29
Fev 12

A Cultura e as Comunidades de Leitura

“aspira a contagiar a los demás ara que sean felices cada cual a su perspectiva” 
Ortega y Gasset en El Espectador

“Para o linguista, a comunicação é um facto e mesmo até o facto mais óbvio. As pessoas, efectivamente, falam umas com as outras. Mas, para uma investigação existencial, a comunicação é um enigma e até mesmo um milagre. Porquê? Porque o estar junto, enquanto condição existencial da possibilidade de qualquer estrutura dialógica do discurso, surge como numa multidão, ou de vivermos e morrermos sós, mas, num sentido mais radical, de que o que é experienciado por uma pessoa não se pode transferir totalmente como tal e tal experiência para mais ninguém. A minha experiência não pode tornar-se directamente a vossa experiência. Um acontecimento que pertence a uma corrente de consciência não pode transferir-se com tal para outra corrente de consciência. E, no entanto, algo se passa de mim para vocês, algo se transfere de uma esfera de vida para outra. Este algo não é a experiência enquanto experienciada, mas a sua significação. Eis o milagre. A experiência experienciada, como vivida, permanece privada, mas o seu sentido, a sua significação torna-se pública. A comunicação é, deste modo, a superação da radical não comunicabilidade da experiência vivida enquanto vivida. 

RICOEUR:1996, pp27-28


TEXTO INTEGRAL EM  Revista Letras et Cetera (Brasil)

http://nanquin.blogspot.com/2012/02/cultura-e-as-comunidades-de-leitura.html
publicado por oplanetalivro às 22:20

28
Fev 12

«A Caixa Negra» de Amos Oz

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=560756


Abriria a caixa onde mantém as recordações de uma cicatriz? Amos Oz, em «A Caixa Negra», editado pela D. Quixote, diagnosticou e autopsiou a relação e obsessão das personagens que compõem este romance epistolar.

O autor optou por um prisma emocional e uma prosa muito adjectivada em «A Caixa Negra». A estrutura coral concretiza-se em perspectivas diversas sobre o desenvolvimento de várias relações de dependência. O diferimento da mensagem, num romance epistolar, é mais acentuado. Sabemos a data em que as cartas são escritas, marcando, assim, a diacronia do romance. O autor não se «esconde» na voz de um narrador único e pluraliza-se em várias vozes integrantes da própria história. A desintegração do fio narrativo é um risco enorme, mas Amos Oz constrói um texto coerente.
Além da diacronia da história, as personalidades criadas são avaliadas de forma sincrónica, ou seja, são demonstrativas de uma forte vertente emocional com todas as incoerências e atitudes de quem é controlado pelas emoções.
«Não há recuo depois desta carta. Nunca haverá. Estou a enganar o Michel tal como te enganei tantas vezes ao longo de seis dos nossos nove anos de casados.
Uma prostituta nata» (pág. 54)
Amos Oz leva cada uma das personagens principais até ao extremo, até ao limite da sua moral. Boaz, Ilana, Alex e Michel Sommo são sujeitos a provações que colocam em causa o que sentem, pensam ou acreditam.
«O meu ódio está a morrer e a minha lucidez morre com ele» (pág. 108)
Estamos perante um debate similar a um combate de boxe que só termina quando conhecem os próprios limites.
Em relação à história em si, Boaz é o catalisador do que a seguir virá. Filho de Ilana e de Alex Gideon, que no momento do escandaloso divórcio por adultério de Ilana não reconhece o filho, Boaz virá a obrigar os pais a enfrentar as cicatrizes de uma relação sado-masoquista hipoteticamente enterrada no passado. No meio desta relação encontra-se Michel Sommo, actual marido de Ilana e pai de uma filha em comum. Michel Sommo é um judeu sefardita que ambiciona o poder dos Judeus na Terra.
A dialéctica entre estas personalidades (e outras que aparecem pontualmente como o advogado Manfred Zakheim) é composta por agressividade, compaixão, pulsão sexual e muita ironia.
«Além disso, os sentimentos que a minha pessoa continua ou não a causar-te não me afetam de maneira nenhuma. Ficaria muito satisfeito se vocês os dois [Ilana e Michel Sommo] deixassem de manifestar tanto empenho nas minhas contribuições [dinheiro]: não sou nem o Banco de Inglaterra nem um banco de esperma» (pág.72)
A forma como é conseguida a criação de diferentes registos para cada personalidade é brilhante. Podemos, não só pela construção do texto mas também pelas suas características psicológicas, identificar quem as escreveu sem precisar de chegar ao fim da mensagem e ver a assinatura.
Ao longo da narrativa, o autor parece «jogar» com o favorecimento do leitor. As diferentes escalas de valores afastam-se ou aproximam-se da moral a que o leitor pertence. A repulsa, a comicidade e a empatia são efeitos provocados por uma manipulação emocional muito bem conseguida por Amos Oz em «A Caixa Negra».
«A felicidade, escrevi eu, é kitsch» (pág. 109)

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com


publicado por oplanetalivro às 21:05

23
Fev 12
Saiu o meu artigo sobre "Peregrinação de Enmanuel Jhesus", de Pedro Rosa Mendes, no Centro de Estudos Portugueses da Faculdade de Letras da Universidade de Minas Gerais.
Infelizmente não consigo disponibilizar aqui o artigo. Quem o quiser ler, envie-me um email. Terei muito gosto em dar o artigo em PDF.
Fica a notícia.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

publicado por oplanetalivro às 12:21

20
Fev 12

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

Outra vidaOutra vida by Rodrigo Lacerda
My rating: 3 of 5 stars


publicado por oplanetalivro às 20:44

15
Fev 12

Contos dos subúrbios
(vencedor do Indie Award, do World Fantasy Award e do melhor livro do Festival de Angoulême)
Shaun Tan
Editora: Contraponto

http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=4451

Shaun Tan, com os seus “Contos dos Subúrbios” aborda a problemática saussuriana da relação entre a forma (significante) e o conteúdo (significado). Se, em verdade, qualquer texto ilustrado “pressente” a sua explícita ligação ao signo linguístico (significante + significado), o autor entende esse dilema e expõe as dificuldades existentes na ligação permanente entre forma e conteúdo.
A narrativa apresenta-se como uma radicalização da norma (ou será a palavra uma radicalização da norma?) Se a palavra escrita tem influência na memória, não afasta os problemas de interpretação. Aliás, talvez se tenha afastado ainda mais do objecto em si quando o ser humano nomeou a ideia que tem desse mesmo objecto (e não propriamente o objecto).
Ao “entrarmos” no livro deparamo-nos com uma imagem sem qualquer palavra que se refira a si própria. Podemos reparar, assim, que está mais próxima do sonho do que propriamente da interpretação realista. As palavras que efectivamente existem nesse desenho são arbitrárias: o título não tem uma ligação directa ao desenho.
Em “O Búfalo”, por exemplo, temos várias aproximações ao sentido e, desta forma, confirmamos a arbitrariedade da mensagem verbal. Se olharmos somente para o desenho, o campo de interpretação é muito mais vasto do que se lermos as palavras. Se conjugarmos as frases com a imagem, apesar de serem compatíveis, percebemos que a mensagem verbal tanto é aquela como poderia ser outra. O campo de interpretação torna-se mais estreito, mas não necessariamente mais puro.
Note-se a enorme amplitude simbólica da figura de “Touro”. A avaliação diacrónica do significante permite avaliar as suas mutações. O mesmo símbolo tem vastas e contraditórias interpretações ao longo dos séculos.#
Em “Eric” podemos ler o seguinte:
“Aqui há uns anos tivemos um universitário estrangeiro dum programa de intercâmbio a viver connosco. Tinha um nome muito difícil de pronunciar, mas ele não fez questão disso. Disse-nos para lhe chamarmos só “Eric”. Pág. 8
Terá mudado algo no “universitário estrangeiro” por ser chamado por outro nome? Não será ele a mesma pessoa? E, no entanto, a palavra que o “significa” alterou.
A tolerância em relação à diferença linguística (incapacidade de o chamarem pelo nome dado na sua língua materna) é retribuída com a tolerância cultural da família de acolhimento. O resultado só poderia ser, quando Eric parte, um belíssimo acto de conciliação de perspectivas.
Em “Brinquedos partidos” temos outra abordagem à problemática da arbitrariedade entre significante e significado:
“- Talvez devêssemos levá-lo à vizinha Más Notícias – sugeriste tu, referindo-te à senhora Katayama, a única pessoa japonesa que conhecíamos no bairro.”
A renomeação da pessoa deve-se aos actos associados a ela própria. Cada vez que um brinquedo caía no quintal dela era devolvido em bocados. Por isto, chamavam-na de “Más Notícias”
Shaun Tan# não se limita a interrogar o signo linguístico. Em “Chuva Distante” e “Comunicado dos Serviços Sociais” é a própria organização espacial da mensagem escrita que é interrogada.
“Chuva Distante” é uma pintura feita com palavras. Na “leitura” da pintura, a visão tem menos pontos de referência. Se num texto começamos de cima para baixo, da esquerda para a direita (línguas itálicas e germânicas, por exemplo), numa pintura a atenção dispersa-se mais, abrindo a visão a novas conjugações e obrigando à ruptura com o esperado. É isto que acontece nesta narrativa. Palavras dispersas, retiradas de outros textos, criam uma mensagem (ou várias) para quem interpreta. Não sendo uma ruptura total com a organização espacial do texto, “Chuva Distante” propõe-nos uma visão diferente. A ideia do poema ser uma evolução delicada de palavras e sensibilidades é muito bem concebida nesta narrativa.
 “Contos dos Subúrbios” é composto por histórias pequenas e muito envolventes. Estamos num mundo onde o real coexiste com o mágico e o materialismo adapta-se perante a imaginação.
Shaun Tan não se limita a ser um excelente ilustrador; ele consegue, também, construir narrativas muito comoventes. A dialéctica/relação de “força” entre ilustração e palavras é muito interessante. A coexistência de ambos, neste livro, resulta num Texto muito bem construído.
A conjugação das competências do autor origina um livro belíssimo, que abrange uma vasta faixa etária.
O autor, ao propor abordagens plurais a “Contos dos Subúrbios”, dota a obra de uma enorme qualidade Estética.




Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com











Contos dos SubúrbiosContos dos Subúrbios by Shaun Tan
My rating: 4 of 5 stars




publicado por oplanetalivro às 09:12
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11
Fev 12

 “Um lugar chamado Oreja de Perro”
IvánThays
Eucleia Editora


“Cheguei à conclusão de que o pior que nos podia acontecer era acostumarmo-nos à morte, à impunidade, ao horror, ao mal” pag.19

I

Iván Thays constrói um cenário de silêncio, de melancolia e afastamento emocional a tudo o que rodeia o personagem principal. O jornalista em plena decadência profissional e destruído emocionalmente por uma perda irremediável é enviado para uma aldeia pobre, assistida por caminhos quase intransitáveis, que se prepara para assistir a um acontecimento que o jornalista adjectiva como “ridículo intento populista de um presidente que já se vai do governo e cujo partido não tem nenhuma oportunidade nas eleições” pag.15
O presidente é Alejandro Toledo Manrique.
Se acompanhamos o caminho de perda, de deterioração emocional do protagonista, fazemo-lo dentro do contexto sociopolítico do Perú. O Presidente Toledo prepara-se para ser substituído na presidência por Alan García Perez, outrora presidente no período de 1985-1990 e substituído, então, pelo controverso Fujimori.
Dez anos depois, em 2000, Fujimori viria a exilar-se no Japão, após inúmeros escândalos, e renunciar à presidência. Fujimori viria a ser acusado e condenado por violação dos direitos humanos.
É em 2001, após um período de transição, que Alejandro Toledo Manrique é nomeado presidente com uma elevada taxa de popularidade. No momento em que o jornalista se desloca a “Oreja de Perro”, Toledo cumpre o seu último ano de mandato (2001-2006), tem um índice de popularidade muito baixo, e prepara-se para ser substituído.
O jornalista viaja para “Oreja de Perro”. Enquanto a recém-constituída “Comissão da Verdade”, liderada por um professor universitário e filósofo (ou seja, liderada pela teoria), procura o que anuncia – a verdade - o objectivo do jornalista é diferente:
“a mim, o tema que atraía era o do mal. Quer dizer: é isto o ser humano?» pag. 17
A viagem não implica, somente, deslocação física, mas também alteração anímica. Durante o seu percurso, sabemos do desmoronamento do seu casamento através de uma carta deixada pela esposa, da degradação da situação profissional e da dor provocada pela perda do seu filho.
“Começam os primeiros sintomas do mal das montanhas. Dor de cabeça, náuseas, esgotamento, olhos inchados, a indomável carta resplandecente, lábios secos, palpitações nas têmporas. O estômago que se desloca lentamente em círculos. Insónia, não. Insónia, não posso permitir.” Pag.33
Tudo menos a consciência. A consciência implica pensamento, interacção, memória, dor. E a memória é um elemento fulcral no livro de Iván Thays.
“Oreja de Perro” é um tempo suspenso, um purgatório, na transformação do principal personagem do livro. O local sublinha a solidão e, como o próprio jornalista afirma, o barulho das moscas aumenta a sensação de clausura. “Oreja de Perro” é um pequeno lugar, de que, provavelmente, ninguém ouvira falar até a “Comissão da Verdade” o mencionar no seu parecer como palco de atrocidades. Nesse parecer é mencionado a existência de valas comuns e clandestinas. Os ronderos (patrulha camponesa; força de segurança baseada na comunidade) teriam sido os únicos a derrotar o terrorismo sem qualquer ajuda da polícia. Aliás, a localidade não havia sido visitada por qualquer força da autoridade.
“Nunca uma autoridade chegou até cá. Nem sequer um tenente alcaide. Agora o próprio presidente Toledo escolheu a zona para iniciar um programa de distribuição de dinheiro para camponeses” pag.15
Scamarone, o fotógrafo, é o seu companheiro de viagem. Segundo o jornalista, não há qualidade humana que recomende o seu colega. Cínico e detentor de uma retórica de sucesso, Scamarone é descrito como um indivíduo muito baixo, menos de 1,50m, capaz de convencer toda a gente que não era anão. A verborreia com que presenteava os seus interlocutores (ou ouvintes?), sobre viagens e com citações sem sentido, tinha o poder hipnótico sobre quem ouvia. A estatura do fotógrafo é uma metáfora sobre a estatura moral. No entanto, o cinismo de Scamarone terá um papel relevante na saída do limbo em que o jornalista caiu. Ele irá influenciá-lo a recusar a fuga, a dormência emocional, através de uma relação amorosa que, à partida e tal e qual acontecera com Mónica (esposa), se encontra condenada.

II
“Fui eu que permaneci enclausurado na sua morte” pag. 104

 No dia em que parte para “Oreja de Perro”, o jornalista lê a notícia do homem que havia ficado amnésico após um trágico acidente que vitimara a mulher e o filho. Ele tivera oportunidade de o entrevistar e, em consequência, perceber o vazio da sua memória. Durante a sua estadia na aldeia, ele nunca esquece a situação desse homem. Por isso, algum tempo mais tarde, tenta convencer o Editor do seu jornal a deixá-lo entrevistá-lo, novamente. Tinha passado um mês e, devido à velocidade da informação, esse acidente pertencia a um passado distante. O autor apresenta-nos outro tipo de esquecimento. Já não é aquele que a quantidade de tempo “enterra”, mas um outro tipo de esquecimento: a velocidade de informação nova submerge a mais antiga Na segunda entrevista, o homem afirma não ocupar a sua memória com factos do passado, mas com informação recente, mais ou menos relevante, como citações de Shakespeare ou língua chinesa. Ele contou-lhe o que a professora de chinês lhe havia dito quando se lamentou pela falta de memória:
(…) Não tens que lamentar-te pela amnésia. A memória é uma espia. Tu conseguiste livrar-te dela, conseguiste extraviar-te da tua espia” pag.90
Sem memória tudo desaparece: o filho, a história, as emoções, a aprendizagem. E tudo se repete, renovadamente. O jornalista e o país precisam de recordar, de não esquecer a sua história de forma a construir um futuro com menos vícios do passado. A memória, no livro de Thays, é indissociável da culpa e da forma como se pode lidar com ela.
O jornalista parte para “Oreja de Perro” carregando o peso da sua memória. Tal como o país, ele está preso ao passado e tem muitas feridas por sarar.
A violência no Peru, como em todos os locais, alimenta-se do medo e envolve as suas raízes na ignorância:
“A tua mãe sabe ler?, perguntou-me um dia o polícia.

Sim, sabe, respondi. É professora

Isso é fodido, disse ele. Saber ler nestes sítios é fodido” pag.185
Muitas pessoas foram raptadas pelos militares para serem interrogadas, torturadas e mortas. Mas ele não se deslocou até ali por causa desse sofrimento, mas para escrever sobre o acontecimento político. E o paralelismo entre o país e o personagem não cessa com a incapacidade de esquecer o passado e construir um futuro: A escrita da carta de resposta à esposa e a chegada do presidente Toledo são dois acontecimentos por realizar. Tudo é constantemente adiado. Ambas as situações, ao acontecerem, implicam a tangibilidade do presente, a concretização da realidade que o personagem individual (jornalista) e a personagem colectiva (povo) sabem ser inevitável.

A imparcialidade/distância é colocada em causa quando ele se envolve com Jazmín, natural de “Oreja de Perro”, grávida devido à (hipotética) violação por um sargento. A miscigenação da população com a atrocidade militar é, assim, concretizada numa geração futura. Ele sabe que a sua envolvência com Jazmin não pode ser duradoura, e prenuncia: “ Seria mais fiel dizer que Jazmín é, e isso nota-se a léguas, uma dessas raparigas a quem vai suceder alguma coisa na vida. Ou melhor, como tinha dito o meu pai, uma rapariga de que há que fugir de imediato porque depressa se meterá numa alhada” pag.39
Jazmín assumia ser a mãe e o pai daquela criança. Nada queria da figura militar que havia raptado e torturado e morto a sua mãe (ascendência).

III

“O antónimo ideal da memória deve ser a imaginação, fantasiar, fazer ficção. Não a amnésia”

O caminho para a aceitação, para a Verdade, é um caminho difícil e talvez utópico tanto para o personagem individual (jornalista) como para o personagem colectivo (o país)
Iván Thays utiliza uma prosa seca de adjectivos, com frases curtas, que nos remete para a escrita jornalística. A utilização de apontamentos, que ele escreve no seu caderno, é um recurso narrativo que confirma essa vontade de manter o registo jornalístico.
Ao longo do livro, deslocamo-nos para um mundo com características próprias: Uma grávida que fala com os anjos e antevê o futuro, o acidentado que memoriza Shakespeare. Mas, sobretudo, somos transportados para um mundo que necessita de redenção, de um recomeço, de não esquecer a sua história, mas ultrapassar as dificuldades e despertar com lucidez para um novo dia.
“O mais arrepiante não é a foto. O mais arrepiante é que, quando a tirei, a ninguém importava um caralho que uns cães estivessem a comer os miolos dos mortos. Não era foto nem para primeira página, não era nada, estávamos acostumados a isso. Isso era o que me dava medo” Pag.222

 “Oreja de Perro” pode ser o cão violentamente pontapeado pelo militar e defendido timidamente pelos populares, ou pode ser, pelo contrário, o cão magro e de cauda cortada que se passeia defronte do jornalista parecendo que se ri até o jornalista pensar, animado, que as coisas não têm de ser tão más. Podem ser melhor.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com


Un Lugar Llamado Oreja de PerroUn Lugar Llamado Oreja de Perro by Ivan Thays
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06
Fev 12
Estética, Literatura e Ensino


http://nanquin.blogspot.com/2012/02/estetica-literatura-e-ensino.html

De uma forma consensual, é reconhecido a Baumgarten (1750) o estabelecimento dos fundamentos de pensar e escrever sobre o estudo que diz respeito à beleza, às artes, ao receptor e ao artista.
Falamos da «Estética» de Baumgarten definida como ciência da cognição sensível, que atribui grande importância aos sentidos como fundamentação dos juízos, considerados, até então, pertencentes ao domínio inferior do conhecimento.
Este autor foi decisivamente influenciado por Wolff, conhecido como o autor do termo «consciência».
No que à literatura diz respeito, a mesma não se deixa aprisionar numa definição. Como podemos definir algo que se baseia em conceitos como beleza, estranhamento, originalidade? Não podemos; e vislumbramos a literatura como um conceito mutável e infiel ao tempo.
Apesar da tentativa de apreendê-la num conjunto de obras ou autores denominados de cânone, a verdade é que a literatura não se limita a esse conjunto. Deixa, isso sim, ser representada pelos mesmos para, algum tempo depois, aparecer representada noutras formas de diferente beleza mas continuamente estranha e original.
A palavra literatura deriva do latim, de littera,ae, e significa o ensino das primeiras letras. Ao longo do tempo, modificou-se o sentido para arte das belas letras, ou arte literária.
Levanta-se imediatamente alguns problemas: “arte”; “belas” (que não poderemos discutir aqui) e a percepção imediata da subordinação da literatura à letra, subestimando a chamada (agora) literatura oral (o som não veio antes do símbolo?). Falamos de literatura, principalmente, quando nos referimos a documentos escritos ou impressos. Pensemos que se Pessanha continuasse a ler os seus poemas sem os escrever não poderíamos considerar Clepsidra como uma obra marcante da literatura portuguesa.
Quando falamos em obra literária pensamos em objecto palpável e não numa sequência sonora. É curioso pensar que a poesia só se completa quando lida em voz alta...
A civilização toma consciência de si própria através da escrita projectando a mensagem através do diferimento da leitura da mesma.
Para Massaud Moisés, por exemplo, a ideia de uma literatura oral, popular, é simplesmente folclore e só tem status literário quando é escrita. (A hierarquização, a competitividade é uma constante na criação literária e na análise literária como iremos ver neste ensaio.)
No entanto, Alfonso Reyes não partilha da mesma opinião, pois, em rigor, a literatura é oral por essência devido à anterioridade do som ao carácter gráfico. O adiamento da apreensão do sentido acontece por limitações de memória e de transmissão às novas gerações. Tentamos enganar o tempo. É uma fatalidade histórica.
Hoje temos, obviamente, novos recursos que nos permitem arquivar informação com clara influência na ampliação do conceito de texto. No entanto, nem todo o texto escrito é classificado como literário. Apesar de todo o texto se destinar à leitura, não se categoriza todo o texto como literário. E confrontamo-nos com a questão: o que é literatura?
Por mais esforços que façamos o problema não se resolve porque falamos em conceito e não em definição de literatura.
O conceito de algo caracteriza-o como acidental ou particular e decorre de impressões subjectivas. Quando falamos em beleza notamos a incapacidade de tornar o conceito em definição, ou seja, de reunir características que sejam universalmente aceites.
Alfonso Reyes afirmou que, das três formas principais de actividade produtiva do espírito, a filosofia ocupa-se do ser, a história e a ciência do suceder real e a literatura do suceder imaginário, composto por elementos reais mas construído num outro plano de existência.
Uma situação é certa e real: a linguagem não se limita a ser um meio de comunicação.
Literatura implica vontade de ser diferente, vontade de se estar noutro lugar.
A diferença entre a linguagem literária e a comum reside no cultivo deliberado, por parte da primeira, da forma que organiza, aperfeiçoa com um propósito artístico.
Não aprofundaremos este assunto porque é demasiado vasto e não é o leit-motiv deste ensaio. É um assunto não para um simples ensaio mas para uma (ou várias) tese de doutoramento (provavelmente condenadas ao fracasso se o objectivo for conseguir definir a literatura).

A literatura ensina-se?

Consegue-se ensinar algo que não conseguimos definir?
Da mesma forma que o Amor e a Fé, a Literatura pode ser conhecida de forma parcial mas, na sua essência, não se aprende, frui-se; é individual e intransmissível.
É possível conhecer o que é, por exemplo, um género literário, o que a História Literária diz acerca disso, quais são as circunstâncias socioculturais das produções literárias. Esta aprendizagem é possível e ajuda a contextualizar a parte principal, aquela que pertence ao foro íntimo e que não é possível descrever de forma sistemática.
Quando abordamos o ensino da Estética é difícil sabermos o que ensinar. Deixamos de falar da história e da teoria que se aprende como qualquer outra disciplina.
O contacto com uma obra de arte é um processo intuitivo de desenvolvimento pessoal e de personalidade.
Para José Gil (1999) as fases de percepção artística, e inerente natureza, são as seguintes:
- Começa-se por olhar um objecto considerado uma obra de arte e tem-se uma percepção trivial. Depois do olhar ultrapassar as formas triviais vê-se estruturas e materiais diferentes que não são imediatamente visíveis.
Algo se desloca no quadro que faz com que o olhar descubra outras relações. O olhar passa das formas triviais (uma casa ou uma natureza morta) para as relações de textura, de espaço.
Ainda não é o espaço da forma estética.
“ De certo modo, estas estruturas espaciais que descubro estão separadas das formas triviais, aparecem por contraste e, ao mesmo tempo, por aderência. Vão aderindo, por que são estruturas espaciais dessas formas triviais”
Numa fase distinta, obtém-se a percepção estética, a que José Gil chama de percepção de forças. Quando se diz que um quadro é triste e melancólico estamos a caracterizar um conjunto de forças que dão uma linha, uma forma de todas elas.
“ A percepção estética final é a percepção da forma de uma força”
As forças aparecem devido a uma deslocação da relação entre as formas triviais e espaços encobertos, abrindo uma ruptura na percepção do quadro.
Através da entrada no quadro e consequente viagem no mesmo, o espectador estabelece uma conexão ou comunicação indispensável para a percepção estética.
Em relação à interpretação, o espectador caminha pelo percurso imaginativo do artista. Ao imaginar-se percorrendo o quadro existe um movimento de qualquer coisa que não é um corpo próprio dentro de um espaço topológico; José Gil denomina esta situação de ponto-corpo ou ponto-material.
“Toco (se for um quadro com características hápticas) com o olhar, como se fosse o meu dedo a sentir a rugosidade ou o liso da textura.
Há como que uma pele que ali se passeia, mas que não é de um corpo. É também um ponto abstracto, porque posso entrar num abstracto. É um ponto-corpo, porque é um ponto que é um corpo e que pode deixar de o ser, pode aderir a uma superfície, a uma cor, pode reduzir-se, pode quebrar-se em mil fragmentos. Segue o movimento da imaginação, que é o movimento dessas forças que vimos aparecerem debaixo das estruturas triviais, nas frinchas entre as formas triviais e os espaços”
A imaginação molda e transforma o corpo. É o espectador que completa o quadro. (O pensamento de Merleau-Ponty em “O olho e o espírito” é uma excelente leitura sobre esta matéria.)

Abraham Maslow insistiu na criação de um modelo educativo que assentasse na educação estética pois, actualmente, o ensino resume-se a um conteúdo profissional. O objectivo seria a auto-realização dos alunos e o seu desenvolvimento pessoal.
O problema é saber em que consiste a arte e a estética daí imanente...
A literatura como objecto estético não é ensinável.
O que pode ser transmissível são as características particulares, os cenários históricos específicos. Esta base factual que serve para os exames e análises qualitativas/quantitativas da sabedoria.
Este ensino de tipo institucional, abrangendo matéria e modo de ensinar, obedece sempre a opções políticas determinadas. As obras/autores ensinadas/os inserem-se numa política de senso comum com origem em grupos ou classes que defendem os seus interesses. É aquilo a que chamamos de “sistema” quando não conhecemos a face ou o nome de quem promove o caminho denominado de normal.
Qualquer tipo de educação é uma prática profissional que tem o objectivo de fornecer às pessoas determinadas vertentes da experiência social que são partilhadas no interior de dada sociedade. Exemplos desta situação são o conhecimento do universo, normas sociais, crenças, ideologias, aptidões e práticas do quotidiano, etc.
O processo de socialização passa pela apropriação e assimilação desta experiência pelos indivíduos. O sistema de ensino é um pilar fundamental da sustentabilidade deste processo.

Não se ensina literatura da mesma forma que não se ensina a amar, a ter fé, a ser bom (bondade); pode-se influenciar através do nosso sentimento, do nosso entusiasmo, como professores, e de uma imersão cultural que valorize a leitura. O que se pode ensinar é a atitude dialógica com a arte, a capacidade de ver além do mundo significativo e, também, de nos relacionarmos pessoalmente com este mundo com total abertura e enriquecimento com os significados descobertos.
O principal é a transmissão do usufruto pessoal, da estranheza, do incómodo que determinado texto, determinado autor nos causa. Apesar de, como Ricoeur afirmou, a transmissão exacta do que eu sinto seja impossível; na recepção da mensagem ela é adaptada a quem sente.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com


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Bibliografia

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! BARRENTO, João (1996) A Palavra Transversal -literatura e ideias no século XX, Lisboa, Cotovia,
! BARTHES, Roland (1988) O Prazer do Texto, Lisboa, Edições 70,
! BRITO, Joaquim Pais de (1999) “Os Objectos Imaginários”, in Do Mundo da Imaginação À Imaginação do Mundo, Lisboa, Fim de Século, pp. 133-139
! CASIMIRO, Mário (1999) “Imaginar a Prova”, in Do Mundo da Imaginação À Imaginação do Mundo, Lisboa, Fim de Século, pp. 129-132
! CASTORIADIS, Cornelius (1999) “Imaginário e Imaginação na Encruzilhada”, in Do Mundo da Imaginação À Imaginação do Mundo, Lisboa, Fim de Século, pp. 85-106
! CENTENO, Yvette (1999) “Imagem e Símbolo na Obra Literária”, in Do Mundo da Imaginação À Imaginação do Mundo, Lisboa, Fim de Século, pp. 119-120
! COMETTI, Jean-Pierre (1999) “A Imaginação sem o Poder- pragmatismo e imaginário social”, in Do Mundo da Imaginação À Imaginação do Mundo, Lisboa, Fim de Século, pp. 29-48
! GIL, José (1999) “Imaginar a Imaginação”, in Do Mundo da Imaginação À Imaginação do Mundo, Lisboa, Fim de Século, pp. 53-66
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! LEONTIEV, Dmitry A. (2000) “Funções da Arte e Educação Estética”, in Educação Estética e Artística - abordagens transdisciplinares, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 127-145
! LOURENÇO, Eduardo (1999) “A Europa e a Questão do Imaginário”, in Do Mundo da Imaginação À Imaginação do Mundo, Lisboa, Fim de Século, pp. 13-24
! MARQUES, José-Alberto (1999) “Os Deuses ao Espelho”, in Do Mundo da Imaginação À Imaginação do Mundo, Lisboa, Fim de Século, pp. 79-84
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! MERLEAU-PONTY (2000) O Olho e o Espírito, Lisboa, Vega
! ORTEGA Y GASSET, José (1987) Meditaciones sobre la Literatura y el Arte-la manera española de ver las cosas, Madrid, Clásicos Castalia
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! PEREIRA, Miguel Serras (1998) Da Língua de Ninguém À Praça da Palavra, Lisboa, Fim de Século,
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! STEINER, George (2002) Depois de Babel -aspectos da linguagem e comunicação, Lisboa, Relógio d` água
! TAMEN, Pedro (1999) “Um Copo é um Copo é um Copo”, in Do Mundo da Imaginação À Imaginação do Mundo, Lisboa, Fim de Século, pp. 229-231
! TITIEV, Mischa (1991) Introdução à Antropologia Cultural, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian
! TODOROV, Tzvetan (1993) Poética, Lisboa, Teorema
publicado por oplanetalivro às 09:45

01
Fev 12
“A Curva do Rio” de V.S. Naipaul - Quetzal Editores


http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=4393


“A escrita não está a serviço de um pensamento, como cenário realista bem conseguido que estivesse justaposto a pintura de uma subclasse social; ela representa realmente o mergulho na opacidade viscosa da condição que descreve” BARTHES, Roland “ O grau zero da escrita” pp. 67-68; 1997

 A narração, através de um “eu narrativo”, adopta uma postura analítica sobre o desenvolvimento do personagem/narrador, da sua relação com o meio que o envolve, e da sociedade em constante convulsão. Salim, o nosso narrador, tem uma visão tanto intrínseca como extrínseca sobre os acontecimentos que interferem, de forma directa e indirecta, na sua realidade. Ele é um inadaptado. E é a partir dessa condição que nos vai contando a sua experiência perante o “desconhecido próximo”:
“ A África era a minha terra, fora a terra da minha família durante séculos. Mas nós éramos da costa leste, e isso fazia a diferença. A costa não era verdadeiramente africana, ela era simultaneamente árabe, indiana, persa e portuguesa, e nós que vivíamos na costa, éramos na realidade gente do Oceano Índico. (..) Mas já não podíamos dizer que éramos árabes, indianos ou persas; quando nos comparávamos com esses povos, sentíamos que éramos gente de África” Pág. 21
Salim comporta-se como colonizado, apesar de ser africano e de se ter transferido, de modo voluntário, com o objectivo de prosperar numa nova geografia. Ele adapta-se às relações sociais já existentes e, de uma forma mais ou menos passiva, é nelas que tenta encontrar sentido e identificação. O ambiente tem mais efeito sobre ele do que ele consegue ter sobre o que o rodeia. Ao longo da narrativa, acompanhamos a imposição intrínseca e extrínseca da inadaptação psicológica, social e cultural. A sua personalidade sofre alterações devido a pressões exteriores. As constantes convulsões sociais, a violência, a corrupção, fazem emergir características psicológicas que, até ali, haviam permanecido longe da superfície. Assim, o nosso narrador debate-se com factos imprevistos que o levam a agir contrariamente ao que acredita. Uma nova realidade física obriga a uma nova realidade emocional. E a adaptação a ambas nunca chega a concluir-se. Salim depara-se com dilemas morais numa sociedade em demanda da sua própria psicologia colectiva.
Toda a complexidade inerente à interactividade social implica transformações de perspectiva e obriga a adaptações constantes com o objectivo de assegurar a mera sobrevivência.
A força colonizadora da Europa manifesta-se nas ruínas de pedestais sem estátuas e em edifícios decadentes. Apesar de não terem passado muitos anos sobre o fim da colonização, a deterioração da memória sobre presença europeia é muito rápida. E sem memória, sem história, os problemas repetem-se.
“ As pessoas viviam como sempre tinham vivido; não havia qualquer rutura entre passado e presente. Tudo o que acontecera no passado se eclipsara; só o presente existia; sempre o presente” Pág. 24
 A África de “A Curva do Rio” adopta a superficialidade dos costumes europeus e quer eliminar as ideias europeias enquanto tenta a aceitação do mundo ocidental. É nesta intensa e contraditória relação que acontecem guerras e revoltas.
“Ninguém usava os novos nomes [das ruas] porque ninguém se preocupava especialmente com eles. Aquele povo quisera apenas libertar-se dos nomes antigos, varrer para sempre a memória do intruso. Fazia medo, a violência daquela raiva africana, o desejo de destruir, sem levar em conta as consequências” Pág. 43

A proposta de Fanon[1] está presente na narrativa de Naipaul.

Fanon propõe-nos 3 fases na complexa relação entre as implicações culturais provenientes do colonialismo e os comprometimentos da luta anticolonialista:

-A fase da assimilação acontece quando o nativo assimila (hipoteticamente) a cultura do poder colonizador. A construção de “BigBurguer”, por parte de Mahesh, é um sintoma da absorção da cultura ocidental (neste caso, norte-americana). Enquanto Mahesh importava todas as máquinas, decorações, mesas e cadeiras dos Estados Unidos, lembrando McDonalds, um turista norte-americano saqueava um conjunto de máscaras características da região.

O estrangeiro leva o produto autêntico da região e traz o que é típico da sua cultura. Desta forma, cumpre-se o que o padre Huismans tinha afirmado: o fim da África africana e o êxito das influências exteriores.
Naipaul menciona muitas vezes a existência de o jacinto-de-Água no rio que banha a cidade. Esta espécie, oriunda da bacia amazónica, é caracterizada como sendo uma das piores espécies invasoras em todo o mundo. Quando em rios, como acontece neste caso, prejudica o fluxo natural da corrente, traz alterações bioquímicas, e prejudica todo o ecossistema. O rio adjacente à cidade do padre Huismans e do nosso narrador foi invadido por esta espécie aquática. As suas flores são lindíssimas, mas o prejuízo que traz é enorme. A ornamentação prejudica o equilíbrio natural da região.

-A fase da cultura nacionalista materializa-se através da procura da autenticidade nativa e reacção contra o colonizador.

Numa fase de expansão, orientada pelo “Grande Chefe”, presidente daquela parte de África (nunca nomeada), é construída a Cidade Nova, zona de apartamentos para os professores e um politécnico, onde estudava o africano do futuro. Esta cidade equivalia quase a um outro país: “Na nossa cidade, «africano» podia ser um termo injurioso ou que denotava desprezo; na Cidade Nova, porém, era uma palavra grandiosa. Aí, um «africano» era um homem novo, um homem a cuja construção todos se dedicavam afanosamente, um homem prestes a nascer (…)” Pág. 101

- Por último, a fase revolucionária e nacionalista. Aqui, o intelectual tenta inflamar o povo e despertá-lo para o que há de “primordial” na sua cultura. É a fase em que a “raiva africana” se transforma em violência. A mescla entre o que se pensa verdadeiramente africano e a imagética do povo colonizador, imposta ao longo dos séculos, é difícil (ou impossível) de ser clarificada. A confusão manifesta-se e o que realmente impera não é a cultura nativa nem a colonizadora, mas a tal raiva, a violência que sempre procura uma forma de se manifestar.
“Determinadas pessoas haviam perdido poder e tinham sido fisicamente destruídas. Isso em África não era novo; aliás, era mesmo a mais velha das leis da terra” Pág. 47
Paralelamente ao percurso colectivo, o caminho (individual) de Salim tem outras etapas[2]: Utopia – Distopia (desencantamento) – Atopia (reencantamento). Naipaul, no entanto, oferece uma saída deste círculo vicioso e acrescenta uma nova etapa: Fuga.
A utopia começa quando ele decide fugir a um casamento prometido e tenta concretizar aquilo que adivinhava para si mesmo:
“ O meu anseio não era ser bom, como mandava a tradição, mas ter êxito na vida”. Pág. 34
Ele compra a loja de Nazrudin, amigo da família, situada numa cidade (destruída) na curva do rio. Depois de um período de encantamento, a burocracia, a corrupção, a violência latente deterioram o seu optimismo e ele vê-se como um prisioneiro, e alguém, como muitos dos que ali moram, que tem a sua vida suspensa, interrompida.
É nesta fase que conhece Ferdinand, filho da feiticeira Zabeth, que fica aos seus cuidados para aprender inglês, a ler e a escrever.
Sem saber como educá-lo, será o seu criado (Metty) a ter influência decisiva na formação emocional e intelectual do rapaz.
O desenvolvimento do filho da feiticeira (oriundo de uma aldeia bem no interior do território) sugere o paralelismo com a nova geração africana e Salim pressente que os tempos vindouros serão muito maus. A atitude de Ferdinand não era compatível com a sua:
“O seu aspecto, naquele instante, era de fato terrível, assustador. Ocorreu-me então esta ideia: «Este há-de ser o seu inimigo a morrer.» E, associada a essa ideia, uma outra: «Esta foi a era que arrasou a cidade» ” Pág. 88
Ferdinand viria a ter uma acção decisiva no futuro.
A esperança ressurge com o crescimento da Cidade Nova, a poucos quilómetros da cidade onde vivia. Indar, amigo de infância, é destacado para o politécnico para ali leccionar e será o guia do narrador, tanto pela Cidade Nova como por uma forma nova de pensar. Quando Indar se vai embora, Salim já não é o mesmo.
A instável paz vai se deteriorando e aquele que fora a figura patriarcal da população é visto, cada vez mais, como um tirano igual a tantos outros. E o ciclo completa-se: paz, desencanto, revolta, destruição.
Salim, perante isto, toma uma decisão.

V.S. Naipaul, Prémio Nobel da Literatura (2001), desenha as características sociais e psicológicas da população da cidade situada na curva do rio que, por especulação e metonímia, podemos considerar comuns a populações em diferentes países africanos.

“A Curva do Rio” merece bem o tempo que lhe dispensamos.




Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

[1] Fanon, Frantz “ The Wretched of the Earth”; pp. 178-179; 1990

[2] Mata, Inocência “ A condição pós-colonial das literaturas africanas de língua portuguesa: algumas diferenças e convergências e muitos lugares comuns”; pp.50; 2003




A Bend in the RiverA Bend in the River by V.S. Naipaul
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publicado por oplanetalivro às 15:35

O meu texto sobre o novo livro de Helena Vasconcelos: "Humilhação e Glória"




Humilhação e Glória
Helena Vasconcelos
Quetzal Editores

O estudo de Helena Vasconcelos sobre a condição feminina, ao longo dos séculos, baseia-se numa considerável estrutura bibliográfica, na cultura da autora e na sua paixão pelo tema a que se propôs estudar.
A investigação elaborada procura fundamentar uma ideia concebida antes da própria pesquisa: A secundarização (humilhação) do papel da mulher na sociedade e a posterior emancipação e contribuição (glória) social.
As questões essenciais e merecedoras de análise são: “porque é que as mulheres demoraram tanto a tomar as rédeas das suas existências? O que é as impediu de mostrarem, em pleno, todos os seus dons e capacidades? Porque se deixaram humilhar e dominar?” Pág.14
O material recolhido é sujeito a uma interpretação apaixonada que filia conclusões vinculadas a uma causa.
“No entanto, a força de trabalho em Portugal é predominantemente feminina. Se, à semelhança de Lisístrata e das mulheres de Atenas no famoso texto de Aristófanes, escrito em 400 anos a. C., as mulheres, para além de greve ao sexo, se abstivessem de trabalhar, de tomar conta da casa e dos filhos, de tratar dos pais, mães e outros familiares a seu cargo, se decidissem cruzar os braços nem que fosse por uns minutos, o País, pura e simplesmente, pararia com elas. Convém que não esqueçamos este facto. Pág. 22”
Esta característica é compatível com os objectivos da autora. Segundo as suas palavras, não houve intenção de construir um texto académico. Desta forma, opta por apresentar o estudo numa “1ª pessoa próxima”. O leitor ou investigador entra no livro sabendo a perspectiva que foi adoptada na análise da documentação.
A construção do texto tem o seu logos em dois centros: diacrónico (história) e sincrónico (presenças que tiveram influência decisiva nos acontecimentos). A interdisciplinaridade é uma característica comum.
O leitor tem oportunidade de acompanhar a evolução da condição feminina ao longo de vários séculos, durante várias correntes filosóficas/literárias (Classicismo, Romantismo, Realismo, Modernismo/estruturalismo) assim como conhecer/aprofundar os conhecimentos sobre figuras tão importantes e diferentes como Woolstonecraft, Gertrudes Margarida de Jesus (“Primeira Carta Apologética em favor, e defesa das mulheres” antecipou “Vindication” de Woolstonecraft), Camille Paglia (contraponto de muitas teorias mais radicais), Virgínia Woolf…; na ciência, desde Hipácia de Alexandria a Madame Curie; em Portugal, destacam-se várias figuras (Maria Teresa Horta, Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Vieira da Silva… entre tantas outras) em diferentes épocas, contextos políticos e em diversas áreas.
Na construção de um cânone inserido no que se denomina “Estudos Femininos” foram excluídos, inevitavelmente, outros nomes importantes. A construção canónica é isso mesmo: um movimento de exclusão. No entanto, “Humilhação e Glória” é uma obra que não se encerra em si mesma, consegue ser abrangente e constrói várias pontes para outros autores e diferentes áreas.
Helena Vasconcelos propõe, com sucesso, um estudo interdisciplinar, diacrónico, onde consegue reconstituir a complexa interacção entre as características sociais inerentes à condição feminina e o relacionamento dessa condição com os movimentos culturais e espirituais de cada época. As individualidades sublinhadas ao longo do texto proporcionam ao leitor uma visão sobre movimentos de individualidade e de ruptura com o senso ou realidade vigente.
Poderemos estar presente, pela qualidade da argumentação e análise sociocrítica, perante um livro importante no âmbito dos “Estudos Femininos”

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com




Entrevista a "Força das Coisas":
RTP - A FORÇA DAS COISAS







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publicado por oplanetalivro às 15:21

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