21
Jun 12
A minha entrevista com Tânia Ganho, sobre " A Mulher-Casa", para o Diário Digital.

Tânia Ganho sobre «A Mulher-Casa»: «Este livro é uma homenagem às mulheres»


DIÁRIO DIGITAL: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=578666


Christos Tsiolkas apresentou-me, em “A Bofetada”, a tradutora Tânia Ganho. Foi devido a este livro que conversámos pela primeira vez. Algum tempo depois, saiu “O Filho do Desconhecido”, de Alan Hollinghurst, com outra excelente tradução da mesma tradutora. Antes destes dois livros, já Tânia Ganho havia traduzido John Banville, David Lodge, Ali Smith, Nicholas Shakespeare, entre outros…No entanto, é a sua própria produção ficcional que aproxima ainda mais Tânia Ganho dos leitores. É pela sua própria voz, pelos mundos que cria, que se dá a conhecer.
Vencedora, em 2011, do Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba, a escritora lançou, em 2012, “A Mulher-Casa” (Porto Editora).
Tânia Ganho propõe-nos, no seu 4º romance, um exercício de interpretação literária sobre o problema da libertação do indivíduo.
Neste livro, a atenção recai sobre o papel da mulher na sociedade. A Moral, o Hedonismo, a Fidelidade são temas sobre os quais a autora propõe a reflexão.
Todos nos identificamos, em algum aspecto, com a família de Mara, mesmo que sigamos caminhos diferentes dos que os seus elementos seguiram. Daí a inquietação que “A Mulher-Casa” provoca.

Quem é a mulher-casa? Qual é a origem deste título?  

A “mulher-casa” é o título de uma série de desenhos e pinturas que a artista plástica Louise Bourgeois (1911-2010) fez em 1946-7 e cujo tema – a casa como refúgio ou prisão – desenvolveu até ao final da sua vida, nomeadamente na série de instalações “Células/Celas” que criou nos anos 90. Estas obras de Louise Bourgeois interpelaram-me em especial pela sua ambiguidade e vejo nelas a expressão inquietante do conflito identitário de tantas mulheres actuais, divididas entre os papéis de mãe e de mulher que, infelizmente, continuam, em muitos casos, a ser difíceis de conciliar.


Tânia Ganho, a tradutora, segue o Acordo Ortográfico [“A Bofetada” de Tsiolkas; “O Filho do Desconhecido” de Hollinghurst], mas Tânia Ganho, a escritora, não segue. Qual a razão dessa diferença?

Eu, que na vida sigo o lema da constante mudança, tenho muita dificuldade em adaptar-me a uma nova forma de escrita, por isso continuo a escrever à moda antiga, quer como tradutora, quer como escritora, até porque não concordo com algumas das alterações que o Acordo impôs. As editoras que publicam as minhas traduções é que se encarregam – na fase de paginação e revisão – de fazer a adaptação dos textos, poupando-me a muitas dores de cabeça.


Mais do que a cronologia, são os momentos que marcam o tempo na vida de Mara. Refiro-me aos botões de madrepérola e, principalmente, aos chapéus. Os livros funcionam para a autora como os chapéus para Mara?

Não. Os chapéus da Mara são traduções imediatas dos estados de espírito dela, são transposições criativas das emoções que a assolam no presente, são projectos imediatistas. Os meus livros são projectos de fundo que reflectem a minha noção da vida como uma colecção fluida de momentos que não obedecem necessariamente à cronologia. Não gosto de datas, baralho as datas da minha própria existência, mas tenho uma memória incrível para preservar imagens, gestos, cheiros e momentos, sobretudo os momentos felizes, porque são esses que servem de balizas na minha vida. 


Até que ponto a escrita deste romance a interrogou a si própria enquanto mulher e mãe?

A escrita do romance não me suscitou interrogações, foram as interrogações já existentes na minha mente sobre a condição da mulher e a maternidade que deram origem ao romance.

O enredo tem o eixo em Mara, nas necessidades de Mara, nos problemas de Mara… É uma visão feminista sobre a individualidade e o casamento?

Este livro é uma homenagem às mulheres. A minha intenção foi trazer as mulheres – os seus problemas, necessidades, desejos e sexualidade – para a escrita, como defenderam as feministas francesas Hélène Cixous, Luce Irigaray e Julia Kristeva, nos anos 70, quando apresentaram o conceito de écriture feminine, que infelizmente foi completamente deturpado.

Porque optou por uma narração tão próxima à visão de Mara?

Foi um mecanismo literário premeditado para criar uma maior relação de identificação do leitor com a personagem. Eu queria que as pessoas se identificassem com a Mara, ou pelo menos que conseguissem entrar na cabeça dela e perceber as suas motivações, mesmo não concordando com elas. A Mara tem suscitado reacções fortíssimas nos leitores e é essa é a maior alegria que este livro me tem dado.


Qual é a razão de haver uma diferença de ritmo entre o período antes de Mara conhecer Matthéo e o período depois de Mara se envolver com Matthéo?

Imprimi um ritmo mais pausado à primeira parte do romance de modo a reflectir a lenta degradação do casal e da estrutura familiar, o desgaste gradual da relação e o ruir das expectativas da Mara. A partir do momento em que Matthéo entra em cena, o livro assume o ritmo da paixão, que é por natureza acelerada, irracional, impulsiva.


O leitor é confrontado com vários egos, várias individualidades, que se afastam entre si para satisfazer as próprias necessidades. Estamos perante o “culto do Eu”?

A sociedade actual é pautada pelo culto do eu, pelo individualismo, o egocentrismo, e o livro é a expressão disso mesmo, mas o meu objectivo era mostrar o oposto: tem de haver valores superiores às necessidades mesquinhas do indivíduo.


Na verdade, ela não chega a tomar nenhuma decisão. É levada pelos acontecimentos. Mara é uma personagem reactiva?

Mara é uma pessoa como tantas que eu conheço, que assumem o papel de vítimas passivas dos acontecimentos e ficam sentadas à espera que Deus, o destino ou simplesmente os outros lhes dêem as respostas e as mudanças de que necessitam para serem felizes. A Mara é o oposto de mim, nesse sentido: eu sou uma pessoa que age, a Mara reage.


A personagem Mara segue a doutrina do Hedonismo?

Uma doutrina implica um sistema estruturado de ideias, uma filosofia subjacente ao comportamento. A Mara não tem essa sofisticação mental, limita-se a reagir a encontros e desencontros, sem reflectir. E é demasiado afectada pela noção de culpa para a podermos considerar hedonista.


Na construção das personagens teve algum modelo real/alguns modelos reais?

A Mara é a soma de muitas mulheres com que me tenho cruzado na vida, é uma amálgama de sentimentos e pensamentos que fui coleccionando ao longo dos últimos seis anos. Para a criar, roubei frases a algumas amigas (“eu não durmo, faço sestas”) e utilizei emoções que eu própria senti quando tive o meu filho (a dificuldade em encontrar espaço para a escrita numa vida regida pelo horário dos biberões). O Thomas tem muito de mim, no sentido em que vive no seu mundinho feito de palavras e às vezes tem dificuldade em desligar do trabalho e concentrar-se nos aspectos mais domésticos da vida. O Ministro é uma espécie de Dominique Strauss-Kahn. O Matthéo é um rapaz como tantos outros, mas é uma personagem por quem tenho muito carinho. 


As imagens proporcionadas pela relação sexual entre Mara e Matthéo são muito sugestivas. É difícil escrever sobre sexo?

Dizem que sim. No meu caso, sinceramente nem pensei nisso. Para mim, escrever sobre sexo é muito mais natural do que descrever a Mara a moldar um chapéu de feltro ou o Matthéo a preparar um magret de pato com mel. Cresci numa família de médicos, ainda por cima com um pai urologista, por isso o corpo sempre foi um tema natural e constante à mesa do jantar, sem tabus. Acho que isso ajuda a falar da intimidade de uma maneira espontânea e descontraída.

Há uma simbiose entre Thomas (marido de Mara) e o ministro. Ele, como ghostwriter, é ou influencia a “voz” do poder. Por outro lado, começa a comportar-se, socialmente, como o ministro. Em algum momento, sentiu que estava a suceder a mesma situação entre personagem (ns) e autora?

Não, a fase de simbiose entre a autora e a personagem precede o livro. É antes de escrever o livro que me meto na pele da personagem e vejo o mundo através dos olhos dela. Ou seja, antes de começar a escrever, andei meses a olhar para as coisas à minha volta como se fosse a Mara: escolhi as exposições que fui ver em Paris em função dos gostos da Mara-modista de chapéus, interessei-me pela moda francesa, passei horas a mexer em plumas e feltros e palhas, a analisar os motivos arquitectónicos do 7º bairro e a observar a vida no Campo de Marte. A partir do momento em que senti que a Mara já existia de facto na minha cabeça, já era uma “pessoa” de carne e osso, voltei a ser apenas a Tânia Ganho.


E com que olhos vê o mundo, neste momento?

Com os olhos da personagem do meu próximo romance: um homem na faixa dos 40, com uma profissão ligada ao mar.


Mário Rufino



publicado por oplanetalivro às 13:38

11
Jun 12

“Deste lado da Luz”, de Colum McCann



Colum McCann é um autor irlandês, premiado em sete ocasiões (cinco romances e duas colecções de contos). O romance anterior “ Deixa o Grande Mundo Girar” foi premiado com o “National Book Award” de 2009, entre outros prémios e nomeações. Os seus livros estão traduzidos em trinta línguas. “Deste Lado da Luz” chega a Portugal através da Editora Civilização

“Toda a luz verdadeira regride com a memória da luz” pag.255

I Em “Deste lado da luz”, Colum McCann estabelece uma relação tanto intrínseca como extrínseca com a pintura. As construções das comoventes e poderosas imagens baseiam-se numa dialéctica entre luminosidade e sombras. A caracterização emocional das personagens, a construção de todo o ambiente onde se inserem, a própria contextualização social é sugerida ao leitor através de uma luz que se concentra em aspectos particulares. O que fica na sombra enfatiza o facto desnudado pela luz. A memória e o tempo estão dependentes entre si e a constante referência ao “Melting Clock” de Salvador Dali, grafitado na parede do túnel, simboliza a relatividade do tempo perante a persistência da memória.
A conjugação entre luz e sombra presente no aspecto emocional, social e espacial define os principais elementos ao longo da narrativa, deixando os outros elementos presentes na penumbra, prontos a emergir da escuridão. A construção de imagens é muito forte em “Deste lado da Luz”. O autor consegue ser incisivo e eliminar ou suavizar o possível afastamento do leitor. A procura de Treefrog, na sua pequena caverna dentro do túnel, dos seus objectos pessoais através do acender e apagar de um isqueiro constrói uma incisiva oposição entre o claro e o escuro A luz focal vai desvendando, conforme a vontade do autor, o que podemos ver ou onde devemos pousar a nossa atenção. Outro exemplo que suporta esta técnica narrativa tão ligada à pintura, mais propriamente ao chiaroscuro, é a iluminação dos mapas, desenhados por Treefrog, através da luz de uma vela.
A dialéctica entre a luz e a sombra é a chave de leitura proposta pelo Colum McCann. O tenebrismo está presente nos locais, nas emoções, no conhecimento e na ignorância, no recalcamento de acontecimentos traumáticos e na recordação dura e violenta de actos insuportáveis. Existe na solidariedade e no racismo, no desprezo e no companheirismo. A Luz e a escuridão estão presentes em cada personagem, em cada ser humano.
II
O realismo da prosa de Colum McCann aborda vários temas que, no seu conjunto, resultam numa reflexão sobre a condição humana, os seus valores e construção ética, e sobre a arbitrariedade dos acontecimentos que, de forma irremediável, afecta o desenvolvimento da sociedade e de cada indivíduo. A narrativa é contextualizada pela II Grande Guerra, pelo Racismo dos anos 20 e anos consequentes, pela hipotética libertação do indivíduo nos anos 60, e pelo tempo decorrido até chegar à actualidade. Estamos em duas épocas em simultâneo: acompanhamos Treefrog desde 1991 e Walker desde 1916. A distância temporal das duas narrativas paralelas vai diminuindo com o decorrer da narração, aumentando a pressão dramática e emocional, até chegar à fusão da narração num tempo único. A partilha do local e da temática permite ao autor manter a coerência do texto. Em nenhuma fase o leitor se confunde, ou se “perde”. Em dois tempos paralelos, as personagens repetem-se tendo como ponto comum o túnel (no aspecto físico), o rompimento de limitações (no aspecto emocional) e o possível renascimento (individual e social). É constante a focagem nas margens da sociedade, nas pessoas que nela não encontram o seu espaço, ou, de uma forma mais crua, nos despojos humanos do darwinismo social. A luz destaca as figuras principais do texto, sempre abaixo da linha do horizonte, abaixo do que é socialmente aceitável:
“Meu Deus, estou tão baixo, amor, que afirmo que para olhar para baixo tenho de levantar os olhos” pag. 93)
No plano temporal mais próximo (com início em 1991), a sociedade existe como uma entidade alheia, que caminha e vive por cima dos miseráveis depositados num túnel brevemente visitado pela luz do dia. Em paralelo e numa outra época (a partir de 1916), as diferenças sociais existem através do racismo e da negação de direitos fundamentais. A dificuldade em ultrapassar fenómenos malignos como o álcool e as drogas, a luta contra a miséria e a convivência entre classes são temas basilares das duas narrativas.
A rejeição social, através do racismo, é determinante na vida de Walker que, por ser negro, é uma vítima constante de acções racistas. Estamos no período de 1916-1932:
“Por vezes, na rua, os polícias revistam-no e ele não reage, não se arriscando a dizer coisa alguma; se abrir a boca, eles desfazem-no com pancada. Põe o seu dinheiro de parte num banco de negros – tem menos lucro, mas pelo menos está com os seus e ele sente que está em segurança” pag.53
Ainda neste período, a problemática relação entre trabalhadores e patronato faz-se sentir. Na inauguração do túnel, apesar de todos os esforços do patrão em ser ele a cortar a fita e em ser o primeiro a atravessa-lo, o grupo de trabalhadores antecipa-se e faz questão de partilhar aquele momento histórico com as esposas, os filhos e os netos. O grupo funciona como uma personagem independente, constituída pelos trabalhadores, sem nunca privar os seus elementos de individualidade. O trajecto é uma procissão em honra dos mortos e uma passagem cultural às novas gerações.
“Algumas mulheres colocam flores na beira dos carris, e acendem-se mais velas ao lado dos ramos. A meio do túnel os homens apertam a mão uns aos outros, os soldadores à procura de outros soldadores, os waterboys a conversarem com outros waterboys. (…) O sobrinho de Power corre pelo túnel para lançar a bola de baseball com os outros rapazes” Pag. 49
A estrutura moral ou de valores éticos são divergentes nas duas linhas de narração. Treefrog, Ângela, Elijah e restantes habitantes do túnel, subvalorizados pela sociedade, fazem tudo para sobreviver. Naquela existência afastada da sociedade estão entregues à escuridão e têm uma outra escala de valores. Se na construção do túnel e no seu interior, em 1961, Walker não sente a rejeição social,
“ Mas Walker não se ofende. Sabe que, debaixo do rio existe uma democracia. No meio da escuridão, o sangue que corre nas veias é da mesma cor para qualquer homem – um latino, um negro, um polaco, um irlandês, é tudo a mesma coisa – pelo que Walker apensa se ri” pag 11.
já Treefrog, no mesmo local mas na década de 90, vive como um bicho, isolado, comercializando somente o indispensável e desprovido de qualquer solidariedade. A rejeição social acontece de forma diferente nos dois planos. Enquanto Walker sofre o racismo, Treefrog sofre a miséria.
O desenvolvimento da narração é, também, diferente nos dois casos.
Por um lado, e numa perspectiva diacrónica, acompanhamos a juventude de Walter até ser avô de Clarence Nathan (personagem chave), observando, desta forma, a construção e decadência da sua família ao longo dos anos; por outro, temos uma visão mais sincrónica, menos linear e mais dependente da luz que desvenda a memória de Treefrog e nos permite ir descobrindo a ligação dele com Walker e a sua família. Através das pistas deixadas pelo autor, conseguimos perceber que em tempos ouve uma ruptura insanável na vida de Treefrog. A partir daqui, o seu comportamento tornou-se errante até se transformar em obsessivo-compulsivo. Destruído emocionalmente, começa a agredir-se. Treefrog entra no outro lado da luz, no outro lado da lucidez e dentro da escuridão.
A narração é, muitas vezes, emocionalmente violenta. A verdade interior dos personagens tanto é derrotada como sai, por vezes mas não definitivamente, vencedora.
“- A sério, é uma bela ideia, gostaria de morrer, faz-me lembrar morangos, parece delicioso” pag. 67, disse Ângela a Treefrog.
É com esta personagem que Treefrog vai evoluindo e ensaiando alguns actos de solidariedade e compaixão. É a ela que conta o começo da auto-agressão (clips em brasa, tesouras, alicates, cigarros, fósforos, lâminas…). Colum McCann mostra-nos que há possibilidade de salvação para Treefrog, uma hipótese de ele passar para a luz. E aqui existe uma clara referência a Dante e aos seus círculos do inferno em “Divina Comédia”:  “Ele sabe muito bem que homens e mulheres vivem aqui em baixo e tem de ser cauteloso. A sua aparição no meio deles é falsa, é um homem que ainda vive em algum mínimo de luz. Ele viu-os, aos verdadeiramente condenados. (…) Homens e mulheres feridos vivendo no seu lazareto de desespero. Há sete andares de túneis ao todo- e ele ouviu falar de homicídios e esfaqueamentos aqui em baixo” pag 106
Paralelamente, Clarence Nathan, neto de Walker, conhece o inferno do avô. O racismo atravessa gerações:
“Todos os insultos são rabiscados num caderno da escola: mestiço, mulato, escurinho, tostado, tição, escarumba, esturro, copinho de leite, branquela, carvão, preto” pag. 181
Devido à cor da sua pele, oriunda de avó branca (Eleanor) e avô negro (Walker), Clarence Nathan sofre o racismo dos brancos e dos negros.
O tempo das duas narrações vão-se aproximando, o cruzamento de personagens é mais visível, e as acções e consequências tornam-se mais claras. Colum McCann demonstra-o de forma sublime, através de Treefrog:
“ Debaixo da grade, olhando para cima, a observar as estrelas irrelevantes, Treefrog sabe que a luz a bater nos olhos desapareceu há anos; não existe nada lá em cima a não ser o movimento do passado, coisas há muito implodidas e explodidas e desaparecidas para sempre” pag. 198
Apesar de toda a negrura, decadência, podridão, o autor mostra sempre o outro lado, o lado da salvação, da iluminação. Walker e Clarence Nathan sentam-se na igreja e ouvem as palavras de um novo Pastor, jovem, sobre um antigo rei de Judá, Ezequias. O sermão é sobre a tolerância, a necessidade de fé e da permanência da luta. Na construção de um túnel entre dois reservatórios de água, uma equipa começou a escavar junto à fonte de Siloé e a outra equipa junto à fonte de Giom. Contavam encontrar-se a meio, mas erraram os cálculos e os túneis perderam-se um do outro. Os homens gritaram de raiva e desespero. Quando, em vez de somente gritar, quiseram também ouvir, distinguiram as vozes presentes em cada túnel. Mudaram de direcção e guiados pelas vozes escavaram até se encontrarem:  “Os homens escavaram o resto da rocha e olharam de perto para os rostos cansados uns dos outros. Depois, estenderam a mão e tocaram-se para terem a certeza de que eram reais.” Pag. 163,164
Este é o caminho da luz, onde os dois opostos se unem e onde as duas narrações paralelas se aproximam e se tornam numa só. No fim, num só tempo e narrativa, percebemos que entre Treefrog e Clarence Nathan só um pode sobreviver.
“ Ele esvaziou a si próprio de história, e tudo o que Clarence Nathan conheceu alguma vez na sua vida está entre o momento presente e um túnel” pag. 245
III
Colum McCann manipula com mestria as necessárias técnicas narrativas para manter a coerência do texto, cria imagens pungentes, constrói personagens inquietantes, e elimina a leitura passiva desta história. E consegue-o de forma convincente. O mundo representado é o nosso e depressa reconhecemos contemporaneidade em “Deste Lado da Luz”. A violência emocional é tremenda, mas nunca gratuita. Apesar de alguma falta de fluidez nas analepses, ou flashbacks, o leitor não se perde na inerente complexidade de uma narração a dois tempos paralelos.
Em suma, é um bom livro, composto por várias camadas interpretativas, pleno de significação e que, provavelmente, pede uma releitura. E se o solicita, não é por dificuldade de seguir ou compreender o enredo, mas pela riqueza simbólica das imagens criadas.
Mário Rufino

Para mais detalhes sobre o autor: http://www.colummccann.com/
publicado por oplanetalivro às 09:10

08
Jun 12
Cada batimento do meu coração é uma homenagem à minha avó. Em cada palavra que eu digo mora a sua voz. 
Tenho um desejo na minha vida: que a dela dure para sempre.



publicado por oplanetalivro às 16:14
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05
Jun 12

Entrevista com J. Rentes de Carvalho
sobre “O Rebate” -Quetzal

-O respeito pelo leitor implica que você não vai julgar que o leitor é estúpido porque ele não é. O que você vai ser é muito humilde e saber que o leitor é muito competente e muito capaz. Claro que há uns – inclusive os críticos- que não serão capazes de acompanhar, mas a culpa é deles não é minha.-http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=574593


Cheguei ao hotel e vi J. Rentes de Carvalho a observar um grupo de ingleses que, às 10 da manhã, bebia champanhe no átrio. De braços cruzados, rosto impávido e sereno, concentrado no grupo, não me viu chegar. Assim que me apresentei, foi ele que fez a primeira pergunta: “Você percebe alguma coisa de computadores?” e apontou para o seu portátil.
José Rentes de Carvalho é um contador de histórias. Sempre afável e conversador, não perdeu a vertente pedagógica formada pelas décadas de ensino universitário na Holanda. O motivo da nossa conversa era a edição do seu romance “O Rebate” (Quetzal), mas falámos sobre muito mais do que isso. Através desta entrevista, podemos conhecer o trajecto pessoal e o caminho que o escritor teve que percorrer até ser reconhecido em Portugal. J. Rentes de Carvalho leva-nos até outros autores. Os seus livros levam-nos até outros livros.
Começámos por falar sobre a sua colectânea de contos “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” e continuámos por muitos mais temas. “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, também editado pela Quetzal, foi o livro que antecedeu “O Rebate”. No começo da nossa conversa ficámos a saber a razão de o livro ter o título de um dos contos que o integram.
Como ele gosta de dizer, “Eu vou contar-lhe outra história.”:
JRC- O livro [“Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”] eram dois livros. Na Holanda foi editado como dois. Um com o título de “O Milhão, recordações e outras fantasias” e “O Joalheiro”. Mas quando estive a falar, cá, disse que aquilo era tudo o mesmo e para fazermos um livro só e juntei, porque gosto muito de Dalton Trevisan… -não conhece, não? Vá comprar já! Dois títulos: “A guerra conjugal” e “O cemitério de elefantes”. O Dalton Trevisan é ainda vivo e é um pouco mais velho do que eu. É director de uma fábrica de cerâmica em Curitiba (fábrica da família). Nos Estados Unidos, na Alemanha e na Holanda é considerado o melhor contista do mundo, mas no Brasil é só um bocadinho amado. Nos anos 60 escrevia, no máximo, um conto de página e meia, e muito excepcionalmente duas páginas, mas a força dele está no conto de uma página só. Os personagens masculinos são sempre José e as femininas são sempre Maria. Outro título: “O vampiro de Curitiba”. Agora está a ficar velho ou meio-tonto porque já tenta fazer um conto em 6 ou 7 linhas. É um bocado exagerado. Quer dizer…ele tem razão, mas a cabeça dele funciona de outra maneira do que a do leitor. Ele está-se nas tintas para o leitor. Esses 3 livros: “A guerra conjugal”, “Cemitério dos elefantes” e “O vampiro de Curitiba”. Eu tinha um colega, que foi meu tradutor e colega da Universidade, que era um fanático de Dalton Trevisan. Ele deu-me os livros todos e eu fiquei vendido. -Quando fiz esta junção de dois livros, escrevi o conto que dá o título ao livro “Os lindos braços da Júlia da Farmácia”. É uma página e ele está aí por uma simples homenagem ao homem que é fantástico! Eu nunca vi um escritor que seja capaz de dizer de alguém “Ele levantou-se e tinha caspa nas sobrancelhas” [Risos]. Uma filha que foi abusada pelo pai (não sabemos que foi), mas o pai morreu… Ele está no caixão; ela está sozinha com o pai, olha para ele, põe um cigarro e vai queimando-o aos poucos…Toda a gente devia ler Dalton Trevisan.

Tenho de lhe fazer uma pergunta que faço a mim e talvez seja a mais difícil. Por que razão só agora está a ser tão lido em Portugal?

A resposta é simples. O meu primeiro romance, “ Montedor”, foi aclamado de uma maneira “tonta” para aquele tempo. Saramago, que ainda não era uma pessoa com esta categoria, mas era um bom crítico e era respeitado, escreveu na Seara Nova uma pequena recensão…talvez de cem palavras… e deu-me uma quantidade de elogios e lançou-me no “meio” de Lisboa. Eu estava na Holanda e não segui isso. Depois houve umas tentativas de aproximação dos neo-realistas, mas tudo muito discreto. Eles disseram logo “Este sujeito não é de cá, nem quer ser de cá…”…não é no sentido da nacionalidade, ou da sensibilidade mas de não ser de cá da “capelinha” O livro foi editado pela antecessora da “Caminho”, pela “Prelo”, que era do Partido Comunista, toda a gente sabia, e três anos depois, em 71, saiu o segundo romance [O Rebate] e então caiu-me a malta em cima. Eu até pus no meu blogue [Tempo Contado] aqui há uns tempos. Entre outros, o Sr. Nelson Matos, que naquela altura era crítico: “..este gajo nem sequer sabe conjugar os verbos…isto não é linguagem…devia ter cabeça”. Eu tenho com muito orgulho aquilo no meu blogue. E depois tive uma sorte do caneco. Tinha um amigo que, por acaso, era editor holandês, director de uma grande editora, e juntávamo-nos a conversar, de vez em quando, num café. Ele bebia muito, eu bebia menos, fumávamos ambos muito, e demorávamos muitas horas a conversar. Nesse belo dia eu estava maldisposto com a vida e com a Holanda e dei uma “catanada” nos holandeses e ele ouviu, pois era um homem educado, cultivado e muito inteligente. Ao fim daquilo (demorou mais de uma hora; devo ter perdido a cabeça…) ele diz assim: “Porque é que não escreves isso?”
[acenou a cabeça negativamente] Eu estava tão arreliado com eles e com a vida… Fomos embora.
No dia seguinte ou talvez dali a dois dias recebo uma carta.
A carta trazia um cheque muito generoso e tinha um cartãozinho a dizer “e agora este é o pagamento dos direitos de autor”. E foi assim que o livro [Com os holandeses] nasceu.

O Rebate” foi publicado agora, mas foi escrito quando?

Em 71

…e foi antes e depois de que livro?


Primeiro, foi “Montedor”, que o Saramago elogiou. Depois foi este [“O Rebate”] que toda a gente deitou abaixo. Teves umas críticas feitas por um sujeito que trabalhava para a Gulbenkian…”..isto não é moralidade…” enfim..
Depois, veio o livro “Na Holanda”…

…quando diz “Na Holanda” [edição holandesa] será “Com os holandeses” [edição portuguesa] cá ?

Sim, sim…Tem um título “Onde mora um outro Deus”, mas eu achei que esse título não passava em Portugal.
O êxito foi enorme na Holanda. Foi espectacular. Tive três anos de edições consecutivas e tive um ano quase inteiro em páginas de jornais inteiras. Nunca tinham tido um sujeito a dizer aquelas coisas… [risos]. Eu não devo nada a ninguém, não tenho partido nem tenho dívidas…
Esta gente aqui… mudou depois porque tudo o que é nome na literatura portuguesa desde 1960 até hoje todos me conhecem, todos me cumprimentaram já alguma vez e mais! Uma grande parte, quando estive na universidade 32 anos, era convidada para ir lá dar uma conferência e nós instalávamo-los no Hilton. Agora acontece uma coisa: desde há dois anos essa gente que em trinta e tal anos não me conheceu diz assim à mocidade: “Diga-lhe lá! Eu conheço-o! Somos muito amigos! Ele que venha…” O único que fugiu dessa miséria foi o Alçada Batista. Se eu lhe contar…houve uma visita de Estado do Sampaio à Holanda. A Rainha, que já me convidou para sua casa, convidou-me a mim e à minha mulher para o jantar. E disse assim “Conhece o Rentes de Carvalho, seu conterrâneo…” E o Sampaio… [abriu muito os olhos demonstrando um ar atrapalhado] [risos]
Tenho um outro testemunho: esse jantar era oferecido pela Rainha ao Sampaio, depois o Sampaio ofereceu um jantar à Rainha numa espécie de igreja. Está o António Esteves Martins, está o Jaime Gama e estou eu. Estamos a conversar, tinha acabado o buffet, a Rainha passa com o Sampaio, olha para mim e faz assim [acenou com a mão]; e o Jaime Gama diz assim: “Ela conhece-o????” [risos] e o rapaz da TV disse que sim, conhece…
Tenho cartas muito bonitas do pai da Rainha a agradecer…ele gostou muito do livro, ele próprio era alemão, por isso compreendia muito bem…Na Holanda, tenho uma situação que não tem nada a ver. Isto tudo interessa-me só pelo lado do afecto e da sensibilidade, mas a gente que é das literaturas…ah…
Não me interessa por uma quantidade de coisas…
Agora, estou a gozar este êxito. Eu soube ontem que depois do Peixoto sou o escritor que vende mais. Neste momento, o Peixoto vende um pouquinho mais do que eu, mas isso não… O carinho de ser editado na minha terra e de ser lido pela gente para quem estes livros foram escritos! Não foram escritos para a Holanda, menos “Com os Holandeses”… os outros não foram.
Tenho um guia de Portugal [Portugal, een gids voor vrienden (Portugal, Um Guia para Amigos)] que ultrapassou os 200.000 (duzentos mil) exemplares. Depois de ano e meio de ter saído a seguir de Portugal, foi espectacular. Esteve dez semanas acima de “O Nome da Rosa” do Eco. O ISEF fez um estudo e concluiu que no ano anterior cerca de 300.000 (trezentos mil) turistas holandeses tinham vindo a Portugal por causa do guia ou com o guia. Então o governo foi muito gentil e perguntou o que podiam fazer: “Você aceitaria uma condecoração?” Lá me fizeram Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Mas fizeram outra coisa…

…foi com Sampaio?

…não, foi com Mário Soares. Outra coisa que fizeram, que eu achei muito gentil, foi que o governo ofereceu trazer nove jornalistas holandeses durante dez dias para Portugal, com “carta branca” de despesas. Foi muito bonito. Depois, o meu editor holandês, que me tinha mandado o cheque e que ganhou muitos milhões de florins naquela altura, disse “A Editora quer fazer alguma coisa por ti. O que é que tu queres?”
Pedi para se editar pelo menos 5 romances de Eça de Queiroz. Fizeram uma edição de luxo. E eu pus Eça de Queiroz, como já tinha posto Fernando Pessoa, na literatura holandesa. Aliás, Pessoa desde 1992 já vendeu para cima de 150.000 (cento e cinquenta mil) exemplares na tradução do meu colega. Não tem ideia do impacto de Fernando Pessoa na literatura holandesa! A tradução é genial.

O que é que traduziram na Holanda?

Traduziram o “Livro do Desassossego”, “ A Mensagem” e traduziram uma colectânea grande de poemas… O essencial de Fernando Pessoa.
Sabe… A vaidade está satisfeita, a parte financeira também está satisfeita….

Perguntei-lhe quando é que tinha escrito “O Rebate” porque há uma grande diferença entre a forma de escrever de “O Rebate” para “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”[penúltimo livro editado] …

…aí há vinte anos de diferença.
O meu sonho na vida era ser realizador de cinema. Ainda fiz dois anos no IDHEC, em Paris, mas descobri uma coisa triste. Eu sou muito individualista e tenho horror a estar dependente, a precisar de [algo] para funcionar. O cinema não é feito pelo realizador; é pelo homem do dinheiro. O homem do dinheiro é que diz “Eu não quero essa cena. Deita fora.”. Alguém estar a dizer-me…um editor que me dissesse “Isto tem de mudar. Põe um bocadinho mais de sexo…”! Eu tenho tido uma sorte do caneco até agora: dois editores na Holanda e o da Quetzal são gente que me compreende e que se pegam [no livro] não vão mexer. Essa história do “Editor” [escola americana] … mas de quem é o livro? É meu ou é dele?
Por exemplo, O John Grisham não escreve. A Editora tem uma colectânea de cinco ou seis ou dez sujeitos.

Ghostwriters…

É assim. É um produto industrial. Por isso, todos os seis meses vem um livro e o homem anda de férias.
Eu sou da fase simples, do artesanal, e de eu próprio. Já vendi tanto livro que me deu aquele consolo: ”fizeste uma coisa bonita” [risos]

Já deixou a sua marca…

Portanto, o meu sonho era o cinema. O meu sonho era escrever guiões para o cinema. Não tinha muito interesse na literatura. A literatura era uma coisa que me parecia tão superior, tão acima daquilo que eu podia alcançar. Li muito principalmente Eça, Camilo, Zola, Balzac e esta gente deixou uma marca tão importante em mim que eu olhava lá para cima.
“Montedor” foi escrito numa espécie de revolta contra a situação familiar e social portuguesa, depois veio “O Rebate” e esse era mais feito para ser um guião de filme porque é muito visual.

E segmentado, não é? Tanto a nível da estrutura, que é muito segmentada e plural (estamos com uma personagem e logo a seguir estamos com outra), como a nível de linguagem, que é como que “cubista”, ou seja fala da chuva e depois fala do cão depois fala da senhora… salta de imagem em imagem sempre com uma ideia em comum. Há coerência entre a estrutura e a construção frásica. Foi pensado assim?

Foi, foi propositado. É muito visual. Qual foi uma crítica importante que me fizeram? “Não se sabe quem é que está a falar!” [risos]
E eu disse “Você entra no livro e não está a pensar no que é que a Joana disse.” Esse é o costume dos maus escritores: “Então ele disse…e ela disse…e eles saíram”. Não! O respeito pelo leitor implica que você não vai julgar que o leitor é estúpido porque ele não é. O que você vai ser é muito humilde e saber que o leitor é muito competente e muito capaz. Claro que há uns – inclusive os críticos- que não serão capazes de acompanhar, mas a culpa é deles não é minha.

Passando do nível estrutural para o nível lexical. Há palavras que já caíram em desuso e há muitos regionalismos…

A menina da Câmara Clara, ontem, disse assim: “Ai! Eu gostei tanto do seu livro e sabe porquê? Tem lá tantas palavras que eu ouvia da minha avó, inclusive «cu de arroba» ” [risos]
Outro senhor disse “Que carinho! Pela primeira vez em cem anos eu vejo uma frase em que diz “Vós tendes lume? ”
O Você nos anos cinquenta e sessenta era insultuoso! Agora vieram as telenovelas brasileiras e limparam a coisa pelo mais baixo.

O Vós desapareceu da oralidade… e da escrita também. Não sei se foi por escolha, mas vi que o livro não seguiu o acordo ortográfico.

Ai não! Por amor de Deus! Eu não sou do Acordo…É uma bandalheira, é uma coisa tosca. Tudo aquilo que na língua, na ortografia, era sinal e ajudava… ai não sigo, não…

Enquanto estava a ler o livro dei comigo a pensar que era uma tragédia transmontana. Ninguém morre, mas também ninguém se safa. Há aridez e azedume em relação à sociedade. Porquê essa visão tão pessimista?

Não é nada pessimista. É carinhosa. Eu já vou explicar… De vez em quando digo e não é brincadeira: Nasci em meados do século XIX. Vila Nova de Gaia, o lugar onde nasci, em 1946 ainda não tinha luz eléctrica. Nós íamos, nesse século XIX em Agosto e Setembro, para Trás-os-Montes, e eu caía de imediato no Império Romano. Já tenho dito várias vezes… Os instrumentos da lavoura que nós tínhamos até aos anos sessenta do século passado, em Trás-os-Montes, eram os mesmos que você encontra nas gravuras romanas inclusive o arado de pau. Isso deixaram os romanos. O carro-de-bois, que em Trás-os-Montes ainda se vê e que as pessoas agora põem no quintal, é o mesmo que você vê nas gravuras romanas inclusive o tamanho das rodas.
Ora bem…eu vinha de Vila Nova de Gaia, em meados do século XIX, e chegava ao império romano.
A Margarida [Ferra] esteve lá ontem na casa que foi do meu avô. Atrás da casa está um bocado de terreno que é de um primo, mas naquela altura era, sem vergonha de ninguém, o cagadouro público. As pessoas vinham ali atrás daquela parede, as mulheres levantavam a saia e os homens arreavam as calças e, conversando, faziam ali as suas necessidades. O ânus, quem o limpava limpava-o com uma pedra com pó ou levava um bocadinho de palha. Você não vai acreditar nisto, mas é assim. Da minha infância, nos anos trinta, até quando me fui embora (tinha 19 anos), até 49, era assim. Por isso, não sou eu a “pintar” mal a situação! Você não imagina! As pessoas iam de porta em porta com uma pinha na mão… sabe o que é uma pinha, não sabe? Com uma pinha na mão, as mulheres iam às vizinhas: “Tens o lume aceso?” Para poupar o fósforo! Um fósforo!

Obviamente que havia muita pobreza. O imigrante que vem [de França] com a esposa traz hábitos completamente diferentes e…

Primeiro, ele teve pouca sorte. Eu vou-lhe contar outra história. A Maria Isaura Pereira de Queirós, que morreu há 4 ou 5 anos, era socióloga brasileira, professora na Sorbonne, e conhecida em todo o mundo como socióloga. Quem via a Maria Isaura julgava que era criada de servir. Ela foi à Prefeitura da Polícia, em Paris, para renovar o visto e estava sentada ao lado de um sujeito e às tantas perguntou-lhe a nacionalidade. Era português. E falou com o rapaz e disse-lhe assim “Então…está contente?”; “Estou contente, estou contente»; “É casado?”; «Não, não sou porque eu tinha uma rapariga em Aveiro e queria casar com ela, gostava muito dela, mas ela foi muito leal comigo e disse que o patrão já lhe tinha feito o mal”;
E então diz a Maria Isaura assim “Mas lá na sua aldeia deve haver raparigas”; “Há minha senhora, mas não fazem nada”; “Mas então case com uma francesa!”; “Mas aqui fazem tudo!!” [risos]
É a tragédia do sujeito que vive em dois mundos totalmente diferentes! Ou tem a sorte de casar com uma mulher que traz dinheiro e fecha os olhos ao resto…mas depois é confrontado…

…com aquelas situações.
Ora…Encontra-se a si mesmo e a única coisa é fugir.

[O Rebate] Tem muitas memórias suas?
Não tem memórias. A única coisa que tem de real é uma cena de mulheres cheias de moscas, com os xailes, no verão e no fontenário. É tudo invenção.

Anda à volta com o morto, ainda? [sobre o novo romance]

Não. Eu ontem dei a boa notícia. É um milagre. Estou à volta com o morto há mais de dez anos e anteontem de manhã, quando acordei, estava a tomar café com a minha mulher e estávamos a conversar e eu de repente tive um “salto” na minha cabeça e “já sei o que vou fazer ao homem”. Não estávamos a falar de coisa nenhuma em relação a livros, estávamos a falar de coisas domésticas, e de repente descobri o que vou fazer. Para o ano tem livro novo.


Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com



Entrevista J. Rentes de Carvalho para a SIC Notícias (Link)




publicado por oplanetalivro às 12:14


“Furacão”
Laurent Gaudé
Porto Editora


“Furacão” é uma catarse individual e colectiva.


Laurent Gaudé, autor de “O sol dos Scorta” (Prémio Goncourt 2004), apresenta-nos um exercício niilista através do qual procura testar os limites morais do ser humano. “Furacão” aborda a destruição a que Nova Orleães foi sujeita pela violência da água e do vento (furacão Katrina), e que destruiu os pilares da organização social. A devastação está presente em todo o romance e o seu poder é essencial no percurso e destino de cada uma das suas personagens. O local, que pode ser visto como um personagem “colectivo”, proporciona, através da sua caracterização, uma visão sociológica que incide, sobretudo mas não exclusivamente, sobre a segregação racial. A Natureza, normalmente incluída como contexto de elementos importantes no romance, é catalisadora de todos os acontecimentos.
A estrutura do romance assenta numa narração polifónica e o enredo apoia-se em cenas curtas de conteúdo visual muito sugestivo.
A pluralização de perspectivas narrativas trabalha o enredo sobre diversos pontos de vista e permite-nos observar a psicologia de diferentes personagens perante tão violenta ruptura física, emocional e social. No entanto, Gaudé não compatibiliza qualquer alteração de ritmo ao longo da narrativa que, só por si, permita a identificação das personagens. Essa possibilidade concentra-se, essencialmente, na escolha do léxico e utilização do vocativo. Assim sendo, observamos Josephine referir-se a ela pelo nome próprio:
“Nasceu o dia, mas sei que nos espera o pior. A hora que aí vem é a hora dos chacais, e eu, Josephine Lin. Steelson, sei reconhecer o seu cheiro entre mil. Pág.75
Observamos, também, o Reverendo a apelar a Deus, o prisioneiro a mencionar o cárcere, Keanu a falar sobre a plataforma petrolífera, etc.
Gaudé não deixa de ser eficaz quando as individualiza de outras formas. O leitor não tem dificuldade na identificação das vozes narradoras.
A destruição ambiental dilui a fronteira entre o bem e o mal. Não são só os edifícios que são destruídos; a Moral é posta em causa quando as rotinas sociais que a sustentam entram em colapso.
O niilismo estimula a anarquia e potencia novas vias existenciais. A catástrofe permite uma hipótese de recomeço.
Josephine, exemplo de resiliência, é a voz, a memória e a guardiã da dignidade da população negra, historicamente privada da igualdade social.
“Virão em nossa ajuda, com certeza, mas muito mais tarde. Enviarão helicópteros e bidões de água, mas nada eliminará o facto de, no momento de correr, não se terem voltado, se terem mesmo esquecido de que deixaram para trás os negros de sempre”. Pág. 100
O Reverendo vê a intempérie como um castigo divino e uma hipótese de redenção individual e colectiva. Ao ajudar os outros, o Reverendo ajuda-se a si próprio. A sua caridade ajuda os mais desfavorecidos, mas também se alimenta deles. Quem dá o acolhimento precisa do medo de quem é acolhido. É esse medo que, em substância, provoca a euforia religiosa no Reverendo. E é a influência dessa euforia que provoca a sua psicose. Para ele, estamos perante o castigo divino.
Os prisioneiros têm na inesperada liberdade uma nova oportunidade de salvação; Keanu procura a redenção e o perdão de Rose, a população procura a simples sobrevivência e perpetuação.

“Furacão” é a destruição antes do recomeço. “Furacão” é uma catarse individual e colectiva.

Mário Rufino

Mariorufino.textos@gmail.com  

publicado por oplanetalivro às 12:05

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