18
Jun 13


http://p3.publico.pt/cultura/filmes/8234/luz-antiga-de-john-banville



publicado por oplanetalivro às 09:07

17
Jun 13

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=636351



Mathias Énard (n. 1972), professor de Árabe na Universidade de Barcelona, estudou Persa, além de Árabe, nas suas longas estadias no Médio Oriente.
É autor de várias obras, das quais 2 estão traduzidas para português “Zona” (Prémio “Le Livre Inter 2009” e “Décembre 2008”) e “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” (Prémio “Goncourt des Lycéens 2010” e “Prix du livre en Poitou-Charentes” 2010).
O autor esteve em Portugal para apresentar “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” na “Feira do Livro de Lisboa” e na “Noite de Literatura Europeia”.
O leitor que aceite o desafio de ler “Zona” (D. Quixote) e “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” (D. Quixote) percebe, imediatamente, a riqueza de recursos narrativos do autor francês.
Os dois livros de Énard são completamente distintos. Enquanto “Zona” é um “stream of consciousness”, com poucas possibilidades de o leitor repousar num ponto final, e onde o tempo narrativo é tudo menos linear, “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” é composto por capítulos curtos, com leitura mais pousada, e muito mais rígido temporalmente.
Foi devido a estes dois livros que o Diário Digital teve a oportunidade de, numa curta conversa, confirmar a inteligência e conhecer a simpatia de Mathias Énard.







“Zona” tem um ritmo e estilo completamente diferentes de “ Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes”. Por que escolheu contar estas duas histórias de forma tão diferente?

O estilo de “Zona” está ligado à essência da viagem de comboio. Como a viagem não tem paragem, a frase também não. Tem também muito a ver com “Epos”, algo que é épico.
Por outro lado, “ Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” foi pensado como um “sketchbook” (livro de esboços), como de desenhos do próprio Michelangelo. Simplesmente, vê-se um capítulo curto, de 2 páginas ou 3, como um desenho. Depois, muda-se para outro tal qual num “sketchbook”.
Essa era a ideia que tinha para este livro. O ritmo totalmente diferente tem também a ver com a própria personalidade de Michelangelo.

Fez alguma investigação para este livro?

- Muita, muita… Primeiro, quando descobri esta história comecei a investigar como era Istambul, como era a situação económica, quem esteve lá, quem Michelangelo poderia conhecer, naquela altura, como seria a cidade até aos mais pequenos detalhes. Depois, que mercadorias eram importadas de Itália para o império Otomano? Quais os objectos? O que é que eles comiam? O que é que vestiam?
Foi um enorme trabalho durante um ano ou dois. Foi terrível. Eu não conseguia escrever devido à quantidade de detalhes que tinha na minha cabeça. Eu tinha cinco páginas e não conseguia avançar mais. Tive de esperar mais 1 ano para “esquecer” tudo aquilo. Era demasiada informação.
A personagem de Michelangelo pesava-me imenso devido a tudo o que sabia dele, tudo o que tinha lido sobre ele, todo o seu trabalho. Era difícil fazer dele um personagem real. Então tive de esquecer tudo isso e trabalhar com a minha memória, trabalhar com o que me lembrava acerca de tudo. Isso levou-me algum tempo. No global, “ Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” foi um trabalho de 2 a 3 anos.

Qual era a importância histórica daquela ponte? Hoje existem 4 pontes…

Estamos a falar do “Corno de Ouro”. Existiu uma ponte romana do tempo de Constantino, mas foi destruída nessa altura.

Foi a ponte destruída no terramoto em “ Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes”?

Não. A ponte destruída, no livro, pelo terramoto era minha. [risos] É ficção. Hoje, existe a Ponte de Gálata, que é uma ponte basculante e situa-se, mais ou menos, onde a ponte de Bayazid teria ficado se tivesse sido construída. Existem agora uma, duas, três, quatro pontes. Exacto. Entre a ideia de Bayazid e a Ponte de Gálata existem 400 anos de diferença. Ninguém tentou construir uma nova ponte.

O que é que o motiva a misturar realidade com a ficção?

Michelangelo zanga-se com o Papa, vai para França, e então recebe um convite do Sultão de Istambul para construir uma ponte em Constantinopla. Eu disse: “Oh! Incrível! Não sabia disto! É maravilhoso!” Depois descobri que era quase impossível ele ter aceitado. Perguntei a historiadores e académicos sobre se ele teria estado lá, e eles responderam que não, não tinha estado. Perguntei “Porquê?” Eles responderam “Nós saberíamos!” [risos] Eu percebi que tinha de enviar-me para lá. Foi como corrigir um “erro” histórico. Eu “vi” Michelangelo lá.


A relação entre Michelangelo e Mesihi é uma metáfora sobre a relação entre Este e Oeste?

Sim, de certa forma. O que me fascinou foi a oposição entre estas duas personagens. Nós sabemos tudo sobre Michelangelo. Existem centenas de páginas escritas sobre a sua vida, sobre a sua arte. Mas não sabemos quase nada sobre Mesihi. O trabalho de Michelangelo é imenso. Nós temos esculturas, pinturas… O trabalho que conhecemos de Mesihi resume-se a 20 páginas.
Michelangelo morre rico e famoso. Mesihi morre pobre e esquecido. Tudo os opunha. Um gosta de álcool e drogas. Michelangelo, não.

A única personagem que tem voz própria é a dançarina exótica. Temos personagens como o Papa, Michelangelo, Da Vinci, Mesihi mas a escolha foi a de uma dançarina. Por que razão?

Ela é uma personagem que vem directamente da Poesia. Ela veio do poema clássico persa. Nós não sabemos se as personagens nesses poemas eram raparigas ou rapazes. Na Pérsia, ou na Turquia, não existe a diferença, na língua, entre ele/ela. Na poesia não se consegue saber se estão a falar de rapazes ou raparigas. Muitos eram rapazes, mas os tradutores, no século XIX, escreveram “ela”. Tinha conotação homossexual. Era realmente complexo. Por isso é que esta personagem é tão incerta.

Li uma entrevista com Charlotte Mandell [conversationalreading.com], sua tradutora de “Zona”, onde ela afirma que o livro “Zona” tem exactamente o mesmo número de quilómetros da viagem de comboio entre Milão e Roma. Foi com esse objectivo que escreveu 517 páginas?

[risos] Sim, foi com esse objectivo. O número de quilómetros de comboio é mais longo do que por estrada. Uma página é um quilómetro.

Em português não podemos fazer isso, são 467 páginas.

Em francês e em inglês conseguimos…

“Zona” é mais espacial do que temporal? A narrativa segue os lugares por quais o comboio passa. Não segue uma linha temporal rígida.

Tem duas linhas temporais: a real linha temporal da viagem de comboio e outra não linear que são as histórias que conto na viagem.

Em “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” lemos, na página 119, “É verdade, Nós todos macaqueamos Deus na sua ausência”.
Somos sombras platónicas? Sombras imperfeitas?

Sim! Isso é o que Michelangelo pensa. Ele tem uma educação neoplatónica. No século XV, os últimos dos filósofos platónicos vão para Florença, Itália. [A educação de Michelangelo foi feita, em grande parte, em Florença]. A sua educação é baseada em ideias neoplatónicas. É ele dizendo isso.

No período da Renascença, escritores e pintores criaram muitas obras de arte porque eram contratados para isso. Neste caso, por exemplo, Michelangelo foi contratado por Bayazid. Eles estavam dependentes do mercado. Hoje mantém-se essa dependência?

Sim, os escritores mantêm-se dependentes, mas os patronos são menos…políticos. Continuamos com patronos: as Editoras e o mercado.
Michelangelo foi um dos primeiros artistas europeus a conseguir ser um artista livre. Ele ganha a sua liberdade, no fim da sua vida. Mas a sua vida é uma luta por isso. Michelangelo ama duas coisas: dinheiro e liberdade. E ele consegue-os no fim. Ele podia dizer “Não” às pessoas.

Necessita, como escritor, da aceitação que Michelangelo necessita no seu romance?

 Provavelmente, provavelmente…
Não sou só eu… Se vamos entrar nesta arte ou criação, todos necessitamos de público. De alguma forma, nós dependemos dele, também.



Mariorufino.textos@gmail.com

publicado por oplanetalivro às 08:04

16
Jun 13


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=637437




Ricardo Menéndez Salmón (n.1971, Gijon), autor de “A Ofensa”, “Derrocada” e “O Revisor” (conhecida como a “Trilogia do Mal”), surpreende o leitor com uma obra que interroga as fronteiras dos géneros literários.
“A luz é mais antiga que o amor” (Assírio & Alvim) procura a simbiose entre o ensaio e a ficção.
O autor dividiu o texto em duas situações ficcionadas e uma real. Em 1350, a Europa é dizimada pela Peste Negra. Beaufort, futuro Papa Gregório XI, obriga Adriano de Robertis a destruir a blasfema “Virgem Barbuda”. Em 1970, Mark Rothko corta os pulsos. O seu suicídio é o culminar de dramáticos acontecimentos na sua vida pessoal. A sua obra, principalmente o domínio da ausência, a tentativa de capturar o vazio, através da inexistência de luz nas suas pinturas, é a revelação do interior do pintor. Em 2001, Vsévold Semiasin escreve uma carta explicando a sua loucura.
O leitor está perante a ruptura com a normalidade.
A homogeneização entre os textos é entregue à geografia (Sansepolcro), a uma obra de arte (“ Virgem Barbuda”) e, principalmente, ao tema.
 O que mais importa salientar não é o binómio realidade/ficcionalidade. “A luz é mais antiga que o amor” é um texto especulativo, pois baseia-se na possibilidade. Umas situações são reais, outras são fictícias, mas todas são possíveis.

Salmón debate a dialéctica entre o ser humano, a natureza e a criação. A relação da Arte com a Vida é o tema deste livro. A partir daqui, o tema é desenvolvido através de vários assuntos.
O escritor espanhol interroga-se sobre a relação entre a obra e o criador quando, nos três textos, existe a preocupação em ligar, quase como causa-efeito, a obra às vicissitudes da vida do criador, como individuo. A morte do filho de Adriano de Robertis, o abandono de Mark Rothko pela mulher, e a incompatibilidade de Semiasin com a época em que vive são factores fundadores das respectivas obras.
E vai mais longe. A vertente ensaística tenta iluminar, e a luz é essencial neste livro, a problemática da recepção da obra, das condições sociais em que ela é produzida, e da relação, sempre presente, entre Estética e Ética.
Menéndez Salmón transmuda-se para o texto (Bocanegra é o exemplo mais visível), enquanto se interroga sobre a verdade dessa mesma transferência.
A demanda do autor espanhol é património intelectual da História da Teoria da Literatura. Dentro ou fora do texto, o Autor, universal, procura a Verdade; tenta descobrir o objectivo – se é que há- da Criação; entender os processos mentais que contribuem para a produção de textualidade; descobrir até onde a textualidade (pintura, texto literário) criada é autónoma; ou perceber se a criação da arte é uma forma de experiência moral.
“A luz é mais antiga que o amor” é uma demanda que semeia perguntas na mente do leitor.
A complexidade do raciocínio do autor encontra a simplicidade de processos na escrita. O texto é iluminado por essa simplicidade, e o leitor poderá, assim, usufruir da luz que Salmón empresta a temas intrínsecos da Arte.

Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 10:29

12
Jun 13


1

“Tudo o que vejo está, por princípio, ao meu alcance, pelo menos aos alcance do meu olhar, edificado sobre o plano do «eu posso». Cada um destes planos está completo. O mundo visível e o dos meus projectos motores são partes totais do meu ser”[i]

Concebe-se a inter-relação com o mundo a partir do que se consegue alcançar.
O olhar, o toque, alimenta a expectativa; esta relaciona-se com a visão, com o movimento.
A noção de possibilidade, de “eu posso”, encontra-se vinculada a esta relação.
Uma criança, quando quer jogar “às escondidas”, tapa os olhos, julgando assim estar invisível para o que o rodeia.
Ela pode ver logo de seguida, quando o seu corpo é tocado, que a relação com o mundo não se limita ao que ela vê e toca, mas, também, a ela como matéria vista e tocada.
Ela pode ser solicitada porque está presente, porque a sua presença se manifesta nesta interacção.
A realidade (pelo menos a realidade imediata) é conceptualizada pelos binómios ver e ser visto, tocar (ou poder tocar) e ser tocado (ou poder ser tocado).
No entanto, tudo sofre alterações quando a percepção se diferencia.
Uma pessoa que não vê cria estratégias para interagir.
E um bipolar, por exemplo?
Que ideia do mundo ele recriou e que ideia o meio em que está envolvido criou acerca dele?
A matéria é a mesma, as pessoas são as mesmas, mas a forma de ver não é a mesma.
As cores são mais ou menos intensas, carregadas; as vozes são demasiado audíveis ou, pelo contrário, pouco perceptíveis.
O mundo é o mesmo: amigos, família; mas, afinal, não é bem o mesmo mundo.
Tudo se transformou, pensa-se, e, no entanto, fomos nós que mudámos para o mundo.
A interacção torna-se problemática.
Eu sou eu e as minhas circunstâncias, disse Ortega Y Gasset.
O equilíbrio entre adaptar a vida à doença e não deixar que a doença nos domine é ténue e difícil de manter. Somar-se e adaptar-se às circunstâncias…
Talvez seja um dos objectivos mais difíceis nesta doença: a manutenção.
Ser conservador quando se está equilibrado, entre quedas e subidas.
Alcançar mais do que um período de repouso antes de se ser ocupado por esse inquilino misterioso, esse estranho que cá dentro vive.
E anseia-se (doentiamente) em se manter entre os pólos opostos. O chão que nos suporta move-se, tornando-nos receosos de subidas e descidas que aparecem sem pré-aviso.
Nesta época em que realmente somos nós que dominamos a doença e não o contrário, a consciência marca uma presença aguda, quase física, demonstrando quem fôramos anteriormente.
É a altura de mirarmos as consequências:
A intensidade com que nós vivemos as palavras, os gestos e os acontecimentos; perceber que fomos colonizados por um outro ser, um outro eu, que de mim é componente, que falou pela nossa boca aquilo que não queremos pensar, não queremos sentir e muito menos dizer.
Através das acções exorcizámos o pensamento plural e contraditório e, assim, vertemos para o domínio público o que em nós se passou.
Como se pode explicar que a boca que fala não é a minha, mas a da doença? Como se pode apelar a essa interpretação quando é a nós que vêem, e que nada da doença nós temos de tangível para mostrar?
Apetece ter uma radiografia e mostrar que é aquele ponto, aquele tumor (ou o que seja) que nos faz isto, que é o nosso inimigo.
Esta doença é um líder informal; debita as suas posições, opina pela nossa boca, mas não se assume.

Em qualquer das fases em que se está, a manutenção (ou criação) de rotinas é imprescindível para a higiene mental.
Numa situação de absoluto desregramento, o ritual disciplina o comportamento.
Certamente já ouviram isto muitas vezes e nada de novo vos apresento, mas o apoio da família e amigos é essencial.
As ocorrências irão garimpar os amigos; ficam aqueles que são mais valiosos.
Dói (muito), mas se nada é nosso, então muito menos tivemos aquilo que nunca o foi. Há que perceber porque vão; não é uma situação fácil para quem junto de nós não fica, mas, não se esqueçam, também nos perdem; também ficam sem nós.
Na fase depressiva, suporta-se os dias nos ombros e (quase) se sucumbe a um peso, hipoteticamente, maior do que a força.
“A minha alma está descosida e dela tudo cai. /Estou cheia de nada, tudo o que cai a meus pés é pisado/ [sem pena. Porque me custa sofrer.”[ii]
Sentimos que não partilhamos a mesma linguagem, nem nos baseamos nos mesmos protocolos de conduta.
Tudo se escurece e a negrura cola-se-nos à pele, às mãos, à cara impedindo-nos de respirar.
Somos um ambiente hostil, que criámos e nele vivemos.
A ausência de partilha isola-nos; ninguém lá fora sabe o que cá dentro chove.
A alegria alheia é ofensiva, contra-natura e o sol sublinha a noite que em nós se instalou.
Este inquilino, este estranho em mim, mostra os dentes quando menos se espera.
Esta tristeza minha é irmã dessa tristeza vossa.
É, tal como a morte, igual para todos, mas cada um tem a sua morte pessoal, individual e solitária.
O raciocínio ausenta-se, as mãos demitem-se do movimento e o corpo quer que o deixem em paz.
É-se impermeável aos outros; a emoção é estéril.
Não há objectivo na tristeza.
Lêem-se os artigos académicos sobre a bipolaridade; entende-se a engrenagem do sentimento, mas nenhum, ninguém, consegue demonstrar cientificamente o desespero nos olhos das pessoas que gostam de nós.
O objectivo da vida é a continuação, o adiar o inevitável, o términus que acabará por acontecer.
A morte tem algo de glórico, de pragmático. Existe para se consumar; o seu objectivo mora em si mesmo e atinge-se na sua concretização.
(mas continuamos a respirar)
Os dias colam-se uns aos outros, tornando-se indistintos.
Os medicamentos são o Norte e orientam-nos através das horas.
Somos o que estamos e em nós nos consumimos.

Na fase de mania, provoca-se acontecimentos e é-se agente (demasiado) activo sobre o meio que o rodeia.
Absorve-se tudo, é-se tudo em todo o lado.
“ Lá das alturas ela viu e fez muitas coisas maravilhosas e algumas grotescas mas sentia-se tão forte que nada lhe faria mal pois ela tinha O Poder para fazer O Bem.
(…) Encarnou poderes muito superiores a qualquer outro ser humano.”[iii]
Tudo aumenta e, por ser maioritariamente (muito) bom, considera-se o oposto do mal-estar, da doença; no entanto, é um sintoma.
Accionam-se acontecimentos sem se ter acabado os anteriores e tudo, mas tudo, o que não nos acompanha nos agride; quem não partilha a alegria e a energia que nos motiva, não nos compreende.
É-se um tsunami que arrasta tudo e todos.
O corpo é uma máquina infalível e insaciável. E o homem moderno, bipolar ou não, é plural e pleno de incoerências. 
A produção laboral aumenta consideravelmente, sendo, no entanto, errónea e precipitada.
O sexo torna-se uma (quase) obsessão animal, visceral.
A verdade é-nos subserviente e tornamo-nos amorais, aquém e além do bem e do mal. A razão é uma média aritmética e além de (só) se aplicar aos outros, somos nós que a instituímos.
Deixamos de ser quem somos para outrem, alguém que também sendo eu ou vocês, tomar de nós posse.
Na subida, deixamos para baixo aqueles que gostam de nós (sublinhe-se este alguém que para mim tem determinados rostos; para si outros, mas com denominador comum: gostam e ficam) e tornamo-nos viciados em estar bem, em estar doentiamente bem.
Estando livres da razão e da moral, o âmbito da acção torna-se brutalmente vasto.

Queria, antes de terminar este texto, de vos dizer o seguinte:

A aceitação da doença por nós tem que ser feita.
“Tornou-se mais fácil para mim aceitar-me a mim mesmo como um indivíduo irremediavelmente imperfeito e que, com toda a certeza, nem sempre actua como eu gostaria que actuasse. (…) quando me aceito a mim mesmo como sou, estou a modificar-me”[iv]
Não ocorrendo, hipotecamos a qualidade de vida, condenamos a tolerância alheia perante nós e, principalmente, não conseguimos ajudar porque continuamos, incessantemente, a precisar de ajuda e a consumir todos os recursos afectivos que nos rodeiam.
“ Não podemos mudar, não nos podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos. Então a mudança parece operar-se mesmo sem termos consciência disso”[v]
A psicoterapia é uma ajuda preciosa.
Acontece muitas vezes quando entro para uma sessão lembrar-me da condição de Dante na “Divina Comédia”:
Ele desceu aos círculos do inferno acompanhado por Virgílio e, posteriormente, por Beatriz
Há, nestas companhias, um companheirismo que me diz para ir, para descer, para descobrir-me, tendo medo, certamente, mas sem solidão, pois alguém está ali comigo.


A serenidade, no que me diz respeito, atinge-se quando nos transformamos em palavras, acções que dão… simplesmente dão.
A bondade é isso mesmo: dar, subordinar as nossas necessidades ao acto de dar.
Talvez seja a melhor forma de derrotar a doença; sairmos de dentro de nós e dizermos “estou aqui virado para ti e disponível para dar”.



Mário Rufino
Mário.coelhorufino@gmail.com

http://www.healthline.com/health/bipolar-disorder/caregiver-support?toptoctest=expand


[i]Merleau-Ponty, “O olho e o espírito”; Vega, 2000
[ii] Egéria, “A espiral do amor” in Bipolar- Revista da Associação de apoio aos doentes depressivos e bipolares Nº 37; pp. 21
[iii] Joana Plácido, “Transmutações” in Bipolar- Revista da Associação de apoio aos doentes depressivos e bipolares Nº 37; pp. 17
[iv] Carl Rogers, “Tornar-se pessoa”; Moraes editores, 1985
[v] Idem
publicado por oplanetalivro às 12:44

01
Jun 13

http://www.diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=635934





A editora Parsifal escolheu, para sua primeira obra editada, um livro de contos intitulado “Contos Capitais”.
O risco de começar com um género literário tão pouco publicado, em Portugal, foi atenuado com a participação de muitos nomes consagrados. Autores como Baptista-Bastos, Mário de Carvalho, Riço Direitinho, Maria do Rosário Pedreira, Miguel Real, Urbano Tavares Rodrigues e José Mário Silva conferem propriedades literárias suficientes para fazerem de “Contos Capitais” uma obra interessante no domínio das narrativas curtas.
Neste livro, cada escritor escreve sobre uma cidade. No global são 30 autores que escrevem 30 narrativas sobre 30 cidades.


Uma obra composta por tantos autores (26 escrevem em língua portuguesa e 4 em castelhano) apresenta, inevitavelmente, oscilações qualitativas. Algumas narrativas breves usam a geografia como mera decoração (“Bruxelas”, por exemplo). Outras, no entanto, valorizam a localização até não ser possível que determinada história possa acontecer noutra cidade (“Buenos Aires”).
No campo estilístico, a qualidade varia da cacofonia presente em “Estocolmo” até à sobriedade da prosa de Mário de Carvalho em “Ashitueba”, cidade fundada na imaginação do autor há cerca de 30 anos.
No aspecto formal, vários textos apresentam-se mais como crónicas (“Atenas”) do que como contos.
Há várias narrativas que merecem destaque, pois acrescentam muita qualidade a “Contos Capitais”:
Com um texto mais próximo da crónica do que do conto, Valério Romão valida a qualidade já apresentada numa ficção publicada, em Maio, na Revista Granta. O autor de “Autismo”, publicado pela Abysmo, vai conquistando a atenção dos leitores.
José Mário Silva oferece ao leitor, em “Washington”, um dos melhores contos do livro. Emotivo, sem artifícios estéreis, objectivo, o texto do autor e crítico literário conjuga muito bem o enredo com o aprofundamento psicológico das personagens, aproveitando, eficazmente, o contexto geográfico.
José Carlos Barros, em “Havana”, “transporta” o leitor para o ambiente social e político de Cuba, através da envolvente história de um treinador de futebol com capacidades idênticas às de José Mourinho.
Os textos de Mariana Ianelli, Alejandro Reyes, Urbano Tavares Rodrigues (talvez seja o que mais “obedece” à estrutura canónica do conto) merecem, pela elevada qualidade, serem relidos.

“Contos Capitais” pode ser um marco para novas estratégias editoriais. No ano em que surge a revista Granta, que dedica muito espaço a narrativas breves, e no ano em que Lydia Davis, autora de, essencialmente, “short-stories” ganha o “Man Booker International Prize”, a Editora Parsifal estreia-se no mercado com um meritoso livro de contos.
Variando do dispensável ao excelente, os textos editados nesta obra caracterizam-na como muito interessante e plural, tanto em estilos como em estruturas.
As fotos e as ilustrações são mais-valias na construção do significado.
O livro, como objecto, é de excelente qualidade gráfica.
Louve-se a tenacidade da editora Parsifal em editar um género literário tão pouco editado em Portugal.

Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com

publicado por oplanetalivro às 07:47

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