28
Dez 11

“Uma Vasta e Deserta Paisagem”
Kjell Askildsen
Edições Ahab

Kjell Askildsen é um predador de silêncios.

Quando tudo se cala e o homem é obrigado a lidar consigo mesmo, a culpa emerge, a solidão instala-se e a vida torna-se quase intolerável. A inevitabilidade do aparecimento da ausência, da instalação do “Nada”, é um peso árduo de suportar. É este vazio que o autor consegue captar de forma sublime tanto em “Uma vasta e deserta paisagem” (Ahab Edições) como em “Um repentino pensamento libertador” (Ahab Edições).
Askildsen escreve o necessário e nada mais. Ao deixar de dizer o que se intui, ao conseguir um (quase) perfeito equilíbrio entre o dito e o não-dito, o autor consegue mostrar o horror que o ser humano sente pelo vazio. A história que nos é contada é um instante essencial na vida do (s) interveniente (s), onde os conflitos permanecem irresolúveis. O leitor percebe que há mais aquém e além do que é mostrado. As várias histórias que compõem “Uma vasta e deserta paisagem” são estupendas criações literárias, onde o autor consegue no formato de narrativa curta capturar a angústia da solidão e a incapacidade de percebermos integralmente quem é o “Outro”
Em “Não sou assim, não sou assim”, o narrador não consegue ter uma conversa sobre amor, amizade, ou seja, não consegue sair de si e ir ao encontro do seu interlocutor. Essa Alteridade é-lhe ofensiva.
“ E quando, para cúmulo de tudo isto, começou a falar de amor, decidi dar por terminada a minha visita. Há muito pouco amor no mundo, disse ele, tem de haver mais amor pelo próximo. Era confrangedor. Quem é o próximo?, perguntei eu, e o que é o amor?” Pag.23.
Esta postura é sublinhada, também, em “O estimulante funeral de Johannes”, onde observamos a aversão a sentimentos e atenção alheias. A passividade perante os acontecimentos e sentimentos, condizentes com o estatuto de observador não vinculado, é a condição desejada por grande parte das personagens de Askildsen.
Em “O jóquer”, o narrador tem necessidade de sair de casa (acontecimento) para poder observar e concluir que nada é aquilo que pensava. Antes de sair, ele afirma: “ Talvez tenha sido esse o motivo, a chuva suave e o silêncio, o certo é que aconteceu o que acontece de vez em quando: cai sobre nós um vazio enorme, como se a própria falta de sentido da existência entrasse por nós adentro e se estendesse como uma imensa e despida paisagem” Pág.57
E é quando deixa de ser interveniente directo e passa a espectador que consegue apreender a essência de toda a estrutura física e emocional que o rodeia.

Askildsen incide o seu olhar sobre o espaço que reside entre as pessoas, as brechas de cada relação, o silêncio que mora nas frases e o vazio implementado pela efemeridade da Vida.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 20:58

27
Dez 11

12 Conselhos de leitura

Fim do ano é tempo de balanço. Por esta razão, deixo-vos 12 sugestões de leitura, uma para cada mês. As obras não estão organizadas por ordem de importância, mas por ordem alfabética.
Não posso deixar de referir o facto de não estarem presentes dois livros de que gostei particularmente:
“ As aventuras de Pinóquio”,de Carlo Collodi, adaptado por Stella Gurney, com maravilhosas ilustrações de Zdenko Basic.
“ O traço do anjo”, um belíssimo livro de poesia, de Maria João Cantinho.

Boas Leituras!!!!!



Anderson, Sherwood
“Winesburg Ohio”

Há livros que têm um grande impacto. Há autores, até dado momento desconhecidos, que formam a sensibilidade e criam uma exigência mais apurada. Há autores e há livros que nos mudam e nos indicam as posteriores leituras de outros autores. Há muitos livros e muitos autores, mas existem poucos que conseguem exigir uma releitura. “Winesburg Ohio” exige. O primeiro capítulo é indispensável a qualquer leitor e escritor. Intitula-se "grotesco" e é um medicamento contra a intransigência e a mediocridade da verdade absoluta. 


Askildsen, Kjel
“Um repentino pensamento libertador”

Askildsen escreve o necessário e nada mais. Ao deixar de dizer o que se intui, ao conseguir um (quase) perfeito equilíbrio entre o dito e o não-dito, o autor consegue mostrar o horror que o ser humano sente pelo vazio. A história que nos é contada é um instante essencial na vida do (s) interveniente (s), onde os conflitos permanecem irresolúveis. O leitor percebe que há mais aquém e além do que é mostrado. As várias histórias que compõem “Um repentino pensamento libertador” são estupendas criações literárias, onde o autor consegue no formato de narrativa curta capturar a angústia da solidão e a incapacidade de percebermos integralmente quem é o “Outro”


Carvalho, J. Rentes de
“Os lindos braços da Júlia da Farmácia”

“Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”é composto por 30 narrativas escritas com a mestria de quem sabe contar bem uma boa história. J. Rentes de Carvalho surpreende-nos com a sua ironia queirosiana e com a fluidez de uma prosa equilibrada, que transmite a sensação de que tudo o que é necessário está em cada frase, em cada conto, na proporção exacta.
José Rentes de Carvalho tem controlo absoluto sobre as técnicas narrativas que aplica na arte de contar. A leitura é fluida, não existem perdas de sentido, malabarismos estéreis nem petulância no léxico utilizado.
Há momentos de brilhantismo.
Arrisco em dizer que esta obra não é somente (?) um belíssimo livro onde coexiste a narrativa e a poética; é uma lição de bem escrever.


Dazai, Osamu
“Não Humano”

O que mais impressiona em “Não Humano”não é a descrição de violência física ou mesmo a tortura psicológica. O que mais impressiona neste livro é a indiferença à dor própria e alheia. A estrutural moral e social é outra, se é que existe. Yozo está sempre à margem das emoções (excepto de um medo primário de animal), não se envolve socialmente e vê o sentimento como um sintoma de doença.
Poucos autores conseguem criar mundos diferentes, livros que causem impacto no leitor. O mundo “Não Humano” de Osamu Dazai é um desses mundos literários criados para nos abanar e, estranhamente, seduzir-nos a percorrê-lo e acabar a viagem.


Donoghue, Emma
“O quarto de Jack”

Emma Donoghue criou uma obra onde se interroga sobre a angústia que vem com a perda de inocência, o conhecimento como porta de entrada, o amor como suporte da vida e o horrível como parte integrante do Ser Humano.
A história fundamenta-se na dialéctica entre luz e sombra, mal e bem, ficção e realidade, na decadência física da mãe em contraste com o crescimento do filho. A tensão causada pelo antagonismo de situações e emoções díspares é mantida, com sucesso, desde o princípio até ao fim do livro. Numa prosa onde só há espaço para o essencial, Emma Donoghue afasta os vícios académicos e constrói um texto emotivo, sem cair no facilitismo melodramático.


Hollinghurst, Alan
“O filho do desconhecido”

“O filho do desconhecido”,editado pela Dom Quixote, é um livro onde o não-dito ocupa um espaço fulcral na interpretação da narrativa. A estrutura do romance, composta por cinco capítulos, e a contínua mudança de ponto de vista exigem a dedicação e a concentração do leitor. Os grandes temas do livro estão em fundo, dependem do silêncio e das versões contraditórias das personagens. “O filho do desconhecido” não rompe com a temática dos livros anteriores, mas vai muito além da problemática da sexualidade/homossexualidade. São abordados alguns aspectos dos quais dependem a personalidade: a memória, a aceitação, a interacção social e a ditadura do senso comum/regras da sociedade. Desta forma, Hollinghurst apresenta um texto que nos interroga sobre quem somos e qual é a base da nossa personalidade.


Kielland, Alexander
“Garman & Worse”

O Leitmotiv de “Garman & Worse”é o confronto entre inovação e tradição. Ao longo do texto podemos acompanhar a impossibilidade de conjugar estes dois factores dentro do seio familiar e das ligações sociais – através da relação laboral e, intrinsecamente, das diferenças entre classes. O papel da mulher na sociedade e o papel da igreja contextualizam-se, também e de forma clara, neste confronto entre tradição e inovação. A prosa é objectiva, equilibrada, e elimina o supérfluo. A perspectiva muda consoante o capítulo dando, desta forma, uma pluralidade de pontos de vista. A narrativa é sólida e, apesar dessa mudança de perspectiva, não perde, em momento algum, a sua coerência. O autor tanto se aproxima das personagens (ao ponto de não sabermos a quem é que pertence determinado pensamento, se à personagem ou ao narrador) como delas se distancia.


Luca, Erri
“O peso da borboleta”

Erri de Luca construiu um duelo poético entre dois seres dominados pela obsessão da perseguição e pela expectativa de um duelo.
Em "O peso da borboleta” há uma comunhão de entidades pertencentes a vários círculos existenciais: O animal, o homem, a natureza e o imaterial (a morte, os espíritos). Tudo se move em simultâneo e numa infinita conexão de causa-efeito.
Erri de Luca conta-nos uma história de obsessão, duelo, limites e eminente tragédia. Mas é, principalmente, uma história de dependência entre personagens, de demanda, de simbiose e transformação final.


McCann, Colum
“Deste lado da luz”

Em “Deste lado da luz”, Colum McCann estabelece uma relação tanto intrínseca como extrínseca com a pintura. As construções das comoventes e poderosas imagens baseiam-se numa dialéctica entre luminosidade e sombras. A caracterização emocional das personagens, a construção de todo o ambiente onde se inserem, a própria contextualização social é sugerida ao leitor através de uma luz que se concentra em aspectos particulares. O que fica na sombra enfatiza o facto desnudado pela luz. A memória e o tempo estão dependentes entre si e a constante referência ao “Melting Clock” de Salvador Dali, grafitado na parede do túnel, simboliza a relatividade do tempo perante a persistência da memória.
É um bom livro, composto por várias camadas interpretativas, pleno de significação e que, provavelmente, pede uma releitura. E se o solicita, não é por dificuldade de seguir ou compreender o enredo, mas pela riqueza simbólica das imagens criadas.


Mendes, Pedro Rosa
“Peregrinação de Enmanuel Jhesus”

Peregrinação de Enmanuel Jhesus”contém uma fulgurante riqueza imagética, complexidade narrativa e demanda existencial sobre a génese de uma cultura.
É, na minha opinião, um dos grandes livros da literatura contemporânea, assumidamente influenciado pela literatura de viagens desde o século XVI até à actualidade.
Pedro Rosa Mendes assume esta herança e oferece-nos um livro soberbo, que exige leitura e releitura. “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” é um acontecimento literário que merece perdurar no tempo e deixar a sua marca na História da Literatura Portuguesa.


Sepetys, Ruta
“O longo inverno”

“O longo inverno” é a história de um povo, simbolizado pelas personagens existentes, sob o discurso de violência de Estaline. Mas é também a história de Ruta Sepetys, do que ela ouviu e do que ela própria sofreu ao longo da investigação. Essa emoção está presente desde a primeira até à última página.
O ambiente histórico é verídico. Durante o período em que Estaline esteve no poder morreram milhares de pessoas. A autora recolheu testemunhos, visitou locais e algumas situações escritas foram, de facto, vividas pelos sobreviventes.
Ruta Sepetys desenterra as histórias de sofrimento e provações a que milhares de lituanos, letões, finlandeses, e não só, foram sujeitos, para nos mostrar, através destes exemplos, a indomável vontade de viver do ser humano.
A autora quis passar o testemunho de sofrimento de um povo. Foi bem-sucedida.


Tsiolkas, Christos
“A bofetada”

“A bofetada” é um livro extenuante não só pelo volume (537 páginas), mas – essencialmente- pelo desgaste emocional a que o leitor é sujeito. Apetece dizer quando se abre a primeira página “ Deixai toda a Esperança, Vós que entrais”.
“ A bofetada” de Christos Tsiolkas é um rasgo na realidade do leitor. Há livros assim: Pegam em nós e conseguem sacudir a nossa realidade até à quase insuportável inquietação.



Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 08:12
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15
Dez 11


"Last man standing" 


http://nanquin.blogspot.com/2011/12/last-man-standing.html 


"Last man standing"



Quando tudo se move, não há nada mais perigoso do que a imobilidade.

Todos os dias saio do metro e corro para o comboio, atravesso o túnel de acesso à estação, valido o bilhete e entro numa carruagem. Conheço algumas pessoas que comigo viajam à mesma hora. Ouço as suas histórias, sei onde trabalham, lembro-me do que dizem, mas só de uma ou duas é que consegui memorizar o nome.
Tenho inveja dos passageiros que adormecem no comboio. Não consigo cair naquela inconsciência. As bocas abertas, a cabeça encostada ao vidro, o livro no colo, aberto, mas inacessível…
Temos de correr atrás do tempo. Não podemos parar. A máxima aplica-se: “Tempo é dinheiro”
Aquele dia não era diferente. A porta do metro abriu, comecei a correr devagar, olhei para o relógio pendurado no tecto, eu estava atrasado, corri mais depressa, ultrapassei algumas pessoas, comecei a transpirar, e, de repente, uma anomalia. As pessoas desviavam-se, cambaleavam, houve uma ou duas que caíram, mas depressa o medo do ridículo as levantou
«Mexe-te idiota!!»
e elas continuaram a correr.
Um homem mantinha-se imóvel, de pé, a observar o fluxo de gente que vinha no seu sentido.
A inacção interrogava a velocidade das pessoas que passavam. Era uma questão mecânica. Aquela peça havia deixado de funcionar como previsto. As pessoas desviaram-se e rejeitaram a anomalia. Não podia ser de outra forma. Tudo nele era falibilidade. E eu, como todos, evitei-o e continuei no meu caminho. A máquina tem de funcionar. As peças que não funcionam como indicado são substituídas por outras.
Os seus dedos roçaram na minha roupa. Tive quase a certeza de que ele esticara o braço, pois tentei passar o mais distante dele.
Voltei para trás, olhei para ele e parei.
Uma rapariga chocou contra mim, interrompendo o seu trajecto predefinido. Surpreendida, olhou para os meus olhos e seguiu a linha que os unia àquele homem. Ele, ela e eu não nos movimentámos mais e, desta forma, contrariámos tudo o que de nós era esperado.
Uma peça avariava outra peça que avariava outra peça…
Os braços puxavam-no para baixo, de mãos abertas. A gravata amarrava-lhe o pescoço e o fato colava-se à pele que transpirava.
Eu não conseguia prever o comportamento, as reacções. Há padrões que são necessários para sabermos o que fazer. Fiquei parado, só isso, e percebi que mais e mais pessoas se juntavam a mim. Os acessos à estação ficaram bloqueados, ninguém passava e cada vez menos pessoas se moviam. O som foi diminuindo e diminuindo até quase desaparecer. O túnel ficou cheio de gente, cheio de silêncio somente rasgado pela chegada e partida do metro. Mas até isso deixou de acontecer. As buzinas dos carros calaram-se, os motores desligaram-se e o trânsito parou. Muitas pessoas ficaram nos passeios e na estrada a olhar umas para as outras. Pararam. Saíram dos cafés e espreitaram pelas janelas para ver. O trânsito foi acumulando e formaram-se enormes caudas metálicas. Os carros ficaram vazios e cada pessoa olhou para a pessoa mais próxima que olhou para outra e para outra até chegar a ele. O som foi caindo devagar até deixar de existir. Vilas e cidades e depois regiões e depois países e continentes suspenderam a acção.
O olhar convergia para aquele homem. Um pequeno perímetro de espaço vazio protegia-o do contacto físico. Somente ele se distinguia na multidão. Então reparei que os seus olhos mexiam-se. O seu olhar observava tudo o que estava à sua frente. Nós éramos observados por aquele indivíduo.
Todos nos olhávamos e sem saber como, a solidão encheu-nos as mãos e o peito. Deixámos de ter pressa e o tempo pareceu ausentar-se. Ficámos sem mais nada para fazer senão pensar… O pensamento libertou-se e começou a criar ligações entre informação e recordações que eu julgava não ter. Havia demasiada luz, queria levar as mãos aos olhos, parar aquela angústia, preencher aquele vazio que se instalou no meu peito. Mas não conseguia. Ouvia a minha respiração, ouvia a respiração da rapariga que estava ao meu lado e reparei na sua agonia, nos olhos cheios de lágrimas e nos lábios comprimidos. Tinha de me mexer. Não aguentava mais aquilo. Tornou-se insuportável, ninguém aguentou.
Um bebé chorou, uma mulher debruçou-se para o corpo do bebé, ouviu-se a voz maternal, outra pessoa olhou, e outra e outra e os corpos começaram a movimentar-se e todos ficaram aliviados quando a mancha humana começou a confluir para a estação. Uma buzina rasgou o ar, o trânsito lento e rezingão desaguou nos diversos destinos e todos voltaram a andar rapidamente. O som de cada voz foi enrolado naquele novelo de sons.
Comecei a correr, também. Fugi daquele espaço, daquele olhar que parecia saber mais de mim do que eu próprio. Não olhei mais para trás. «Se o corpo pára», pensei, «o pensamento emerge».
As autoridades explicaram que tinha sido uma quebra de energia. Algo em rede que tinha afectado todo o mundo. Talvez uma sabotagem que queria parar a movimentação social, os transportes, os serviços…. As imagens foram escassas. Ninguém protestou. Por um instante, cada pessoa viu-se por inteiro e jamais alguém quis falar sobre isso.
Só agora me atrevo a imaginar o que aconteceu.

O homem ficou entregue à sua alienação lúcida.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com


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Dez 11

publicado por oplanetalivro às 09:17
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