Eu gosto da vida a crescer no meu corpo.
«Nunca lhe faria isso»
«O quê?»
«Magoá-la.»
Concentra-se em lavar o meu corpo.
«Conta-me uma história»
«Sim…eu conto-lhe uma história antiga que, provavelmente, já se esqueceu. Vai gostar»





Há uma mancha branca que destrói o tempo. Acordei sozinho e limpo. Espero pela luz da manhã. Sei pedaços de uma história que talvez seja a minha, talvez seja a da menina que me afaga o cabelo todas as manhãs, talvez seja a da senhora que me traz a comida ao quarto. Uma história bonita que se apaga.
Tenho menos palavras e por isso sou cada menos… Não sei onde estou. Ouço um, dois, três toques na campainha. Não sei quem é. Sinto a transpiração a escorregar pelo meu rosto. O meu peito só acalma quando a menina me passa a mão pela cara e me ajeita o cabelo. É muito bom…quero acordar muitas vezes para poder sentir as suas mãos no meu cabelo.


publicado por oplanetalivro às 08:40
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16
Ago 11
As flores.

Nunca pensei que tudo pudesse ser assim e agora ela está morta, os pés tão juntinhos, as mãos também, o corpo tão formal e distante, com tantas flores à sua volta, com gente lá fora da igreja, tanta gente para se despedir e ela já foi, já se despediu de nós. Só o cheiro e cor das flores tão vivas, tão brilhantes, ficam nos meus olhos e de forma ofensiva e cruel; porquê flores, porquê tanta vida presente na morte parecendo que se ri do que ao seu redor já não há?
Elas não percebem que também nelas o fim está tão presente, tão intenso, na ausência das suas raízes, no chão a que já não se agarram. Elas são parte integrante dessa última viagem e serão deitadas no lixo sem ninguém as lembrar, excepto eu, talvez só eu lembrarei a arrogância inerente às suas folhas que imanam alegria onde ela já não mora.
Já passou algum tempo, anos, mas está tudo tão presente na minha cabeça e nas minhas mãos que se agarram mutuamente para estarem ocupadas, escondendo o transtorno. Quando eu era pequeno, um menino somente, saía da escola, colhia uma flor e dava-lha. Ela ficava contente, tão feliz e punha-a logo num copo. Um malmequer, num pequeno copo, que a alegrava tanto. A flor murchava, mas eu renovava o movimento e trazia outra e outra e não deixava que elas ficassem murchas, tristes na sua mesa. As flores animavam-nos muito. Eram branquinhas, com um pequeno coração amarelo e muitos dedos cheios de pó branco que nos acariciavam a alma. Ela ria-se e dizia «Obrigada, neto» como resposta a uma oração amorosa. Era isso mesmo: uma forma de eu mostrar, sem dizer e perder-me em sons gaguejados, o quanto gostava dela. Fiz o mesmo com uma namorada que nunca foi. Cheguei a casa da minha avó e disse “tenho uma namorada”. Levava uma flor na mão, mas não lha dei, guardei-a para a rapariga que namorava comigo, mas que ainda não sabia. Ela era mais velha, o seu corpo já tinha espantado a meninice, e procurava os beijos que eu ainda não sabia dar. Comi um iogurte e ali, olhando para o seu corpo vazio, vi um pequeno vaso que poderia proteger o que eu queria dar. E coloquei-a lá dentro, mas o malmequer caía, desamparado. Fui buscar um pouco de terra aos vasos lá de casa, «terra caseira», pensei, «vai aguentá-lo», e enchi o copo até quase ao rebordo. Devagar, fiz um pequeno buraco e protegi o malmequer na sua nova casa. Faltava qualquer coisa. Uma carta, um bilhete; tinha de escrever algo para a rapariga saber de quem era a flor. O seu namorado tinha um nome e não era nenhum daqueles vagabundos que tocavam à campainha de sua casa. Peguei numa caneta de que gostava muito, tinha um homem-aranha capaz de derrotar todos os inimigos, e comecei a escrever.

"Para a Débora..."

Muito devagar, voando sobre a folha, escrevi com a caligrafia que havia sido premiada com um rebuçado pela professora da primária. Nesse dia quase chorei, com todos a baterem palmas, quando recebi das suas mãos de dedos compridos, sapientes e engelhados, um rebuçado de caramelo.
A varanda da sua casa era muito alta e eu muito pequeno. Subi para os ombros do Nuno, tirei a carta do bolso e coloquei o pequeno vaso “Yoplait” sobre a folha. A flor era linda. Um malmequer grande e feliz apontado ao céu. O Nuno quase me deixou cair. Já não o vejo há muito tempo e tenho a certeza de que hoje ele não me conseguiria levantar e aguentar nos seus ombros. Não sei o mês, dia e muito menos as horas em que tudo isto sucedeu. Era um dia como outro qualquer. Não me esqueço, no entanto, de, no dia seguinte, ver a flor caída, de apanhar o vaso amachucado e desenrolar a bola de papel em que se tinha transformado a minha carta. Umas semanas mais tarde, ela viu-me e sussurrou aos ouvidos do namorado. O sorriso de ambos queimou-me como só a vergonha consegue queimar.
Ainda hoje passo por ela e sinto a aragem de um amor rejeitado precocemente. Foi ela que me fez sentir o primeiro desgosto de uma flor rejeitada. Depois, quase por distracção, a paixão desapareceu, murchou, repentinamente. Mas se assim o fez, foi para renascer e brotar com mais força, com mais vontade de dominar e mostrar que, sob o seu domínio, não tenho sido mais do que espectador dos meus gestos. E, então, ao longo dos anos, voltei às palavras e às flores, entreguei-me a cada beijo e quis, ansioso, sentir toda a envolvência misteriosa do corpo da mulher.
Não é o que sinto neste momento. Olho para as coroas de flores, tantas de volta do seu corpo, muito brilhantes e coloridas que me põem tão triste porque, sem ela, não têm qualquer significado além de intensificar a dor da perda e a negação da sua permanência.
Num ramo cabem todas as palavras. Podem mostrar-se vivas e frescas que não servem para mais nada, senão intensificar a mudez da boca dela, a imobilidade do corpo e a ausência de cor na sua face.
E mais uma vez sinto-me crescer, obrigatoriamente crescer e envelhecer, e obrigado a deixar de dar uma flor pequena que seja.
Houve um dia, um outro rasgo na realidade, em que deixei de as dar.
Eu colhia-as e guardava-as entre os dedos pequenos de uma mão, numa concha húmida que protegia as flores só para ela. Fui crescendo e continuava a oferecê-las, mas depois veio aquela fase em que é suposto, não sei por quem, nós deixarmos de dar flores e avançar, não sei para onde, mas avançar na idade. Eu senti esse preciso momento em que os meus movimentos cederam perante as palavras, eu senti porque ouvi dizer «ele é esquisito» e comecei a pensar na razão de o ser, pois eu tinha sido sempre assim. Fiquei atento, talvez eu estivesse doente, ou outra coisa qualquer, e só percebi quando ouvi, logo de seguida, «ele é amaricado». «Amaricado?», pensei, confundido, enquanto apanhava flores e eles caminhavam atrás de mim. «Ele é amaricado. Olha para aquilo! A apanhar flores…». E tanto ouvi que fiquei muito preocupado, «Eu seria maricas?». Havia um, segundo me contaram, que morava num prédio próximo do meu e que gostava de flores. E de homens. Eu não gostava de homens, mas gostava tanto de flores! «Seria meio-maricas?»
No meio de uma crise mais aguda em que um rapaz me perguntou «tu gostas de homens?» e em que eu respondi com uma bofetada e recebi três ou quatro ou cinco, decidi não colher mais flores. Ele era só um, mas mais parecia ser dois. Levei tanto pontapé e bofetada que, desde esse dia, especializei-me na arte de fugir rapidamente, a correr, de preferência ainda antes de me verem. Comecei a apanhar lagartixas. Não era tão bom, eu tinha pouco talento para a caça, mas lá conseguia apanhar uma ou outra mais desprevenida. Fazia uma pequena forca com um caule resistente, mas maleável, e agarrava-as pela cabeça e era vê-las espernear e a largar o rabo. Perder o rabo. Elas, sim, eram mariconças, pois davam logo o rabo quando eram caçadas. A primeira que apanhei deu-me uma grande alegria porque todos viram e podiam, finalmente, deixar de pensar coisas tontas. E fiquei tão alegre que a levei para casa, já quieta, imóvel, pendurada pelo pescoço, e mostrei-lhe e dei-lha, «é para ti», com muito amor e orgulhoso da minha perícia. Ela gritou. Não sorriu, não me deu um beijo, não a guardou num vaso, só gritou. Aí eu percebi que nem todo o objecto ou animal pode conter tudo o que queremos dar. A lagartixa não podia guardar o meu amor por ela.
Só voltei a apanhar flores, anos mais tarde, quando o peito me começou a arder. Queixei-me, «tenho aqui qualquer coisa, não sei bem o que é», fomos ao médico e ele disse que estava tudo bem, era só alguma ansiedade que me punha em sobressalto. Já tinha ouvido falar de rubéola, sarampo, varicela, mas daquilo não. E ele tinha razão. Cada vez que me aproximava da Inês, tinha um desses ataques de ansiedade. Começava a transpirar, as palavras tropeçavam todas na língua e caíam desconjuntadas. Um dia...um dia ofereci-lhe flores. Ela gostou, cheirou-as e, sem eu perceber porquê, deu um beijo abrupto nos meus lábios e fugiu. Tão depressa senti os lábios dela como os deixei de sentir. Não foi meigo, não foi a cheirar a rosas e alecrim, nem vi o fulgor das estrelas. Se houve eclipse lunar, solar ou planetas a nascer, eu não dei por isso. Distraí-me! Mas podia acontecer tudo o que nos livros acontece, que nada, mas mesmo nada, seria tão perfeito como aquele primeiro beijo.
O que as flores podem fazer.

II

Eu quero falar, mas a garganta fecha-se e nada vem cá para fora. O sexo, a morte, a alegria, a tristeza são partes complementares de um todo, são integrantes de uma violência emocional, física, explosiva que nos lança desamparados para uma violação cronológica. Todos os acontecimentos, os cheiros, os sabores, tudo o que sentimos nos vem ao cérebro, aos olhos, à boca em simultâneo, em turbilhão, em desordem.
Está com os pés e mãos tão juntinhos.
Está tão quieta como ela queria que eu estivesse, “Pára sossegado”, por vezes, “Tens o diabo no corpo”, quando eu era malvado, só pensava em futebol, e pontapeava bolas de papel e fita gomada que batiam com estrondo, nas paredes, “Põe-te na rua”, e eu não a ouvia, não queria sair, estava tanto calor ou chovia tanto, “Não jogues à bola na sala”, e aquele estádio era coberto, cheio de adversários de porcelana e balizas nos móveis, “Tu ainda partes alguma coisa”, onde por vezes não acertava, “Rapaz do diabo que me partes tudo. Sai daqui”.
O relógio de parede badalava para o fim do jogo, para o silêncio póstumo, tempo da sesta. Eram horas tão tristes! As badaladas aniquilavam os gritos, os remates, os golos que eu tinha marcado. O silêncio impunha-se, lento e pastoso, nos meus ouvidos e olhos que se fechavam contrariados.
Hoje, digo tantas vezes ao pequenito “sai daqui que me partes alguma coisa”, mas ele chuta e chuta e eu grito, “sai daqui!”, e ouço a minha voz como se fosse a dela; ele pergunta porque não pode chutar, “porque podes partir alguma coisa aqui na sala”; e no quarto? “os vizinhos não gostam; faz muito barulho”, então ele sai amuado enquanto ouço-a sussurrar “vai brincar para a rua”. Eu receio, avó, receio mandá-lo para a rua jogar futebol porque, de facto, há realidades diferentes, tudo é mais perigoso, mesmo que a minha cabeça não saiba bem, por vezes, em que tempo está e a que pertence.
Ele gosta de caminhar ao meu lado, quando o vou buscar à escola e quer sempre levar flores para a mãe. «Olha esta tão bonita» e dobra-se e arranca-a pela raiz, mas não fica satisfeito e arranca outra e dá-ma e eu fico mais leve, quase voando, embevecido por aquele gesto tão simples pousar tão forte nas minhas mãos agora mais engelhadas.

III
O ranger das portas da minha casa, no inverno, é o mesmo ranger do caixão a fechá-la no seu espaço muito pequeno e tão medonho.
Ajudei a levá-la, apoiada no meu ombro, para a carrinha. Era a minha vez de o fazer, depois de ela me ter adormecido tantas vezes ao seu colo, ter agarrado a minha mão para irmos ao hospital e me ter beijado e abraçado quando o pequenito nasceu.
Quando a carrinha parou e o cortejo terminou, não fui capaz de a levar lá para dentro, para o fim de tudo. As forças abandonaram as minhas pernas e os meus braços. Vi o fumo sair e desejei que todas as flores murchassem por momentos. E todos os sons se suicidassem nas gargantas e o ruído de tudo se suspendesse. Só por um instante. Assim, todos sentiriam o vazio que se instalou no meu peito enquanto vi o corpo dela a despedir-se de mim numa coluna de fumo em direcção ao céu. Agora, já não a distingo das nuvens.
Um amontoado de flores velhas apodrece junto aos contentores. Se o meu filho aqui estivesse, iria procurar as mais bonitas, desprezando e eliminando a morte que nos rodeia. Escolheria as flores mais vivas entre as velhas e murchas, separaria o novo do antigo, e diria, como disse uma vez quando vínhamos da sua escola: «são para a mãe. São iguais ao ramo do vosso casamento. Aquelas que a mãe tem na mão quando casaram. Naquela foto onde vocês estão muito contentes.» E continuaria a escolhê-las sempre a pensar na alegria que a mãe iria ter.
O amor pousado nas suas mãos, sempre que renova esta vontade de oferecer um malmequer, uma rosa, ou uma simples folha, enche-me o peito de alegria e empurra o vazio para um canto, lá bem para o fundo, de onde virá a sair para ser derrotado, novamente. Sempre.
publicado por oplanetalivro às 19:35
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É impossível abandonar o passado quando, diariamente, ele olha para nós.
Empurramos tudo para trás, escondemos as imagens lodosas, enterramos as palavras no silêncio, e vivemos os dias, os meses e os anos que nos permitem adocicar ou azedar as memórias. Quando se pensa que estão esquecidas, elas voltam e misturam o passado com o presente e transformam a vida num tempo único. A língua ao expulsar o verbo permite-nos observar a falência da ilusão do tempo.
Ter visto a minha mãe junto ao Duncan foi como observar o passado encostar-se e socorrer-se no presente. Ambos olhavam para o tapete rolante enquanto esperavam que a bagagem surgisse da boca negra de um armazém. Ele aguardava pelas malas dela para ajudar a carregar o conteúdo de uma memória pesada e frágil. Tudo o que ela tinha ficou nas mãos do Duncan que puxava o peso dos anos arrumados e fechados numa mala de viagem.
«Já tens a tua bagagem, filho?»
«Sim, não te preocupes»
Carregámos o peso de tudo o que trazíamos e procurámos a saída. Já fora da sala de desembarque, ele indicou o caminho por entre os corredores. Eu via a minha mãe como um vulto negro pairando sobre o chão em direcção à luz. Atrasei-me um pouco e eles pararam junto à porta para o exterior. Abriu ao meio, afastando as suas margens de vidro, e permitiu o sol de Dublin iluminar a cara da minha mãe.
Ela entrava num mundo novo.
«Bem-vinda, mãe»

"O Engano"
MR
publicado por oplanetalivro às 17:47
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