23
Nov 13
Thomas Mann: um gigante a analisar o detalhe.


Thomas Mann (Lübeck, 1875 - 1955), autor de “Doutor Fausto” (1947), “A Montanha Mágica” (1924), “Morte em Veneza” (1912), e “Tonio Kröger” (1903), tem em “Contos” (Bertrand) um exemplo da sua capacidade de prosador.
Esta colectânea de narrativas curtas do autor alemão, nobelizado em 1929, compreende o período entre 1896 (“Desilusão”) e 1925 (“Alvoroço e mágoa prematura”). Na sua composição existem ficções tão marcantes como “O Pequeno senhor Friedemann” (1897), “Tobias Mindernickel” (1897), “Tristão” (1903), “Gladius Dei” (1902),“Alvoroço e mágoa prematura” (1925).
 “Contos”, (título original: “Herr und Hund”), apresenta um conjunto heterogéneo de narrativas breves. Aliás, esta heterogeneidade permite afirmar que a formalização dos textos presentes não se resume a contos. Tanto a estrutura como o conteúdo e a extensão vão desde as narrativas mais breves até às novelas. Assim sendo, o conteúdo do livro é muito mais rico do que o título pressupõe.
No aspecto formal, as dificuldades impostas pelas características das narrativas breves dão menos liberdade a um escritor. A captura do efémero, de uma particularidade de um acontecimento, não incentiva o desenvolvimento da acção ou do aprofundamento das singularidades das personagens. Tudo tem de ser mais sucinto. Thomas Mann sabe disso e não se inibe de o partilhar com o leitor:
“Era um cachorro único, valia ouro, recreava verdadeiramente os olhos; mas, com pena nossa, não é para aqui chamado, pelo que temos de o deixar de lado.” Pág. 111
A heterogeneidade formal de “Contos” é base para a temática já presente em “Tonio Kröger” ou “Morte em Veneza” para citar somente dois exemplos: A dialéctica entre a vida e a morte, a relação entre a Arte e a Moralidade, a produção e recepção da arte, o confronto estético entre a beleza e a mortalidade/decadência, etc.
Thomas Mann (Lübeck, 1875 - 1955), autor de “Doutor Fausto” (1947), “A Montanha Mágica” (1924), “Morte em Veneza” (1912), e “Tonio Kröger” (1903), tem em “Contos” (Bertrand) um exemplo da sua capacidade de prosador.
Esta colectânea de narrativas curtas do autor alemão, nobelizado em 1929, compreende o período entre 1896 (“Desilusão”) e 1925 (“Alvoroço e mágoa prematura”). Na sua composição existem ficções tão marcantes como “O Pequeno senhor Friedemann” (1897), “Tobias Mindernickel” (1897), “Tristão” (1903), “Gladius Dei” (1902),“Alvoroço e mágoa prematura” (1925).
 “Contos”, (título original: “Herr und Hund”), apresenta um conjunto heterogéneo de narrativas breves. Aliás, esta heterogeneidade permite afirmar que a formalização dos textos presentes não se resume a contos. Tanto a estrutura como o conteúdo e a extensão vão desde as narrativas mais breves até às novelas. Assim sendo, o conteúdo do livro é muito mais rico do que o título pressupõe.
No aspecto formal, as dificuldades impostas pelas características das narrativas breves dão menos liberdade a um escritor. A captura do efémero, de uma particularidade de um acontecimento, não incentiva o desenvolvimento da acção ou do aprofundamento das singularidades das personagens. Tudo tem de ser mais sucinto. Thomas Mann sabe disso e não se inibe de o partilhar com o leitor:
“Era um cachorro único, valia ouro, recreava verdadeiramente os olhos; mas, com pena nossa, não é para aqui chamado, pelo que temos de o deixar de lado.” Pág. 111
A heterogeneidade formal de “Contos” é base para a temática já presente em “Tonio Kröger” ou “Morte em Veneza” para citar somente dois exemplos: A dialéctica entre a vida e a morte, a relação entre a Arte e a Moralidade, a produção e recepção da arte, o confronto estético entre a beleza e a mortalidade/decadência, etc.
O período abrangido pelas ficções deste livro permite ao leitor aproximar-se do fascínio de Thomas Mann por Schopenhauer, Nietzsche, Wagner, Goethe e Durer. Ao longo dos anos, outros nomes se juntaram às influências filosóficas e literárias de Mann, tais como Tolstoi, Rousseau, Schiller, por exemplo.
O mundo criativo de Mann, composto pela simbiose entre filosofia, biografia e autobiografia, tem o seu eixo na intertextualidade entre os autores mencionados. Se em “Buddenbrook”,a influência de Schopenhauer é muito visível, já em “Tonio Kröger” e, principalmente, em “Doutor Fausto” é Nietzsche que tem uma influência fulcral.
Em “Contos”,a influência filosófica destes autores mantém-se tão importante como em “Tonio Kröger”, “Morte em Veneza” ou “A Montanha Mágica”.
As personagens têm características físicas que estão ligadas a aspectos psicológicos, ou a acontecimentos que os marcaram emocionalmente. (“Luisinha”, “O Caminho para o cemitério”, “O pequeno senhor Friedemann”, “Tobias Mindernickel”…).
Os aspectos autobiográficos são visíveis, por exemplo, em “O Comediante”, onde o personagem demonstra a sua maior proximidade à mãe em detrimento do pai, tal qual aconteceu como Thomas Mann. Numa narrativa mais psicológica do que descritiva, o personagem de “O comediante” partilha o diletantismo, o epicurismo e a inadaptação com Friedemann (“O pequeno senhor Friedemann”).
Em “Tristão”, um triângulo amoroso é resolvido quando a mulher toca “Liebestod” (Amor-Morte”), de “Tristão e Isolda”, ópera composta por Wagner, para o pretendente.
O anti-social e assexuado Spinell (pretendente) virá a reclamar a alma de Gabriele Kloterjahan, deixando, segundo ele, a posse do corpo para Anton, o marido.
Filosofia, música e biografismo. O burguês versus o artista, a alma versus a carne, a vida versus a morte. Tudo em “Tristão”.
 
Cada texto de Thomas Mann tem várias camadas. São construções complexas e remetem para outros autores, outras obras e diferentes épocas da vida do autor. Essas épocas foram de uma brutalidade inigualável na História da Humanidade, pois abrangeram a 1ª e a 2ª Guerra Mundial.
Será a 2ª Guerra Mundial a provocar o afastamento do Nobel da Literatura do compositor Wagner e do filósofo Nietzsche. E do seu país, também. Tornar-se-ia cidadão americano em 1939.
“Contos” colige ficções importantes na evolução do cidadão e escritor Thomas Mann.
O período abrangido pelas ficções deste livro permite ao leitor aproximar-se do fascínio de Thomas Mann por Schopenhauer, Nietzsche, Wagner, Goethe e Durer. Ao longo dos anos, outros nomes se juntaram às influências filosóficas e literárias de Mann, tais como Tolstoi, Rousseau, Schiller, por exemplo.
O mundo criativo de Mann, composto pela simbiose entre filosofia, biografia e autobiografia, tem o seu eixo na intertextualidade entre os autores mencionados. Se em “Buddenbrook”,a influência de Schopenhauer é muito visível, já em “Tonio Kröger” e, principalmente, em “Doutor Fausto” é Nietzsche que tem uma influência fulcral.
Em “Contos”,a influência filosófica destes autores mantém-se tão importante como em “Tonio Kröger”, “Morte em Veneza” ou “A Montanha Mágica”.
As personagens têm características físicas que estão ligadas a aspectos psicológicos, ou a acontecimentos que os marcaram emocionalmente. (“Luisinha”, “O Caminho para o cemitério”, “O pequeno senhor Friedemann”, “Tobias Mindernickel”…).
Os aspectos autobiográficos são visíveis, por exemplo, em “O Comediante”, onde o personagem demonstra a sua maior proximidade à mãe em detrimento do pai, tal qual aconteceu como Thomas Mann. Numa narrativa mais psicológica do que descritiva, o personagem de “O comediante” partilha o diletantismo, o epicurismo e a inadaptação com Friedemann (“O pequeno senhor Friedemann”).
Em “Tristão”, um triângulo amoroso é resolvido quando a mulher toca “Liebestod” (Amor-Morte”), de “Tristão e Isolda”, ópera composta por Wagner, para o pretendente.
O anti-social e assexuado Spinell (pretendente) virá a reclamar a alma de Gabriele Kloterjahan, deixando, segundo ele, a posse do corpo para Anton, o marido.
Filosofia, música e biografismo. O burguês versus o artista, a alma versus a carne, a vida versus a morte. Tudo em “Tristão”.

Cada texto de Thomas Mann tem várias camadas. São construções complexas e remetem para outros autores, outras obras e diferentes épocas da vida do autor. Essas épocas foram de uma brutalidade inigualável na História da Humanidade, pois abrangeram a 1ª e a 2ª Guerra Mundial.
Será a 2ª Guerra Mundial a provocar o afastamento do Nobel da Literatura do compositor Wagner e do filósofo Nietzsche. E do seu país, também. Tornar-se-ia cidadão americano em 1939.
“Contos” colige ficções importantes na evolução do cidadão e escritor Thomas Mann.

ContosContos by Thomas Mann
My rating: 3 of 5 stars

Texto sobre "Contos" (Bertrand), de Thomas Mann (Diário Digital)
Thomas Mann: um gigante a analisar o detalhe.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...


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http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1929/mann-bio.html
publicado por oplanetalivro às 17:04

14
Nov 13

«A Casa com Alpendre de Vidro Cego»: O insustentável peso da vergonha



“Ela não sabia ao certo quando se apercebera daquilo: do perigo.” (pág. 5) E assim começam as aventuras e desventuras de Tora. A Trilogia de Tora inicia-se com “A Casa com Alpendre de Vidro Cego” (ARKHEION), da escritora norueguesa Herbjorg Wassmo (1942; Vesteralen, Noruega). A trilogia é continuada com “O Quarto Silencioso” (1983) e finalizada com “Céu Doloroso” (1986).

Apesar de ser a primeira parte desta trilogia, “A Casa com Alpendre de Vidro Cego”, traduzido por João Reis, tem qualidade suficiente para subsistir como criação literária independente dos consequentes livros. Herbjorg Wassmo consegue seduzir o leitor a conhecer o destino de Tora, uma complexa e bem construída personagem literária.
Tora suporta o peso de uma culpa alheia. O medo e o remorso castigam-na e retiram-lhe a possibilidade de ser criança. Ela é obrigada a crescer demasiado depressa. A analogia que a personagem faz com um gato que fora apanhado por um cão é sintomática do que sente: A culpa tinha de ser do gato – porque ninguém era seu dono e tomava conta dele.
Ele incomodava de tal maneira as pessoas que o esfolaram. Incomodava de tal maneira os cães que o arrastaram pela merda. Era assim que era. Fora decidido por alguém há muito tempo. Não havia como escapar” Pág. 75 Filha de mãe norueguesa, Ingrid, e de um soldado alemão, destacado para a Noruega quando a Alemanha ocupava o território, Tora não consegue ultrapassar o ónus da vergonha e a acidez do ódio.
A vergonhosa relação da mãe com o inimigo está sempre presente na memória dos habitantes daquela aldeia do norte da Noruega. Ingrid foi apanhada, sem nunca mais se libertar, pelo julgamento moral da população. Ela vive como uma condenada, desligada de si própria e da sua filha. Sem nunca ter conhecido o pai, Tora é obrigada a suportar um padrasto alcoólico, irascível e constantemente desempregado. A mãe, muito ausente pela necessidade de trabalhar dia e noite, nunca está para impedir os constantes abusos do seu marido, Henrik. Quem deve proteger espalha o medo e a vergonha.
“Se, de repente, ele entrava numa divisão onde ela estava sozinha, Tora sentia-se como se alguém lhe atirasse um pano sujo e peganhento para cima” Pág. 66
Henrik, já destruído pela imoralidade e alcoolismo, e a mãe, que parece destruída pelo tempo, são agentes activo e passivo na destruição de Tora.  A decadência individual, tanto no aspecto moral como no físico, está intrinsecamente ligada, como é habitual na literatura nórdica, ao meio envolvente. O clima e a inóspita paisagem têm influência directa no enredo e na caracterização das personagens. O desemprego, nesta aldeia que sobrevive da pesca, é um flagelo social. O indivíduo é cercado pela impossibilidade de uma vida melhor. A pobreza e consequente degradação são dominantes. A sociedade onde Tora cresce é um informal matriarcado.
Apesar de ser uma mulher dominada pela passividade e pela amargura, é Ingrid que sustenta a sua casa. Quando Rakel, tia de Tora, vê o seu calmo e paciente marido sucumbir perante as adversidades, não deixa de assumir as responsabilidades e iniciar a recuperação. É precisamente Rakel que constrói um porto seguro para Tora. Tudo o que a criança sabe sobre o seu pai é contado por Rakel. É em sua casa que a criança se sente segura. Apesar da idealização da figura paternal e das características afáveis de Simon, marido de Rakel, a figura feminina assume-se como pilar familiar e social. A força está na mulher. Tora sente isso, e Rakel sabe que assim é. Só falta Ingrid descobrir.
“A Casa com Alpendre de Vidro Cego” é um exemplo de que o texto literário não tem de ser obscuro nem composto por uma estrutura intrincada. A riqueza do romance de Herbjorg Wassmo está, precisamente, na clareza da sua prosa, na complexidade psicológica das personagens e no realismo do retracto social de uma aldeia pobre moral e estruturalmente. Deste valor literário sobressai a maior conquista da escritora norueguesa: Tora, a resiliente.

publicado por oplanetalivro às 17:08

04
Nov 13
Kapuściński : Um jornalista com alma de escritor.

Ryszard Kapuściński (1932, Pinsk-2007, Varsóvia), escritor e jornalista polaco, testemunhou diversas revoluções e momentos decisivos da história contemporânea (queda dos impérios coloniais, por exemplo) de diversos países (Bolívia, Chile, Angola…). No entanto, a sua obra não se resume às reportagens de guerra; ele foi, também, um ficcionista. Kapuściński era um jornalista com imaginação de escritor. Foi com obras como “The Emperor: Downfall of an Autocrat”, “Shah of Shahs”, ou “Imperium” que se tornou célebre como jornalista e ficcionista.
Uma das questões que uma obra como “mais um dia de vida - angola 1975” (Tinta-da-China) impõe é, precisamente, sobre a fronteira entre o facto e o fingimento.
O leitor tem a possibilidade de aceder a um documento importante sobre o período transitório de Angola de colónia portuguesa para nação independente. Até que grau o documento está somente vinculado aos factos é uma incógnita. A partir de quando, ou onde, é que o autor “desliza” para o fingimento é quase impossível de detectar. Kapuściński parece optar, por vezes, pela literariedade em detrimento da informação factual.  
Para escrever sobre esse conturbado período de Angola, o jornalista sai do conforto da redacção e vai para Luanda. No seu entender, “é incorrecto escrever sobre as pessoas sem passar pelo menos um pouco pelo que elas estão a passar” Pág. 84.
Por este motivo, o autor experiencia o quotidiano citadino de Luanda e a frente de combate para relatar, por telex, as suas experiências para a redacção, em Varsóvia.
Quando chega ao território africano, o autor polaco depara-se com o caos.
Há falhas de água, de electricidade e de saneamento básico. Os boatos percorrem as ruas de Luanda, alimentando o medo, a violência e, em consequência, a convulsão social. A corrupção domina o quotidiano dos habitantes.

Não se sabe quem controla o quê. Ao longo do país, existem vários postos de controlo que denunciam quem domina (FNLA? MPLA? UNITA?), mas o viajante só sabe quando lá chega.
“ Se as sentinelas forem pessoal de Agostinho Neto [MPLA], que se saúdam entre si com a palavra camarada, sairemos dali com vida. Mas se forem pessoal de Holden Roberto [FNLA] ou de Jonas Savimbi [MPLA], que se tratam por irmão, teremos chegado ao fim da nossa existência terrena.” Pág. 67
Além dos postos militares, existem outros montados por camponeses ou povos nómadas que procuram, simplesmente, defender os seus rebanhos.
É uma guerra de guerrilha, sem quartel, que passará, pouco tempo depois, a regular. Muitos interesses se movimentam dentro do território: há movimentações russas, cubanas, sul-africanas. Angola é um país rico povoado por gente pobre.
A perspectiva de Ryszard Kapuściński sobre uma capital em convulsão, fermentando no próprio medo, é demonstrativa da simbiose entre ficção e descrição factual.
A narração dos boatos e da transferência do interior da cidade de pedra para a cidade de madeira (caixotes), demonstrando as diferenças sociais e materiais entre habitantes, é exemplar para a avaliação da qualidade literária desta obra.
Segundo os dados disponibilizados pelo autor, no período em que viveu os acontecimentos narrados, Angola, “A Mãe Negra do Novo Mundo”, era dos países menos densamente povoados do planeta. A sua área equivalia a 14 vezes Portugal. Foi muito utilizado como país de exportação de escravos durante 3 séculos. O analfabetismo era de 90 %. A população dividia-se em mais de 100 tribos.
Angola era um território fragmentado em clãs e cujas fronteiras existiam nas línguas. Era um país que só existia no mapa.
“Mas eles [tribos] não sabem que este país se chama Angola. Para eles, a terra termina na última vila onde as pessoas falam uma língua que eles entendem. Essa é a fronteira do seu mundo. Mas, perguntámos nós, o que há para além dessa fronteira? Para lá dessa fronteira, há um outro planeta habitado pelos nganguelas, que significa não-humanos. Tem de se ter cuidado com esses nganguelas, porque são muitos e usam uma língua incompreensível que oculta os seus maus intentos.”
Durante séculos, Angola foi um território, segundo o autor, martirizado por guerras conduzidas pelos portugueses que buscavam as riquezas (incluindo escravos) do território.
Aliás, Kapuściński é muito duro na sua análise da presença portuguesa em território angolano:
“Ao longo de vários séculos, Portugal canalizou os seus melhores elementos para o Brasil, os piores para Angola. Angola era uma colónia penal, o lugar para onde era deportado todo o tipo de criminosos e de párias, todos os que estavam nas margens da sociedade. (…) A mediocridade dos colonos contribuiu para que Angola se tornasse um dos países africanos mais atrasados.” Pág. 178
Esta tensão, chamemos-lhe assim, ainda está presente nas relações políticas e culturais entre Portugal e Angola. Podemos verificar isso mesmo com o episódio do cancelamento do programa “Reencontro” (Antena 1), com a edição de “Diamantes de Sangue” (Tinta da China), de Rafael Marques, e com o episódio protagonizado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Machete, nestes primeiros dias de Outubro de 2013.
A edição da Tinta-da-China vem enriquecida com um prefácio do escritor e jornalista Pedro Rosa Mendes (prémio PEN 1999 e 2010), autor de “A Baía dos Tigres”, livro considerado pelo jornalista polaco como “um trabalho vivo e fascinante de literatura”.
Esta (cuidada) edição de “mais um dia de vida - angola 1975” (Tinta-da-China) impõe-se devido à qualidade da escrita de um dos mais importantes repórteres da história do jornalismo.



Sobre o autor:



Sobre o livro: (vídeo)


A polémica crónica de Pedro Rosa Mendes sobre Angola:


Diamantes de Sangue (Rafael Marques):

publicado por oplanetalivro às 07:10

02
Nov 13

Por vezes, somos deslumbrados por um livro que nos faz sentir pequenos.
“Para onde vão os guarda-chuvas” (Alfaguara) é um dos mais belos livros que li nos últimos anos.

Baseando-se num episódio passado com Gandhi, Afonso Cruz (1971; Figueira da Foz) recria uma história tão pura quanto isto: um muçulmano (Fazal Elahi) vê o seu filho (Salim) ser assassinado por soldados americanos.
Ele não consegue suportar a dor pela perda do filho. Decide oferecer a sua fortuna (fábrica de tapetes) a quem o ajudar a acabar com esse sofrimento. A solução é apresentada por um hindu (Nachiketa Mudaliar): adoptar uma criança americana.
Fazal Elahi parte à procura de pacificação. Ele precisa de se completar.
São 620 páginas de procura da bondade pela bondade, do perdão pelo perdão, sem recompensa nem retribuição além do acto em si. Desta forma, a ligação entre tudo e todos poderá ser o mais pura possível. É que para Elahi, tudo o que acontece na vida das pessoas está ligado “como se fosse um tapete, o primeiro ponto não está separado do último, e se alguém mexer num deles mexe inevitavelmente nos outros.” Pág.202
Ao longo do livro, o leitor será acompanhado por Badini, Isa, Ilia Vassilyevitch Krupin, Salim, Bibi, Aminah e muitas outras personagens concebidas pela intensa criatividade do autor português. São muitas personagens e muitas histórias que evoluem em narração intercalada. Os vários fios da narrativa são urdidos com a mestria de um hábil artesão. Afonso Cruz pega em cada personagem, em cada história, e tece um tapete voador como o do pai de Fazal Elahi. O progenitor do nosso personagem principal via magia no tapete de oração. “Para onde vão os guarda-chuvas” é isso mesmo: um mágico tapete de oração. É sobre ele que nos debruçamos para seguir uma prece ao amor, à tolerância, à Literatura.

As personagens são peças, com diferente importância, num tabuleiro de xadrez (metáfora da vida). No entanto, a dicotomia entre Bem e Mal, entre peças negras e brancas, entre espaços brancos e negros não é nítida. O Bem não elimina o Mal; incorpora-o e domina-o.
As acções, sejam com intuitos bondosos ou maldosos, têm, por vezes, o efeito contrário ao pretendido, e o sujeito passivo, mergulhado na incompreensão, reage o melhor que consegue.
O tímido e “invisível” Elahi sobrevive como pode, debatendo-se sempre com essa incompreensão. As suas interrogações são a sua maldição. Ele gostava de ser uma sombra numa parede, mas as perguntas que lhe surgem perante o mal que sobre ele se abate não o deixam sossegar, pois as “perguntas são a porta da rua. Quando nos interrogamos, quando duvidamos das nossas paredes, é porque estamos a passar pela porta. O facto de nos espantarmos com o que se passa à nossa volta é sinónimo de vida” Pág. 318.”

“Para onde vão os guarda-chuvas” captou esse nosso espanto, esse deslumbramento perante o que nos rodeia.
O universo de Afonso Cruz não se limita a criar empatia entre as palavras e a pré-existente sensibilidade do leitor. Não. O seu universo expande-se a cada livro. O leitor é transportado para sítios desconhecidos, “mentiras” com verdade no seu interior, ficção que quebra limites da realidade.
As personagens vão aparecendo, com maior ou menor relevância, em diversas obras. Elas não habitam um livro; elas visitam o leitor quando ele menos espera.Há intertextualidade entre vários livros do autor. Uma obra reflecte algo de uma obra anterior e, pode, inclusive, abrir uma janela para o leitor espreitar o que vem a seguir.
A filosofia é a essência da escrita de Afonso Cruz.
A sua linha de pensamento vai dar a outra linha pensamento. E a outra. Há uma miscigenação de ideias cristãs, islâmicas, judaicas, hinduístas.
Em “Para onde vão os guarda-chuvas” tanto podemos estar perante o esoterismo e misticismo da Cabala, ou os ensinamentos do profeta Maomé, ou a reencarnação hinduísta, ou mesmo perante a manifestação da dor como purificação cristã. Estranhamente (ou não) tudo faz sentido. Tudo se reflecte em tudo. É a rede mencionada pelo escritor em entrevista ao Diário Digital:
“A noção de fora e de dentro é uma ilusão. Os budistas têm uma maneira muito interessante de descrever isto: a rede de Indra. Eles descrevem uma rede, onde, no cruzamento dos fios, há umas pedras preciosas. Essas pedras reflectem todas as outras pedras preciosas. Cada uma reflecte todas as outras, ou seja elas todas estão dentro daquela. Apesar de estarem todas separadas, estão dentro e fora da pedra preciosa.”
Elahi é uma pedra muito preciosa neste xadrez. O autor construiu um personagem que sofre perdas irremediáveis, sente revolta, medo, cai, se ergue e… perdoa.
A sua fé parece curar tudo. No entanto, ele nunca deixa de se interrogar sobre o “equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado” vigente no mundo.
Badini, o dervixe (monge muçulmano) mudo, também é uma figura inesquecível. O dervixe de cabelo, pestanas e sobrancelhas rapadas “fala” com as mãos. É através dele que Afonso Cruz substitui o fonema pela acção. As mãos de Badini agem para o bem do ser mais próximo. Longe está o tempo em que Badini era espancado pelo pai.
“Olhou para o filho, que estava ainda agarrado à porta, e pisou-lhe a perna. Badini não se mexeu, nem quando sentiu o tornozelo a estalar e o osso a aparecer de fora, como se espreitasse pela janela.”Pág154
A violência, nas suas diversas facetas (exploração infantil, maus-tratos a crianças, violência sobre a mulher, delito de opinião, intolerância religiosa, terrorismo), exerce uma posição angular neste livro. As formas de expressão escolhidas na abordagem destes assuntos vão além da prosa. No interior deste livro existem ilustrações sarcástimas, em “Histórias de Natal para crianças que já não acreditam no Pai Natal”, existe a prosa em que nos é apresentado Elahi, enriquecida com fotografias tiradas pelo autor, e ainda um livro de citações intitulado “Fragmentos Persas”.
 Afonso Cruz, em entrevista ao Diário Digital, fez suas (ou ao contrário?) as palavras de uma personagem ao afirmar: Em relação às histórias, penso também que as histórias são uma espécie de reencarnação hinduísta porque se me perguntarem qual é a coisa mais importante ou qual é a coisa que quero salvar minha, não penso que queira salvar o meu corpo ou o carácter. Isso não está sequer em questão. Gostava de preservar as minhas ideias.”

Pode ser este O Livro que preservará as ideias do escritor. O Tempo o dirá.
A história de Fazal Elahi, o “cego”, poderá ficar por muitos anos: “Disse Ali: A bondade é um cego a segurar uma lâmpada. Não lhe serve de nada, mas ilumina o caminho aos outros”Pág. 618

Por agora, pode-se afirmar que “Para onde vão os guarda-chuvas” alimenta a crença no poder redentor da Literatura. Já não é pouco.

Mário Rufino



Entrevista:  http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=624640

Para onde vão os guarda-chuvasPara onde vão os guarda-chuvas by Afonso Cruz
My rating: 5 of 5 stars
o meu texto sobre "Para onde vão os guarda-chuvas", de Afonso Cruz.
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...


"Por vezes, somos deslumbrados por um livro que nos faz sentir pequenos. “Para onde vão os guarda-chuvas” (Alfaguara) é um dos mais belos livros que li nos últimos anos."



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