28
Dez 12
O meu TOP 10 no Diário Digital


“Austerlitz” de W. G. Sebald (Quetzal)O labirinto do tempo individual e colectivo. A melancolia. A procura de si mesmo.
Sebald, falecido em 2001, deixou-nos esta obra prima.
“A Herança Perdida” James Wood (Quetzal)O autor, em “A Herança Perdida”, levanta dúvidas onde outros ficam presos em certezas absolutas e ideias fossilizadas. E consegue-o através de diversas perspectivas que, em algumas vezes, implicam teorias diferentes.
Na essência, James Wood concretiza um princípio que deve estar presente na crítica literária: Interrogar tudo e todos. E não o faz de forma gratuita, pois explica e fundamenta os seus argumentos.
“A Ilha de Caribou” de David Vann (Ahab)
“A Ilha de Caribou”, editado pela Ahab Edições, é a felicidade cercada e dominada pelo desespero.
O dilema da morte, principalmente do suicídio, a degradação emocional e a influência depressiva do Alasca continuam muito presentes na motivação criativa de David Vann, autor do aclamado “ Ilha de Sukkwan”.
“A Ilha de Caribou” é um lugar habitado pelo medo, ilusão, desilusão e dor.
“A Lebre de Olhos de Âmbar” de Edmund de Waal (Sextante)“A Lebre de Olhos de Âmbar - uma herança escondida” é uma conjugação muito bem-sucedida entre biografia e ficção. Edmund de Waal partiu para esta aventura com o objectivo de conhecer melhor a sua família. Conseguiu muito mais do que isso.
“Já não sei se este livro é sobre a minha família, sobre a memória, sobre mim mesmo, ou se será ainda um livro sobre pequenos objectos japoneses” pág. 310
“A Lebre de Olhos de Âmbar - uma herança escondida” é uma viagem de auto-análise, de conhecimento genealógico e de reflexão sobre factos políticos que foram dramáticos para milhões de pessoas.
“Arde o Musgo Cinzento” de Thor Vilhjálmsson (Cavalo de ferro)«Arde o Musgo Cinzento» é muito mais do que uma história de incesto e crime. Os temas do incesto e infanticídio, por si só, não oferecem novidade. «Medeia» é um clássico exemplo. O que faz deste livro uma obra interessante é a desmistificação do romantismo perante a tangibilidade do real, é a abertura da palavra na poesia ante o fechamento e definição da palavra na Lei (Magistrado), é o Amor (meios-irmãos) diante das convenções sociais.
“Caderno de Mentiras” de Manuel Alberto Vieira (Liríope)“Caderno de Mentiras” é a auspiciosa estreia de um escritor que parece ter muito para contar. Os contos “Um compromisso necessário”, “O perigo de espreitar o outro lado”, “Encontro” ou “Nota Final” pertencem à melhor ficção que foi editada, este ano, neste género literário.

“Caligrafia dos Sonhos” de Juan Marsé (Dom Quixote)“Caligrafia dos Sonhos”, livro mais recente do vencedor do Prémio Cervantes Juan Marsé, é uma obra que tem o equívoco como importante pilar da sua narrativa. A errância de Ringo, que nem é o seu nome verdadeiro, pela veracidade ou invenção dos acontecimentos interroga a promiscuidade entre realidade e ficção. Quase tudo se baseia na credibilidade, e não na veracidade, do que é contado. Ringo opta constantemente pela reinvenção de memórias ou pela projecção no presente de uma fantasiada realidade.

“Fun Home - uma tragicomédia familiar” de Alison Bechdel (Contraponto)
“Fun Home” é um exercício de catarse. Bechdel é motivada pela dúvida sobre a morte do seu pai a procurar respostas que a levem a alguma conclusão. Não consegue. Quando tenta analisar as suas recordações percebe que sempre esteve num mundo de ilusões. Os pais tentaram sustentar um mundo que não existia e onde nunca poderiam ser felizes. São mais reais, como a própria autora afirma, quando vistos através da ficção.
O leitor tem à sua disposição uma obra  que não o deixará indiferente.
“O Sino da Islândia” de Halldór Laxness (Cavalo de Ferro)“O Sino da Islândia” é, desta forma, um diálogo com obras canónicas.
Laxness conjuga personagens que poderiam ter sido pintadas por Pieter Bruegel com a atmosfera criada pelas pinturas de William Turner.
A Editora Cavalo de Ferro edita, após “Gente Independente” e “Os Peixes Também Sabem Cantar”, o livro que pode ser considerado a obra-prima de Halldór Laxness. A edição de “O Sino da Islândia”, traduzido meticulosamente por João Reis, é um relevante acontecimento editorial pela sua evidente qualidade literária.
“Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch” de Aleksandr Soljenítsin (Sextante)Reservando um lugar na história para si mesmo ao expor, pela primeira vez, as condições de existência dentro dos campos de trabalhos forçados, Soljenítsin viu “Um dia na vida de Ivan Deníssovitch” ser utilizado como símbolo da abertura política de Krutchev em suposta antagonia para com a política até ali implementada por Estaline. No entanto, a importância do livro não se resume à ruptura com o cânone temático imposto pela ditadura estalinista.






publicado por oplanetalivro às 20:25

19
Dez 12

Um pequeno texto sobre livros aqui:

http://viajarpelaleitura.blogspot.pt/2012/12/o-livro-aquele-que-para-mim-e-unico.html


publicado por oplanetalivro às 10:11
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07
Dez 12

Cicatriz 
(de "O Engano")

Os meus dedos dobram a carta pelos mesmos vincos, agora frágeis e enegrecidos pelo tempo. Visito esta folha, esta única folha com uma só frase, e resgato, ritualmente, as suas palavras ao passado.
«Quando te quiseres vingar…»
Trago-as sempre comigo, desenhadas no papel dobrado e marcado pelas sombras sanguíneas dos meus dedos, dentro da carteira, dentro cabeça, dentro de tudo o que faço.
«… estarei à tua espera.»

Enfiou-me a carta no bolso e encostou-me a faca à cara. Eu pensei que ele tinha roubado o dinheiro e não quis saber, pois estava aterrorizado pela lâmina na minha pele. Os meus braços estavam presos, e a força havia sido esgotada numa luta sem glória.
Faca na cara. Ele fazia-a rodopiar sobre a ponta, como se fosse um pião, na minha testa. «Espero por ti» e empurrava devagar.
Finalmente, aliviou o peso do seu corpo que prendia o meu, e comecei a mexer-me devagar. Tentei levantar-me, ergui a cabeça, mas o pescoço sucumbiu ao esforço. Senti os meus cabelos a serem puxados e a lâmina a marcar uma linha vermelha de carne, sangue e medo, desde o ouvido à boca. Antes de ele fugir, sussurrou uma acidez que me tem corroído dia após dia.
«Não morres, porque eu não quero. Viverás em vergonha contigo mesmo até ao dia em que te quiseres vingar»
Durante anos e anos, disse e repeti «não quero vingança! Não quero nada! Só o esquecimento!». Mas todos os dias me olhei ao espelho e todos os dias a linha cicatrizada renovou a memória. As palavras revoltaram-se, «Não quero vingança», libertaram-se da pele de réptil e adquiriram novas tonalidades, «Não quero vingança?», novos brilhos, «Não quero nada?», e surgiram pungentes, cheias de vida e de sede e com o sentido alterado.
«Não! Quero vingança!»

Mário Rufino @copyright

publicado por oplanetalivro às 19:27
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05
Dez 12

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=605112

O meu texto, no Diário Digital, sobre este excelente livro


Há uma vasta e intensa história em “A Lebre de Olhos de Âmbar – uma herança escondida”
Edmund de Waal, descendente da outrora poderosa dinastia Ephrussi, resgata a sua família, composta essencialmente por judeus, do esquecimento.
Durante os 3 anos de investigação para escrever esta obra, o autor acompanhou os passos dos seus principais ascendentes, passou por um processo de autoconhecimento e analisou momentos essenciais para a compreensão da História Mundial, entre o fim do século XIX e meados do século XX.
O amor pela Arte está presente desde o início até ao fim do livro.

Tudo começa num ritual. Edmund de Waal almoçava, semanalmente, com o seu tio-avô Ignace Ephrussi (1906-1994). Quando Ignace (Iggie) faleceu, de Waal recordou, de forma similar a Charles Swann em “Em busca do tempo perdido”, esses almoços que terminavam com conversas defronte da vitrina que guardava os netsuke.
Os netsuke são pequenas esculturas japonesas feitas em osso, marfim, ou madeira com acabamentos em âmbar ou resina. Serviam para os homens pendurar no Quimono, vestuário tipicamente japonês e que não tinha bolsos, bolsas para o tabaco, cachimbos, instrumentos para escrita, etc.
Esses momentos no apartamento do seu tio-avô em Tóquio seriam o início de uma grande viagem no rastro dos netsuke.
De Waal torna-se participante num ritual existente há mais de um século. 
“Poder passar de mão em mão um pequeno objecto escandaloso era um passatempo favorito na Paris dos anos 1870. As vitrinas tinham-se tornado essenciais para pequenas pausas espirituosas e galantes” pág.. 67
O tacto assume importância vital na percepção da realidade.
Amante da arte e detentor de vasta riqueza, Charles Ephrussi, depois de várias viagens em que adquiriu diversas obras de arte, instala-se em Paris. Ele virá a ser o primeiro Ephrussi a ter as estatuetas japonesas.
Charles era neto do “Abraão” da família, Charles Joachim Ephrussi que, desde a cidade russa de Odessa, projectou a expansão do império da família pela Europa através da criação de empresas na área financeira, ou através de casamentos com famílias judaicas bem escolhidas. Os seus filhos, Leon Ephrussi e Ignace von Ephrussi, foram enviados para Paris e para Viena, respectivamente.
Na época em que Charles Ephrussi se instala em Paris, após várias viagens, já o seu pai Leon Ephrussi, havia prosperado de forma assinalável. A família era apelidada de “Os Reis do Trigo”.
Nos clubes e em soirées, a arte era debatida e apreciada por várias personalidades (Vítor Hugo, Alexandre Dumas, Proust) que viriam a marcar esse século. Além de várias colecções de arte (pinturas de Renoir, Monet, Degas, por exemplo), de diversas “correntes” artísticas, Charles interessou-se pelo “admirável mundo novo” do Japonismo. Influenciado por esta “escola”, adquire os 264 netsuke, que foram expedidos de Yokohama.
A disponibilidade para apoiar vários artistas, comprando as obras e incentivando-os a produzir, transformou-o em figura essencial na vida artística de Paris.
Marcel Proust baseou, em parte, a personagem Charles Swann de “Em Busca do Tempo Perdido”, em Charles Ephrussi.
“É demasiado estranho ver como coincidem as trajectórias de Charles e de Swann de Proust. Vão-se repetindo os lugares onde Charles Ephrussi e Charles Swann se cruzam” pág. 105
No entanto e apesar de toda a sua dedicação, continuava a ser repudiado por facções anti-semitas, que viriam a crescer decisivamente com o Caso Dreyfus. A situação social da família Ephrussi e de todos os outros judeus piora drasticamente.
Esmorecido o interesse pelo Japonismo, que se tornou banal, Charles enviou os netsuke como prenda de casamento para o seu primo Viktor, que morava em Viena.
Viena era uma ilusão que cobria, até um dramático momento, o anti-semitismo e o hedonismo.
Na época em que os netsuke chegaram à cidade era possível a um deputado discursar no Reichstrat propondo recompensas pela morte de judeus.
O anti-semitismo em Viena é muito mais agressivo.
Viktor Ephrussi, o banqueiro judeu primo de Charles Ephrussi, vê os seus negócios piorarem devido à Guerra do império austro-húngaro contra Inglaterra e a Rússia. Há muitas manifestações contra os judeus.
Quando os checos conquistam Praga, eles repudiam a soberania dos Habsburgos e proclamam a independência. O império austro-húngaro é dissolvido. Áustria torna-se uma República.
Os negócios de Viktor entram na bancarrota.
Os 4 filhos de Viktor e de Emmy dispersam-se: Elisabeth, que será a proprietária seguinte dos netsuke, está na Suíça; Iggie, que receberá os netsuke de Elisabeth e os entregará a Edmund de Waal, está em Hollywood; Gisela e o marido fogem da guerra civil espanhola e vão morar para o México.
O Nazismo tem cada vez mais força. Estamos em 1938 e prestes a entrar na II Guerra Mundial (1939-1945).
Quando a Áustria se alia à Alemanha, os judeus começam a ser perseguidos. Hitler entra em Viena e o Palácio da família é confiscado. As forças alemãs, recebidas em júbilo pela sociedade austríaca, saqueiam o palácio. Levam quase todas as obras de arte. Os netsuke, que haviam perdido toda a importância ao ponto de serem vistos como brinquedos, não são levados.
Viktor é obrigado a assinar um documento que o faz perder o património que era da família há mais de 100 anos. E sai de Viena.
A criada Anna é a única que fica e será ela a guardar, debaixo do colchão onde dormia, os 264 netsuke que virá a entregar, já acabada a guerra em 1945, a Elisabeth.
Em 1947, Iggie vai jantar a casa da irmã. Estava indeciso em sair de Hollywood e voltar a trabalhar no Congo Belga, ou ir para o Japão entretanto ocupado pelos americanos. Foi então que viu as estatuetas japonesas.
“Vou para o Japão”, disse à sua irmã enquanto olhavam os dois para a vitrina. “Levo-os de volta”
O círculo fecha-se.
Já com o Japão descaracterizado pela ocupação e aculturação americana, de Waal, anos mais tarde, vai para Tóquio ao abrigo de uma bolsa de estudo dada por uma fundação japonesa.
Com o falecimento de Ignace Ephrussi, Edmund de Waal herda a responsabilidade, simbolizada em 264 netsuke comprados por Charles Ephrussi, de continuar a história da sua família.
“Um netsuke é pequeno e resistente, não racha nem quebra com facilidade: foi feito para andar aos tropeções pelo mundo. (...) Cada netsuke retirado da vitrina é um acto de resistência contra o presente, uma história recordada, um futuro esperado” pág. 255
E decide conhecer o caminho que os netsuke percorreram.

De Waal consegue aliar, com muito sucesso, a vertente mais académica (investigação) com a ficcional. A fluidez da transição de um prisma para o outro permite ao leitor saber o que vem directamente das consultas concretizadas pelo autor e o que vem da criação ficcional. A narrativa, devido a essa fluidez, não é prejudicada pelas mudanças de perspectiva.
As estatuetas japonesas foram o motivo para o autor viajar, ler e, como em qualquer ficção, ser todas as personagens que, até certo ponto, criou.
 “A Lebre de Olhos de Âmbar - uma herança escondida” é uma conjugação muito bem-sucedida entre biografia e ficção. Edmund de Waal partiu para esta aventura com o objectivo de conhecer melhor a sua família. Conseguiu muito mais do que isso.
“Já não sei se este livro é sobre a minha família, sobre a memória, sobre mim mesmo, ou se será ainda um livro sobre pequenos objectos japoneses” pág. 310
“A Lebre de Olhos de Âmbar - uma herança escondida” é uma viagem de auto-análise, de conhecimento genealógico e de reflexão sobre factos políticos que foram dramáticos para milhões de pessoas.


Máriorufino.textos@gmail.com



My rating: 4 of 5 stars
Mario Rufino
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...

O meu texto, no Diário Digital, sobre este excelente livro




publicado por oplanetalivro às 17:22

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