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Jan 13



“Fun Home - uma tragicomédia familiar”, de Alison Bechdel, Editora Contraponto, obriga, pela sua qualidade, a ser lido e relido.
“Fun (eral) home”, conjugação inesperada entre funeral, diversão (fun) e casa (home), tem sido reconhecido pela crítica a nível mundial. A obra de Bechdel venceu o “Eisner Award” e o “Lambda Book Award”. Foi considerado o livro do ano por “New York Times”, “Los Angeles Times”, “San Francisco Chronicle”, “Publishers Weekly”, “Salon.com”, “Amazon.com” e “London Times”.

A honestidade emocional com que Alison Bechdel escreve e desenha o seu passado transtorna-nos. A leitura é um acto de voyeurismo. Espreitamos pelas janelas desta singular construção para observar a intimidade das personagens.
A vida da sua família (pai, mãe e um irmão), que é proprietária de uma agência funerária que funciona na própria casa, é dominada pela ironia, tensão e por subentendidos.
“ [o pai] Era um alquimista das aparências, um especialista em imagem, um dédalo da decoração” Pág.12
Depois de ultrapassarmos os aspectos ilusórios que mascaram a realidade familiar e individual, confrontamo-nos com a incompatibilidade de perfis e expectativas entre os elementos da mesma família. Enquanto Alison adopta um perfil essencialmente masculino, o pai projecta nela o que ele gostaria de vestir, a forma como ele gostaria de se comportar, etc. As expectativas são constantemente frustradas. E será por isso que Alison especula que a morte do seu pai, duas semanas depois de a mãe ter pedido o divórcio, não terá sido acidental (atropelamento).
“A morte do meu pai teve algo de estranho, de Queer, em todos os sentidos dessa palavra tão polivalente” Pág. 63
O simbolismo existente é muito forte e conota, frequentemente, as personagens com elementos de índole sexual.
“Era a sua paixão, na verdadeira acepção da palavra. Libidinosa. Obsessiva. Martirizada”, diz autora enquanto o pai transporta um objecto fálico.
“Fun Home” é uma obra com várias camadas interpretativas. Somos seduzidos, devido ao jogo entre vários planos da narrativa, a reiniciar a leitura quando se chega ao fim.
Alison Bechdel arriscou imenso na forma que escolheu para narrar a sua história. É bem-sucedida. Ela vê a realidade através da ficção. As obras que, num momento específico, ela lê são as suas coordenadas cronológicas e psicológicas. Um livro é, directamente e indirectamente, a ferramenta primordial de análise. A intertextualidade com outros autores é ostensiva e riquíssima: Proust, Fitzgerald, Henry James, Joyce, Camus

“Fun Home” é um exercício de catarse. Bechdel é motivada pela dúvida sobre a morte do seu pai a procurar respostas que a levem a alguma conclusão. Não consegue. Quando tenta analisar as suas recordações percebe que sempre esteve num mundo de ilusões. Os pais tentaram sustentar um mundo que não existia e onde nunca poderiam ser felizes. São mais reais, como a própria autora afirma, quando vistos através da ficção.
O leitor tem à sua disposição uma obra sublime  que não o deixará indiferente.

Mário Rufino



publicado por oplanetalivro às 20:08

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