14
Mai 14



"Satírico, provocador, polémico. Eis “Coração de Cão” (Alêtheia), de Mikhail Bulgakov (n. Kiev; 1891-1940)."

TEXTO EM P3/PÚBLICO:  http://p3.publico.pt/cultura/livros/12015/quotcoracao-de-caoquot-de-mikhail-bulgakov


publicado por oplanetalivro às 07:25

22
Abr 14

«A Segunda Morte de Anna Karénina»: jogo de máscaras


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=660519


Ana Cristina Silva constrói a sua mais recente obra literária, “A Segunda Morte de Anna Karénina” (Oficina do Livro), apoiando-se num clássico enredo de traição e vingança. A interrogação espalha a sua sombra da primeira à última página. Algumas perguntas terão resposta, outras não.

Violante procura reconciliar-se com o passado. Interroga-se sobre o que seria de si caso não tivesse dado o único filho (Rodrigo) para adopção. O ex-marido procura saber se é pai do filho de Violante, ou se o filho é fruto da traição. Rodrigo encontra a sua resposta perante as interrogações apresentadas pela sua identidade sexual. Eduardo, o amante de Rodrigo, recalca os seus desejos sexuais.
Em todos existe um jogo de máscaras. O jogo entre o real e o irreal e entre a verdade e o fingimento deixa o leitor em suspenso. A relação entre Violante (actriz) e Luís Henrique (actor), seu ex-marido, confunde-se com os papéis por eles representados no teatro. O fingimento é parte integrante do casamento. A veracidade das palavras e dos sentimentos é obscura. A separação entre real e representado é problemática. O já mencionado jogo de máscaras mantém-se na ligação entre Rodrigo e Eduardo, além de nas suas relações com as correspondentes famílias. A Literatura assume, em ambos os casais, um papel fundamental na construção da personalidade.
Violante debate-se com a ausência de qualquer instinto maternal, mesmo a dor é, para ela, inacessível. No funeral do seu filho percebe que “ (…) a cerimónia fúnebre não lhe desperta a mínima comoção. A dor, que lhe parecia iminente antes de ali chegar, é na verdade inalcançável” (pág. 10).
O filho Rodrigo faleceu na Batalha de Lalys (09-29 de Abril de 1918), Primeira Guerra Mundial. Durante o combate nas trincheiras escreve diversas cartas ao seu amante, Eduardo. É através da leitura desses textos que o leitor tem oportunidade de observar a evolução emocional de um homem que se debate com as suas tendências sexuais. Rodrigo, a personagem mais bem construída deste romance, conta ao seu amante o percurso que trilhou até à aceitação e pacificação.
A autora consegue, com sucesso, fazer o paralelismo entre a guerra em França e a guerra social. As provações nas trincheiras reduzem o juízo social ao que realmente é: “O meu amor por ti tinha poder para perturbar o modo de vida burguês em que cresci. Também disso tive medo. Aqui, as consequências são, sem dúvida, menores, tiros e obuses podem tirar-me a vida, mas nunca a reputação de homem honrado” (pág. 42)
Mas Eduardo tem uma perspectiva diferente. Para ele, a homossexualidade baseia-se em “vícios de carácter”, ou defeitos no seu espírito.
O desenvolvimento desta tensão entre os dois e dentro deles próprios é muito bem gerido pela autora. A velocidade da narração potencia o drama, sem cair em sentimentalismos, e permite ao leitor entender a complexidade emocional destes dois personagens. A menor eficiência na gestão dessa mesma velocidade, quando acompanha Violante, leva a crer que a autora se sente mais confortável quando adopta o tom confessional na 1ª pessoa narrativa. No entanto, a homogeneidade da narrativa nunca é posta em causa.
De forma similar a outros livros, a autora opta por diferentes perspectivas na construção do romance. O leitor é entregue à visão de uma 3ª entidade, quando acompanha Violante, mas tem a possibilidade de interpretar, através do discurso directo, a comunicação epistolar entre Rodrigo e Eduardo.
A estrutura é mais conservadora neste livro do que no anterior, “O Rei do Monte Brasil”. Há dois fluxos narrativos diferentes, intercalados, em “A Segunda Morte de Anna Karénina”. O drama de Rodrigo é paralelo, mas não independente, ao de Violante, sua mãe.
A sombra de “Anna Karénina” pousa sobre o livro de Ana Cristina Silva. A intertextualidade entre a obra de Tolstoi e a da autora portuguesa é logo declarada no título. As personagens da escritora portuguesa partilham características com Vronski, Lévine, Kitty e Anna: A oposição entre amor carnal e físico, aproveitamento e sacrifício, vida e morte, o comportamento social e o individual.
Ana Cristina Silva- autora de “Cartas Vermelhas” (2011), livro seleccionado como Livro do Ano pelo jornal Expresso e finalista do Prémio Literário Fernando Namora, e de “O Rei do Monte Brasil” (2012), finalista do Prémio SPA/RTP e vencedor do Prémio Urbano Tavares Rodrigues 2013, tem conquistado, gradualmente, leitores e críticos.
“A Segunda Morte de Anna Karénina”, seu décimo romance, é mais uma etapa na consolidação da sua presença na Literatura Portuguesa.
publicado por oplanetalivro às 06:47

27
Mar 14

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=691361

Estará a crítica literária condenada, actualmente, ao livro e à revista especializada? Em época de banalização da crítica literária, Teresa Cerdeira (n.1949) presenteia o leitor com “A Tela da Dama - Ensaios de literatura” (Editorial Presença).


Num conjunto de ensaios sobre autores como Fernando Pessoa, Herberto Hélder, Saramago, Sophia Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Torga, Mourão-Ferreira, Estêvão Coelho e Hélder Macedo, a autora e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro dá ao leitor mais avisado instrumentos de descodificação textual importantes para o aprofundamento da leitura.
A sua prosa é clara, subtraída de termos obscuros, sem cair em facilitismos e banalização.
Os dados biográficos dos autores existem em proporção para iluminar aspectos das obras, e a sinopse contextualiza, de forma objectiva
Os ensaios são elucidativos, objectivos e didácticos.
O leitor encontra descodificação do texto literário em detrimento do texto homogeneizado e superficial que substitui, hoje, a crítica literária. É um outro universo.
A capacidade analítica da autora é bem demonstrada - principalmente- em “Os abismos da arte na escrita de Hélder Macedo” ou em “Do labirinto textual ou da escrita como lugar de memória” (sobre Saramago).
As ligações de Macedo com o cinema, a música e a pintura são identificadas e fundamentadas. A dialéctica do autor português com Camões está muito presente tanto na prosa como na poesia.
Já em Saramago, a autora brasileira abordou o “primeiro grande ciclo narrativo” da obra do Nobel Português: - Desde “Levantado do chão” (1980) até “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1994). Neste período, identificou a presença -tal como em Hélder Macedo- da intertextualidade camoniana. Além disso, a mesma intertextualidade é constante com os Evangelhos.
A dialéctica entre Saramago e a tradição é parte essencial da obra do Nobel: “seja para a reverenciar ou a ler na contracorrente da canonização, o texto novo exerce sobre o passado a função regeneradora de o eleger para sair de si próprio e ganhar, deste modo, enquadramentos inesperados.”
Tanto Saramago como Macedo -e esta característica é extensível aos outros autores presentes no livro- têm uma relação de possibilidade com a Literatura. O campo da literatura é o da possibilidade; não é o do dogma.
Após a leitura destes dois ensaios, as obras de Macedo e Saramago poderão ser lidas com outra profundidade.
Teresa Cerdeira diagnostica e analisa as leituras e influências formadoras dos autores estudados no seu livro.
A pergunta é inevitável:
E que leituras ou autores formam a perspectiva de Teresa Cerdeira?
Em “A Tela da Dama” ecoam as vozes de Eco, Barthes, Scholes e Benjamin.
Os conceitos de “Obra Aberta” e de “Textualidade” são denunciados logo em “Brevíssima apresentação”, quando a ensaísta afirma que a sua obra é “produtora de significações que geram opções interpretativas sempre múltiplas e cambiantes.”
Reparemos: “opções”, “múltiplas” e “cambiantes”.
A vivência de cada leitor é transportada para o acto de leitura, originando opções múltiplas e cambiantes.
A Tela “serve de lugar de intersecção de saberes”. É um lugar de contaminações, onde a tradição literária e outras artes confluem num sentido renovado e plural.
A crítica literária tem uma relação de dependência com a literatura. Raramente se emancipa, mas pode- e este é o caso- intensificar a fruição do texto por parte do leitor, pois este entra nos livros dotado de outras “armas”, de forma a descodificar a significância com outro aproveitamento.
Este livro de ensaios, apesar do seu enorme valor intrínseco, é uma chave de leitura, uma porta para outros textos. Não se esgota em si mesmo e merece releitura.
“As leituras fundamentais nunca são anódinas e são elas que constituem a biblioteca pessoal de quem escreve e de quem lê”
Que o leitor se veja como o que é - inteligente -  e “tome para si” crítica literária com esta claridade e substância, numa apropriação mútua de quem no roubo entrega mais do que leva.
publicado por oplanetalivro às 08:17

02
Fev 14

O desalento cubano de Raquel Ribeiro


“Este Samba no escuro” (Tinta-da-China) é um livro sobre desencontros, incompatibilidades, pequenas vitórias e grandes derrotas. Neste seu segundo romance (“Europa”, o primeiro, foi editado sob o pseudónimo Maria David), Raquel Ribeiro (n.1980) afasta a inebriante luz da Cuba folclórica e analisa as ruínas de uma ilusão, as idiossincrasias de um povo, a contradição entre irrealidade e realidade do coração de uma Cuba fracassada.

A autora portuguesa é impiedosa no seu desencanto. A luz da marginal, essa luz que atrai os turistas, não ilumina o interior de Havana. É nesse interior que reside a essência de uma Cuba entregue ao sonho de um homem só, à ilusão de um comandante ideológico numa terra dominada pela pobreza moral e física.
Raquel Ribeiro gere eficazmente a ambivalência entre Álvaro e Lia, entre a ideologia revolucionária cubana e a realidade da ilha e entre o orgulho e a pobreza.
O desenvolvimento da relação entre Álvaro, um saxofonista negro, e Cuba compreende três partes: Ilusão/ Desilusão/ Reacção.
Raquel Ribeiro, jornalista e estudante doutorada na Universidade de Liverpool com tese sobre Maria Gabriela Llansol, parece ter desenvolvido o mesmo tipo de relação nas suas frequentes estadias em Cuba, ao abrigo do seu projecto “War Wounds”: -Encanto-Desencanto-Resolução.
Vindo de uma aldeia, Álvaro foi influenciado pela sua família, em especial pelo seu avô, na "totemização" do ideal revolucionário. É com esse espírito que entra pela primeira vez na capital. Esperam-no dois anos de serviço militar.
“Perder esse momento [entrada em Havana] era estar condenado a sonhar sempre aquilo que não viu, mesmo que o visse depois com outros olhos, quando voltasse outras vezes, de Ciego para Havana” Pág. 13
A sua viagem é geográfica e cronológica. Dentro de Havana, ele vai conhecendo as diversas e antagónicas camadas de realidade. Ele parte do exterior para o interior, para o núcleo da cidade e, por extensão, para o pensamento de um povo preso a uma ideia de um pai moribundo.
Ao comparar a “voz” do avô com os sons da cidade, com a contemporaneidade, Álvaro reconhece que o tempo/ilusão do avô não se coaduna com a realidade.
“ (...) o Cerro era a Havana de verdade, a Havana onde muitos cubanos não se atreveriam sequer a ir, onde se dizia que só havia pretos e criminosos.
Descendo do centro, a cidade começava triplamente a escurecer. Turistas e senhoras brancas de sombrinha, nem vê-los, polícia também não: só mães pretas com crianças e sacos pela mão, pais pretos a engraxar sapatos, jovens suspeitos parados nas esquinas ou sentados sobre o muro, chinelando, para a frente e para trás.” Pág. 61
O sonho foi derrotado. O presente vive amarrado a uma ilusão. O povo, esmagado pelas privações, é subjugado pela burocracia e opacidade da Justiça.
Enquanto vagueava pela cidade, Álvaro, por ser negro e não encontrar os seus documentos quando solicitados, é preso e espancado pela polícia. Depois de libertado, ele encontra Lia, sua amiga de infância. A principal personagem feminina de  “Este Samba no Escuro” é o contraponto de Álvaro.
Lia quer mudar o sistema a partir do seu interior. Não quer emigrar; ambiciona a alteração do sistema que, apregoando a liberdade, tanto aprisiona as pessoas e as mentalidades. Ela é uma militante. Lia age sobre a realidade, enquanto Álvaro reage de acordo com os acontecimentos.
Um dos muitos aspectos interessantes em “ Este Samba no Escuro” deve-se ao deslizamento entre realidade e fingimento. Tal qual foi abordado no texto sobre “Mais um dia de vida” (Tinta-da-China), de Ryszard Kapuœciñski, a simbiose entre a perspectiva de jornalista (factual) e a de romancista (ficcional) permite a Raquel Ribeiro criar um texto literário situado na ténue fronteira entre a realidade e a ficção.
A relação entre estes dois autores não é casual. O livro do jornalista polaco aborda a guerra de Angola, no momento da descolonização, onde participaram cubanos. Raquel Ribeiro recolheu testemunhos de participantes cubanos nessa guerra ao abrigo do seu projecto “War Wounds”. A génese de “Este Samba no Escuro” está vinculada à investigação da autora sobre papel de Cuba na guerra em Angola.
A influência do malogrado jornalista polaco é perceptível na obra da jornalista portuguesa.
O leitor já teve, antes deste romance, oportunidade de o conferir. “É perigoso ser feliz duas vezes”, da escritora portuguesa, foi publicado na Granta nº 2 (Tinta da China).
A dialéctica entre a ficção e o documentário é, assim, constante. Esse diálogo existe, também, entre a música e a realidade. A autora perspectiva Cuba através dos versos de Chico Buarque. Esta estratégia intensifica a sensualidade na prosa de “Este Samba no Escuro”, título retirado, precisamente, de um verso do autor brasileiro. A presença constante dos versos de Chico Buraque serve tanto de diagnóstico como de previsão da realidade cubana. A intertextualidade entre música, ficção e realidade não é inócua. A utilização desta estratégia narrativa ilumina o sentido do texto.
Raquel Ribeiro entrega ao leitor uma viagem cheia de promessas por cumprir, na qual espelha o desalento próprio de um amor difícil e nada pacífico.
publicado por oplanetalivro às 10:00

31
Jan 14

O primeiro parágrafo de “A Missão” é o melhor frontispício que um leitor pode desejar quando entra num livro. Ferreira de Castro demonstra desde as primeiras palavras a excelência da sua escrita.

“A Missão” e “O Senhor dos Navegantes”, que compõem “A Missão” (Cavalo de Ferro), poderiam ter sido escritas em 2013. Não o foram, pois Ferreira de Castro (1898-1974) publicou-as, pela primeira vez, em 1954. No entanto, a actualidade inerente às criações literárias que perduram é característica intrínseca destas duas novelas. Na continuação da edição das obras de Ferreira de Castro, a Cavalo de Ferro continua a reabilitar… o leitor. Estas edições possibilitam-lhe colmatar uma falha nas suas leituras. Ferreira de Castro é um escritor essencial na tão longa e rica história da Literatura Portuguesa.
Nas duas novelas debatem-se temas como a Criação, a Salvação, a Moral. Na novela “A Missão”, um grupo de 14 eclesiásticos discute a possibilidade de pintar a cruz, símbolo de Cristo, no telhado do edifício onde está albergado. Nessa aldeia francesa, sobre iminente ocupação alemã em plena II Guerra Mundial, existe um outro edifício, que é igual ao da Missão. É uma fábrica, potencial alvo de ataques aéreos, onde trabalham cerca de 400 habitantes da aldeia. O interesse dos alemães em destruir a fábrica pode pôr em causa a vida dos eclesiásticos. Por outro lado, a identificação e salvação de uns pode comprometer a vida de outros.
Baseando-se neste dilema, o autor português ensaia um diálogo teológico. Geourges Mounier tem a infeliz capacidade de se interrogar. A religião para si não existe para perpetuar o poder, mas antes para estar ao serviço dos outros. As suas ideias são contrariadas pela retórica dos seus pares, pelas dogmáticas acusações de heresia e pela burocracia. O realismo e humanismo de Mounier são derrotados pelos conceitos vazios. A retórica de púlpito esconde a falta de humildade. O Superior, contrariando o pensamento de Mounier, afirma que “Temos, também, de pensar que os homens não valem apenas pelo seu número e sim pela sua qualidade (…) Aqui, nós somos poucos, é certo, e na fábrica os operários são muitos; mas a Missão é um centro de luz, um lar de onde irradia a doutrina divina…” (pág. 15)
A instituição religiosa separa-se do crente. A opção pela narração através de uma 3ª entidade optimiza as possibilidades demonstrativas tanto do realismo sociológico da aldeia como das características psicológicas (pecados, medos, segredos) de várias personagens. O equilíbrio existente desde a composição do enredo, passando pela construção das personagens até à própria sintaxe e utilização lexical é propriedade da literariedade de ambas as novelas. Tudo o que existe na prosa de Ferreira de Castro existe nas suas proporções exactas, sem excesso nem escassez.
Em “O Senhor dos Navegantes”, a prosa ganha dinamismo devido ao debate de ideias e à desconstrução psicológica das personagens, de quem nunca sabemos o nome. Um homem sobe uma colina para chegar a uma capela. Leva um livro para quando tem necessidade de repousar. Junto à capela, enquanto o caminhante descansa e lê o seu livro, surge um indivíduo carregando nos seus braços muitos ex-votos. O diálogo entre estes dois homens (subsiste a dúvida se um será mesmo humano) é um debate sobre a criação, a incompreensão, o significado e a sensação de incompletude.
Ferreira de Castro não se afasta daquele caminhante, provocando a ideia de que autor e personagem são a mesma entidade. Por sua vez, o misterioso indivíduo conceptualiza-se como um incompreendido demiurgo, que sofre a intolerância dos homens.
“Mesmo os que me adoram, passam a vida a discordar de mim e a tentar emendar o que eu fiz. Quando imploram as minhas graças para as suas infelicidades, não fazem, no fundo, outra coisa a não ser censurar-me, pois o que é uma súplica senão uma revolta que não se pode exteriorizar?” (pág. 80)
O Homem é incapaz de reconhecer o Divino. O Criador é derrotado pelo dogma da criatura. Ambos debatem-se com o absurdo da Vida e da Criação. O autor português tem na literatura uma ferramenta na defesa da libertação do homem.
As ideias humanistas são património comum das duas novelas de “A Missão”. O autor apela ao levantamento da dignidade do Ser Humano perante as adversidades impostas pelos poderes religiosos ou económicos. “Imperfeito há-de ele [mundo] ser sempre e vós também; contudo, em muita coisa podeis aperfeiçoar o mundo e a vós próprios. Mas não é de joelhos que o fareis; é de pé e a lutar!” pág. 84
“A Missão”, parábola da condição do indivíduo, é profundamente humanista.
publicado por oplanetalivro às 17:50

30
Dez 13
Soljenítsin e as cicatrizes do totalitarismo

Aleksandr Soljenítsin (1918-2008), escritor russo nascido em Kislovodsk - URSS, ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1970. A sua postura crítica sobre o esmagamento da liberdade individual pelo Estado omnipresente e totalitário implicou a expulsão do autor do país natal e a retirada da respectiva nacionalidade. Viria a regressar a casa, em 1994, após o desmantelamento da URSS. Parte essencial do drama na sua obra é o confronto entre o individual e o social. Em «”A Casa de Matriona” seguido de “Incidente na Estação de Kotchetovka”» (Sextante), o autor russo fragmenta a perspectiva, de forma a expor as suas dúvidas.
Na primeira ficção, «A Casa de Matriona», Ignátitch tem necessidade de sair do centro urbano e entrar num esconso local, longe da amálgama humana. A disformidade da condição individual motiva-o a afastar-se para observar e pensar. Ele precisa de reencontrar-se e reconhecer a essência da sua pátria, uma Rússia profunda, campestre, mas também muito pobre.

«À noite, quando Matriona já dormia e eu estava a trabalhar à mesa, o som da rara e breve corrida dos ratos sob o papel de parede era abafado pelo restolhar uniforme e incessante das baratas para lá da divisória, como o ruído distante do oceano. Esse rumorejar era a vida delas.» (pág. 19)
Uma vez na aldeia, é confrontado com obstáculos inesperados A organização social, hipoteticamente montada a pensar na libertação do indivíduo, é uma máquina burocrática e intolerante. O “Kolkhoz”, propriedade rural colectiva, é uma microssociedade estatal regulada e controlada por um presidente e respectivas forças de policiamento. O que seria uma organização para a libertação do homem, preso pelo capitalismo, transforma-se num grupo de autocontrolo, onde cada elemento é observado pelos restantes habitantes, formando, assim, um mecanismo social de (auto) censura.
Quando em pobreza, a diferença apresenta-se, para Ignátitch,  como simples de explicar:
«Ora pois, dantes [os camponeses] roubavam ao senhor, agora tiram a turfa ao Estado» (pág. 124)
A relação da pessoa, individual ou colectiva, com os bens é de avidez e acumulação, seja para subsistência ou riqueza. A perda, tal como é descrito na pág. 60, é considerada vergonhosa e estúpida. Mas Matriona é diferente. A pobre senhoria de Ignátitich sobrevive com dificuldade perante as adversidades climáticas, sociais e individuais. Ela é uma mulher que «tivera seis filhos e que tinham morrido todos, um após o outro, ainda muito pequenos, de tal modo que nunca teve dois vivos ao mesmo tempo». (pág. 36)
A complexidade desta personagem é surpreendente, e será esta complexidade a prender a atenção de Ignátitch. A análise sobre o indivíduo, e a sua problemática relação passiva com o poder, incidirá sobre Matriona, enquanto a análise social será sobre a aldeia. Tudo numa relação de interdependência. Matriona é o contraponto da ambição, pois «não se matava a trabalhar para comprar coisas e depois cuidar delas mais do que da sua vida». (pág. 64)
Já em «Incidente na estação de Kotchetovka» estamos perante a (auto) censura, novamente.
Zótov é um burocrata empenhado, mas com muitas e incomodativas dúvidas perante o avanço do exército alemão, durante a II Guerra Mundial. O colectivo impõe a (auto) censura ao indivíduo.
Zótov repete, para afastar o sentimento de culpa e o medo, versos ouvidos:
«Se a causa de Lenine assim morrer/ para que continuo eu a viver?» (pág. 74)
Ele não fala nem quer pensar. É uma tortura silenciosa. O sentido da sua vida está dependente da sua utilidade na Revolução. No momento crucial desta ficção, o peso do vínculo ao colectivo irá enfrentar a consciência de Zótov.
Tal como em «A Casa de Matriona», a construção da consciência individual e/ou colectiva é a essência deste texto. Interdependentes, elas são também contraditórias.
A excelência de Soljenítsin percebe-se, inclusivamente, na utilização de estratégias de narração demonstrativas da interrogação sobre os limites da ficção e da veracidade.
O estilo indirecto livre tem as características ideais para a simbiose entre o pensamento do autor, do narrador e personagens.
Soljenítsin utiliza a ficção, a realidade e o biografismo como matéria-prima na construção das suas obras literárias. Já o havíamos mencionado, quando escrevemos, no Diário Digital, a crítica literária a «Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch», também da Sextante.
Sobre «A Casa de Matriona», o escritor russo referiu-a como «autobiográfica e autêntica». A autenticidade do episódio contado em «Incidente na Estação de Kotchtovka» é destacada, também. Os acontecimentos narrados aconteceram em 1941 e foram noticiados nos jornais Nóvi Mir e Outubro.

Soljenítsin interroga, mesmo que não seja a sua principal intenção, as fronteiras entre a realidade e a ficção, entre o que é o facto e a respectiva interpretação /recriação. As palavras são a sua pele marcada com as cicatrizes do totalitarismo.



Mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 18:40

03
Dez 13

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=671631

António Guerreiro: “Gonçalo M. Tavares vale por uma literatura inteira”


Um livro apresentado numa livraria. Um livro em casa.
A Leya Buchholz (Duque de Palmela) foi o local escolhido para o lançamento de “Atlas do Corpo e da Imaginação” (Caminho), escrito por Gonçalo M. Tavares (1970) e com colaboração do grupo de arquitectos/artistas “Os Espacialistas”, na passada tarde de quinta-feira, 28 de Novembro.
António Guerreiro (crítico literário) e Delfim Sardo (docente universitário e ensaísta em Arte e Arquitectura) apresentaram a obra.
Depois de uma breve introdução por Zeferino Coelho, editor da Caminho, António Guerreiro partilhou a sua interpretação, demonstrando o entusiasmo sentido e o seu conhecimento sobre literatura.
Num discurso laudatório, António Guerreiro adjectivou o livro de “objecto singular com um título excepcional”.
A transversalidade da criação do escritor português levou o crítico literário a afirmar que Gonçalo M Tavares “vale por uma literatura inteira”, pois abarca todos os géneros literários, existentes ou ainda em potência.

“ «Atlas do Corpo e da Imaginação» é uma obra de arte total”.
O livro concede a liberdade de ser começado por onde o leitor quiser. O objecto de reflexão é o próprio pensamento: “o que significa pensar?”
O leitor é desafiado a acompanhar o raciocínio sobre a própria linguagem. Esta obra de não-ficção torna visual o pensamento.
Tendo Wittgenstein como figura tutelar, “Atlas do Corpo e da Imaginação” aborda a passagem do físico (mão, por exemplo) à intangibilidade do pensamento na escrita (ou linguagem numa forma mais abstracta).
Por sua vez, Delfim Sardo interpretou o texto como um campo aberto de possibilidades. Há a demanda pela anterioridade: ao logos, à carne, ao pensamento, à linguagem.
A textualidade presente é a de um trabalho filosófico com uma intensidade e espessura como raramente se tem visto na contemporaneidade.
Delfim Sardo aponta vários aspectos essenciais, quando se refere ao pensamento/filosofia existente no texto: a metáfora como processo; a metáfora como método cognitivo e a possibilidade estética.
É um livro com várias camadas de interpretação, pois a ligação entre texto, fotografias, legendas e notas pode efectivar-se em várias combinações.
A relação entre o ponto de vista moral e o ponto de vista mecânico (mundo/cidade e corpo) é essencial na obra do autor português.
“Os Espacialistas” têm um papel no aprofundamento desta relação entre pensamento e espaço. Tanto para António Guerreiro como para Delfim Sardo, o trabalho de “Os Espacialistas” é espantoso.
Por fim, e de forma muito breve, o escritor finalizou a apresentação do seu próprio livro, falando sobre as dificuldades da concretização deste projecto, “fisicamente violento”, e nas muitas ideias nascidas ao ouvir os seus convidados falar sobre as respectivas leituras.


publicado por oplanetalivro às 14:02

23
Nov 13
Thomas Mann: um gigante a analisar o detalhe.


Thomas Mann (Lübeck, 1875 - 1955), autor de “Doutor Fausto” (1947), “A Montanha Mágica” (1924), “Morte em Veneza” (1912), e “Tonio Kröger” (1903), tem em “Contos” (Bertrand) um exemplo da sua capacidade de prosador.
Esta colectânea de narrativas curtas do autor alemão, nobelizado em 1929, compreende o período entre 1896 (“Desilusão”) e 1925 (“Alvoroço e mágoa prematura”). Na sua composição existem ficções tão marcantes como “O Pequeno senhor Friedemann” (1897), “Tobias Mindernickel” (1897), “Tristão” (1903), “Gladius Dei” (1902),“Alvoroço e mágoa prematura” (1925).
 “Contos”, (título original: “Herr und Hund”), apresenta um conjunto heterogéneo de narrativas breves. Aliás, esta heterogeneidade permite afirmar que a formalização dos textos presentes não se resume a contos. Tanto a estrutura como o conteúdo e a extensão vão desde as narrativas mais breves até às novelas. Assim sendo, o conteúdo do livro é muito mais rico do que o título pressupõe.
No aspecto formal, as dificuldades impostas pelas características das narrativas breves dão menos liberdade a um escritor. A captura do efémero, de uma particularidade de um acontecimento, não incentiva o desenvolvimento da acção ou do aprofundamento das singularidades das personagens. Tudo tem de ser mais sucinto. Thomas Mann sabe disso e não se inibe de o partilhar com o leitor:
“Era um cachorro único, valia ouro, recreava verdadeiramente os olhos; mas, com pena nossa, não é para aqui chamado, pelo que temos de o deixar de lado.” Pág. 111
A heterogeneidade formal de “Contos” é base para a temática já presente em “Tonio Kröger” ou “Morte em Veneza” para citar somente dois exemplos: A dialéctica entre a vida e a morte, a relação entre a Arte e a Moralidade, a produção e recepção da arte, o confronto estético entre a beleza e a mortalidade/decadência, etc.
Thomas Mann (Lübeck, 1875 - 1955), autor de “Doutor Fausto” (1947), “A Montanha Mágica” (1924), “Morte em Veneza” (1912), e “Tonio Kröger” (1903), tem em “Contos” (Bertrand) um exemplo da sua capacidade de prosador.
Esta colectânea de narrativas curtas do autor alemão, nobelizado em 1929, compreende o período entre 1896 (“Desilusão”) e 1925 (“Alvoroço e mágoa prematura”). Na sua composição existem ficções tão marcantes como “O Pequeno senhor Friedemann” (1897), “Tobias Mindernickel” (1897), “Tristão” (1903), “Gladius Dei” (1902),“Alvoroço e mágoa prematura” (1925).
 “Contos”, (título original: “Herr und Hund”), apresenta um conjunto heterogéneo de narrativas breves. Aliás, esta heterogeneidade permite afirmar que a formalização dos textos presentes não se resume a contos. Tanto a estrutura como o conteúdo e a extensão vão desde as narrativas mais breves até às novelas. Assim sendo, o conteúdo do livro é muito mais rico do que o título pressupõe.
No aspecto formal, as dificuldades impostas pelas características das narrativas breves dão menos liberdade a um escritor. A captura do efémero, de uma particularidade de um acontecimento, não incentiva o desenvolvimento da acção ou do aprofundamento das singularidades das personagens. Tudo tem de ser mais sucinto. Thomas Mann sabe disso e não se inibe de o partilhar com o leitor:
“Era um cachorro único, valia ouro, recreava verdadeiramente os olhos; mas, com pena nossa, não é para aqui chamado, pelo que temos de o deixar de lado.” Pág. 111
A heterogeneidade formal de “Contos” é base para a temática já presente em “Tonio Kröger” ou “Morte em Veneza” para citar somente dois exemplos: A dialéctica entre a vida e a morte, a relação entre a Arte e a Moralidade, a produção e recepção da arte, o confronto estético entre a beleza e a mortalidade/decadência, etc.
O período abrangido pelas ficções deste livro permite ao leitor aproximar-se do fascínio de Thomas Mann por Schopenhauer, Nietzsche, Wagner, Goethe e Durer. Ao longo dos anos, outros nomes se juntaram às influências filosóficas e literárias de Mann, tais como Tolstoi, Rousseau, Schiller, por exemplo.
O mundo criativo de Mann, composto pela simbiose entre filosofia, biografia e autobiografia, tem o seu eixo na intertextualidade entre os autores mencionados. Se em “Buddenbrook”,a influência de Schopenhauer é muito visível, já em “Tonio Kröger” e, principalmente, em “Doutor Fausto” é Nietzsche que tem uma influência fulcral.
Em “Contos”,a influência filosófica destes autores mantém-se tão importante como em “Tonio Kröger”, “Morte em Veneza” ou “A Montanha Mágica”.
As personagens têm características físicas que estão ligadas a aspectos psicológicos, ou a acontecimentos que os marcaram emocionalmente. (“Luisinha”, “O Caminho para o cemitério”, “O pequeno senhor Friedemann”, “Tobias Mindernickel”…).
Os aspectos autobiográficos são visíveis, por exemplo, em “O Comediante”, onde o personagem demonstra a sua maior proximidade à mãe em detrimento do pai, tal qual aconteceu como Thomas Mann. Numa narrativa mais psicológica do que descritiva, o personagem de “O comediante” partilha o diletantismo, o epicurismo e a inadaptação com Friedemann (“O pequeno senhor Friedemann”).
Em “Tristão”, um triângulo amoroso é resolvido quando a mulher toca “Liebestod” (Amor-Morte”), de “Tristão e Isolda”, ópera composta por Wagner, para o pretendente.
O anti-social e assexuado Spinell (pretendente) virá a reclamar a alma de Gabriele Kloterjahan, deixando, segundo ele, a posse do corpo para Anton, o marido.
Filosofia, música e biografismo. O burguês versus o artista, a alma versus a carne, a vida versus a morte. Tudo em “Tristão”.
 
Cada texto de Thomas Mann tem várias camadas. São construções complexas e remetem para outros autores, outras obras e diferentes épocas da vida do autor. Essas épocas foram de uma brutalidade inigualável na História da Humanidade, pois abrangeram a 1ª e a 2ª Guerra Mundial.
Será a 2ª Guerra Mundial a provocar o afastamento do Nobel da Literatura do compositor Wagner e do filósofo Nietzsche. E do seu país, também. Tornar-se-ia cidadão americano em 1939.
“Contos” colige ficções importantes na evolução do cidadão e escritor Thomas Mann.
O período abrangido pelas ficções deste livro permite ao leitor aproximar-se do fascínio de Thomas Mann por Schopenhauer, Nietzsche, Wagner, Goethe e Durer. Ao longo dos anos, outros nomes se juntaram às influências filosóficas e literárias de Mann, tais como Tolstoi, Rousseau, Schiller, por exemplo.
O mundo criativo de Mann, composto pela simbiose entre filosofia, biografia e autobiografia, tem o seu eixo na intertextualidade entre os autores mencionados. Se em “Buddenbrook”,a influência de Schopenhauer é muito visível, já em “Tonio Kröger” e, principalmente, em “Doutor Fausto” é Nietzsche que tem uma influência fulcral.
Em “Contos”,a influência filosófica destes autores mantém-se tão importante como em “Tonio Kröger”, “Morte em Veneza” ou “A Montanha Mágica”.
As personagens têm características físicas que estão ligadas a aspectos psicológicos, ou a acontecimentos que os marcaram emocionalmente. (“Luisinha”, “O Caminho para o cemitério”, “O pequeno senhor Friedemann”, “Tobias Mindernickel”…).
Os aspectos autobiográficos são visíveis, por exemplo, em “O Comediante”, onde o personagem demonstra a sua maior proximidade à mãe em detrimento do pai, tal qual aconteceu como Thomas Mann. Numa narrativa mais psicológica do que descritiva, o personagem de “O comediante” partilha o diletantismo, o epicurismo e a inadaptação com Friedemann (“O pequeno senhor Friedemann”).
Em “Tristão”, um triângulo amoroso é resolvido quando a mulher toca “Liebestod” (Amor-Morte”), de “Tristão e Isolda”, ópera composta por Wagner, para o pretendente.
O anti-social e assexuado Spinell (pretendente) virá a reclamar a alma de Gabriele Kloterjahan, deixando, segundo ele, a posse do corpo para Anton, o marido.
Filosofia, música e biografismo. O burguês versus o artista, a alma versus a carne, a vida versus a morte. Tudo em “Tristão”.

Cada texto de Thomas Mann tem várias camadas. São construções complexas e remetem para outros autores, outras obras e diferentes épocas da vida do autor. Essas épocas foram de uma brutalidade inigualável na História da Humanidade, pois abrangeram a 1ª e a 2ª Guerra Mundial.
Será a 2ª Guerra Mundial a provocar o afastamento do Nobel da Literatura do compositor Wagner e do filósofo Nietzsche. E do seu país, também. Tornar-se-ia cidadão americano em 1939.
“Contos” colige ficções importantes na evolução do cidadão e escritor Thomas Mann.

ContosContos by Thomas Mann
My rating: 3 of 5 stars

Texto sobre "Contos" (Bertrand), de Thomas Mann (Diário Digital)
Thomas Mann: um gigante a analisar o detalhe.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...


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http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1929/mann-bio.html
publicado por oplanetalivro às 17:04

14
Nov 13

«A Casa com Alpendre de Vidro Cego»: O insustentável peso da vergonha



“Ela não sabia ao certo quando se apercebera daquilo: do perigo.” (pág. 5) E assim começam as aventuras e desventuras de Tora. A Trilogia de Tora inicia-se com “A Casa com Alpendre de Vidro Cego” (ARKHEION), da escritora norueguesa Herbjorg Wassmo (1942; Vesteralen, Noruega). A trilogia é continuada com “O Quarto Silencioso” (1983) e finalizada com “Céu Doloroso” (1986).

Apesar de ser a primeira parte desta trilogia, “A Casa com Alpendre de Vidro Cego”, traduzido por João Reis, tem qualidade suficiente para subsistir como criação literária independente dos consequentes livros. Herbjorg Wassmo consegue seduzir o leitor a conhecer o destino de Tora, uma complexa e bem construída personagem literária.
Tora suporta o peso de uma culpa alheia. O medo e o remorso castigam-na e retiram-lhe a possibilidade de ser criança. Ela é obrigada a crescer demasiado depressa. A analogia que a personagem faz com um gato que fora apanhado por um cão é sintomática do que sente: A culpa tinha de ser do gato – porque ninguém era seu dono e tomava conta dele.
Ele incomodava de tal maneira as pessoas que o esfolaram. Incomodava de tal maneira os cães que o arrastaram pela merda. Era assim que era. Fora decidido por alguém há muito tempo. Não havia como escapar” Pág. 75 Filha de mãe norueguesa, Ingrid, e de um soldado alemão, destacado para a Noruega quando a Alemanha ocupava o território, Tora não consegue ultrapassar o ónus da vergonha e a acidez do ódio.
A vergonhosa relação da mãe com o inimigo está sempre presente na memória dos habitantes daquela aldeia do norte da Noruega. Ingrid foi apanhada, sem nunca mais se libertar, pelo julgamento moral da população. Ela vive como uma condenada, desligada de si própria e da sua filha. Sem nunca ter conhecido o pai, Tora é obrigada a suportar um padrasto alcoólico, irascível e constantemente desempregado. A mãe, muito ausente pela necessidade de trabalhar dia e noite, nunca está para impedir os constantes abusos do seu marido, Henrik. Quem deve proteger espalha o medo e a vergonha.
“Se, de repente, ele entrava numa divisão onde ela estava sozinha, Tora sentia-se como se alguém lhe atirasse um pano sujo e peganhento para cima” Pág. 66
Henrik, já destruído pela imoralidade e alcoolismo, e a mãe, que parece destruída pelo tempo, são agentes activo e passivo na destruição de Tora.  A decadência individual, tanto no aspecto moral como no físico, está intrinsecamente ligada, como é habitual na literatura nórdica, ao meio envolvente. O clima e a inóspita paisagem têm influência directa no enredo e na caracterização das personagens. O desemprego, nesta aldeia que sobrevive da pesca, é um flagelo social. O indivíduo é cercado pela impossibilidade de uma vida melhor. A pobreza e consequente degradação são dominantes. A sociedade onde Tora cresce é um informal matriarcado.
Apesar de ser uma mulher dominada pela passividade e pela amargura, é Ingrid que sustenta a sua casa. Quando Rakel, tia de Tora, vê o seu calmo e paciente marido sucumbir perante as adversidades, não deixa de assumir as responsabilidades e iniciar a recuperação. É precisamente Rakel que constrói um porto seguro para Tora. Tudo o que a criança sabe sobre o seu pai é contado por Rakel. É em sua casa que a criança se sente segura. Apesar da idealização da figura paternal e das características afáveis de Simon, marido de Rakel, a figura feminina assume-se como pilar familiar e social. A força está na mulher. Tora sente isso, e Rakel sabe que assim é. Só falta Ingrid descobrir.
“A Casa com Alpendre de Vidro Cego” é um exemplo de que o texto literário não tem de ser obscuro nem composto por uma estrutura intrincada. A riqueza do romance de Herbjorg Wassmo está, precisamente, na clareza da sua prosa, na complexidade psicológica das personagens e no realismo do retracto social de uma aldeia pobre moral e estruturalmente. Deste valor literário sobressai a maior conquista da escritora norueguesa: Tora, a resiliente.

publicado por oplanetalivro às 17:08

19
Out 13
Georges Rodenbach, em “Bruges-a-morta” (Sistema Solar): A dor como religião.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=661909

Ver a vida com olhos de morto. É esta a perspectiva de Georges Rodenbach perante os infortúnios de Hugues Viane, o personagem principal.
Pouco tempo após a morte de sua mulher, o inconsolável Hugues Viane decide instalar-se na cidade de Bruges. Ele precisava de “silêncio infinito e de uma existência tão monótona que deixasse, quase, de dar-lhe a sensação de viver” Pág. 23
Os seus passos são guiados pela destruição que existe em si. Durante o dia, Hugues mantem-se isolado, em casa, sem vontade de procurar qualquer solução para o mal de que padece. Chegada a noite, ele sai e caminha por canais solitários, bairros de ruas vazias e gente recolhida em casa. Bruges, a morta, é a cidade que espelha o interior de Hugues. A caracterização do local e das pessoas sofre o fenómeno de projecção do estado de espírito do personagem. Ali ele sente que o lugar está em comunhão consigo, pois para ele “Bruges era a sua morta. E a sua morte era Bruges” pág. 24
Mais tarde, virá a deslocar a sua obsessão para uma pessoa em substituição da cidade. A necessidade de se manter naquele sentimento de melancolia, como ponto de contacto com a sua falecida esposa, transforma-se numa paixão por um “espelho vivo” da sua alma. Talvez o mais indicado seja dizer que se mantém apaixonado pela falecida, mas no corpo de outra mulher, pois “Quando olhava para Jane, Hugues pensava na morta, nos beijos, nos abraços de outrora. Acreditava que possuía de novo a outra, possuindo esta. O que parecia acabado para sempre, ia recomeçar. E nem sequer enganava a esposa, porque ela voltava a ser amada nesta efígie e beijada nesta boca igual à sua” Pág. 39
A cidade começou a rejeitá-lo. Hugues, até ali visto como um exemplo de sobriedade, começa a ser alvo de escárnio. A honesta castidade dera lugar a uma dor de plástico.
A aproximação a uma figura feminina implica um afastamento do personagem da cidade de Bruges, que fora o motivo da sua mudança. Quando ele se afasta de Jane, volta a projectar as suas condições emocionais na cidade. São variáveis do mesmo assunto: a obsessiva projecção de uma necessidade.
A peregrinação de Hugues anuncia um fim trágico. O leitor contempla a inevitabilidade da desgraça.
O escritor simbolista faz de Bruges, cidade outrora importante como entreposto comercial, muito mais do que um contexto para determinado enredo. O minimalismo da história permite ao autor desenvolver a relação metafórica entre local e personagens. O ambiente citadino é essencial no jogo de simbolos, na criação de contraste entre ambientes abertos e fechados, emoções e objectos, real e irreal, explícito e implícito, silêncio e som.
“Bruges-a-morta” (tradução e apresentação de Aníbal Fernandes) é um exemplo do que o simbolismo pode ser, quando entregue a esta qualidade: sugestivo, cativante e sedutor.

Mário Rufino

Mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 08:50

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