18
Jul 12
O meu texto, no Diário Digital, sobre "Arde o Musgo Cinzento" de Thor Vilhjálmsson

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=582865

«Arde o Musgo Cinzento», de Thor Vilhjálmsson, em boa hora editado por Cavalo de Ferro Editores, situa-se na obscura fronteira entre a fantasmagoria e o tangível, entre a memória dos mortos e o futuro próximo, entre o sentimento e o raciocínio.

A génese do enredo remonta ao século XIX, período adjectivado de Romântico ou Romântico tardio. A figura de Ásmundur, magistrado e poeta, baseia-se numa figura real. A própria história de incesto e infanticídio encontra-se registada nos anais judiciais da Islândia. Partindo daqui, o autor islandês Thor Vilhjálmsson projectou uma nova luz sobre os factos, criando, assim, uma ficção que assume as vozes do passado (o género poético islandês Rímur; as sagas, os mitos), uma ficção onde existem ressonâncias de outros autores e onde coexistem – uma das principais riquezas deste romance - enfoques plurais e divergentes.
«Arde o Musgo Cinzento» é muito mais do que uma história de incesto e crime. Os temas do incesto e infanticídio, por si só, não oferecem novidade. «Medeia» é um clássico exemplo. O que faz deste livro uma obra interessante é a desmistificação do romantismo perante a tangibilidade do real, é a abertura da palavra na poesia ante o fechamento e definição da palavra na Lei (Magistrado), é o Amor (meios-irmãos) diante das convenções sociais.
A acção central (crime) é, desta forma, contextualizada pelo confronto entre valores divergentes. O misticismo presente na acreditação de figuras como elfos e bruxas é confrontado com o avanço científico (Razão) e religioso (Moral). A coabitação contraditória entre paganismo, ciência e religião age, como agente transformadora, sobre as personagens que deambulam solitárias no espaço e perdidas no tempo. Ao optar por aproximar a voz narrativa a diversas personagens, o autor possibilita a pluralização de perspectivas conforme a evolução do enredo. A interpretação não se encerra na univocidade. O leitor tem a possibilidade de usufruir da capacidade de Thor Vilhjálmsson em adaptar as características estilísticas ao que é pretendido por cada acção (relatórios do tribunal, introspecção do poeta-magistrado, descrição de locais…) e respectiva adequação do vocabulário (de cariz bucólico nas paisagens ou técnico no que se refere ao tribunal).
O autor, ao longo da estrutura fragmentada e elíptica da narrativa de «Arde o Musgo Cinzento», não se detém perante o irrealismo natural da região, não idealiza o meio onde as personagens se movimentam, não se esgota num romantismo caricatural, e insere no argumento a relação entre Homem e o Ambiente. A inóspita paisagem é uma perspectiva sobre a alma de uma entidade colectiva composta por muitas gerações:
«Toda essa população de mortos que este povo arrasta consigo, geração após geração, pelos séculos dos séculos» (pág. 117)
O diagnóstico das causas conexivas entre Contexto (social, ambiental) – Acção (crime) -reacção (punição) é entregue à Moral (vigário) e à Lei (magistrado). E ambas não se conjugam.
«Deus é amor. E quando emitirmos os nossos juízos, por muito que nos apoiemos nas leis da nossa pátria e nas convenções sobre as quais erigimos a nossa comunidade, o que convencionámos chamar sociedade ou nação, reino ou como queiramos chamá-lo, então não nos regozijemos nos nossos corações pelo que acontecerá àqueles que rechacem os nossos juízos…» (pág. 216)
Quando se chega ao fim do livro, a pergunta impõe-se:
Afinal, quem é que cometeu um crime?
publicado por oplanetalivro às 11:12

03
Jul 12


Mãos que dão…

As mãos esbanjam gestos. Não são poupadas nem selectivas. Buscam sons, palavras e frases.  Ficam ansiosas, demonstram força, limpam o suor, enxugam lágrimas.
São espelho da necessidade criativa. A Criação é um dedo que procura outro. O gesto demiurgo nasce nas mãos. Elas criam arte. Escrevem, pintam, tocam. Mas as mãos de que me lembro são mais do que instrumento ao serviço da arte. As mãos de que falo são aquelas que tiram a febre, as que confortam um doente, são as mãos que curam. Não são as do pintor, do escritor ou músico. São as do agricultor, da enfermeira e da médica.
Os gestos de que me lembro não são os da maestrina que espalham a música pelo espaço. São os gestos que espalham a semente na terra, os que regam e colhem. São os que fazem o pão. Há mais dignidade nas mãos de um padeiro do que nas de qualquer escritor. Há mais vida nas de um médico do que em qualquer músico. Há mais beleza nas mãos de uma enfermeira do que em qualquer poesia.
Há mais emoção nas mãos em prece do que em qualquer palavra.
Tudo pela vida, nada contra a vida.


A Arte é uma subordinada.

MR 
publicado por oplanetalivro às 15:25

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