19
Out 13
Georges Rodenbach, em “Bruges-a-morta” (Sistema Solar): A dor como religião.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=661909

Ver a vida com olhos de morto. É esta a perspectiva de Georges Rodenbach perante os infortúnios de Hugues Viane, o personagem principal.
Pouco tempo após a morte de sua mulher, o inconsolável Hugues Viane decide instalar-se na cidade de Bruges. Ele precisava de “silêncio infinito e de uma existência tão monótona que deixasse, quase, de dar-lhe a sensação de viver” Pág. 23
Os seus passos são guiados pela destruição que existe em si. Durante o dia, Hugues mantem-se isolado, em casa, sem vontade de procurar qualquer solução para o mal de que padece. Chegada a noite, ele sai e caminha por canais solitários, bairros de ruas vazias e gente recolhida em casa. Bruges, a morta, é a cidade que espelha o interior de Hugues. A caracterização do local e das pessoas sofre o fenómeno de projecção do estado de espírito do personagem. Ali ele sente que o lugar está em comunhão consigo, pois para ele “Bruges era a sua morta. E a sua morte era Bruges” pág. 24
Mais tarde, virá a deslocar a sua obsessão para uma pessoa em substituição da cidade. A necessidade de se manter naquele sentimento de melancolia, como ponto de contacto com a sua falecida esposa, transforma-se numa paixão por um “espelho vivo” da sua alma. Talvez o mais indicado seja dizer que se mantém apaixonado pela falecida, mas no corpo de outra mulher, pois “Quando olhava para Jane, Hugues pensava na morta, nos beijos, nos abraços de outrora. Acreditava que possuía de novo a outra, possuindo esta. O que parecia acabado para sempre, ia recomeçar. E nem sequer enganava a esposa, porque ela voltava a ser amada nesta efígie e beijada nesta boca igual à sua” Pág. 39
A cidade começou a rejeitá-lo. Hugues, até ali visto como um exemplo de sobriedade, começa a ser alvo de escárnio. A honesta castidade dera lugar a uma dor de plástico.
A aproximação a uma figura feminina implica um afastamento do personagem da cidade de Bruges, que fora o motivo da sua mudança. Quando ele se afasta de Jane, volta a projectar as suas condições emocionais na cidade. São variáveis do mesmo assunto: a obsessiva projecção de uma necessidade.
A peregrinação de Hugues anuncia um fim trágico. O leitor contempla a inevitabilidade da desgraça.
O escritor simbolista faz de Bruges, cidade outrora importante como entreposto comercial, muito mais do que um contexto para determinado enredo. O minimalismo da história permite ao autor desenvolver a relação metafórica entre local e personagens. O ambiente citadino é essencial no jogo de simbolos, na criação de contraste entre ambientes abertos e fechados, emoções e objectos, real e irreal, explícito e implícito, silêncio e som.
“Bruges-a-morta” (tradução e apresentação de Aníbal Fernandes) é um exemplo do que o simbolismo pode ser, quando entregue a esta qualidade: sugestivo, cativante e sedutor.

Mário Rufino

Mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 08:50

10
Out 13

http://p3.publico.pt/cultura/livros/9546/o-da-joana-de-valerio-romao

Em torno da agonia da personagem principal, é desenhado um movimento heliocêntrico. O ritmo é rápido, com poucas paragens para respirar, ou assimilar as imagens e emoções que são propostas. O foco da narração mantém-se muito perto dos movimentos e das expressões das personagens. Não há escapes, não há “travelling”, não há descanso.



publicado por oplanetalivro às 07:10

08
Out 13

O meu texto sobre "A SEGUNDA MORTE DE ANNA KARÉNINA", de ANA CRISTINA SILVA (Diário Digital)

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=660519





publicado por oplanetalivro às 16:03

05
Out 13
ANA CRISTINA SILVA ganha o PRÉMIO URBANO TAVARES RODRIGUES (Prémio Literário de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues, iniciativa conjunta da FENPROF e SECRE) com o romance "O REI DO MONTE BRASIL". 

O prémio criado em 2013 é entregue pela primeira vez. ANA CRISTINA SILVA é a primeira premiada.
Parabéns à autora.

O texto já havia sido publicado em PLANETALIVRO:


Http://oplanetalivro.blogspot.pt/2012/11/o-meu-texto-sobre-o-rei-do-monte-brasil.html





publicado por oplanetalivro às 22:17

02
Out 13




Um dos autores mais emblemáticos da nova geração, Valter Hugo Mãe está de regresso com «A Desumanização», editado pela Porto Editora, uma obra onde a sensibilidade encontra-se ao virar de cada página. Para o escritor nortenho, «no lugar de Deus deve-se colocar a Arte».
Valter Hugo Mãe é um escritor diferente. E isso nota-se na sua escrita, onde as frases ganham um relevo poético. O autor garante que os os livros não o correspondem, mas é impossível não «vermos» VHM nas páginas das suas obras. Como afirma nesta entrevista, Valter Hugo Mãe pretende apenas «proporcionar a felicidade possível aos que amo». Os leitores agradecem tanto amor…

O que é desumanizar?
No contexto do meu novo romance, trata-se de perder sensibilidade, robustecer, não permitir a vulnerabilidade para persistir sendo gente. Para não perecer.

No seu novo livro, mudou de contexto, viajou para a Islândia, mas levou os seus demónios. O que seria diferente se o tivesse escrito em Portugal?

Devo ter levado parte dos meus demónios mas a Islândia é um reduto de fantasias. Um espaço de tradições esdrúxulas, histórias macabras e encantadoras que nunca abdicaram, sobretudo, da permissividade e da intensa imaginação. Vejo a Islândia como uma terra na qual os sonhos e os pesadelos, a euforia e o medo convivem numa inusitada mistura. Sem a Islândia creio que poderia falar dos temas mas nunca chegaria à mesma plasticidade. A Islândia confere um imaginário distinto, como se a estética fosse necessariamente afinada a partir do seu ambiente.

A razão da minha pergunta deve-se à inquietação que o leitor sente ao ver que o autor se expõe imenso no texto; o Valter põe o coração no texto. É possível falar dos seus livros sem estar a falar do mais intrínseco que há em si?

Não estou certo de que isso seja assim. Acho que os meus livros são intensos e sempre aproximam o leitor do que vai escrito. Sugerem uma intimidade. Mas, ainda que incluam parte das minhas mais sinceras preocupações ou desejos, os livros não me correspondem. Eles não contam exactamente a minha ida.
Freud denomina “forças impulsionadoras da arte” aos conflitos do escritor. Quais são os seus conflitos?
Sobretudo uma violenta relação entre a razão e a inteligência emocional. Também uma dificuldade constante em encontrar motivos para a vida e, ao mesmo tempo, precisar de encontrar pontos de esperança e, mais do que tudo, manter quem me ama motivado e feliz. Quero muito proporcionar a felicidade possível aos que amo.

Apesar de toda a sua [autor] exposição, há uma forte carga simbólica no texto (espelho, flores, morte, deus, boca, sangue, fogo) de “A Desumanização”. É uma forma de se proteger?

Creio que é um modo de fazer ver. O texto deste livro é muito feito da carga visual dos fiordes. As imagens são nítidas, ou pretendem sê-lo. Foi-me muito importante investir tudo na força das expressões, porque o estar ali não é nada menos do que avassalador. Um relato qualquer não faz ver a Islândia. Apenas os símbolos e a propensão para um certo absolutismo ou tremendismo.
Crisóstomo e pais de Sigridur. Para eles há a ausência, diferente conforme o caso, de um filho. Há um tipo de amor que tem urgência em se dar, mas não a quem. O Valter escreve sobre o tema para superar essa ausência [filial, paternal, amorosa] que sente?
Não escrevo para superar essa ausência. Escrevo para a entender. Entender a ausência e entender a potencial presença.

A morte é uma presença constante nos seus livros. Não é - para diversas personagens em diferentes livros seus - necessariamente o fim. O que o motiva a falar da morte? Medo? Curiosidade?

Não existem assuntos para além dos da morte e dos da vida. Tudo se divide entre uma coisa e outra. Não há nada mais escondido do que a morte e mais complexo do que a vida. Os livros fazem-se desses temas. É inevitável que me proponha pensar sobre eles. O sentido de todas as coisas, inclusive da literatura, só pode estar na utopia de cumprirmos em esplendor a vida e redimirmos tanto quanto possível a morte.

Qual a relação entre Halla e Valter Hugo Mãe? E entre Sigridur e Casimiro, seu irmão?

Há um paralelo ténue. Tive de crescer respeitando, e de certo modo amando, um irmão que nunca vi. Crescemos com a percepção da ausência, do lugar vazio de alguém. Fiz muitas conjecturas acerca da semelhança ou diferença que haveria de existir entre mim e esse irmão. As semelhanças e diferenças entre a minha vida e a morte dele. A Sigridur e a Halla acabam por ter uma questão assim estabelecida. Que é insanável. Não tem resposta. Nunca tem.

A perspectiva da irmã, pai e mãe sobre a morte de Sigridur é o Valter a colocar-se no papel de irmão e dos pais [em relação ao seu irmão]?

Não. Isso não. Não me coloco no lugar das personagens. Sei sempre que um romance é um percurso pela ficção. No máximo, as personagens coincidem comigo em algum sentimento, mas nunca me iludo ao ponto de achar que me retrato. Na verdade, nunca me retrato, apenas me sirvo do património de estar vivo e sentir para melhor entender o que sentiria uma personagem se vivesse também.

Há ligação entre o Sr. Silva de “A Máquina de Fazer Espanhóis” e o pai de Sigridur? Estamos perante a continuação da homenagem ao seu pai?

Não pensei nisso. Creio que não. O senhor Silva também não será o meu pai, apenas me permitiu reflectir acerca da terceira idade, algo que me propus fazer depois de perceber que não teria o meu pai como exemplo. O pai da Sigridur e da Halla prossegue algumas das minhas fixações relativas à validade dos textos, à capacidade que eles terão de mudar o mundo.

A mãe de Sigridur é o contraponto da ideia que tem da mulher? Parece-me ser uma mulher mais fraca, que cede perante a dor.

Nada. As mulheres são muito mais pragmáticas e resistentes do que os homens. Ao menos genericamente parece ser assim. Quis que a mãe das gémeas fosse como é no livro para criar uma força oposta entre as personagens femininas. A mãe encrudescendo e a Halla urgindo numa redenção. Como se fossem polos distintos, apartando-se, como se uma fizesse a morte e a outra tivesse de fazer a vida.

Na FLIP, 2011, afirma o seguinte: «Não sei se a Arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós para que não nos desperdicemos na vida». É um assunto presente em “A Desumanização”. A Arte é a melhor forma de comunicar connosco e com o divino? É dádiva em vez de prece?

É a única prece em que acredito. A arte é o melhor que podemos fazer, no sentido em que ela nos conduz ao extremo e mais genuíno de nós próprios. É a construção mais profunda de que somos capazes. Acredito nisso. Sim. No lugar de Deus colocar a Arte.

Em entrevista a Sílvia Souto Cunha (Visão; 22/01/2010), a propósito de “A Máquina de Fazer Espanhóis” afirma: «Há idosos que definham depois de se reformar, outros depois de tratarem de um filho ou neto, ou de perderem o companheiro… é como se a vida deles se justificasse através daquela relação». Halla encontra Einar, mas os pais de Halla vão desistindo de tudo ao perder Sigridur. Ainda é possível, nesta sociedade, morrer por amor? Ou viver para o amor em detrimento do sucesso?

Eu espero que sim. Sou um indivíduo eminentemente afectivo. Preciso de confiar que ainda somos capazes de colocar aqueles a quem amamos no centro das nossas ocupações e cuidados. Só interessa termos arte, e a arte ser divina, se o dividirmos com alguém. Os outros são o resultado de todo o esforço. No romance também se diz isso. Diz-se: “A beleza da lagoa é alguém”. Significa que a lagoa só é bela porque o podemos apreciar com alguém. Porque existe quem connosco possa discutir e partilhar o deslumbre.

Que evolução (temática, estilística…) encontra na sua obra, desde “O Nosso Reino” até “A Desumanização”?
Não serei o melhor juiz, mas tendo a ver uma depuração nas expressões que não sendo simples o parecem. Essa simplificação que melhora os sentidos, clarifica as ideias agrada-me muito e é resultado de muita escrita e reescrita. “A Desumanização”, por exemplo, tem um intenso trabalho de linguagem mas mantém alguma candura, como se as energias do texto fossem conseguindo um equilíbrio entre a aspereza do que se conta e a beleza como tudo quer ser contado. Quero muito a beleza dos textos. Muito.

A obrigatoriedade de publicar regularmente, própria de quem vive da escrita, não fatiga emocionalmente o escritor? Esgotará rapidamente a temática?

É ao contrário. Quero sempre escrever mais e mais. Escrevo coisas que guardo porque não faz sentido publicar mais. É fundamental deixar ao leitor o tempo suficiente para ler, sentir vontade de ler. O autor, por norma, respira pelos textos. Não pensa senão em textos. Quer textos. Viver da escrita, ao menos em Portugal, talvez seja possível apenas para quem tenha essa obstinação. Não sei. Na verdade, não há receitas. Tudo pode acontecer e todos os modos são legítimos. Eu escrevo muito. Passo os meus dias viciado em encontrar palavras que me ajudem a traduzir cada instante.

Mariorufino.textos@gmail.com



publicado por oplanetalivro às 07:11



A intensa inquietação de Valter Hugo Mãe.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=655153

Valter Hugo Mãe (n. 1971; Saurimo, Angola) tem a coragem de se desnudar perante o leitor. As palavras são o espelho das suas emoções, das suas fundações psíquicas. O escritor põe o coração no texto.

Em “A Desumanização” (Porto Editora), Halla, “a menos morta”, é uma menina islandesa cuja irmã gémea (Sigridur) faleceu muito nova. É pela sua voz que o leitor vai acompanhando a acção passada nos fiordes islandeses.
Será ela a narrar, durante os dois a três anos após a morte da sua irmã, a decadência da família, as transformações do seu corpo, a ruptura com a infância, a luta pela individualidade, o desaparecimento da ingenuidade, e a dor, principalmente a dor causada pela perda.
A morte de Sigridur vai consumindo a sua família, devagar, por dentro. Os pais vão morrendo de tristeza. A mãe, personagem destrutiva, é o contraponto do pai. Ela, para ultrapassar a dor, projecta a presença de Sigridur em Halla.
“[a mãe] Não admitia que dissesse que estávamos mortas uma da outra. Precisava, outra vez, que eu representasse a vida da Sigridur. Era imperioso que eu fosse a Sigridur também. E ela dizia: não tinhas este sinal. Quem tinha este sinal era a tua irmã. Aqui, no pé do pescoço. Aqui. Estás a ver. Eu fazia que sim com a cabeça. Calada. Ela parava de me bater.” Pág. 110
O Pai, no entanto, tem uma ligação diferente com a “menos morta”. É pela sua influência que Halla conhece a literatura, as limitações da palavra, a divina beleza da poesia.
Ainda durante o período em que Sigridur está viva surge uma figura masculina: Einar. O homem, que era nojento aos olhos de Sigridur e de Halla, tem uma história por contar. Um segredo que a amnésia impede de ser revelado. Ele será essencial no desenvolvimento e epílogo do enredo.
 Apesar da Islândia não se assumir como força primordial do romance, e como tal não permitir conferir características do povo islandês, o país onde o autor escreveu “A Desumanização” é mais do que um elemento pitoresco. A Islândia é importante no desenvolvimento psicológico das personagens. A sua geografia enfatiza a solidão.
 “Tudo na Islândia pensa. Sem pensar, nada tem provimento aqui. Milagres e mais milagres, falava assim. E tudo pensa o pior.” Pág. 47

“O sonho desperto”, que é a escrita/ leitura de ficção, permite ao autor exorcizar acontecimentos da sua própria vida através de sonhos, símbolos, metáforas, comparações, imagens e conflitos dramáticos.
Esses conflitos, a que Freud chama de “forças impulsionadoras da arte”, são a motivação inerente a toda a obra do escritor. Em “A Desumanização”, o recurso a símbolos (espelho, flores, morte, deus, boca, sangue, fogo…) e a colocação de hipóteses, com maior ou menor probabilidade de concretização (“como se…; “queria que…”; “talvez…”; “ou se…”) são estratégias fundamentais na construção da narrativa.
“Pensei que a alma de uma montanha poderia cair e tombar sobre mim e eu, tão pequenita, haveria de morrer esmagada. Ou, se a alma de uma montanha me entrasse no corpo e me fizesse crescer como um gigante, seria magnífico.” Pág. 83
A utilização destes recursos abre o texto a novas possibilidades e sentidos. A simbologia existente dota o texto com uma assinalável riqueza semântica e complexidade psicológica.
“Para a boca de deus atirei o meu filho. (…) Era uma flor alva de pólen de carne. Desceu. Escureceu na boca de deus. Entrou para o lado absolutamente silente do poema.” Pág. 129
A prosa de Valter Hugo Mãe, tanto neste livro como nos anteriores, partilha algumas das características do simbolismo, pois dela emerge a viagem pelo interior do escritor que, por sua vez, recorre à revitalização de vocabulário indevidamente banalizado (amor, coração), a ousadas combinações vocabulares e à secundarização do materialismo e da racionalidade.
A utilização da sinestesia, tão usada pelos românticos e pós-românticos, é um traço estilístico muito presente em “A Desumanização”.
Quando Thurid se senta ao piano, dentro da igreja, os sons apropriam-se das propriedades das cores, num exemplo de utilização da sinestesia de forma eficaz e equilibrada.
“E a Thurid tocava e outra vez murmurava e, subitamente, entendemos muito bem. Dizia: azul, azul, negro, branco. A Thurid achava que pintava. Achava que as teclas eram pincéis e via, certamente nas costas dos olhos, telas grandes de caleidoscópios maravilhosos. Quando ouvimos claramente as cores que enumerava, vimos também.” Pág.186
Arte dentro da Igreja. Nos romances de Valter Hugo Mãe existem temas que são recorrentes: A morte, a decadência física (desfiguração, velhice), o amor filiar, o amor paternal, a solidão e a religião.
No interior de uma escrita humanista, Valter debate a existência de uma entidade divina e da instrumentalização da fé. O episódio com Thurid permite que vá mais longe. O autor eleva a Arte a oração e elege a música como a expressão de eleição.
“ De verdade, tinha sido missa bastante escutar aquelas variações. Nenhuma tarefa faltava. Deus estava servido. Assim se servira, melhor do que nos passados domingos. Diziam as nossas pessoas. Muito melhor do que alguma vez o servíramos por ali”. Pág. 188
As palavras têm capacidade limitada. Só na poesia o som se alia à forma para chegar ao divino, à Verdade. De outra maneira, as suas limitações impedem a capacidade de o ser humano transmitir os seus pensamentos e a suas emoções. Na palavra não cabe a necessidade de o ser humano se transmitir.
“As palavras são nada. Deviam ser eliminadas. Nada do que possamos dizer alude ao que no mundo é. Com trinta e duas letras num alfabeto não criamos mais do que objectos equivalentes entre si, todos irmanados na sua ilusão” pág. 46

A presença contínua destes traços estilísticos, ao longo dos 6 romances do autor, forma um estilo de cariz psicológico, emocional, mas ao mesmo tempo cognitivo. Mas até este romance só “o remorso de baltasar serapião” (Prémio José Saramago 2006) conseguira a quase perfeita simbiose entre a sensibilidade do autor e o seu estilo, entre o conteúdo e a forma.
Em “A Desumanização”, a concatenação de diferentes imagens e acções resulta em impressões de invulgar beleza e lirismo. A caracterização psicológica das personagens é perturbante.
“A minha mãe disse: fazes tudo assim, maldita, fazes tudo como se fosses um bicho. Vou gostar de te ver morta como um bicho também.
E eu respondi: morra a senhora também, minha mãe" Pág. 126
O enredo, simples e linear, envolve o leitor. A vulnerabilidade do autor é inquietante. O texto é a projecção da sua estrutura emocional: dos seus medos, anseios, dramas, esperanças...
A combinação destes factores faz de “A Desumanização” uma obra com possibilidades atingir ou ultrapassar a qualidade literária de “o remorso de baltasar serapião”.
Este livro mostra o autor no seu melhor.
O leitor está perante uma das ficções mais intensas da obra ficcional de Valter Hugo Mãe.
Quem gosta do estilo do autor ficará a gostar ainda mais. Quem não gosta talvez tenha uma agradável surpresa.

Mário Rufino

Mariorufino.textos@gmail.com






publicado por oplanetalivro às 07:08

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