30
Dez 13
Soljenítsin e as cicatrizes do totalitarismo

Aleksandr Soljenítsin (1918-2008), escritor russo nascido em Kislovodsk - URSS, ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1970. A sua postura crítica sobre o esmagamento da liberdade individual pelo Estado omnipresente e totalitário implicou a expulsão do autor do país natal e a retirada da respectiva nacionalidade. Viria a regressar a casa, em 1994, após o desmantelamento da URSS. Parte essencial do drama na sua obra é o confronto entre o individual e o social. Em «”A Casa de Matriona” seguido de “Incidente na Estação de Kotchetovka”» (Sextante), o autor russo fragmenta a perspectiva, de forma a expor as suas dúvidas.
Na primeira ficção, «A Casa de Matriona», Ignátitch tem necessidade de sair do centro urbano e entrar num esconso local, longe da amálgama humana. A disformidade da condição individual motiva-o a afastar-se para observar e pensar. Ele precisa de reencontrar-se e reconhecer a essência da sua pátria, uma Rússia profunda, campestre, mas também muito pobre.

«À noite, quando Matriona já dormia e eu estava a trabalhar à mesa, o som da rara e breve corrida dos ratos sob o papel de parede era abafado pelo restolhar uniforme e incessante das baratas para lá da divisória, como o ruído distante do oceano. Esse rumorejar era a vida delas.» (pág. 19)
Uma vez na aldeia, é confrontado com obstáculos inesperados A organização social, hipoteticamente montada a pensar na libertação do indivíduo, é uma máquina burocrática e intolerante. O “Kolkhoz”, propriedade rural colectiva, é uma microssociedade estatal regulada e controlada por um presidente e respectivas forças de policiamento. O que seria uma organização para a libertação do homem, preso pelo capitalismo, transforma-se num grupo de autocontrolo, onde cada elemento é observado pelos restantes habitantes, formando, assim, um mecanismo social de (auto) censura.
Quando em pobreza, a diferença apresenta-se, para Ignátitch,  como simples de explicar:
«Ora pois, dantes [os camponeses] roubavam ao senhor, agora tiram a turfa ao Estado» (pág. 124)
A relação da pessoa, individual ou colectiva, com os bens é de avidez e acumulação, seja para subsistência ou riqueza. A perda, tal como é descrito na pág. 60, é considerada vergonhosa e estúpida. Mas Matriona é diferente. A pobre senhoria de Ignátitich sobrevive com dificuldade perante as adversidades climáticas, sociais e individuais. Ela é uma mulher que «tivera seis filhos e que tinham morrido todos, um após o outro, ainda muito pequenos, de tal modo que nunca teve dois vivos ao mesmo tempo». (pág. 36)
A complexidade desta personagem é surpreendente, e será esta complexidade a prender a atenção de Ignátitch. A análise sobre o indivíduo, e a sua problemática relação passiva com o poder, incidirá sobre Matriona, enquanto a análise social será sobre a aldeia. Tudo numa relação de interdependência. Matriona é o contraponto da ambição, pois «não se matava a trabalhar para comprar coisas e depois cuidar delas mais do que da sua vida». (pág. 64)
Já em «Incidente na estação de Kotchetovka» estamos perante a (auto) censura, novamente.
Zótov é um burocrata empenhado, mas com muitas e incomodativas dúvidas perante o avanço do exército alemão, durante a II Guerra Mundial. O colectivo impõe a (auto) censura ao indivíduo.
Zótov repete, para afastar o sentimento de culpa e o medo, versos ouvidos:
«Se a causa de Lenine assim morrer/ para que continuo eu a viver?» (pág. 74)
Ele não fala nem quer pensar. É uma tortura silenciosa. O sentido da sua vida está dependente da sua utilidade na Revolução. No momento crucial desta ficção, o peso do vínculo ao colectivo irá enfrentar a consciência de Zótov.
Tal como em «A Casa de Matriona», a construção da consciência individual e/ou colectiva é a essência deste texto. Interdependentes, elas são também contraditórias.
A excelência de Soljenítsin percebe-se, inclusivamente, na utilização de estratégias de narração demonstrativas da interrogação sobre os limites da ficção e da veracidade.
O estilo indirecto livre tem as características ideais para a simbiose entre o pensamento do autor, do narrador e personagens.
Soljenítsin utiliza a ficção, a realidade e o biografismo como matéria-prima na construção das suas obras literárias. Já o havíamos mencionado, quando escrevemos, no Diário Digital, a crítica literária a «Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch», também da Sextante.
Sobre «A Casa de Matriona», o escritor russo referiu-a como «autobiográfica e autêntica». A autenticidade do episódio contado em «Incidente na Estação de Kotchtovka» é destacada, também. Os acontecimentos narrados aconteceram em 1941 e foram noticiados nos jornais Nóvi Mir e Outubro.

Soljenítsin interroga, mesmo que não seja a sua principal intenção, as fronteiras entre a realidade e a ficção, entre o que é o facto e a respectiva interpretação /recriação. As palavras são a sua pele marcada com as cicatrizes do totalitarismo.



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28
Dez 13

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Hamsun: Uma ferida ainda aberta na Noruega


“Mistérios” (Cavalo de Ferro) dá a conhecer Johan Nagel, uma das mais complexas e marcantes personagens na obra de Knut Hamsun (1859-1952; Noruega).

A obra de Knut Hamsun é a essência da sua vida, desde a infância à velhice; desde o humanismo ao nazismo.
As suas palavras são o negativo dos seus imediatos antecessores.
A capacidade literária foi louvada por Gide, Mann e até Gorki. A postura política levou-o ao banco dos réus e a ser repudiado pela sua nação, a Noruega.
Knut Hamsun é um assunto mal resolvido pelo consciente colectivo do seu país. A sua complexidade como homem é visível na sua obra e na comparação da mesma com a sua vida.
Outrora visto como figura patriarcal, o autor viria a espalhar uma sombra muito negra sobre a sua escrita, pois foi um acérrimo defensor de Hitler (apelidou-o de “guerreiro e profeta da justiça para todas as nações”) e ofereceu, para escândalo de uma nação sofredora com a invasão alemã, a medalha de Nobel da Literatura a Goebbels.
O Homem e o Autor são duas entidades interdependentes, em maior ou menor grau. Em Hamsun (ou Céline, ou Soljenitsin) a autobiografia é indissociável da ficção; ele é Johan Nagel de “Mistérios” e é o jovem escritor em “Fome”.
Estes dois livros partilham a quintessência da psicologia hamsuniana: o desmantelamento da rede social formadora da psicologia de cada indivíduo. O autor opõe o homem incoerente, plural, complexo, modernista à visão de um homem uno e à visão social e moral de Ibsen.
O enredo, com todas as suas peripécias, é minimizado para dar lugar à evolução psicológica, à revelação, camada por camada, da construção psíquica de um individuo.
Os impulsos individuais, muitas vezes animalescos, confrontam a Moral, enquanto construção social. O homem regateia a sanidade mental na obscura fronteira entre a realidade e a irrealidade.
Hamsun procura encontrar o seu espaço, distanciar-se da sombra de outros grandes escritores.
A experiência do personagem de “Fome” encontra paralelismo com a experiência do indivíduo Knud Pedersen (nome de nascimento do escritor).
Knud Pedersen foi obrigado a ir viver com o tio, por causa das dívidas dos pais. Tinha 9 anos. A partir daí, a infância feliz foi substituída por períodos de violência física e emocional. Simultaneamente, tinha a possibilidade de aceder a obras literárias até ali impossíveis de serem por ele acedidas. A noção de complexidade psíquica, de ausência de maniqueísmos, começa, desta forma, muito cedo na sua vida. O tio tanto lhe causa sofrimento como lhe proporciona novas oportunidades.
O escritor está em formação.
Já jovem adulto, ele colecciona episódios de sofrimento, experimenta dificuldades e sofre humilhações.
Estes episódios serão transformados em mais do que património pessoal; serão transformados num dos principais monumentos literários da sua extensa obra: “Fome” (1890).
É este o livro onde consegue conciliar a coerência narrativa com o entendimento poliédrico do homem, sobre o homem e sobre a natureza. Do mais ínfimo detalhe, é realçada a beleza; da amargura e da dificuldade, é extraída a alegria.
Com “Mistérios” (1892), a editora Cavalo de Ferro consegue editar as mais importantes obras do autor: “Fome” (1890), “Pan” (1894) e “Victoria” (1898).
Dos quatro livros mencionados, os já referidos “Fome” e “Mistérios” conseguem romper com o rumo canónico de Ibsen e de Tolstoi. “Victoria”, um grande sucesso comercial, apresenta-se no século XXI como um livro datado na relação de forças com a contemporaneidade. “Victoria”, editado em 1898, é um retrocesso formal; é o início da saída do modernismo.
 “Mistérios” dá a conhecer Johan Nagel, uma das mais complexas e marcantes personagens na obra do autor.
O desconhecido Johan Nagel chega a uma cidade situada na costa da Noruega. Simultaneamente à sua chegada acontece uma morte misteriosa.
Aproveitando-se da amizade com Grogaard, a quem chamam “Anão”, e da sua própria ascensão social, Nagel vai expondo-se e expondo as idiossincrasias sociais e as dos habitantes daquela pequena cidade.
Depois, Nagel desaparece da cidade tão misteriosamente como entrou.
Com um enredo simples, “Mistérios” é um romance de personagens. A perspectiva narrativa incide sobre as diversas camadas psicológicas de Nagel. Em simultâneo, e de forma mais indirecta (perspectiva de Nagel, essencialmente), é exposta a identidade de cada habitante, sob a “face” social, e analisados os rituais sociais em que todos se envolvem. Mas a grande riqueza está precisamente na competência com que é conseguida a revelação da psique do personagem principal. O monólogo interior, o desdobramento de Johan Nagel, quando se debate com ele próprio, são estratégias narrativas reveladoras da capacidade literária deste incontornável escritor norueguês. Além disso, a constante miscigenação entre realidade e sonho (Freud explicaria, mas mais tarde) permite ampliar a autognose do personagem.
Nagel é um provocador e um manipulador inteligente.  Ele inventa-se, reinventa-se, e baralha as pessoas. Ele recria-se conforme as circunstâncias; muda de “face” conforme o papel a desempenhar. Mas nem tudo é sobre Nagel.
Hamsun aproveita para debater as diferenças literárias e filosóficas entre Maupassant, Ibsen, Tolstoi e Bjornsson. Numa reunião intimista em casa de Nagel (das págs. 160 a 180), os intervenientes mostram os seus argumentos a favor e contra os autores e suas criações. É o momento ideal para o autor norueguês vincar as suas diferenças perante o pensamento canónico da época.
Nesse debate entre amigos é ensaiada a filosofia hamsuniana sobre a literatura.
“Mistérios” é um marco importante na consolidação do modernismo na literatura europeia. Juntamente com “Fome”, “Mistérios” demonstra a capacidade literária de Knut Hamsun.
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11
Dez 13


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=673738

O fim de 2013 traz as inevitáveis listas de livros. Num ano de óptima colheita para a Literatura Portuguesa, tivemos o prazer de descobrir Valério Romão («Autismo» e «O-Da-Joana», ambos da Abysmo), Raquel Ribeiro («Este Samba no Escuro» da Tinta-da-China), Carlos Campaniço e de ver Carla Maia de Almeida arriscar e ganhar num campo literário um pouco diferente do habitual. Presenciámos o aparecimento da revista Granta portuguesa (Tinta-da-China), com novos valores literários entre consagrados. Valter Hugo Mãe voltou ao seu melhor, Afonso Cruz deu-nos um livro magnífico, e Gonçalo M. Tavares ainda consegue acrescentar qualidade à sua Obra ímpar. E houve mais…

«10 sugestões de leitura» é uma lista pessoal e transmissível.
Os critérios seguidos para a escolha desta lista são simples:
Escolhi 10 livros lidos (por mim) durante o ano de 2013. Depois, o critério optado foi o de só seleccionar livros sobre os quais escrevi. Como só escrevo sobre livros de que gosto, a tarefa ficou bem mais simplificada. O último filtro foi o de só escolher livros de ficção. E aqui foi bem mais difícil, pois obras como «Judeus Errantes» (Sistema Solar), de Joseph Roth, «Uma Coisa Supostamente Divertida que Nunca Mais Vou Fazer» (Quetzal), de David Foster Wallace e essa Obra Maior de Gonçalo M. Tavares intitulada «Atlas do Corpo e da Imaginação» (Caminho) tiveram de ser excluídas.

De entre os 10 escolhidos, há uma obra merecedora de todo o destaque: «Para Onde Vão os Guarda-Chuvas» (Alfaguara), de Afonso Cruz. É o Livro do Ano.
A responsabilidade da ausência, nesta lista, de autores como Thomas Mann, Soljenitsin e Hamsun deve-se a Afonso Cruz. A culpa é dele. A história de Fazal Elahi, Salim, Isa e Badini espalhou uma grande sombra sobre todas as outras histórias lidas. Inconscientemente, procurei estas personagens em «Contos» (Bertrand), do escritor alemão, em «A Casa de Matriona» (Porto Editora), do escritor russo, e em «Mistérios» (Cavalo de Ferro), do escritor norueguês. Não habitavam esses livros, claro. Tivessem estas obras sido lidas antes de «Para Onde Vão os Guarda-Chuvas», e talvez tivessem sido escolhidas.
Aqui ficam as sugestões.
Boas leituras!


«40 Histórias» (ANTÍGONA), de Donald Barthelme
Donald Barthelme (n.1931, Filadélfia), em «40 Histórias», explora o indefinível da literatura. O autor norte-americano, fundador do «Creative Writing Program» na Universidade de Houston, é considerado um dos escritores mais importantes do pós-modernismo. E ao iniciar-se a leitura de «40 Histórias» rapidamente se percebe a razão. A ousadia do autor na manipulação dos constituintes da narrativa breve, desde a estrutura ao recurso estilístico, é rara e consegue atingir a excelência. Barthelme parece fruir da decomposição do primado da estrutura. O autor contraria a viciada expectativa do leitor. Nos seus textos, ele surpreende-o com o imprevisível.

«A Desumanização» (PORTO EDITORA), de Valter Hugo Mãe
Valter Hugo Mãe (n. 1971; Saurimo, Angola) tem a coragem de se desnudar perante o leitor. As palavras são o espelho das suas emoções, das suas fundações psíquicas. O escritor põe o coração no texto. Em «A Desumanização, Halla, “a menos morta”, é uma menina islandesa cuja irmã gémea (Sigridur) faleceu muito nova. É pela sua voz que o leitor vai acompanhando a acção passada nos fiordes islandeses. Será ela a narrar, durante os dois a três anos após a morte da sua irmã, a decadência da família, as transformações do seu corpo, a ruptura com a infância, a luta pela individualidade, o desaparecimento da ingenuidade, e a dor, principalmente a dor causada pela perda. (…) Este livro mostra o autor no seu melhor. O leitor está perante uma das ficções mais intensas da obra ficcional de Valter Hugo Mãe.



«A Casa com Alpendre de Vidro Cego» (ARKHEION), de Herbjorg Wassmo
«Ela não sabia ao certo quando se apercebera daquilo: do perigo.» (pág. 5) E assim começam as aventuras e desventuras de Tora. A Trilogia de Tora inicia-se com «A Casa com Alpendre de Vidro Cego», da escritora norueguesa Herbjorg Wassmo (1942; Vesteralen, Noruega). A trilogia é continuada com «O Quarto Silencioso» (1983) e finalizada com «Céu Doloroso» (1986). Apesar de ser a primeira parte desta trilogia, «A Casa com Alpendre de Vidro Cego», traduzido por João Reis, tem qualidade suficiente para subsistir como criação literária independente dos consequentes livros. Herbjorg Wassmo consegue seduzir o leitor a conhecer o destino de Tora, uma complexa e bem construída personagem literária.

«A Luz é mais Antiga que o Amor» (ASSÍRIO & ALVIM), de Ricardo Menéndez Salmón
Ricardo Menéndez Salmón (n.1971, Gijon), autor de «A Ofensa», «Derrocada» e «O Revisor» (conhecida como a «Trilogia do Mal»), surpreende o leitor com uma obra que interroga as fronteiras dos géneros literários. «A luz é mais antiga que o amor» procura a simbiose entre o ensaio e a ficção. O autor dividiu o texto em duas situações ficcionadas e uma real. Em 1350, a Europa é dizimada pela Peste Negra. Beaufort, futuro Papa Gregório XI, obriga Adriano de Robertis a destruir a blasfema «Virgem Barbuda». Em 1970, Mark Rothko corta os pulsos. O seu suicídio é o culminar de dramáticos acontecimentos na sua vida pessoal. A sua obra, principalmente o domínio da ausência, a tentativa de capturar o vazio, através da inexistência de luz nas suas pinturas, é a revelação do interior do pintor. Em 2001, Vsévold Semiasin escreve uma carta explicando a sua loucura. O leitor está perante a ruptura com a normalidade. A homogeneização entre os textos é entregue à geografia (Sansepolcro), a uma obra de arte («Virgem Barbuda») e, principalmente, ao tema. O que mais importa salientar não é o binómio realidade/ficcionalidade. «A luz é mais antiga que o amor» é um texto especulativo, pois baseia-se na possibilidade. Umas situações são reais, outras são fictícias, mas todas são possíveis.



«Emigrantes» (CAVALO DE FERRO), de Ferreira de Castro
«Emigrantes» mantém, em 2013, a contemporaneidade e a pertinência temática, apesar da sua primeira publicação ter sido em 1928. (…)
A literatura não tem obrigação de lutar nem de salvar ninguém. A literatura não tem de estar vinculada a qualquer «– ismo». Não tem, mas pode. Ferreira de Castro (n. Oliveira de Azeméis; 1898-1974), escritor e jornalista, é considerado um dos precursores do neo-realismo. A sua produção literária é declaradamente combativa e«engagé». «Emigrantes» marca o início da edição de toda a obra ficcional de Ferreira de Castro, pela Editora Cavalo de Ferro. A ideologia subjacente à prosa de «Emigrantes» é motivo e assunto na construção do respectivo romance. O autor declara-os no Pórtico (prefácio): «O problema da emigração não é, porém, um problema-causa, mas consequência de outro mais vasto e mais profundo. Assim, sob a forma do primeiro, o nosso romance pretende dar a essência do segundo». Pág.10

«Homer & Langley» (PORTO EDITORA), de E. L. Doctorow
Homer e Langley, personagens do romance de E. L. Doctorow (n.1931, Bronx), são motivo de interesse desde há décadas devido às peculiaridades das suas existências (e desistências).
O autor norte-americano, vencedor do National Book Award com «World’s Fair», do PEN/Faulkner prize e do National Book Critics Circle Award com «Billy Bathgate» e «The March», ficcionou a extraordinária existência dos irmãos Collyer. A vida de Homer Lusk Collyer (n.1881) e a de Langley Wakeman Collyer (n.1885), irmãos criados numa família abastada, acompanharam importantes alterações sociais, económicas e políticas nos Estados Unidos da América na passagem do século XIX para o século XX. As suas vidas viriam a terminar de forma tão bizarra quanto foram vividas.


«Irmão Lobo» (PLANETA TANGERINA), de Carla Maia de Almeida 

A falência de uma família, sobrecarregada com dívidas e castigada pelo desemprego, é dramática. Quando a mesma família é composta por um filho adolescente, uma filha quase adolescente e uma menina ainda criança, além do pai e da mãe, então o dramatismo intensifica-se.
Carla Maia de Almeida (n. 1969, Matosinhos), no seu 6º livro, utiliza este cenário tão contemporâneo na construção de uma narrativa que incomoda e contraria o comodismo do leitor. Ao contrário do que se possa supor, «Irmão Lobo», editado pela Editora Planeta Tangerina, não é um livro infantil. «Irmão Lobo» é um livro sobre o amargo mundo dos adultos visto através da perspectiva fantasista e doce de uma criança. «Bolota», a filha mais nova, conta a lenta destruição da sua família, utilizando, para tal, dois tempos paralelos (passado próximo e passado mais distante) que virão, perto do fim do livro, a juntar-se. Os diferentes tempos são bem geridos pela autora, pois esta estratégia clarifica acções e intensifica os aspectos emocionais. Se tal não bastasse, a produção gráfica do livro denota o cuidado em ajudar o leitor na descodificação do enredo: páginas azuis para o passado mais recente; páginas brancas para o passado mais distante.



«Mais um Dia de Vida - Angola 1975» (TINTA-DA-CHINA), de Ryszard Kapuœciñski 
Ryszard Kapuœciñski (1932, Pinsk-2007, Varsóvia), escritor e jornalista polaco, testemunhou diversas revoluções e momentos decisivos da história contemporânea (queda dos impérios coloniais, por exemplo) de diversos países (Bolívia, Chile, Angola…). No entanto, a sua obra não se resume às reportagens de guerra; ele foi, também, um ficcionista. Kapuœciñski era um jornalista com imaginação de escritor. Foi com obras como «The Emperor: Downfall of an Autocrat», «Shah of Shahs», ou «Imperium» que se tornou célebre como jornalista e ficcionista. Uma das questões que uma obra como «mais um dia de vida - angola 1975» (Tinta-da-China) impõe é, precisamente, sobre a fronteira entre o facto e o fingimento.


«Os Demónios de Álvaro Cobra» (TEOREMA), de Carlos Campaniço

Carlos Campaniço (n. 1973, Moura) construiu um extraordinário universo literário, onde cintilam personagens memoráveis. «Os demónios de Álvaro Cobra», editado pela Teorema, é um livro que merece toda a atenção dos leitores e da crítica literária. Medinas, a fictícia aldeia alentejana onde habita a família Cobra, só tem uma porta de entrada e outra de saída. Nela se entra pela primeira página do livro, dela se sai pela última página. Não há mapa que a indique. Dentro dessa aldeia de pagãos, novos cristãos e judeus, o importante peso da igreja católica na moral é inferior à superstição, aos costumes e aos mitos ancestrais. Por lá passam um anarquista que ensina a escrever e a ler, uma prostituta, dona de um bordel, que deseja casar as suas «meninas» com os homens mais ricos, uma cadela que adivinha o tempo, um pássaro que canta, sem nunca errar, em sincronia com a hora exacta e grifos e mais grifos… Enquanto visita esse maravilhoso ambiente criado por Carlos Campaniço, o leitor vai conhecendo as estranhas peculiaridades de cada membro da família Cobra, principalmente de Álvaro.



«Para Onde Vão os Guarda-chuvas» (ALFAGUARA), de Afonso Cruz (LIVRO DO ANO)
Por vezes, somos deslumbrados por um livro que nos faz sentir pequenos. «Para onde vão os guarda-chuvas» (Alfaguara) é um dos mais belos livros que li nos últimos anos. Baseando-se num episódio passado com Gandhi, Afonso Cruz (1971; Figueira da Foz) recria uma história tão pura quanto isto: um muçulmano (Fazal Elahi) vê o seu filho (Salim) ser assassinado por soldados americanos. Ele não consegue suportar a dor pela perda do filho. Decide oferecer a sua fortuna (fábrica de tapetes) a quem o ajudar a acabar com esse sofrimento. A solução é apresentada por um hindu (Nachiketa Mudaliar): adoptar uma criança americana. Fazal Elahi parte à procura de pacificação. Ele precisa de se completar. São 620 páginas de procura da bondade pela bondade, do perdão pelo perdão, sem recompensa nem retribuição além do acto em si. Desta forma, a ligação entre tudo e todos poderá ser o mais pura possível.


publicado por oplanetalivro às 09:56
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03
Dez 13

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=671631

António Guerreiro: “Gonçalo M. Tavares vale por uma literatura inteira”


Um livro apresentado numa livraria. Um livro em casa.
A Leya Buchholz (Duque de Palmela) foi o local escolhido para o lançamento de “Atlas do Corpo e da Imaginação” (Caminho), escrito por Gonçalo M. Tavares (1970) e com colaboração do grupo de arquitectos/artistas “Os Espacialistas”, na passada tarde de quinta-feira, 28 de Novembro.
António Guerreiro (crítico literário) e Delfim Sardo (docente universitário e ensaísta em Arte e Arquitectura) apresentaram a obra.
Depois de uma breve introdução por Zeferino Coelho, editor da Caminho, António Guerreiro partilhou a sua interpretação, demonstrando o entusiasmo sentido e o seu conhecimento sobre literatura.
Num discurso laudatório, António Guerreiro adjectivou o livro de “objecto singular com um título excepcional”.
A transversalidade da criação do escritor português levou o crítico literário a afirmar que Gonçalo M Tavares “vale por uma literatura inteira”, pois abarca todos os géneros literários, existentes ou ainda em potência.

“ «Atlas do Corpo e da Imaginação» é uma obra de arte total”.
O livro concede a liberdade de ser começado por onde o leitor quiser. O objecto de reflexão é o próprio pensamento: “o que significa pensar?”
O leitor é desafiado a acompanhar o raciocínio sobre a própria linguagem. Esta obra de não-ficção torna visual o pensamento.
Tendo Wittgenstein como figura tutelar, “Atlas do Corpo e da Imaginação” aborda a passagem do físico (mão, por exemplo) à intangibilidade do pensamento na escrita (ou linguagem numa forma mais abstracta).
Por sua vez, Delfim Sardo interpretou o texto como um campo aberto de possibilidades. Há a demanda pela anterioridade: ao logos, à carne, ao pensamento, à linguagem.
A textualidade presente é a de um trabalho filosófico com uma intensidade e espessura como raramente se tem visto na contemporaneidade.
Delfim Sardo aponta vários aspectos essenciais, quando se refere ao pensamento/filosofia existente no texto: a metáfora como processo; a metáfora como método cognitivo e a possibilidade estética.
É um livro com várias camadas de interpretação, pois a ligação entre texto, fotografias, legendas e notas pode efectivar-se em várias combinações.
A relação entre o ponto de vista moral e o ponto de vista mecânico (mundo/cidade e corpo) é essencial na obra do autor português.
“Os Espacialistas” têm um papel no aprofundamento desta relação entre pensamento e espaço. Tanto para António Guerreiro como para Delfim Sardo, o trabalho de “Os Espacialistas” é espantoso.
Por fim, e de forma muito breve, o escritor finalizou a apresentação do seu próprio livro, falando sobre as dificuldades da concretização deste projecto, “fisicamente violento”, e nas muitas ideias nascidas ao ouvir os seus convidados falar sobre as respectivas leituras.


publicado por oplanetalivro às 14:02


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Raramente o leitor tem possibilidade de presenciar o aparecimento de um autor capaz de fazer sobressair a sua voz no meio das suas respectivas influências.
Um escritor capaz de se inscrever na realidade começa por ser um excelente leitor. Ele é, essencialmente, um recriador. Steiner (figura central no pensamento do escritor português) afirma, em “Gramáticas da Criação”, a inexistência de inícios. “Já não temos começos”, disse. É possível.
A mortalidade leva-nos a pensar no inevitável submergir do ser humano no esquecimento. Provavelmente todos seremos esquecidos pelos nossos pares.
Mas estas possibilidades ficam suspensas quando entramos no universo de Gonçalo M. Tavares. Durante a leitura dos seus livros, o leitor é levado a acreditar na reduzida, se houver, possibilidade de estar perante o começo de uma memória perene.  
O autor de “Jerusalém”, ou “Uma Viagem à Índia”, terá captado o essencial das suas leituras. A partir dessas bases, ele chama à sua escrita todas as influências presentes em si. Sentimos a presença de outras vozes (Robert Walser, Barthelme, Örkény, Steiner, Wittgenstein, Deleuze, Llansol, Arendt…) manifestando-se e tentando emergir. E aqui, etapa onde a maioria se vê esmagada pela sombra dos canónicos, o autor português faz-se ouvir. Muitas das suas influências são a sua sombra, pois ele as suplantou.

Há escritores que informam, entretêm e até promovem a fruição dos seus textos. Depois, há os que se inscrevem, no sentido referido por José Gil, na realidade dos leitores ou mesmo na identidade de uma sociedade.
O relevo dado à sua escrita ganha fulgor quando a comparamos com a dos escritores portugueses já consagrados pelo público e pela crítica. Ele é autor “forte”, no conceito bloomiano, entre muita qualidade. A literatura portuguesa tem a excelência de Mário de Carvalho, Agustina Bessa-Luís, Hélia Correia… e tem a de Gonçalo M. Tavares.
A adjectivação à sua obra tem sido profícua. O reconhecimento com prémios também. A Literatura Portuguesa ganhou um importante difusor da importância por si conquistada há séculos. Uma das línguas mais faladas do mundo tem um invulgar representante na conquista de leitores desrespeitadores das falsas fronteiras da literatura. A receptividade por parte do público e crítica também o confirma. Os seus livros estão traduzidos em 45 países; ganharam prémios em França (Prix du Meilleur Livre Étranger 2010; Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010; Prix Littéraire Européen 2011), Itália (Premio Internazionale Trieste Poesia 2008, Sérvia (Prémio Belgrado 2009), Brasil (Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011), em vários géneros literários – narrativas curtas, poesia, ensaio, romance.
Para “The New Yorker”, “Gonçalo M. Tavares é um escritor diferente de tudo o que lemos até hoje”. Saramago disse haver um antes e um depois do aparecimento de Tavares. Hélia Correia adjectivou “Jerusalém” de sublime e “se nada mais aparecer durante o século XXI, ela [obra] já preenche os cem anos”. Para “The Times Literary Supplement”, “a notoriedade de Tavares em breve será global”. E poderíamos continuar…
A sua prosa tem características invulgares.

A denotatividade da frase é posta em causa. Cada palavra é uma interrogação. Com uma construção simples, muitas vezes mantendo-se na organização sujeito-verbo-objecto, a frase tem muitas camadas e sentidos, dificultando a assimilação numa primeira leitura.
O ritmo imposto é enganador. O leitor tem de voltar atrás. Deve reler e reler. A literariedade dos textos assim obriga.
A literatura de Gonçalo M. Tavares não se vincula a nada além de si mesma. Não tem reivindicações nem causas. Não batalha por direitos sociais. Sustenta-se no melhor em si construído: um universo literário criador de uma realidade paralela. O autor não procura o ambiente do leitor em busca de pontos de contacto, de empatia. Não. O leitor é aliciado a habitar um novo universo.
Neste universo, a dialéctica entre o corpo, o pensamento e o espaço é crucial. O corpo conta como no mundo visível; o corpo indica o interior ou exterior, a afirmação ou a negação, o estar perto e o estar longe. O espaço define-se em relação ao corpo de quem o analisa. A conjugação entre o pensamento (incorpóreo) e a matéria visível mostra a impossibilidade de se afastar a filosofia do corpóreo.
A visão depende do movimento, de para onde se olha. A realidade física estimula o pensamento, excita os sentidos, e promove o exercício criativo e comunicativo. A abstracção depende da posição do corpo. A desfragmentação do indivíduo, enquanto ser pensante, tem limites.

“Atlas do Corpo e da Imaginação”é, além do muito por si e em si representado, uma chave de leitura na descodificação da ficção e não-ficção da obra do seu autor. A sua natureza permite abrir a textualidade da série “O Reino” e da colecção “O Bairro”, por exemplo, ao entendimento. A fruição por parte do leitor é exponenciada. Há um antes e um depois desta obra de não-ficção do escritor português. O conhecimento da textualidade em Gonçalo M Tavares será mais profundo depois da leitura/releitura do livro apresentado por António Guerreiro e Delfim Sardo.
 Este singular objecto literário interroga-nos, espanta-nos.
Segundo Steiner, mencionado na pág. 025 (entre tantas outras menções), “ a fonte do pensamento genuíno é o espanto, espanto por, e perante o ser. O seu desenvolvimento é essa cuidada tradução do espanto em acção que é o questionar”

Interrogar é activar esse espanto, esse deslumbramento.
Gonçalo M Tavares é um ser espantoso; é alguém surgido das suas influências, como tudo e todos, como um deslumbrante fruto de combinações intelectuais e sensitivas.
É um grande escritor ainda com algo para dar, em potência, e portador da capacidade de deslumbrar, de interrogar…de espantar.


Mário Rufino

Mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 14:00

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