20
Set 13
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=655493


Cavar fundo para encontrar a maldade.

“Pássaros Amarelos” (Bertrand), vencedor dos prémios “PEN/Hemingway” e do “Guardian First Book”, é um consciente exercício catártico.
Kevin Powers (n. 1980; Richmond, Virgínia) serviu no Iraque (Mossul e Tal Afar) entre 2004 e 2005, como operador de metralhadora. Regressou à sua terra natal com muito para contar.
O biografismo é evidente. Powers usa as suas experiências de guerra na construção da narrativa. E utiliza-as de forma equilibrada, optimizando os pontos dramáticos num texto reflexivo e reflectido.
Já nos EUA, depois da guerra, o personagem Bartle recorda as atrocidades que mataram centenas de soldados e que viriam a transformá-lo num indivíduo inadaptado. Os principais inimigos são a memória e a consciência. Ele saiu da guerra, mas a guerra não saiu dele. O inferno, ou pelo menos a consciência do inferno, começa quando Bartle tem tempo para pensar e recordar. Até então, existira sobrevivência, morte, putrefacção e incompreensão.
Murphy, companheiro de armas, é presença essencial no inferno de Bartle.
O autor intercala, na narração, o tempo em que cumpre serviço militar e o período em que se encontra no seu país (antes de se alistar e após Al Tafar)
Em Al Tafar, Bartle combate numa guerra que vai, paulatinamente, destruindo-o. A morte é um ritual quotidiano.

“Percorríamos vielas. Víamos os inimigos que restavam onde estes se encontravam emboscados, afastávamo-los das armas com as botas. Rígidos e pestilentos, os cadáveres inchavam ao sol. Alguns encontravam-se em posições estranhas, com as costas curvadas ligeiramente afastadas do solo e outros estavam torcidos formando ângulos absurdos, com a sua decomposição a repercutir qualquer geometria mórbida” Pág. 120
Para sobreviver, o soldado segue as ordens; não as discute. A primeira vítima é o livre arbítrio. A opinião é destruída em benefício da disciplina militar. Ele e Murphy são obrigados a encontrar o pior deles próprios para saírem vivos de uma guerra que não escolhe vítimas.
Só têm de cavar fundo e de encontrar a maldade dentro de vocês” Pág. 46
Matar e não morrer. Só isso interessa.
Em “Pássaros Amarelos”, Bartle tenta reconstruir-se emocionalmente, exorcizando os seus demónios. O leitor está perante a visão subjectiva de um soldado que o aproxima do inferno da guerra mais mediatizada da História
A guerra no Iraque não serve de motivo para uma aventura para entreter leitores. O autor vai muito mais longe.
Não é caso invulgar quando a Literatura serve de instrumento de reflexão sobre a história pessoal e/ou colectiva, mas só um país com muita maturidade consegue olhar para as suas feridas quando elas ainda estão tão abertas.
Na sua estreia literária, Kevin Powers, autor e soldado, toca onde mais dói.

Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com




publicado por oplanetalivro às 08:48

12
Set 13




Philip Roth, eterno candidato ao Nobel da literatura, é um dos mais importantes escritores norte-americanos da segunda metade do século XX. «Engano», publicado recentemente pela D. Quixote, é uma verdade fingida por Roth…

A narrativa decorre através de várias conversas, ou partes de conversas, em que Philip dialoga com a sua amante sobre diversos assuntos que vão desde o adultério à questão judaica. 
O que, no princípio, serve de fuga ao quotidiano evolui para a normalização e rotina. É um labirinto emocional. A fuga à moralidade não dá, ao contrário do suposto, mais liberdade. Os amantes mantêm-se enclausurados.
A verdadeira liberdade de Philip é exercida na ficção. Como ficcionista, ele movimenta-se numa zona cinzenta. A manipulação dos factos na construção de um outro universo permite-lhe manter-se num limbo entre a verdade e a ficção.
De outra forma, também se pode dizer que existem duas verdades: a da realidade e a do livro.
Essa manipulação acontece desde a estrutura do romance até a nada inocente atribuição do seu próprio nome de autor, Philip (Roth), ao personagem.
O autor desafia o leitor a separar a realidade da ficção ao criar um simulacro de si próprio, Philip Roth, para se poder imaginar a ter um “affair” no livro.
O leitor mais incauto facilmente confunde esse personagem com o autor.
A colagem da ficção à biografia, por parte dos críticos, é alvo de sarcasmo:
«Eu escrevo ficção e dizem-me que é autobiografia, escrevo autobiografia e dizem-me que é ficção, por isso, já que sou tão burro e eles tão espertos, deixá-los a eles decidir o que é ou não é» (pág. 181)
Philip  é um predador de comportamentos, histórias e palavras.
A narrativa, em grande parte construída em discurso directo, concentra a tensão existencial dos seus actores em cenas (maioritariamente) curtas. Numa mise-en-scène minimalista os diálogos são intensos, sem superficialidades, e desconcertantes.
Durante esses diálogos, que antecedem ou sucedem o acto sexual, as próprias personagens ficcionam-se através de role-playing. O fingimento é a base de toda a ficção.
A estrutura do romance é um bom exemplo da plasticidade deste género literário. A fragmentação, a ausência de descrições e a caracterização emocional das personagens entregue (maioritariamente) à acção obrigam o leitor a abandonar a sua passividade. Roth exige que o leitor participe activamente na construção do sentido.
Os capítulos aproximam-se, em alguns casos, da encenação teatral. A própria construção do romance (caderno de notas, por exemplo) é o romance na sua vertente mais visível e interpretável.
Nos últimos capítulos, que iluminam tudo o que foi escrito/interpretado anteriormente, o leitor percebe que também ele próprio foi envolvido numa teia de enganos.
Essa comédia de enganos não acaba na já referida questão biográfica. Roth vai mais longe. Várias personagens criadas em livros anteriores habitam «Engano». Elas aparecem, ainda que fugazmente, para diluir ainda mais a fronteira entre facto e imaginação.
Além disso, o role-playing ganha outra dimensão.
Através do seu simulacro, Roth ensaia um debate entre ele e um júri. A matéria de análise é as facetas mais polémicas da sua obra: a questão judaica e o sexo. O júri existente tanto pode ser a representação dos leitores, dos críticos ou mesmo das mulheres.
À adjectivação de misoginia, por parte de feministas, o autor responde assim:
«O senhor faz parte da massa de homens que vêm infligindo às mulheres grande sofrimento e extrema humilhação... humilhação de que só agora começam a ser libertadas, graças à ação incansável de tribunais como este. Porque é que publicou livros que infligem sofrimento às mulheres? Não pensou que esses livros podiam ser usados contra nós pelos nossos inimigos?
- A única coisa que posso dizer é que essa vossa suposta democracia de igualdade de direitos tem propósitos e objetivos que não são os meus como escritor.» (pág. 109)
A literatura não se rege pelos princípios morais da sociedade.
Novamente, Roth pega na realidade, molda-a como matéria-prima, e cria uma realidade paralela, ficcionada.
Em «Engano», Roth junta aos temas chave da sua obra (a questão judaica, o sexo, a traição) elementos tão importantes como são a confrontação do romance com os seus próprios limites e a dialéctica do escritor com a ficção e realidade.
Mais do que um livro sobre a traição e adultério, «Engano» é um livro sobre o fingimento e a pérfida relação entre realidade e ficção.
«Engano», publicado em 1990 nos EUA, é uma soberba construção literária.

publicado por oplanetalivro às 09:05



http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=653971

“Emigrantes”, de Ferreira de Castro

A literatura não tem obrigação de lutar nem de salvar ninguém. A literatura não tem de estar vinculada a qualquer “ – ismo”. Não tem, mas pode.
Ferreira de Castro (n. Oliveira de Azeméis; 1898-1974), escritor e jornalista, é considerado um dos precursores do neo-realismo. A sua produção literária é declaradamente combativa e “engagé”.
“Emigrantes” marca o início da edição de toda a obra ficcional de Ferreira de Castro, pela Editora Cavalo de Ferro.
A ideologia subjacente à prosa de “Emigrantes” é motivo e assunto na construção do respectivo romance. O autor declara-os no Pórtico (prefácio):
“O problema da emigração não é, porém, um problema-causa, mas consequência de outro mais vasto e mais profundo. Assim, sob a forma do primeiro, o nosso romance pretende dar a essência do segundo”. Pág.10
A ambição e a necessidade motivam o Homem a abandonar a sua zona de conforto para aceder a novas oportunidades. A Migração sempre foi característica intrínseca ao Ser Humano. O abandono de território para procurar novos terrenos de caça era uma constante nos primórdios da nossa existência. A evangelização, o “espalhar a palavra”, implicava, também, a peregrinação para terras desconhecidas. Podemos observar estes aspectos em livros (ou documentos) como “Carta de Pêro Vaz de Caminha” “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, ou “Tratados da Terra e Gente do Brasil“, de Fernão Cardim, entre muitos outros nas ricas e plurais “Literaturas de Expressão Portuguesa”.

O que viria a ser França, Luxemburgo e Suíça, anos mais tarde, era então Brasil e os Estados Unidos da América: terra de oportunidades e abundância.
O Portugal do início do século XX é um país rural, pouco desenvolvido. O analfabetismo impera. Dentro destas condições, as pessoas de baixas habilitações têm a ambição de serem ricas, ou de, pelo menos, não passarem dificuldades. É o caso de Manuel da Bouça, personagem que acompanhamos do princípio ao fim do romance. Ele é um homem movido pela curiosidade, mas não só. A necessidade e a ambição empurram-no para uma aventura com objectivos precisos, mas de consequências imprevisíveis. Ele representa a escassez de escolaridade e posses.
Manuel da Bouça hipoteca, no presente, o que tem em Portugal (courelas) e separa-se da sua família (mulher e filha) para, em terras estrangeiras, entregar-se a uma quimera com o objectivo de alcançar uma vida melhor, no futuro. Não era o único. Uma palavra aparece recorrentemente no texto para caracterizar o fluxo migratório (portugueses, italianos, russos…): “Rebanho”.
 “ (...) lares inteiros que se deslocavam, famintos de pão e de futuro” Pág.79
O escritor, emigrante durante muito tempo no Brasil, faz da sua própria experiência, enquanto empregado em diversos trabalhos precários, matéria literária. As “dores” de Manuel da Bouça são, em parte, as do autor.
Também ele sofreu com a divisão de classes que fechava ao pobre as possibilidades de conquistar uma vida melhor. Talvez por isso, a pobreza seja apresentada de forma romântica e honrada.
“Manuel da Bouça pensou: «O urso trabalha para o dono. É o dono que lhe dá de comer, mas dá-lhe de comer com o resultado do trabalho que o próprio urso faz. Se não tivessem preso o urso, ele podia comer sem precisar do dono. Quando eu trabalho para os outros, eu sou, salvo seja, como o urso. Mas, com certeza, no Brasil e na América, os homens não são como ursos, pois lá eles enriquecem em pouco tempo.” Pág. 40

“Emigrantes” mantém, em 2013, a contemporaneidade e a pertinência temática, apesar da sua primeira publicação ter sido em 1928.
Ferreira de Castro construiu uma obra com uma riqueza lexical pouco vista em autores surgidos no primeiro decénio do século XXI. A prosa de “Emigrantes” é densa; nela abunda a adjectivação, os diminutivos e a metáfora. Os diálogos estão próximos da oralidade. As combinações semânticas deste nível “Como de costume, despenhadas as doze na igreja na matriz…” enriquecem o texto literário.
Quanto a Manuel da Bouça, ele é um homem em trânsito. É o pobre, o último do rebanho.
O autor parece amplificar, com “Emigrantes”, a voz do “Velho do Restelo”, no Canto IV dos “Lusíadas”:
"A que novos desastres determinas/ De levar estes reinos e esta gente?/ Que perigos, que mortes lhe destinas / Debaixo dalgum nome preminente?/ Que promessas de reinos, e de minas/ D'ouro, que lhe farás tão facilmente? / Que famas lhe prometerás? que histórias?/ Que triunfos, que palmas, que vitórias?

Mas quem seríamos nós, povo português, se optássemos por não procurar?

Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com
.



publicado por oplanetalivro às 08:58

06
Set 13

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=651337

Maria é carne.

Colm Tóibín (n. 1955; Enniscorthy, Wexford), autor irlandês várias vezes nomeado para o Man Booker Prize e detentor de diversos prémios literários, publica em Portugal o belo e inquietante “O Testamento de Maria” (Bertrand).
O texto de Tóibín é, sobretudo, sobre a condição feminina e sobre a infidelidade da palavra escrita à sua condição oral e primeira.
Maria, já no final da sua vida, relata a vida do seu filho desde o nascimento até à crucificação (foz e/ou nascente de muitas das suas recordações). Maria não sabe ler nem escrever. Marcos, que virá a ser considerado o fundador do Cristianismo em Alexandria, ouve e escreve.
“Sei que escreveu sobre coisas que nem ele nem eu vimos. Sei que deu também forma ao que eu vivi e a que ele assistiu, e que se certificou de que essas palavras terão peso, serão ouvidas” Pág. 11
De forma consciente, a matéria narrada pela mãe de Jesus é manipulada para adquirir conceitos universais. Marcos, tal como Tóibín, utiliza diversas técnicas narrativas, apropriadas à ficção, para contar o que foi visto por Maria. Ele ouve, adapta e regista. A oralidade tem, principalmente nesta época, um efeito imediato sobre um público presente e reactivo. A escrita não; o autor deste Evangelho tem em atenção as características do discurso escrito. O Evangelho segundo Marcos é, possivelmente, o mais antigo dos Evangelhos.
Tóibín sugere as limitações da escrita quando regista o discurso oral. A infalibilidade da palavra bíblica é posta em causa.

Marcos é, nesta obra, um homem mais político e pragmático do que crente. A sua perspectiva sobre Maria, por metonímia de mulher, é de distância e desvalorização.
“Por vezes, é difícil resistir à tentação de falar com ele, embora eu saiba que a minha mera voz o enche de desconfiança ou de um sentimento próximo da repulsa. Mas ele, tal como o colega, tem de me ouvir, é para isso que cá vem. Não tem alternativa” Pág. 15
A dinâmica de “O Testamento de Maria” deve muito à clivagem entre a perspectiva dos apóstolos e a condição de Maria, como testemunha, mulher e mãe.
O Jesus de Maria é matéria que nasce da matéria. O Espírito Santo é secundarizado pela perspectiva maternal. Jesus é seu filho, foi gerado no seu útero. Não é parte integrante da Santíssima Trindade.
É uma mulher cercada: pelos discípulos, que lhe dão comida e providenciam abrigo, pelos informantes, pelo remorso e pelo medo – especialmente pelo medo. Maria é uma mulher dominada pela memória negra do dia da crucificação.
“ (...) apesar do pânico, apesar do desespero, dos gritos, apesar de o coração e da minha carne, apesar da dor que senti, uma dor que nunca me abandonou e que irá comigo para a campa, apesar de tudo isto, a dor era dele não minha. E quando se pôs a hipótese de eu ser levada à força e asfixiada, a minha primeira – e última – reacção foi fugir” Pág. 89
A Palavra é o corpo da interpretação.
Maria é carne.


Mário Rufino

Mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 20:44

04
Set 13


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=649997

“Cidade Aberta” (Quetzal), de Teju Cole (n. Brooklyn, EUA), exerce uma das muitas possibilidades abertas pela literatura: ensinar a fazer perguntas.
O autor, de ascendência nigeriana, esboça um mapa da mente humana, enquanto divaga pelas avenidas e ruas  de cidades emblemáticas como Nova Iorque e Bruxelas. A complexidade do relacionamento do ser humano com a sociedade, a que está ou não adaptado, e consigo próprio, numa perspectiva modernista, ou seja plural, inconstante e incoerente, é o leitmotiv de “Cidade Aberta”.
A crescente secundarização da oralidade implica, dentro das grandes cidades, mais isolamento. A voz é imersa pelo ruído. O individuo é motivado a não exprimir o pensamento. O homem fica cada vez fechado em si mesmo. Tal qual o narrador Julius.
A distância em relação ao Outro é enorme, apesar de o Outro estar mesmo ali, junto a Julius.
“Uma mulher morrera ali mesmo, do outro lado da parede à qual eu agora me encostava e eu não tinha sabido de nada. (...) Isto era o pior de tudo. Não reparara na sua ausência como não tinha reparado na alteração – porque deve ter havido uma alteração que se produzira nele [marido].” Pág. 30
A dialéctica entre a Arte (pintura, arquitectura, literatura) e a realidade é constante e essencial.
Escritores como Coetzee, De Man, Walter Benjamin, Tahar Ben Jelloun e Edward Said são citados de forma justificada. “Cidade Aberta” é uma porta para outros livros importantes para o esclarecimento/enriquecimento do leitor. Dentro desta dialéctica, Teju Cole oscila entre o pessimismo e o optimismo.

A capital financeira do Estados Unidos da América  e a capital política e burocrática da União europeia são as bases para um livro que é, essencialmente, um mecanismo literário de reflexão. Teju Cole não construiu uma narrativa assente num enredo complexo; aliás, o autor reduziu a história ao mínimo possível. A divagação emocional e intelectual ficou, desta forma, mais liberta das peripécias que surgiriam de um romance de acção.  Pouco ou nada se passa, excepto na cabeça de Julius, o médico psiquiatra, também de origem nigeriana, que nos vai narrando as suas inquietações.
Entre Nova Iorque e Bruxelas, Julius (ou Teju Cole?) aborda a clivagem entre o islamismo e o cristianismo, entre a figura de Jesus e a de Maomé, a imigração dos países do Médio Oriente e de África para a Europa e  Estados Unidos, A Questão Judaica – essencial, segundo o personagem Farouk, para a compreensão dos problemas de assimilação, adaptação e inserção cultural - a diferença entre etnias, as guerras civis no Haiti e no Uganda. Tudo apresentado num texto coerente, fluido, e de uma invulgar lucidez.
Uma das questões no texto de Teju Cole é a dicotomia entre o pensamento de Martin Luther e King e o de Malcolm X. Se o primeiro defendeu a igualdade entre todos, o segundo reclamou o respeito pela alienável diferença.
A  transversalidade do pensamento do autor nascido nos EUA, mas criado na Nigéria até aos 17 anos, permite a análise de várias vertentes do confronto cultural. Cole não se reduz a uma só parte. O leitor tem a possibilidade de “assistir” a um debate entre a cultura que recebe e a cultura recebida; tem a possibilidade, também, de acompanhar as interrogações do autor sobre as várias “tonalidades” do racismo.
Será que nos aproximamos do Outro para nos conhecermos a nós mesmos?
Seremos nós o nosso o nosso objectivo?
Nos EUA e na Europa, podemos facilmente apontar exemplos de dificuldades ou negação de adaptação pelas 2ªs e 3ªs gerações dos imigrantes, já nascidas no país onde vivem e onde fizeram a sua alfabetização. São gerações que não se revêem no seu país de origem e que adoptam uma visão romântica da cultura dos países dos progenitores.
Ultrapassado o período áureo do multiculturalismo, o cidadão é confrontado com a possível falência do projecto. A capacidade de chegar ao Outro, tanto na compreensão como no respeito, é limitada pela genética incompletude do Ser Humano. Chegamos perto, como indivíduos e sociedade, mas não o suficiente. Tentamos perceber o Outro, mas não conseguimos deixar de o julgar.
Terá o 11 de Setembro sido o epitáfio da tolerância nos EUA? Talvez não.
“Aquele sítio [do WTC] era um palimpsesto, como o era toda a cidade, escrita, apagada, reescrita”. Pág. 70


Mariorufino.textos@gmail.com



publicado por oplanetalivro às 20:40

03
Set 13


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=653322


Donald Barthelme (n.1931, Filadélfia), em “40 Histórias” (Antígona), explora o indefinível da literatura.
O autor norte-americano, fundador do “Creative Writing Program” na Universidade de Houston, é considerado um dos escritores mais importantes do pós-modernismo. E ao iniciar-se a leitura de “40 Histórias” rapidamente se percebe a razão.
A ousadia do autor na manipulação dos constituintes da narrativa breve, desde a estrutura ao recurso estilístico, é rara e consegue atingir a excelência.
Barthelme parece fruir da decomposição do primado da estrutura. O autor contraria a viciada expectativa do leitor. Nos seus textos, ele surpreende-o com o imprevisível.
A construção de imagens com efeitos imprevistos, devido à conjugação de elementos inesperados, causa estranheza e intensifica o prazer pela leitura.
“ Ah, eles divertiram-se imenso a fazer os exercícios, e nós dissemos-lhes para baixarem o traseiro enquanto rastejavam por baixo do arame, o arame era feito de citações em cadeia, Tácito, Heródoto, Píndaro...” Pág. 105

Barthelme surpreende através da sobreposição de várias realidades, do nonsense e da perspectiva cubista na conjugação dos vários elementos (vidas, efemérides, acontecimentos banais).
O leitor é obrigado a sair da sua expectável e sã realidade.
O “Barthelmismo” é surreal, labiríntico e hipnótico.
 “Tu aproximaste-te e caíste sobre mim, eu estava sentado na cadeira de verga. A verga soltou uma exclamação quando o teu peso se abateu sobre mim.” Pág. 14

O escritor norte-americano erige os seus pequenos mundos ficcionais sobre estruturas com diferenças substanciais. “A tentação de Santo António”, de estrutura clássica, contrasta com a desfragmentação de “Guarda-costas”.
A diferença entre estas duas narrativas breves demonstra a capacidade do autor em rasgar convenções e de confrontar o género literário com as suas próprias limitações.
“Guarda-costas” mostra as muitas possibilidades existentes na ficção. Neste analisa-se não o conto em si, mas as “costuras” da sua construção. Este conto é, sobretudo, uma ficção que incide, formalmente, nos caminhos possíveis antes e durante a sua construção.
O leitor observa o negativo ficcional da mesma forma que um fotógrafo analisa os negativos fotográficos das suas fotos. O realce presente nos contos existe em oposição à ditadura da forma.
Quando se pensa na apostasia de Barthelme ao cânone, é-se surpreendido com o classicismo de “A tentação de Santo António” e com um típico começo, “Deixa-me contar-te uma coisa...”, em ”Downsizing”.
Já em “Sinbad”, será a última parte do conto a iluminar a sobreposição de imagens até ali narradas.
Em “Chablis”, as vicissitudes da vida conjugal são perspectivadas com a ironia e humor típicas do “Barthelmismo”.
Em “O Génio”, temos a súmula do que é a escrita de Barthelme. O conto é elíptico, satírico e desconcertante.
A forma como o autor envolve o leitor é genial.
As suas histórias são, muitas vezes, perversas e perturbantes.

São 40 contos capazes de demonstrar que mesmo a Ficção pode ser ainda mais manipulada e testada.
Barthelme é um mestre da narrativa breve. “40 Histórias” candidata-se a ser um dos melhores livros de 2013.

Mário Rufino

Mariorufino.textos@gmail.com


publicado por oplanetalivro às 20:38



http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=647297

DuBose Heyward, escritor nascido nos Estados Unidos da América (Carolina do Sul), em 1885, é autor de um dos livros mais representativos das condições sociais do Sul, tanto materiais como psicológicas, do período pós-Secessão: «Porgy», editado agora entre nós pela Sistema Solar.


A história do negro Porgy, pedinte de “profissão” e com deficiência física (pernas) na Carolina do Sul, faz com que DuBose Heyward pertença a uma plêiade de autores, com temática pós-Secessão e/ou de características sulistas, como Margaret Mitchell, Erskine Caldwell, Carson McCullers, Truman Capote, Robert Penn Warren, Flannery O´Connor e William Faulkner.
 O autor e Dorothy Heyward, sua esposa, adaptaram o livro para um musical intitulado “Porgy and Bess”. Devido ao enorme sucesso da peça encenada por Gershwin, o próprio livro tem vindo a ser traduzido como “Porgy e Bess”.
 Aníbal Fernandes, com o seu texto nesta edição da Sistema Solar, fornece importante contextualização para a construção do sentido da obra.
 Com um enredo simples, que se concentra no essencial, “Porgy e Bess” é, além de um romance que se apoia nestas duas personagens, um retrato sociológico pós-libertação dos escravos negros nos EUA. DuBose Heyward não resiste à adopção de um certo romantismo e paternalismo, quando analisa as condições psicológicas e sociais dos negros.
 A pobreza honrada e a moralidade da microssociedade representada aproximam-se da postura de, por exemplo, Kipling (n. Índia, 1865-1936) em relação à dialéctica colonizador-colonizado/dominador-dominado, que, por sua vez, viria a ser satirizada por Coetzee (n. África do Sul, 1940- ) em “Foe”.
 “Porgy”, publicado em 1925, mantém a contemporaneidade e a relevância presente em obras mais recentes como as de Coetzee, de Naipaul ou dos ensaios de Fannon e Said, entre outras obras e autores.     
 A construção sintáctica e a utilização lexical nos diálogos da comunidade atribuem ao texto propriedades do realismo.
 “fiquei a saber quem você és... um porco danado, vendilhão das droga que dá cabo do lar dos preto feliz.” (pág. 115)

A imagética da comunidade negra é composta por uma complexa coexistência entre o cristianismo e o paganismo. Os seus hábitos são influenciados pela estrutura moral que advém dessa combinação. A canção, laudatória a Deus (Gospel) ou não, é um recurso muito utilizado, seja no lamento ou na alegria. Espelha, também, as condições sociais e evolução histórica da comunidade negra.
«Ai é mesmo duro ser preto
Ai é mesmo duro ser preto
Ai é mesmo duro ser preto
Onde tu meteu
os direito que te deram?
No colchão de pau dormi
sem melhor para desejar;
mas veio um branco dizer:
agora és livre; vai trabalhar, vai trabalhar!»
Depois, todos se lhe juntaram em coro
«Ai é mesmo duro ser preto...» (pág. 74/75)

“Porgy e Bess”, extraordinária viagem de 170 páginas pela Carolina do Sul, é habitado por personagens com capacidade para criar empatia com o leitor. Porgy é um personagem belo e invulgar.


publicado por oplanetalivro às 08:19

02
Set 13

Os meus textos publicados em P3/Público

http://p3.publico.pt/category/free-tags/mario-rufino


publicado por oplanetalivro às 20:23

Setembro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
13
14

15
16
17
18
19
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


subscrever feeds
mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

4 seguidores

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO