23
Jan 12
A Eucleia é uma editora que merece todo o destaque pela qualidade do seu catálogo. É a primeira vez que menciono, directamente, uma chancela. Se o faço, é porque tem construído, apesar de todas as dificuldades inerentes ao mercado, um caminho sólido à custa de muito labor dos seus sócios.
Foi a 1ª Editora a acreditar nos meus ensaios sobre literatura. Aqui deixo o merecido destaque que, infelizmente, é sempre menor do que aquele que merecem.


publicado por oplanetalivro às 14:23

16
Jan 12
Gosto do livro e gosto da autora. 
Genuínos.



publicado por oplanetalivro às 22:48

O meu conto de Janeiro na Revista "Letras et Cetera"




http://nanquin.blogspot.com/2012/01/colicas.html


Cólicas

As cólicas provocavam-lhe uma agonia sem vómito.

Tentou distrair-se enquanto escrevia mais um texto, mas as guinadas eram cada vez mais agudas. Não havia palavra que não fosse terminada com uma dor violenta que obrigava o corpo a debruçar-se sobre o teclado. Pousou as duas mãos na barriga. Só assim conseguia estar imóvel.
Tinha arrepios de frio, as pernas não conseguiam estar quietas, a boca rasgava-se em dor e uma indefinível inquietação preenchia o seu ânimo.
Os dedos voltaram a insistir nas vogais e consoantes do teclado. Guinada. Dor. Abriu a boca para o corpo expulsar o mal que havia nele, mas nada saiu. Correu para a casa de banho, não sabia por onde sairia toda aquela agonia, e ficou sem saber, pois voltou para o escritório com as mesmas dores, com a mesma obstipação.
Tinha estado numa livraria, de manhã. Lentamente, o incómodo foi crescendo e crescendo até, ao pegar num livro, ter levado uma mão à boca. Não se mexeu. As pernas ficaram amarradas pela vergonha. Olhou em volta, percebeu que ninguém tinha visto, pousou o livro, e saiu.
«Preciso de ar fresco»
Telefonou para desmarcar um encontro.
«Tens de fazer dieta e comer melhor», disseram-lhe. Sorriu e minimizou a importância do seu próprio tamanho. «Sou pessoa de três dígitos», respondeu.
«Tens falta de fibra»
«Não digas isso…»
«Bebe chá. Tens falta de chá.»
«De que tipo?»
«Sei lá… vai experimentando.»

O caminho para casa foi demasiado longo. Cada sinal de trânsito provocava um momento de desespero.
«Não vou chegar a tempo, não vou chegar a tempo...». Mas conseguiu chegar a casa sem sofrer qualquer acidente.
Entrou, despiu o casaco e passou a mão pelas gotas que escorregavam na pele do rosto.
Pousou as chaves, foi para o escritório, sentou-se à secretária e ligou o computador. Pousou as duas mãos na barriga .
Olhou para as fotos sobre a secretária, espreitou os jornais on-line e decidiu enfrentar o cursor que aparecia e desaparecia na página vazia.
Começou a escrever palavras ao acaso, sem sentido, à espera de que o texto aparecesse. As frases começaram a surgir e a dor aumentou. Batia furiosamente com os dedos nas teclas, com grande velocidade, empenho, percebendo que havia algo ali de que gostava muito. Os arrepios de frio percorriam o seu corpo, mas não parava de escrever, as dores de barriga aumentavam, mas não desistia. Olhava para o teclado e mal corrigia o que aparecia na folha em branco até lhe chegar um odor desagradável, pestilento, das suas mãos. Cheirou-as, olhou para a cadeira e sem mais demora correu para a casa de banho. Puxou a roupa para baixo e sentou-se com alívio. 
Deixara a porta aberta. A casa cheirava a algo morto. O cursor piscava, implacável.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

publicado por oplanetalivro às 12:44
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14
Jan 12
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publicado por oplanetalivro às 12:03

12
Jan 12

Os Óculos de Ouro
Giorgio Bassani

Depois de ter lido “O filho do desconhecido” de Allan Hollinghurst sobre a homossexualidade, aceitação e memória, eis que a leitura de “Os óculos de ouro”, de Giorgio Bassani, apresenta, também, alguns destes assuntos, embora abordados de forma diferente.
A obra de Bassani, escrita anos antes de “Um filho do desconhecido” de Hollinghurst, foi construída sobre a perspectiva de uma só voz, de um narrador, que nos alerta não conseguir ser fiável devido à incapacidade da memória reter os factos ao longo dos anos.
“Foi em 1919, logo a seguir à outra guerra. Por razões de idade, só tenho para oferecer uma imagem vaga e confusa dessa época” Pág. 7
A visão dos acontecimentos é próxima e parcial, tanto no aspecto afectivo como na amplitude da capacidade de observação. A cronologia da história sofre diversas elipses.
Contextualizado por uma época de convulsão política, onde Mussolini vai ganhando poder e o fascismo instala-se, Bassani aborda a problemática da aceitação e capacidade de viver com a diferença.
Dr Athos Fadigati, sobre quem incide a atenção, é um ottorrinolaringolista sem vícios aparentes, de aspecto paternal e olhos curiosos por trás dos óculos de ouro. Chegou a Ferrara (cidade onde Giorgio Bassani cresceu) e depressa ascendeu socialmente tratando das gargantas de duas gerações, pais e filhos. É aceite pelos clubes mais importantes e admirado pela população. Curiosamente, a sua desgraça começa pela boca, pela voz, daqueles a quem tratou.
Como qualquer boato, a voz inicial não é identificável. Quando ele sai do comportamento padrão da “alta-sociedade”, começa a ser alvo de comentários desde a sala de espera do seu consultório até às últimas palavras de qualquer casal no leito matrimonial. O que viria a marcá-lo, no entanto, não seria a possível homossexualidade; o que viria a colocá-lo fora dos rituais e companhia das pessoas que tanto prezava seria a demonstração social de tais hábitos. A sua vida sexual era vista como vício nefasto que deveria manter-se privado. Lentamente, a sua vida foi sendo cada vez mais limitada.
“Sim-diziam- agora que o seu segredo já não era segredo, agora que tudo era claro, tinha-se finalmente compreendido como lidar com ele. De dia, à luz do sol, dar-lhe grandes chapeladas; à noite, nem que fosse empurrado ventre com ventre pela multidão da Via San Romano, mostrar que não o conheciam. Tal como Fredric March no Doutor Jekyll, o doutor Fadigati tinha duas vidas. Mas quem é que não as tem?” Pag.20
O eu-narrativo ajuda, neste caso, à criação e manutenção da distância entre a narrativa e as características psicológicas do médico. Pouco se sabe dele, mas muito se especula. Só muito tarde temos a sua voz e nunca temos a sua opinião directa sobre o que se passa. Tudo isto apesar de haver alguma aceitação por parte da personagem que nos conta a história. É a sua inércia e dependência que o impossibilitará de reagir à mesquinhez social.
 Assim chegamos à 2ª geração, aos filhos dos pais que começaram a frequentar o seu consultório, sem termos uma ideia sólida das características da personagem que motiva a narração. A nossa imagem do médico baseia-se em boatos, factos incompletos, conclusões falíveis, pois o que nos é dado a conhecer é, aproximadamente, o que a 2ª geração conhecia na época dos seus pais. Só quando ele começa a acompanhá-los, em viagem para Bolonha devido aos estudos, é que começamos a conhecê-lo melhor. E são estas constantes viagens que vão originar a queda definitiva de Dr. Athos Fadigati.
Numa dessas deslocações, Deliliers, elemento fulcral na queda do médico, pergunta-lhe: “ «Deixe lá o estrume, doutor», escarneceu, « e fale-nos antes daqueles dois rapazes da horta de que gostava tanto. O que faziam, todos juntos?» Fadigati estremeceu" Pag.”41
O respeito que lhe era tido devido à sua posição social, ao facto de ter tratado dos pais e deles também, vai decaindo até a um nível difícil de suportar.
“Era esquisito de ver e até penoso: quanto mais Nino e Deliliers multiplicavam as grosserias em relação a ele, mas Fadigati se agitava na vã tentativa de ganhar simpatias” Pág. 44
Após mais uma elipse temporal na narrativa, deparamo-nos com o que denominam de «amizade escandalosa» entre ele e Deliliers.
A deterioração emocional é gradual até ao desfecho. Só o narrador mantinha algum respeito por ele.
“ Eu ao menos não o tinha ludibriado. Em vez de me associar a aquém o traía e explorava, havia sido capaz de resistir, de conservar por ele um mínimo de respeito” Pág. 78
O médico é dominado por uma atitude passiva e reactiva. A sua inadaptação ao tipo de comportamento social onde impera a censura e o boato causa constrangimento ao leitor.
A dignidade é posta em causa tanto no aspecto emocional como no aspecto físico. Mas a intolerância não se resume à sexualidade. O fascismo impõe-se e fala-se na promulgação das leis raciais. A preocupação entre a família do narrador é cada vez maior porque, apesar de serem defensores da ideologia vigente (fascismo), vêem que podem ser muito prejudicados por serem judeus. E a antiga crispação com os cristãos renasce:
“(…) eu sentia nascer o antigo e atávico ódio do judeu em relação a tudo o que fosse cristão, ortodoxo, em suma: goi” pag. 100

Georgio Bassani arquitectou um romance onde a intolerância é o tema-chave. Numa época de convulsões ideológicas (socialismo vs fascismo), religiosas (judaísmo vs cristianismo), sexuais (heterossexualidade vs homossexualidade) a harmonização entre ideias, crenças e escolhas sexuais revela-se incompatível.
Ao longo das 126 páginas que compõem este livro, o leitor é confrontado com a incapacidade de uma comunidade de lidar com as diferenças entre os seus elementos. O senso comum, que não passa de uma média aritmética da vontade, esmaga o individual. Dr. Athos Fadigati é uma vítima da sociedade e da sua incapacidade de reagir perante tais agressões.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com


publicado por oplanetalivro às 08:45

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