29
Mar 14

Valério Romão, o lúcido


Valério Romão (n.1974, França) ilumina os lugares onde escondemos os nossos terrores. Ele dá-nos a oportunidade, através da sua criação literária, de observarmos os medos até então recalcados. A dor, não sendo um objectivo, é uma consequência da leitura.

Um dos aspectos mais interessantes da prosa de Valério Romão é o equilíbrio. Em momento algum, o autor cai num lirismo oco e inócuo. Com três livros publicados, “Facas” (Companhia das Ilhas), “Autismo” (Abysmo) e “O da Joana” (Abysmo), Valério Romão conquistou o respeito dos seus muitos leitores.

O Diário Digital teve a oportunidade de acompanhar o escritor durante a sua primeira participação nas “Correntes d`Escritas”, conforme os leitores do Diário Digital puderam constatar.

A entrevista ao autor impõe-se como imprescindível na descodificação do pensamento “valeriano”

DD- “Autismo” e “O da Joana” fazem parte de um conjunto intitulado “Paternidades Falhadas”. Onde é que elas falharam, se é que falharam?
VR- A noção de paternidades falhadas não tem tanto a ver com a falha no sentido de ser mau pai, ou má mãe, mas sim com uma incompletude na assunção de maternidade ou paternidade. No caso do “Autismo”, não se chega a ser pai ou mãe por completo. Então, a falha não está no lado da execução diária da paternidade, mas está no facto de, no caso do “Autismo”, a paternidade ser incompleta porque a criança não é igual às outras. A paternidade não se desenvolve da mesma forma, não é exactamente a mesma coisa do que a paternidade normal. No caso de “O da Joana”, a maternidade da Joana começa muito antes da gravidez- é uma ideia, um projecto, uma razão de vida- e não sobrevive ao choque com a realidade, que é a morte do filho e da ideia que orienta a vida dela. Neste caso, a falha da maternidade não é uma falha que se lhe possa ser imputada, mas é uma coisa que ao ser amputada também acaba por provocar uma derrocada na própria existência dela porque é uma ideia reguladora e fundamental da sua existência.

“Autismo” nasce de uma experiência pessoal. Serviste-te do teu blogue [http://trabalhodecasa.wordpress.com/], onde relatas a tua experiência, como base para “Autismo”?
Não. Servi-me da minha experiência, mas … ainda que de certo modo, na verdade, um escritor se sirva sempre da sua experiência pessoal, mesmo quando o livro é menos pessoal e a sua presença enquanto pessoa está mais diluída; ou seja, a escrita é o resultado de uma experiência no encontro com qualquer coisa. E é o resultado catalisado de várias experiências nessa experiência da escrita. O “Autismo”, claro, tem essa componente de autobiografia em que o que acontece é como se tu pegasses num calendário, onde tivesses uma agenda, umas datas, uns acontecimentos, e aquilo fosse uma estrutura objectiva com poucas anotações e depois construísses tudo o resto à volta do que era importante. A parte biográfica, sendo muito forte,  não é muito presente. São ideias de experiências que ia tendo que depois são catalisadas em estruturas radicalmente diferentes.

Apesar de haver conexões, uma situação é a tua experiência pessoal, outra situação é a ficção. São dois mundos diferentes?
Sim, sim… Claro que há pontos de ligação em “O da Joana”, em “Facas”, onde quer que eu escreva, porque a escrita tem um cunho da pessoa que o faz; é subjectivista e intensamente pessoal. Mesmo que isso se note mais ou menos, mesmo que seja uma escrita mais borgeana, mais para o lado do intelecto e do jogo mental, nota-se que há exposição.

Em “Autismo” há várias perspectivas narrativas, mas em “O da Joana” focaste essencialmente o papel dela. Como é que foi essa passagem de algo pessoal para o papel da mulher?
Quando eu comecei a escrever “O da Joana”, eu sabia que [o livro] ia ser uma mulher e que iria ser aquela experiência. A minha primeira preocupação era que não falhasse demasiado e que conseguisse entrar na personagem, ainda que “a roupa ficasse curta”, pois temos estruturas diferentes: eu sou homem, ela é mulher. Que não fosse grotesco. Nesse sentido, ia dando o texto a ler a mulheres amigas que me asseguravam que não estava a descambar.

De forma a ser credível…
Sim, sim, se era credível. Eu ia relatar uma experiência muito intensa de um universo que ainda hoje, nesta altura da contemporaneidade com a igualdade de géneros e direitos, é muito feminino e que os homens não percebem. O corpo masculino é o limite da possibilidade da sua experiência. Não tem aquele órgão.  Pode perceber de uma forma mediada, mas não pode perceber como a mulher percebe. Este era um jogo arriscado: entrar nesse corpo, fingir que se tem esse órgão e, no fundo, ser guiado por essa voz.
Por que te interessas tanto pelo “mecanismo da dor”?
A dor é uma consequência; não é a parte que me interessa mais. A parte que me interessa mais é a parte imediatamente anterior à dor. É a parte em que existe conflito, choque, sonho. É verdade que nos meus livros as coisas têm corrido mal às personagens. Isso provoca dor nas personagens e também no leitor, provavelmente, mas não é o leitmotiv. Eu vou à procura de outra coisa; vou à procura de uma experiência que possa ser reconduzida com honestidade, justiça e inteireza. Por ser como sou, como sou constituído, é mais empática uma experiência que tenha um registo trágico do que uma experiência que tenha um registo cómico, ou positivo. Acho que há histórias que merecem ser contadas, em primeiro lugar, e sobretudo que há sítios da casa que não estão iluminados. Se eu já passei por eles, se já os vi, não posso ignorar que os vi.

Pões as personagens numa experiência radical para ver como elas se comportam?
Gosto de pensar que posso ter uma espécie de quarto, onde  intensifico a pressão e depois vejo qual é o resultado. O que vem acima, normalmente, é o melhor ou pior de cada um de nós. Interessa-me escrever nessa amplitude, nessa frequência de onda, nos extremos. É que os extremos podem ser o prazer, a dor, a mortalidade, a fragilidade, o êxtase. Há um humor discreto dentro dos meus livros, ainda que isso não os tenha povoado ou respirado muito. Há um bocado de toda a vida dentro dos meus livros. Isso interessa-me.

Vai ser uma trilogia, certo?
Sim.

Deu-me a sensação nestes dois livros [“Autismo” e “O da Joana”] -talvez errada- de que há uma espécie de niilismo, de destruição. O 3º será uma parte de reconstrução? Será no mesmo registo?
Eu não concordo com a tua leitura... São experiências de vida, por mais duras que sejam. Eu não superei a realidade; a realidade supera-nos sempre. São experiências que merecem ser contadas. Nós estamos numa altura da nossa vida enquanto pessoas neste planeta e neste tempo presente em que os registos, normalmente, oscilam- com uma galeria de honrosas excepções- entre a “superficialidade banal”, que tem a ver com aquilo a que se chama momento de entretenimento, e a “violência gratuita”, que tem a ver com aquilo a que se chama também entretenimento, mas que é um horror que tem mais a ver com a paranóia do que com a neurose. Não te mostra para tu inventares os teus próprios medos. E os meus livros não são isso. Não são nem gratuitos nem feitos para provocar essa sensação. São reconduções de experiências que são absolutamente reais, no sentido de que podem ter acontecido, ou são passíveis de acontecer. As experiências traumáticas não podem ser anestesiadas, amputadas, contadas de outra forma, mas não me interessa o choque. Não é para isso que eu escrevo.

Foges do que é inócuo...
Sim, porque não está na minha natureza. Há coisas que não me interessam por natureza, por eu ser assim.
O que é o inferno? A Sala de Espera, tanto num como noutro romance, ou o diagnóstico, o conhecimento? 
Em “Autismo”, o inferno é a espera. Não só a espera antes do diagnóstico. O livro tem a parte do diagnóstico, que é feita de forma surrealista porque o médico é “sui generis”, mas acontece que o diagnóstico em “Autismo” não é apaziguador. E porquê? Porque subsiste a dúvida de o autismo ser aquele guarda-chuva sob o qual cabem imensas condições, variabilidades, pessoas que falam, pessoas que não falam, pessoas que precisam de assistência para o resto da vida, outras que se desenrascam bem e arranjam emprego… O que subsiste depois do diagnóstico continua a ser a dúvida porque não há uma máquina do tempo que permita a estes dois pais acelerarem, chegarem aos 20 anos [do filho], e perceberem se ele se vai desenrascar. O inferno é sempre a espera. Aliás, eles estão sempre na sala de espera. E é também por isso que a consulta é ridícula. Não acrescenta nada. Dá um nome à coisa, mas esse nome não tem uma qualidade positiva. Não é uma baliza, não é um conceito, apesar de ele fazer aquele traçado entre o Asperger e o autista. É ridículo, mas é mesmo assim. É ridículo.

Há medicina e charlatanismo de algumas medicinas alternativas, mas quase nada de religião em Rogério e na sua mulher, quando é uma via pela qual muita gente opta. A que se deve esta ausência? 
É porque neste caso estas personagens não têm esse apelo. Se tivessem tido, provavelmente haveria qualquer coisa no livro em que isso se notava. Mas, de facto, não têm. São muito contemporâneos, são muito irónicos, cínicos, não acreditam em nada.
Por falar em Charlatanismo e medicina, o capítulo com mais ironia é o do “Fabuloso Dr. Miguel Relvas”. O fabuloso falava com os pacientes, que estavam “enterrados” em pufes. Esta personagem simboliza a falência da medicina?
No fundo, penso que simboliza a incapacidade de a ciência, apesar de a reverenciarmos, resolver alguns problemas. Ainda não tem essa capacidade.  Poderá vir a ter. No caso do autismo, não tem essa capacidade de resolvê-lo. Por outra parte, o facto de estarmos formatados para acreditar que a ciência resolve tudo faz com que a ciência, ou a medicina, quando encontra qualquer coisa que não possa resolver tenha de se comportar como se pudesse resolver. Então, o que acontece é que essa figura é trágica e cómica, ao mesmo tempo, porque é portadora de um curso de não-sei-quantos anos… o internato, depois a especialidade… anda a estudar  vida toda para começar a estudar, depois estuda mais 10 anos, começa a praticar, e vai para um emprego numa área e, basicamente, não pode fazer grande coisa. Isso é trágico!

Não pode admitir que, na verdade, não está ali para fazer grande coisa porque o desenvolvimento da criança não depende, em última análise, de si, porque por mais livros que leia não sabe prever como é que aquela criança se vai desenvolver, etc. As ideias acerca do assunto mudam e são revistas constantemente, o diagnóstico em sim não é clínico, mas comportamental. Há um mundo de incertezas num curso que te prepara para a certeza. Isto é trágico. A personagem em si é trágica.
E o nome: Miguel Relvas [político do PSD]? Foi propositado?
Não foi propositado. [risos] A sério…

Faço-te a mesma pergunta que fiz a José Ovejero, pois parece-me pertinente: A escrita é psicanálise?
Serve-me sobretudo de válvula de escape numa bomba de pressão. Serve-me para apaziguar. Não tem o efeito de autoconhecimento. Se bem que os leitores e os críticos interessados podem… diagnosticar-me pelos meus textos. Não sei qual seria o resultado disso… É apenas mais um jogo que resulta do universo da literatura.

Um pormenor: Porquê “Urgê cias”?
Quando estava a imaginar o sítio, estava a imaginar a placa e na placa apareceu sem o “N” e acabei por escrever assim.

Em “Autismo”, a relação do pai com o filho é diferente da relação da mãe com o filho. Pensas que a relação maternal é mais vinculativa do que a paternal?
Na minha opinião, sim. Sobretudo se for um filho, e não uma filha.

Qual a diferença?
A diferença sexual.

Complexo de Édipo?
As famílias que eu encontro têm a noção de que as mães têm uma relação diferente com os filhos. Primeiro porque educam as filhas no sentido de prepará-las para a função de serem mulheres e não fazem isso com os filhos porque não estão dentro desse território como os homens estão e vice-versa. Há, obviamente, uma relação sexual, que não tem a ver com a sexualidade explícita, mas de sexualidade implícita, e, se calhar, aí sim, mais no território freudiano, entre as mães e os filhos e entre os pais e as filhas. Parece mais ou menos aceite e óbvio, se bem que não falado.

Há uma situação paralela com os sogros de Rogério, em “Autismo”. É uma relação também nada saudável. O marido despreza a mulher. Não acreditas no vínculo entre casal?
Claro que sim! Este casal é que correu muito mal! Aliás, sobre o casal desta história, a minha sensação como escritor que acaba um livro é: “se eles não tivessem tido este filho, se calhar ainda estavam juntos”. Essa é a minha sensação, mas no caso dos pais dela, aquela relação já tinha começado e acabado há muito tempo. O que se mantinha ali era uma coexistência nem sempre pacífica. Um modo de ser casal que não tem que ver com o amor, mas com o hábito; não tem a ver com o gosto, mas com o interesse. Simbolizam, no fundo, uma geração - duas gerações anteriores à nossa- em que as pessoas não se podiam separar porque eram mal vistas, em que as pessoas não podiam fazer uma série de coisas porque havia um peso muito grande de repressão a nível moral, a nível do que era o costume, ou habitual. É como se obrigasses duas pessoas a estar num quarto o resto da vida mesmo sem elas quererem. As coisas mais angustiantes acontecem.
Aqueles 3 - pais mais o filho - acabaram por ser 3 ilhas. Vão se separando…
Sim, porque uma relação familiar triangular com um filho constrói-se com setas bidireccionais entre três polos. Naquele caso, a relação dos pais era mediada pelo filho. Sempre. O filho era o polo à volta do qual tudo gravitava. Obviamente que isto vai fazendo com que a relação deixe de existir. Chega-se a um ponto a partir do qual o superior interesse do filho põe em causa o fundamento da relação do casal, dado exercer uma gravidade que esmaga ou nulifica tudo o resto. Deste modo, um diz "temos de fazer tudo pelo miúdo" e o outro não pode em causa alguma pôr em causa esse credo, sob pena de ser considerado egoísta. Não há saída. Basicamente, é uma questão de culpa moral. Estão ainda num processo em que não se querem dar ao luxo de perder qualquer coisa que possa mudar a vida daquela criança. Nesse sentido, a atenção tem de ser total e não pode haver espaço para mais nada. Qualquer distracção é encarada como culpa pelo próprio que se distrai e culpabilizado pelo outro que percebe a distracção. E claro que uma relação assim não sobrevive.
Rogério tenta socorrer-se através do pai. É a ele a quem recorre. Há alguma avaliação Bem/Mal, por ti, à derradeira postura de Rogério?
Não, não gosto de ver as coisas assim. Se virmos as coisas assim, limitamos a história. Teríamos que reavaliá-lo sob uma perspectiva moral. Acho que as pessoas chegam aos limites e podem fazer coisas de incontável maldade que não fariam noutro contexto. Sob pressão, as coisas podem ser muito violentas. Não quer dizer que as pessoas sejam assim. Há aqueles casos em que caem os aviões e as pessoas ficam duas semanas ou dois meses num sítio qualquer onde um morre e depois os outros começam a comê-lo.
O espaço em que o leitor é “fechado” é no da cabeça do/a personagem. Por que escolhes a acção interior em detrimento da acção diacrónica, a acção exterior?
Penso que com o tempo vou começar a fazer o inverso. É mais fácil explicar o que se está a passar do que montar o cenário para acontecer coisas a partir das quais tu percebas o que se está a passar. O cinema é um bom exemplo. Tu não tens uma câmara na cabeça das pessoas. Tens de construir coisas que explicam o que essas pessoas estão a sentir. A literatura é mais fácil, pois podes ir directamente à cabeça das pessoas. Não precisas de montar nada. Mas eu acho que o mecanismo do cinema é mais avançado porque podes continuar a dizer a mesma coisa, a mostrar a cabeça das pessoas, mas adensas o mistério e deixas mais oportunidades.
Como resolves o assunto na composição das tuas peças de teatro? Dás mais dados cenográficos?
Sou muito minimalista. Não percebo muito de cenografia, nem de direcção. Não me meto muito nessas competências, a não ser que tenha uma imagem muito clara na minha cabeça de qualquer coisa fundamental. Normalmente, não tenho esse tipo de visualização, nem tenho noção da idade, da cor do cabelo. Não me interessa muito.
A Peça de teatro “ A Mala” assenta também mais na psicologia do que no enredo?
“A Mala” é uma peça que não é só teatro; também tem dança. É uma bailarina com quem trabalhei que interpreta. Não é uma dança clássica. Enquanto ela fala vai fazendo vários gestos repetitivos e a própria cadência do texto tem a ver com a cadência do movimento dela. São coisas que se completam.

“A Mala” não é uma peça de teatro clássica. É uma espécie de monólogo em vários registos.
É uma série de discursos à volta do próprio conceito de fazer arte, de fazer arte em palco; é sobre a dificuldade, a frustração e o que é que se tem de fazer para que a arte aconteça.
“Facas” surge depois de “O da Joana”, mas foi escrito muito antes, não foi?
Antes, sim.
“Facas” é o escritor a “fazer a mão”?
Riço Direitinho chamou-lhe isso. Eu acho que vale um bocadinho mais do que isso. No fundo, são coisas que eu gosto de fazer. Gosto de unidades temáticas: “Facas”, “Paternidades Falhadas”, “Gatos”… Nesse sentido, “Facas” é: tenho uma motivação, tenho uma imagem e escrevo à volta disto. Gosto depois dos números: 10 histórias sobre facas; 3 histórias sobre…
Parece organizado; parece orgânico.
Um pai cria expectativas ao ter um filho. Achas que o amor incondicional, seja como pai, mãe, ou como indivíduo, simplesmente, é saber ultrapassar essas expectativas e aceitar uma outra pessoa como ela é sem tentar mudá-la?
Acho que isso não existe. A não ser em santos e em pessoas como uma capacidade talvez até não-humana de aceitação.
O amor incondicional de mãe para filho é para mim uma das poucas realidades nas quais eu continuo a acreditar que são realmente meritórias da maior devoção. É um milagre. É uma coisa tão bela, tão indescritível…

Fotografia de Alfredo Cunha
publicado por oplanetalivro às 15:23

27
Mar 14

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=691361

Estará a crítica literária condenada, actualmente, ao livro e à revista especializada? Em época de banalização da crítica literária, Teresa Cerdeira (n.1949) presenteia o leitor com “A Tela da Dama - Ensaios de literatura” (Editorial Presença).


Num conjunto de ensaios sobre autores como Fernando Pessoa, Herberto Hélder, Saramago, Sophia Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Torga, Mourão-Ferreira, Estêvão Coelho e Hélder Macedo, a autora e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro dá ao leitor mais avisado instrumentos de descodificação textual importantes para o aprofundamento da leitura.
A sua prosa é clara, subtraída de termos obscuros, sem cair em facilitismos e banalização.
Os dados biográficos dos autores existem em proporção para iluminar aspectos das obras, e a sinopse contextualiza, de forma objectiva
Os ensaios são elucidativos, objectivos e didácticos.
O leitor encontra descodificação do texto literário em detrimento do texto homogeneizado e superficial que substitui, hoje, a crítica literária. É um outro universo.
A capacidade analítica da autora é bem demonstrada - principalmente- em “Os abismos da arte na escrita de Hélder Macedo” ou em “Do labirinto textual ou da escrita como lugar de memória” (sobre Saramago).
As ligações de Macedo com o cinema, a música e a pintura são identificadas e fundamentadas. A dialéctica do autor português com Camões está muito presente tanto na prosa como na poesia.
Já em Saramago, a autora brasileira abordou o “primeiro grande ciclo narrativo” da obra do Nobel Português: - Desde “Levantado do chão” (1980) até “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1994). Neste período, identificou a presença -tal como em Hélder Macedo- da intertextualidade camoniana. Além disso, a mesma intertextualidade é constante com os Evangelhos.
A dialéctica entre Saramago e a tradição é parte essencial da obra do Nobel: “seja para a reverenciar ou a ler na contracorrente da canonização, o texto novo exerce sobre o passado a função regeneradora de o eleger para sair de si próprio e ganhar, deste modo, enquadramentos inesperados.”
Tanto Saramago como Macedo -e esta característica é extensível aos outros autores presentes no livro- têm uma relação de possibilidade com a Literatura. O campo da literatura é o da possibilidade; não é o do dogma.
Após a leitura destes dois ensaios, as obras de Macedo e Saramago poderão ser lidas com outra profundidade.
Teresa Cerdeira diagnostica e analisa as leituras e influências formadoras dos autores estudados no seu livro.
A pergunta é inevitável:
E que leituras ou autores formam a perspectiva de Teresa Cerdeira?
Em “A Tela da Dama” ecoam as vozes de Eco, Barthes, Scholes e Benjamin.
Os conceitos de “Obra Aberta” e de “Textualidade” são denunciados logo em “Brevíssima apresentação”, quando a ensaísta afirma que a sua obra é “produtora de significações que geram opções interpretativas sempre múltiplas e cambiantes.”
Reparemos: “opções”, “múltiplas” e “cambiantes”.
A vivência de cada leitor é transportada para o acto de leitura, originando opções múltiplas e cambiantes.
A Tela “serve de lugar de intersecção de saberes”. É um lugar de contaminações, onde a tradição literária e outras artes confluem num sentido renovado e plural.
A crítica literária tem uma relação de dependência com a literatura. Raramente se emancipa, mas pode- e este é o caso- intensificar a fruição do texto por parte do leitor, pois este entra nos livros dotado de outras “armas”, de forma a descodificar a significância com outro aproveitamento.
Este livro de ensaios, apesar do seu enorme valor intrínseco, é uma chave de leitura, uma porta para outros textos. Não se esgota em si mesmo e merece releitura.
“As leituras fundamentais nunca são anódinas e são elas que constituem a biblioteca pessoal de quem escreve e de quem lê”
Que o leitor se veja como o que é - inteligente -  e “tome para si” crítica literária com esta claridade e substância, numa apropriação mútua de quem no roubo entrega mais do que leva.
publicado por oplanetalivro às 08:17

25
Mar 14

Textos sobre Festival Literário da Madeira :



ATLAS DA ESTUPIDEZ ALHEIA:

ENTREVISTA ADRIANA CALCANHOTO:

ESCRITORES PREMIADOS NO FLM:

O FESTIVAL LITERÁRIO DA MADEIRA:

MUITO MAIS DO QUE LITERATURA:

OS LIVROS SÃO UMA REBELDIA CONTRA A DITADURA DA ACTUALIDADE

"HABITANTE IRREAL", DE PAULO SCOTT

"BIOGRAFIA INVOLUNTÁRIA DOS AMANTES", DE JOÃO TORDO

ENTREVISTA COM JOÃO TORDO





publicado por oplanetalivro às 16:28
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Sal em carne viva

O Festival Literário da Madeira (FLM) foi mais do que Literatura. O FLM foi feito de palavras, sim, mas também de afectos, de trabalho e de alteridade. Principalmente, de alteridade.
Foi com muito agrado que aceitei o convite da Nova Delphi para ir ao encontro das pessoas fora da literatura, fora do teatro, fora do Funchal.
Na companhia dos escritores Valério Romão, Manuel Jorge Marmelo, Tiago Baltasar, Francisco Camacho e do jornalista Luís Caetano, fui ouvir as histórias de alguns dos pescadores. Fomos até Paul do Mar, uma pequena aldeia com cerca de 800 habitantes do concelho da Calheta.
Entrámos num bar. Fotografias de pescadores forravam duas paredes. Havia em todos os olhares a noção da tragédia. Era uma galeria de mortos.
Tínhamos um homem a quem nos dirigir. Era um pescador de uma dessas fotografias. Queríamos as suas histórias. Não as ouvimos. Ele morrera num acidente de pesca. O corpo não foi recuperado. O pai, também pescador, ficou sem o seu filho.
Saímos do bar e fomos à procura do capitão do barco onde havia trabalhado esse pescador. O pudor amarrou-lhe as palavras. Não quis falar. Há medo, respeito e dor, muita dor, dentro das recordações.
Decidimos descer a rua até à doca. Estavam 3 pescadores a montar um aparelho para a pesca do peixe-espada preto. Demonstraram disponibilidade para conversar.

Os pescadores são pessoas viciadas em resistência. Sobrevivem contra as leis do homem e contra a impiedade do mar. Segundo este grupo de 3 homens, um dos males do comércio de peixe é a imposição do preço por quem compra. É o comprador, neste caso a lota, que estipula o preço do peixe, ao contrário do que acontece com outros locais e outros produtos. O pescador não estipula o preço de venda do seu trabalho.

O temporal, as despesas de manutenção com o material e as dívidas acumuladas empurram a vida para a fronteira com o insustentável.
“Se pudesse, transformava o meu barco em barco para passeios turísticos, mas é preciso muito dinheiro...”, ouvi.
A pesca é cada vez mais reduzida. Há necessidade de se afastarem mais da costa, e os peixes são apanhados cada vez mais precocemente, pondo, desta forma, em causa a própria existência das espécies.
Senti-me a observar uma fractura exposta. Afastei-me um pouco e fui visitar os barcos atracados. Estes estão presos por problemas com a rampa por onde descem para o mar. “Está pouco funda”, disse. “Estamos à espera que venham cá tratar disso”
Despedimo-nos e fomos conversar com outro pescador. Era novo, na casa dos 30 anos, e tinha um braço coberto de ligaduras. Ele contou-nos a sua história.
Muitas vezes têm necessidade de saltar do barco para dentro de água para libertar golfinhos, ou desembaraçar a rede. Foi o que ele fez. Já dentro de água, foi atacado por um espadarte que lhe trespassou o braço com o seu maxilar superior, muito conhecido por ter um formato de espada. Um pouco mais ao lado, e o pescador teria sido morto.

 Um espadarte pode atingir cerca de 500 quilos.

“E nós, aqui, só temos palavras para esta gente”, pensei enquanto voltávamos para o Funchal.
A ficção de Moby Dick” e de “O Velho e o Mar” tiveram um grande impacto na minha formação como leitor. Lembrei-me de Melville e de Hemingway quando olhei para o mar vasto.
A Literatura esperava por nós dentro do Teatro Municipal Baltasar Dias.
As palavras dos pescadores de Paul do Mar têm arestas, raspam e cortam. São feridas expostas pela vida passada à caça de sustento no Atlântico.
O mar é fonte de vida, mas também é depositário dos corpos de pais e de filhos. O mar é bênção e berço de ritual tragédia.
De onde vem a subsistência vem também o fim. Os pescadores estão presos nessa dualidade.
Sento-me numa cadeira confortável e escrevo sobre a profunda angústia dos olhos daquela gente que transcende a literatura. Há muita dignidade naquelas mãos vincadas pelas redes, pela água, pelo sal.
Penso eu, sentado numa confortável poltrona.

Mário Rufino
Festival Literário da Madeira, Funchal.
publicado por oplanetalivro às 11:57
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24
Mar 14


Adriana Calcanhoto tem a candura na sua voz. O supérfluo não cabe na sua musicalidade. Ela é feita de poesia. E a poesia é o paraíso da palavra

No Festival Literário da Madeira (FLM), durante o showcase dado pela autora a bordo do Cruzeiro MSC Armonia, o tempo pousou nas escarpas madeirenses, e a água atlântica vibrou com os acordes do violão brasileiro. A primeira música, “Olhos de onda”, dá o nome ao concerto do próximo dia 21 no Centro de Congressos – Casino da Madeira, e, devido às circunstâncias da sua criação, inicia um novo ciclo musical. Tudo começa com uma mão magoada, como explica Adriana Calcanhotto: 

“Eu sou um pouco assim, de limões fazer limonadas. Precisei de operar e de fazer a tournée inteira do 'Micróbio do samba' com o Davi Moraes no meu posto de violonista. Nesse processo todo de terminar a tournée, operar e fazer a fisioterapia passou-se um ano e meio sem que eu tocasse violão. Depois, voltei a tocar devagar, tudo muito leve.Recebi um convite da Culturgest, no aniversário da sala, para fazer a mesma coisa que eu havia feito há 20 anos, que era um show a solo de voz e guitarra, como na primeira vez que eu me apresentei em Lisboa. Eu não tinha um concerto preparado, mas achei óptimo. Isso era uma meta. E nos exercícios já de guitarra eu compus essa música.”
Adriana Calcanhoto tem a candura na sua voz. O supérfluo não cabe na sua musicalidade. Ela é feita de poesia. E a poesia é o paraíso da palavra. Há muito de evangelizador ou de pregador num intérprete musical. Ele espalha a mensagem, mas Adriana não se limita a essa característica.

“A minha ideia é mais a transmissão da língua portuguesa do que de uma mensagem. Não persigo uma mensagem. Gosto de transmitir poetas e poemas. E isso existia na Grécia – a poesia era transmitida através de música- depois isso se deu no sec XII, a partir dos trovadores provençais, e deu-se no Brasil de uma forma única, que é a transmissão de uma poesia de alta qualidade através da música popular.”

A poesia é terra de toda a gente, não sendo detida por ninguém. É território literário, oral ou escrito.

A autora brasileira lançou em 2013, no Brasil, uma antologia de autores brasileiros destinada a um público mais jovem. Numa época dominada pela internet, Adriana Calcanhotto fala em “abrir uma porta para o amor aos livros. A escrita tem muitas coisas, principalmente na língua portuguesa, ( você vê muito através da poesia concreta) em que se ouve de uma maneira, mas lendo ela tem um sentido duplo ou triplo.”

Sobre “Antologia ilustrada da poesia brasileira: para crianças de qualquer idade” (Casa da Palavra), a sua preocupação foi com “a ordem cronológica para sentir as influências de geração em geração, de um poeta no outro, as rupturas e a volta”.

“Eu procurava esse livro. Talvez para dar de presente para as crianças ou aos filhos dos amigos, e eu como criança entrava nas livrarias e procurava uma antologia dos nossos poetas em poesias acessíveis às crianças, não necessariamente escritos para as crianças. Fernando Pessoa dizia 'todo o poema escrito para crianças não deveria ser escrito por adultos'.

Eu sentia falta disso. Nas poucas antologias que eu encontrei, a selecção era feita por assunto. Como a poesia não tem assunto, eu entendi que a ordem cronológica ajudava mais a qualquer pessoa que leia a antologia.

Em relação aos desenhos, os desenhos me relaxam do mundo dos sons, tanto da música como da palavra.”

A autora tem a esperança de que seja possível ensinar estética literária/musical.

“Se eu achar que não, nada do que eu faço tem motivo. Eu vivo para isso. Se uma única pessoa, se uma única criança, for atingida pela literatura através de mim, a minha missão está cumprida.”

Ao ouvi-la cantar em português do Brasil, num navio internacional atracado na Madeira, lembrei-me dos versos de Mário Quintana: “O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar. Quem a encontra salva-se a si mesmo”. E a Adriana procura salvação na poesia que lê? “Diariamente”, respondeu.
publicado por oplanetalivro às 08:29

18
Mar 14

A Madeira é pólo aglutinador do prazer causado pelas palavras dos outros, pela música e poesia. Uma ilha aberta ao mundo. Só assim faz sentido. O conhecimento é uma porta para um outro, detentor de cultura e pensamento diferente. Conhecer é construir uma forma de diálogo equilibrado, sem subserviência nem arrogância, para com um outro até então incompreendido. Não é uma questão de superioridade/inferioridade; é de encontro, de deslocação, de alteridade


http://p3.publico.pt/cultura/livros/11283/atlas-da-estupidez-alheia




publicado por oplanetalivro às 16:22
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14
Mar 14


    ---------------------PROGRAMA FLM (LINK)-------------------



 NOTÍCIAS, CRÓNICAS E TEXTOS (link):





publicado por oplanetalivro às 17:40
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13
Mar 14


O Festival Literário da Madeira (FLM), organizado pela Nova Delphi, continua a dotar o programa com nomes importantes da literatura em Língua Portuguesa.
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA (angolano) e PAULO SCOTT (brasileiro) juntam-se aos autores já confirmados no FLM.


Paulo Scott,  autor de “Habitante Irreal” (Tinta-da-China) - romance vencedor do Prémio Machado de Assis 2012- participará em 3 "Conversas Cruzadas". A primeira será no dia 18, com Alexandra Lucas Coelho no Cruzeiro MSC Armonia, sobre “As Ilhas Desconhecidas – Raul Brandão”.





O autor angolano de “Milagrário Pessoal”, “Teoria Geral do Esquecimento”, ou o mais recente “A Vida no Céu” estará presente, no dia 22, a conversar sobre o tema “Todos os revolucionários são estúpidos”- Bernardo Soares (Livro do Desassossego) ”, também em “Conversas Cruzadas”.



Sob o lema “Queremos de ti um país”, as actividades contam já com as contribuições confirmadas de Ricardo Araújo Pereira, Manuel Jorge Marmelo, Gonçalo M. Tavares, João Tordo, Paula Moura Pinheiro, Irene Pimentel, Alexandra Lucas Coelho, entre outros.

O FLM começa no dia 17 de Março, com “Conversa Cruzada – “Estamos sós com tudo aquilo que amamos”, de Novalis- Etapas do desenvolvimento infantil”, no âmbito do Festivalinho Literário Infantil. A conversa entre Nuno Lobo Antunes e Maria João Beja será moderada por José Luís Nunes.
O Festival Literário da Madeira irá prolongar-se até dia 23 de Março, no Funchal.





publicado por oplanetalivro às 09:22
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Mar 14



José Ovejero (n. Madrid 1958) esteve presente nas “Correntes d`Escritas 2014”, na Póvoa de Varzim, para apresentar o seu romance “A Invenção do Amor” (Alfaguara), recentemente galardoado com o “Prémio Alfaguara 2013”.
Autor de romances, contos, poesia, teatro, livros de viagens e ensaios, José Ovejero tem sido reconhecido com diversos prémios:
Recebeu o prémio “Ciudad de Irún” de poesia pelo seu livro “Bíografia del explorador” (1993); “Grandes Viajeros” de livros de viagens por “China para hipocondríacos” (1998); “Primavera” de novela devido a “Las vidas ajenas” (2005); “Gomez de la Serna” por “La comédia salvaje” (2011); “Anagrama de Ensayo” por “La Ética de la crueldad” (2012); e, finalmente, o já mencionado Alfaguara por “A invenção do amor”
O Diário Digital teve a oportunidade de conversar com o autor madrileno a propósito do romance premiado com o Alfaguara.
Apesar de visivelmente cansado devido a problemas com os voos (o autor não veio de Madrid), José Ovejero mostrou-se muito disponível e demonstrou a sua capacidade de análise e de provocação intelectual.


“Muita gente dá-se conta de que está vivendo de uma maneira que não queria viver, e a crise não é essa. A crise é a de que não se atrevem a mudá-la.”



DD-  “A invenção do amor” é o realismo do amor contra o romantismo/idealismo do amor?

JO- Sim… Comecei a escrever porque gostei da possibilidade de uma história, dessa chamada nocturna, dessa confusão. O que se passou é que, enquanto fui escrevendo e desenvolvendo a personagem, me dei conta de que iria ser uma história de amor. No entanto, era uma história em que eu queria evitar qualquer tipo de tópico romântico, em que se ouve essas coisas de “não há segredos entre nós”, de toda essa idealização de relações que não me parecem muito interessantes, hoje em dia, como tema literário. Interessava-me muito mais falar do amor desde a perspectiva de alguém que não crê no amor, mas em que o amor não deixa de ser algo necessário, também por razões biológicas. É tão inevitável que há uma construção literária ao redor do amor. É o mesmo em relação à morte, ou à verdade e sobre tantos outros temas. A literatura indaga sobre essas coisas. Eu queria uma história realista e, no final, o paralógico é que esse realismo tem lugar através de uma história em que alguém inventa um amor impossível. Parece-me que os amores impossíveis, em literatura, têm sido muito românticos, muito idealizados. Neste, eu queria evitar esse romantismo. No entanto, digo-te que embora pareça um amor impossível é muito mais real do que muitos amores contados de uma maneira romântica.



É complexa a relação amorosa entre dois seres, não é?

Sim, porque abarca quase todas as facetas do ser humano. No amor está a relação sexual, está também a relação de protecção, está a relação de rivalidade, está tudo o que tem a ver com o próprio indivíduo, como se delimita em frente ao outro, que espaço protege numa relação. Uma relação amorosa é uma disputa. Pode ser mais ou menos amigável, mas é também uma maneira de marcar limites: Onde acabas tu, onde começa o outro… A simbiose romântica não existe. Somente existe em alguns momentos muito concretos. Toda a história de uma relação tem que ver com a história dos seus limites. Quando nos enamoramos, quase não pomos limites. Quase parece que podemos dar tudo ao outro, mas é mentira. Podemos fingir que damos tudo, mas chega um momento em que dizes “Não, isto não quero dar, ou isto não quero prescindir, etc.”. Abarca tudo, além do mais vai condicionado por uma tradição muito complexa sobre o que se sabe de amor, sobre como deve ser o amor, e isso é um dos piores venenos para as relações amorosas. A ideia de como deve ser.
A fidelidade: Há que ser fiel. É como deve ser uma relação amorosa. Porquê? Pode haver relações amorosas em que não há fidelidade. Há milhares de possibilidades, e cada casal vive-as de maneira distinta, mas frequentemente com a culpa de que, na realidade, teria de ser de outra maneira. E não. Não teria de ser de outra maneira.


Quando nos enamoramos e pomos esses limites, não nos estamos a reinventar? Não é uma ficção?

Claro que é! Nós somos ilimitados. Não só queremos dar o melhor de nós mesmos, como também damos o que somos. E o outro faz exactamente o mesmo. Por exemplo, a relação que dura leva a essa fase do realismo de renegociação. Na realidade, tudo o que havíamos prometido, explicita ou implicitamente, não pode durar toda a vida. Temos que renegociar os termos. Isto soa a muito cínico, mas não é. Penso que é o contrário. É o tentar compreender as necessidades de cada um dentro de um casal.

Com “ A invenção do amor” tenta confrontar as hipocrisias do leitor?

Sim, sim... Como eu disse, ao começar eu não tinha um objectivo claro, mas conforme se vai desenvolvendo uma personagem que faz e diz o contrário do que se costuma dizer na temática amorosa, fiquei muito consciente de que estava provocando o leitor, no sentindo útil da provocação que é obrigá-lo a pensar, a situar-se, a dizer “Como vivo eu isto?”
Este tipo de coisas em que dizes: “Creio? Não creio? Creio, mas não gosto? Não gosto e por isso não quero crer?” Há um diálogo bastante intenso com o leitor. E, pelo que têm dito os leitores, eles o vêem assim também, como uma espécie de confrontação.

A pluralidade de perspectivas sobre Clara tem o objectivo de “capturar” as diferentes personalidades de Clara?

Mais do que capturar, creio que o que estou mostrando é que cada um de nós é uma multitude. Depende de com quem estamos, de que situação, etc. etc... Parece-me evidente dizer que nós somos uma construção em que elegemos certos aspectos e deixamos outros de lado. Ao mesmo tempo, necessitava literariamente porque Samuel está a passar-se por amante de Clara defronte de gente que conhecia Clara. Se não nos dessemos conta de que uma pessoa é muitas pessoas, obviamente que a impostura de Samuel duraria pouco. Há momentos em que Samuel diz algo de Clara e a irmã diz “Clara não era assim!” E ele responde “Comigo, sim!”.
Todos sabemos que não conhecemos os outros. Conhecemos só uma parte limitada dos outros.
E eu gostava desta construção caleidoscópica desta personagem central e que, no entanto, não está. Esse é um dos desafios do romance: dar peso a uma personagem que nunca aparece, na realidade.
Samuel, de “A invenção do amor”, é a antítese de Neftalí Larraga, em “Añoranza del héroe”?

Sim porque Neftalí, personagem principal de “Añoranza del héroe”, mente e se mente. Samuel se mente muito menos; mente aos outros. Ele tem uma visão muito lúcida de si mesmo enquanto Neftalí se inventa a si mesmo, se crê a si mesmo como personagem idealizado, idealiza a sua relação amorosa e acaba fazendo todo o mundo infeliz. Ele está enganado, está criando uma ficção sobre a qual não se pode construir nada. Há ficções que são construtivas e outras destrutivas. Samuel utiliza essa ficção para chegar a coisas que são verdade. Neftalí utiliza a ficção para ocultar aquilo que não encaixa com a sua imagem ideal.

Somos o conjunto de interpretações que os outros fazem de nós?

Essa é uma parte. Afinal, o que é a identidade? A identidade tem a ver com a nossa própria percepção, com a autoconsciência, mas também com a percepção que os outros têm de nós. Um americano pode não estar de acordo com a política do seu governo, pode aborrecer-se com muitas coisas dos Estados Unidos, mas os demais o vêem como um americano e identificam-no com determinados comportamentos.
Tu podes querer dizer “Não, eu não sou isso.” Sim, sinto muito, tu és também isso. Tu és a própria percepção e a percepção dos demais.

A nossa perspectiva sobre o que vemos é, de certa forma, uma criação ficcional, também?

Claro, não conhecemos nada. No final, a discussão sobre se a verdade existe ou não, é uma discussão um pouco banal porque é indiferente se existe, ou não. Não a vamos conhecer. Só podemos conhecer fragmentos que são cambiantes, não são estáveis. Não tem muito interesse se existe a verdade ou não. É como perguntar se existe a cor roxa. Não existe. É indiferente. O que existe é que o nosso olho está feito para determinadas cores. O de outros animais não. Há animais que não poderiam entrar na discussão de se existe o roxo ou não.
Isso não significa que tudo seja relativo ou arbitrário. Só podemos viver num determinado contexto e para o entender temos que chegar a determinados acordos sobre a realidade. Esses acordos, com tempo, irão variando.

A escrita é um exercício de psicanálise para o autor?

[risos] Não, não…Eu não entendo a escrita como uma forma de “autocurativo” nem sequer de uma forma de aprofundamento psicológico. No entanto, as duas coisas são parte da escrita.
Na escrita há um prazer estético: o prazer da frase bem construída, o prazer do ritmo. Gosto muito de trabalhar no romance em que as frases têm ritmo. É muito mais amplo do que puramente psicológico. Também tem a parte sociológica. As minhas personagens não vivem numa “bolha”; vivem num contexto social, político e histórico. Tudo isso existe no romance. Sim, pode haver parte de “autocurativo”, pode haver parte de aprofundamento psicológico, mas são só fragmentos do literário.

No livro, Samuel tem pouco mais de 40 anos. Ele tem uma crise, pois faz uma avaliação negativa desses 40 anos. É uma avaliação somente individual ou posso dizer que é uma avaliação do nível nacional?

Samuel, como tanta gente da sua idade, chega à situação em que te dás conta de que tomas algumas decisões na tua vida que levaram a determinado lugar e que frequentemente não é o lugar onde querias estar.
Ele não está mal! Está cómodo e confortável. Mas se pensas no que serias ser, fazer e significar, como querias viver, quando eras jovem, depressa te dás conta de que chegaste a outro sítio.
Muita gente dá-se conta de que está vivendo de uma maneira que não queria viver, e a crise não é essa. A crise é a de que não se atrevem a mudá-la.
Há determinada segurança, expectativas dos outros, hábitos e ficas com essa forma não feliz de viver. Na sociedade passa-se o mesmo. Penso que é muito claro na sociedade espanhola onde, durante anos, nós- espanhóis- tivemos a “arrogância” de jovens, pois acreditávamos que iriamos transformar o mundo, e que seriamos os protagonistas de toda a história. Espanha crescia, era dinâmica, era aberta… ou parecia que crescia, porque nos demos conta de estávamos crescendo sobre bases económicas muito pouco estáveis e que eramos muito menos democráticos do que havíamos pensado. Descobrimos isso com a corrupção, com a falta de independência do sistema policial, etc. Então chegámos à situação em que olhámos para trás e dissemos “Nós iriamos ser outra coisa, nós iriamos ser muito melhor, e somos isto: Este país sem esperança, este país apodrecido”. E agora a questão é a mesma. O que se vai passar? Vamos seguir igual para não perder a nossa segurança, ou vamos ser capazes de inventar? Samuel inventa o amor. Vamos ser capazes de inventar uma forma distinta de democracia? Há movimentos, agora mesmo, nas ruas que pensam que sim, que podemos inventá-la; há o pressuposto de que não vão chegar ao que querem, mas entre onde estamos e onde querem chegar há muitos pontos intermédios que podem ser interessantes.



José Ovejero sai transformado no fim do livro, tal qual Samuel no fim da história?

Sim, claro…Ao longo do romance, vou escrevendo coisas que não pensei previamente. A literatura faz-me pensar profundamente nos planos intelectual e emocional, que são parte de todo o pensamento sério. Tão pouco o intelecto vive fora de um contexto, das emoções. Creio que aprendi escrevendo livros sobre as próprias relações, sobre a minha maneira de me situar nesta sociedade, sobre a “bolha” em que eu também vivo como Samuel, sobre esse isolamento em que Samuel se conforma porque é seguro. É um romance que me fez pensar sobre mim mesmo.

 Tem obra premiada em Ensaios e em Ficção.Como decide se determinado tema vai ser tratado como ensaio ou como ficção?
Não há uma decisão. É mais uma percepção de como posso afrontar um determinado tema. No ensaio que escrevi antes deste livro, “La Ética de la Crueldad”, começo a aproximar-me desse tema a partir de um romance que eu escrevi, “La Comédia Salvaje”, que é um livro muito divertido e muito brutal e cruel. Então comecei a pensar desde fora da ficção porque utilizo a crueldade. Porque sou tão violento neste romance? Que função tem a violência?
Os mecanismos de pensamento são distintos. O ensaio é pensar desde fora. A ficção é pensar desde dentro, meteres-te nas emoções e utilizá-las como trampolim, também, para a reflexão. Tem a ver com uma abordagem inicial de aproximação a um tema.

Samuel tem uma vida quase vazia. Inventar uma história enche esse vazio.
Agora é uma provocação: Um escritor é um ser vazio se não escrever?

[risos] Há muita gente que utiliza a escrita como um sucedâneo da vida. E diz que são mais importantes os livros do que a vida. Para mim, não. Para mim o importante é a vida. A literatura é só uma parte dela.
Há leitores que utilizam a ficção para escapar, para evadir-se, para viver fora de suas vidas.
Eu creio que a literatura interessante é aquela que uma e outra vez devolve-te à tua vida; diz-te “ isto é uma representação, não é a verdade, não podes ficar a viver aqui. Depois de ler, tens de regressar aonde estavas”.
Por isso, não creio que a literatura encha um vazio, embora seja verdade que em alguns casos a utilizamos para viver emoções que não nos atrevemos a viver de verdade na vida. É como os filmes de terror. Por que vemos os filmes de terror? Porque são seguros. Fazem muito medo, mas não vai acontecer nada connosco. Os filmes de terror interessantes seriam aqueles que, depois de nós os vermos, nos obrigariam a ir a um lugar obscuro. Arriscando-nos de verdade. Essa é a relação ideal entre a literatura e a vida.

Continua a dar cursos de escrita criativa através da internet?

Sim, mas agora interrompi devido ao Prémio Alfaguara [A invenção do amor]. Como passei um ano a viajar, tive que interromper todos os outros trabalhos.

É possível fabricar um escritor?

Não! E eu tão pouco o prometo aos meus alunos. Eu não lhes digo “vou fazer de vocês escritores”. O que pode fazer um curso de escrita? Primeiro: O que é um escritor? É alguém que tem uma visão original do mundo, e original é uma maneira de dizer profunda, e é capaz de vê-lo como outros não o vêem e que tem as ferramentas para contar. Eu posso ajudar com as ferramentas. A visão profunda do mundo tem a ver com a tua história, com a tua psicologia, empatia, e tantas coisas…
Às vezes é como um ciclo vicioso: se não tenho as ferramentas, não posso dizer coisas complexas; se só tenho ferramentas simples, não posso construir algo complexo. Mas se eu te dou ferramentas mais complexas, podes chegar a formas de pensamento também mais complexas. Tem de haver um fundo que eu não posso cambiar ou interferir.
  

Mário Rufino
Póvoa de Varzim, 22 de Fevereiro 2014



publicado por oplanetalivro às 08:22

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