31
Out 11


Tempo em branco




A criadita mais a sua filha querem assassinar-me. Tenho a certeza de que esperam ver-me cair morto. Em todas as refeições elas metem veneno no meu prato. Não quero comer o que elas me dão. Se não me dão o que exijo, levo a refeição para o quarto. Peço para me ligarem a televisão. Não sei como se faz. Espero que saiam, fecho a porta e despejo tudo pela janela. Resisto. Só recebo alimento do meu anjo, da minha Lucília. Das mãos dela recebo o amor e nas suas mãos mora a honestidade e a confiança. Quando ela não vem, como sempre o mesmo, seja a que refeição for. Recuso tudo o que elas me dão além disso. Insistem e insistem, mas não me derrotam. Peço ao meu anjo que traga três latas de atum, três batatas grandes e três garrafas de vinho, de 25cl, por cada dia em que ela não está. Fico de pé a observar a destreza das mãos da criadita e da sua filha para ter a certeza de que não me metem nada na comida. A água a ferver faz um barulho nervoso e a lata a abrir provoca-me um calafrio. Será assim que abrem os mortos?
Quase interrompo o silêncio para perguntar que peça é aquela que abre a lata, ou a outra que puxa a rolha da garrafa. Mas não encontro as palavras.
Não me deixam cozinhar desde que a cozinha ardeu parcialmente. Dizem que me esqueci de apagar o lume do fogão. Não acredito. Tenho a certeza de que foi a criadita que deixou tudo arder só para trazer a sua filha.
Malditas sejam. Querem que eu engula vários comprimidos, mas eu sou mais esperto do que elas. Deixo-os ficar debaixo da língua, engulo a água e, quando se vão embora, cuspo para a sanita a pasta multicolor que se formou na minha boca. Fico diante do espelho a observar o meu rosto enrugado. Estico a língua e observo o padrão escorregadio a descer até pingar para o lavatório.
Há muitos tempos brancos, vazios, na minha cabeça. Tento preenchê-los, mas eles reaparecem maiores e em sítios diferentes. Fico furioso porque sei que a culpa é delas. Algum veneno desmancha o meu cérebro e provoca esta confusão. Perco a paciência, mas tenho razão para isso. Elas roubam-me o que sei. O veneno come devagarinho as minhas memórias. Tenho a minha estratégia, claro. Três é um número sagrado. Três latas de atum, três batatas, três garrafas de vinho, três maços de cigarros e três isqueiros na terceira gaveta. Três são os cigarros que fumo de manhã e também três são os que fumo à tarde. São três os dias em que o meu anjo branco não vem. Por muito que insistam, esta é a organização do universo e não a conseguirão desmantelar. Se o tentam e percebo, então eu bato com toda a força que tenho.
Percebo que ela não vem quando a criadita tem de me dar banho. Acho que foi ontem, ou noutro dia, que ela despiu-me, tirou-me a fralda e sentou-me dentro da banheira. Não estou habituado aos seus movimentos. Meteu as mãos entre as minhas pernas e eu dei-lhe uma bofetada. Caiu desamparada no chão e com sangue na boca. O choro incomodava-me e mandei-a calar. Só Lucília pode mexer aqui e a criadita sabe disso. A filha veio ajudá-la. Ficaram as duas no chão, a chorar, enquanto eu arrefecia na pouca água dentro da banheira. “Mas ninguém me ajuda?”
Elas olharam para mim e lembro-me de a criadita dizer “Estupor! Eu sou a tua mulher!» e apontou para a aliança. Eu também tinha uma aliança no meu dedo. A partir desse momento nada mais conseguiu surpreender-me. Como é possível as pessoas tentarem enganar um velho como eu? Não há moral neste mundo?
Fiz alguma força para conseguir tirar o anel. Assim que saiu, meti-o na boca e engoli-o.
“Tu não és minha mulher”
A filha ajudou-a a levantar-se.
“Vou casar-me com a Lucília”
Elas saíram e deixaram-me sentado ao frio. Fiquei zangado por me terem sujado o chão com sangue. A filha veio, limpou-o e enrolou-me numa toalha. Tive de gritar com ela. Queria derramar sobre ela todas as ofensas que conhecia, mas estranhamente não saiu nenhuma palavra da minha boca. Grunhi e tentei mordê-la. Ela não fugiu, só chorava e chorava até conseguir vestir-me e pôr-me na cama. Fiquei algum tempo sozinho. Despi as calças com alguma dificuldade, arranquei a fralda suja e atirei-a pela janela. 
Não as vi a fazer a comida. Deitei tudo fora. Não comi durante algum tempo.
A campainha tocou uma, duas, três vezes. O homem dos correios toca uma vez e o zumbido é longo e único. A Lucília toca três vezes... ou serão quatro… não…três é o número do universo.
Não me fala desde que soube da bofetada. Só depois de conversar com a criadita é que veio ter comigo, limpou-me, despiu-me o pijama e vestiu-me. Já passaram alguns dias e ela ainda não me fala. Quero estar sozinho, no meu quarto, agarrado à almofada. Apaguei a luz, baixei os estores, encolhi-me na cama e aqui estou, no escuro, com a boca cheia de silêncio e o corpo sem alimento nem fome. Recuso a comida, a água e o banho. O quarto cheira a merda e a urina. Não deixo que me mudem a fralda.
Ela não podia continuar calada. Fico ansioso por ouvi-la abrir a porta, puxar os estores, devagar, até pequenas linhas rasgarem a penumbra.
«Fez uma grande asneira»
«Não quero saber»
«Aquilo não se faz a ninguém, muito menos à sua esposa»
«Ela não é minha esposa! Não a conheço. Eu vou casar-me contigo»
«Engoliu a sua aliança? Recupero-a na próxima fralda»
A minha cara está muito quente. Devo estar corado. A aliança não me interessa. «Lucília, conta-me a história daquela família, por favor»
«Quer que a conte, novamente?»
Os olhos dela são tão bonitos…
«Deixa dar-lhe banho? Não quero que aquilo aconteça outra vez.»
«Sim, claro». O banho é um momento de jovialidade. Quando ela passa as mãos por mim, sinto-me novo.
 «Pelo que vejo, está mais “animado”.»
 Eu gosto da vida a crescer no meu corpo.
«Nunca lhe faria isso»
«O quê?»
«Magoá-la.»
Concentra-se em lavar o meu corpo.
«Conta-me uma história»
«Sim…eu conto-lhe uma história antiga que, provavelmente, já se esqueceu. Vai gostar»





Há uma mancha branca que destrói o tempo. Acordei sozinho e limpo. Espero pela luz da manhã. Sei pedaços de uma história que talvez seja a minha, talvez seja a da menina que me afaga o cabelo todas as manhãs, talvez seja a da senhora que me traz a comida ao quarto. Uma história bonita que se apaga.
Tenho menos palavras e por isso sou cada menos… Não sei onde estou. Ouço um, dois, três toques na campainha. Não sei quem é. Sinto a transpiração a escorregar pelo meu rosto. O meu peito só acalma quando a menina me passa a mão pela cara e me ajeita o cabelo. É muito bom…quero acordar muitas vezes para poder sentir as suas mãos no meu cabelo.


publicado por oplanetalivro às 08:40
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27
Out 11

“ A Bofetada”
Christos Tsiolkas
D. Quixote

“É o mundo moderno, Anouk. Somos todos putas.” Pág. 87



“ A bofetada” de Christos Tsiolkas é um rasgo na realidade do leitor. Há livros assim: Pegam em nós e conseguem sacudir a nossa realidade até à quase insuportável inquietação.
A tensão existe e é mantida desde a primeira até à última página.
O enredo apoia-se em várias perspectivas, numa polifonia, sem perder coerência. A narração adopta, frequentemente, o discurso indirecto livre. A perspectiva associa-se de tal forma ao pensamento de cada personagem que, por vezes, não temos a certeza a quem pertence a voz que “ouvimos”. A linguagem apodera-se da realidade, expressa-se de forma obscena e, por vezes, caricatural. No entanto, poucas vezes é utilizada de forma gratuita. O comportamento das personagens consegue melindrar mais do que o léxico utilizado.
De uma maneira ou de outra, o leitmotiv(a bofetada dada a uma criança) é debatido em todos os capítulos. E é desta forma que o texto não perde a coerência e a leitura mantém-se fluente.
Através dos elos sociais e afectivos, cada um extrai o que precisa sem haver a preocupação em retribuir. Vive-se na Era da “New Age” onde a falência moral é uma realidade e a sociedade segue a ideologia de “Why Not?”.
O churrasco em casa de Hector, personagem que acompanhamos no primeiro capítulo, é o epicentro da falência dos equilíbrios precários que existem entre os convidados. É o único local onde temos as personagens do livro reunidas. A tensão entre os elementos já se faz sentir e continuará em crescendo até ao fim. Percebemos o mundo em que entramos e sentiremos, até ao fim do livro, a inquietação que se instala em nós. A festa é um microcosmos onde a principal filosofia é o hedonismo: A tensão sexual é permanente, a linguagem é obscena, partilham-se drogas sintécticas e leves, bebe-se muito álcool. Na página 40, Tsiolkas, autor e também argumentista como Anouk, parece justificar a opção pela abordagem mais crua e menos poética do texto:
“É televisão, Gary, televisão com fins comerciais- Anouk falou num tom simultaneamente cortante e entediado- Não, as famílias verdadeiras não são nada assim.
- Mas estás a transmitir um corrilho de tretas que depois vai influenciar milhões de pessoas no mundo inteiro! Toda a gente pensa que as famílias australianas são exactamente como as da telenovela!”
Não são e Tsiolkas demonstra-o neste livro.
A inquietação vai crescendo, as crianças lutam entre si e fazem muito barulho, as divergências políticas, religiosas e culturais animam as discussões, os comportamentos libertam-se com a droga e o álcool até tudo rebentar numa estalada na cara de uma criança. É este impulso, um breve momento de violência, que desencadeia a ruptura entre as ligações familiares e de afecto que ligam os convidados. A partir daqui tudo será diferente.
Família e amigos condenam ou apoiam a acção de Harry, que havia batido em Hugo. Os pais da criança apresentam queixa na polícia e levam o caso a tribunal. Extremam-se posições e as decrépitas ligações entre eles quebram-se.
A partir desta ruptura, o autor leva-nos a conhecer uma sociedade multicultural, onde coabitam várias religiões, nacionalidades e ideologias. Há sentimentos em comum e que são muito bem transmitidos ao leitor: o sentimento de perda, de degradação familiar e social, de insegurança enraizada em infâncias e adolescências problemáticas (alcoolismo, HIV, maus tratos, drogas, jogo, suicídio, abandono…) e que influencia a educação das gerações posteriores.
“ Estes miúdos são inacreditáveis. Acham que o mundo lhes deve tudo e mais alguma coisa. Forma mimados até dizer chega pelos pais e pelos professores e pela porra dos media e acham que têm todos os direitos do mundo e nenhuma obrigação, por isso não têm vergonha na cara, não têm valores nenhuns. São egoístas, umas merdinhas ignorantes”, afirma Anouk criticando indirectamente Rosie, a mãe do rapaz que levou a bofetada.
Há uma latente falência da moralidade, as personagens andam perdidas numa escala de valores que não assimilam. Não sabemos que espécie de moral rege os comportamentos dos personagens, mas sentimos o desconforto por termos consciência que essa imoralidade não existe assim tão longe do nosso quotidiano.
“(…)somos todos putas. Os laboratórios farmacêuticos oferecem-me viagens à borla, para mim e para a minha família, em troca de eu dar vacinas a animais que sei que não precisam delas. É o mundo moderno, Anouk. Somos todos putas.” Pág. 87
O comportamento individual roça a obscenidade e, no entanto, é credível. Estamos perante a incoerência de indivíduos inseridos numa sociedade materialista, longe da Igreja e vencida pela velocidade da informação.
No capítulo onde acompanhamos Harry, adulto que deu a estalada à criança, a aglutinação de tais incoerências está patente em vários episódios. O mais ostensivo é quando Harry vai ter com a amante e imagina estar a fornicar a esposa. Quando termina e depois de consumir algumas linhas de cocaína, dirige-se a casa, dando graças a Deus por ter uma excelente esposa, um filho lindo, uma piscina, cozinha nova, garagem, dois carros, aparelhagem e um plasma. E o exemplo de Harry poderia ser o exemplo de outras personagens que, em muitos casos, comungam casos de infidelidade, intolerância e inadaptação.
“A Bofetada” é um livro extenuante não só pelo volume (537 páginas), mas – essencialmente- pelo desgaste emocional a que o leitor é sujeito. Apetece dizer quando se abre a primeira página “ Deixai toda a Esperança, Vós que entrais”. No entanto, Christos Tsiolkas consegue prender o leitor ao texto até à última página. Não é inteiramente verdade que toda a esperança seja eliminada do livro. Há momentos de catarse, tolerância e aceitação. Quando Richie confessa a sua obsessão por Hector, a mãe reage mal e esbofeteia-o. No entanto, ela reconsidera e afirma “Hás-de apaixonar-te por outros homens e muitos homens por ti” Pag.521
Quando a mãe pergunta a Richie se ele vai tomar drogas num festival de música, ele responde afirmativamente. Iria tomar ecstasy e erva. A reacção da mãe é tudo menos conservadora:
“- Oh, meu amor. – Ela esticou o braço para ele, mas recolheu-o abruptamente. – Pelos vistos, já és adulto” Pág. 528
“ A Bofetada” é desconcertante e merecedor do tempo aplicado na sua leitura. O autor conseguiu criar um mundo estranho, frio e calculista. É um livro perturbador e com uma ostensiva negação do banal.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com





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24
Out 11


O 11 de Setembro de Martin Amis
Texto: Mário Rufino


“Não distinguimos entre militares e civis, todos são alvos”
Osama Bin Laden em entrevista a John Miller, ABC, 1998.


“O Segundo avião”, escrito por Martin Amis, é uma interpretação ficcional e filosófica do fundamentalismo que eclodiu num dos episódios mais traumáticos da História dos Estados Unidos da América.
O autor dividiu a sua reflexão (14 textos) em duas partes distintas: doze ensaios e recensões e duas ficções curtas.

Durante os 12 ensaios e recensões exprime a sua posição sobre as religiões e o Islão/islamismo, em particular. A aversão a acções não baseadas na gnose e na racionalidade motivam-no a construir textos que o vinculam a uma opinião ousada e muito assertiva:
“ O que eu sou é um islamismofóbico, ou melhor dizendo, um anti-islamista, porque fobia é um medo irracional, e não é irracional temer-se algo que diz que nos quer matar. O inimigo mais geral, evidentemente, é o extremismo” pág. 10
Aos nove anos de idade, Amis renuncia a Deus e, na sua apostasia, “dessacraliza” várias Bíblias (era coleccionador) e, segundo ele, queimou duas ou três num recanto do seu quintal.
É no campo teológico que encontra inquietantes semelhanças entre os EUA e, por exemplo, um dos inimigos caracterizados como pertencentes ao “eixo do mal”: o Irão.
O conhecimento cede perante o irracionalismo religioso tanto de Ronald Regan/George W. Bush como de Mahmoud Ahmadinejad: “ ambos os homens [Reagan e Ahmadinejad] habitam aquela planície iluminada por tempestades do fim dos tempos se encontra com as armas nucleares” pag.113
Mas pela primeira vez a guerra não se limita a uma área geográfica. A motivação oriunda da crença não tem nacionalidade, mas religião. A utilização beligerante de vários símbolos pertencentes à cultura norte-americana (o avião, sinónimo de liberdade de movimentos, World Trade Center, Pentágono) atingiu frontalmente o sentimento de segurança da cultura ocidental. Se os EUA viram no 2º avião o horror de uma acção criminosa e propositada, a Europa ficou espantada com a pretensa facilidade do nascimento do horror no coração da liberdade do indivíduo e do capital. A catástrofe não foi, somente, norte-americana. As ondas de choque atravessaram o oceano e colocaram em causa a hipotética infalibilidade da rotina diária dos cidadãos. “Se acontece ali, onde existe tanta segurança, o que poderemos fazer para não acontecer aqui?”
Os atentados de Madrid e de Londres mostraram que o terror não tinha pátria nem um território definido.
A impossibilidade daquela realidade limitou o uso da ficção como catarse durante alguns anos. Muitos escritores abordaram os acontecimentos pela perspectiva jornalística, de relato do real, em detrimento da construção ficcional. A ficção foi esmagada pelos acontecimentos.
«Um romance é conhecido cortesmente como uma obra da imaginação; e, nesse dia, a imaginação fora evidentemente confiscada por inteiro, e sem qualquer objectivo” pag.21
Durou algum tempo até a criação artística usar essa dor na produção de documentos ficcionais que abordassem a temática do 09/11. Spike Lee, no cinema, DeLillo na Literatura foram dos primeiros a abordar directa ou indirectamente esta temática. “O Homem em Queda”, de DeLillo, é um excelente documento ficcional sobre os atentados.
Martin Amis tem, neste livro, duas narrativas curtas dotadas de uma qualidade invulgar, principalmente em “No Palácio do Fim”.Neste conto, o autor consegue transmitir a atroz despersonalização do indivíduo.
No outro conto, “Os Últimos Dias de Muhammad Atta”, pratica um agónico exercício de alteridade. A perspectiva adoptada é a de Muhammad Atta, um dos terroristas que direccionou um dos aviões contra uma das torres gémeas.
Em Portugal, o terrorismo tem sido amplamente debatido na Comunicação Social, mas não teve, até recentemente, uma presença importante na Literatura.
No entanto, em 2011, Pedro Guilherme-Moreira editou, com muito sucesso, o romance “A Manhã do Mundo”.
Quando lhe foi perguntado por que razão tinha escrito sobre 09/11, o autor português respondeu "talvez porque somos todos América, mesmo que em contraponto, e porque era fundamental que ficasse assente o ponto de vista das vítimas, o tal que não importa à história com agá grande, mas nos importa a nós: aliás, eu gostava que o livro fosse sentido e lido como o "se isto é um homem" do piso 106 da torre norte, e não apenas como um livro sobre o 11 de Setembro."


Ao longo do livro de Amis nota-se a atenuação da vertente emocional conforme a produção dos textos se vai afastando de 11 de Setembro.
“O Segundo Avião” é uma reflexão do autor, tanto no aspecto ensaístico e na reportagem (com Tony Blair), como na vertente ficcional. E é através dos mecanismos de ficção que consegue elevar a qualidade literária do seu livro. Estes dois contos mereciam estar inseridos num outro tipo de estrutura, numa outra obra.
Apesar de ser um importante documento de época que contribui para a reflexão sobre extremismos, certamente que este interessante livro não ficará registado como um dos mais importantes na obra deste escritor.


Mário Rufino


publicado por oplanetalivro às 15:20
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18
Out 11



“Peregrinação de Enmanuel Jhesus”
Pedro Rosa Mendes


“Peregrinação de Enmanuel Jhesus” contém uma fulgurante riqueza imagética, complexidade narrativa e demanda existencial sobre a génese de uma cultura.
É, na minha opinião, um dos grandes livros da literatura contemporânea, assumidamente influenciado pela literatura de viagens desde o século XVI até à actualidade.
O território do romance (fiquemos por esta caracterização embora a hibridez do texto permita catalogá-lo de outras formas) não se limita à geografia de um território. É uma viagem pelos momentos históricos que moldaram as características do povo (s) de Timor Lorosae. A viagem do autor pela psicologia, cultura e sociedade timorense, com todas as suas interacções e indefinições culturais, sustenta-se não só numa deslocação física, essencial à literatura de viagens, mas também numa viagem na literatura. Se no primeiro caso, como foi dito, o observador desloca-se de um ponto a outro, no segundo caso tal não é necessário. Em “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, o autor interroga de forma endógena e exógena a génese de uma sociedade e a formação cultural do indivíduo. O pensamento e as interrogações levantadas pelo autor, em muitos casos, funcionam com alguma independência, mas não dissociados, em relação à deslocação física do observador. A existência de constantes viagens entre o passado e o presente demonstra-nos as múltiplas influências existentes/impostas a Timor Lorosae
“Eu posso recordar, na minha memória genética de judeu, que o nosso povo operou essa passagem, essa mudança, porque ela nos foi imposta do exterior. A primeira vez foi quando tivemos de passar a lei oral em lei escrita, na Primeira Diáspora, quando os Judeus foram expulsos pelos Assírios e sofremos o exílio da Babilónia.” Pág. 284
Pedro Rosa Mendes dotou o seu romance com uma complexidade narrativa que obriga o leitor a ler e reler e, mesmo assim, sair do livro com a sensação que ficou por apreender grande parte da riqueza existente.
Não é a primeira vez que um livro do mesmo autor causa um impacto tão forte como a sua peregrinação. “ A baía dos tigres” interroga, também, as convenções literárias ou o que se chama de construção e leitura canónica. A hibridez de ambos os livros é uma característica em comum, entre outras. Mas mais do que haver uma ligação entres estes dois livros, a Peregrinação desenhada por Pedro Rosa Mendes remete de forma intrínseca e extrínseca para outra viagem, para outra peregrinação: a de Fernão Mendes Pinto.
As duas obras não se conformam com a representação da realidade, mas almejam capturá-la nas malhas da ficção. Acontece um deslizamento da interpretação factual para a leitura ficcional na obra de Pedro Rosa Mendes embora não tão ostensivo como na obra de Fernão Mendes Pinto. Há uma constante dialéctica entre a ficção e a realidade.  O deslocamento do viajante leva-o ao descobrimento de realidades diferentes daquela que ele conhece e onde é participante activo. O “Outro” aparece, então, aos seus olhos significando estranheza e deslocamento do “eu” para uma realidade até ali desconhecida. Quando o seu olhar incide sobre o “Outro” a alteridade efectua-se. No entanto, é uma posição efémera pois o viajante tenta, imediatamente, apoderar-se dela não só a nível linguístico como social. A analogia com os costumes que conhece é inevitável e o que é novo é comparado com a imagética existente. Há uma íntima relação entre a tessitura histórica e social e a narração.
A estranheza demonstrada perante o “Outro”, já não sendo geográfica, ainda se mantém como Psicológica e Cultural.
 Se em vários aspectos o viajante admira-se e conta de forma não-interventiva os costumes da nova realidade, tudo se altera quando escolhe a religião como hermenêutica. Quando adopta tal ângulo para uma indevida medição, o observado é adjectivado de forma pejorativa em comparação com os hábitos do observador. Perde-se a isenção e institui-se um patamar de inferioridade/superioridade. Em “A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”, basicamente narrado na primeira pessoa, isto acontece de forma ostensiva; na “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” acontece de forma diferente e, talvez, mais complexa.
Ao assumir uma narração polifónica, a narrativa enriquece-se com pluralidade de pontos de vista com possível fragmentação da evolução do romance. Devido, essencialmente, à mestria com o que o autor domina a construção do texto, a narrativa não perde coerência.
A leitura crítica da Peregrinaçam percorre 4 séculos onde podemos acompanhar a história da Poética e caracterização da Literatura de Viagens como marginal ao Cânone.
Pedro Rosa Mendes assume esta herança e oferece-nos um livro soberbo, que exige leitura e releitura. “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” é um acontecimento literário que merece perdurar no tempo e deixar a sua marca na História da Literatura Portuguesa.

Mário Rufino
Doutorando em Literaturas e Culturas da Língua Portuguesa, na Universidade Nova de Lisboa com a tese “Pedro Rosa Mendes: Leitura de “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”.A literatura de viagens e a dialéctica com “Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”

Poderão também ler em PNET Literatura: http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=3528
publicado por oplanetalivro às 06:32
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13
Out 11
Donoghue: «Como mãe conto mentiras aos meus filhos»
Texto: Mário Rufino

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=4&id_news=536150



«O Quarto de Jack», de Emma Donoghue e editado pela Porto Editora, é um microcosmos para quem suporta o fardo do conhecimento (a mãe) e o Universo para quem ali nasceu e vive abençoado pela ingenuidade. É, tal e qual a autora mencionou nesta entrevista, a história de uma queda (curiosa associação a um movimento descendente) desde a ignorância até ao conhecimento. Jack come a maçã que a mãe lhe dá enquanto conhece pela voz dela que há um mundo lá fora muito mais vasto, muito mais interessante do que aquele quarto. E, a partir deste momento, a consciência de Jack jamais será a mesma.
A história fundamenta-se na dialéctica entre luz e sombra, mal e bem, ficção e realidade, na decadência física da mãe em contraste com o crescimento do filho. A tensão causada pelo antagonismo de situações e emoções díspares é mantida, com sucesso, desde o princípio até ao fim do livro. Numa prosa onde só há espaço para o essencial, Emma Donoghue afasta os vícios académicos e constrói um texto emotivo, sem cair no facilitismo melodramático.
Alienados do exterior por um acto do raptor, mãe e filho dependem do conhecimento de uma senha, um número secreto que possibilite saírem. O conhecimento abrirá a porta.
O leitor sente a angústia de cada visita do raptor e quase deseja que Jack se mantenha ingénuo perante tais atrocidades. Mas com a idade o conhecimento cresce e a ingenuidade diminui. Tudo é um jogo de perdas.
A criação de um conjunto de regras, dentro do Quarto, possibilita-lhes a sã convivência e a instalação de um instinto de sobrevivência que vai manter a mãe viva e com esperança de se salvarem. No entanto, a incompatibilidade com as regras sociais não acontece dentro do «Quarto», mas no «Espaço Lá Fora».
Emma Donoghue criou uma obra onde se interroga sobre a angústia que vem com a perda de inocência, o conhecimento como porta de entrada, o amor como suporte da vida e o horrível como parte integrante do Ser Humano.
Como ela afirma na entrevista concedida ao Diário Digital, «como mãe, eu estou constantemente consciente que parte do meu trabalho é contar mentiras aos meus filhos».


Porque decidiu narrar a história pelo ponto de vista de Jack? Teve sempre a ideia de construir a narrativa desta forma? O que mudaria se contasse, por exemplo, pela perspectiva da mãe ou de uma 3.ª pessoa ?

Pedir a tal criança (não somente com 5 anos, mas também alienada do mundo exterior) a sua própria história foi a ideia e objectivo de «O Quarto de Jack». Se tivéssemos outra personagem [a narrar] teria sido produzido um estudo muito mais banal do sofrimento e do Mal.

Já perto do fim do livro (pág. 304 na edição portuguesa) simula um debate televisivo entre académicos sobre Jack. A primeira interpretação foi de estar a dar uma chave de leitura para o romance. Depois pensei que podia estar a criticar com ironia qualquer abordagem mais intelectual. Esta é a história de Jack ou posso dizer que esta pode ser a nossa história, como humanidade, também? 

Você acertou. Estou a satirizar os intelectuais (pelo seu usufruto algo frio da história de Jack como uma parábola, pela sua competitividade abafada e o vício pelo jargão), deixando-os sugerir algumas interpretações muito interessantes sobre o que se passava no Quarto. Esta breve cena foi a minha forma de pelo menos sugerir alguma leitura e raciocínio que eu fiz acerca dos principais temas do romance e que não podia ser assumida pela voz de nenhuma das personagens principais. Eu sempre gostei de brincar com os académicos, pois eu sou filha de um, parceira de outra, e eu própria fiz um doutoramento em Literatura!

No entanto, a primeira impressão que tive foi de alienação do mundo exterior e aprisionamento dentro do livro. Eu estava dentro do «Quarto». Na edição portuguesa podemos ler «Somos como pessoas num livro e ele não deixa que ninguém leia». Pareceu-me um jogo de sombras como em «A Caverna», de Platão. Podemos nós, como indivíduos ou mesmo como sociedade, ser tão limitados na análise sobre nós mesmos quando fora da «zona de conforto»?

Eu quis que os meus leitores lidassem com questões existenciais (o indivíduo vs. ligação em par vs. sociedade, natureza [de algo/de alguém] vs suporte [carinho, apoio], a realidade vs. a ficção, o pequeno vs. o grande) numa forma muito concreta durante o curso de uma história que fosse interessante para eles. «O Quarto de Jack» é uma espécie de «zona de desconforto»: eu tentei manter o tom desconfortavelmente equilibrado entre o claro e o escuro, o confortável e o horrível, em cada página.

A dialéctica entre a realidade e a ficção percorre todo o livro. Há uma alteração radical da ordem de tudo (como em «Alice no país das maravilhas»). Para Jack, a ficção é o «Espaço Lá Fora». Por outro lado, para a mãe é o oposto. A certo ponto lê-se: «As histórias são um tipo diferente de verdade». A nossa realidade é limitada pelo que lemos? 

Um crítico britânico chamou à queda da inocência de Jack uma revolução Copérnica, como descobrir que o mundo é redondo. Sendo uma ex-católica, eu vi-a como uma Queda Bíblica, como Adão e Eva, e é por isso que a Mãe oferece uma maçã quando confessa que ela vem do «Espaço Lá Fora». Há uma grande excitação que vem com o seu [Jack] novo conhecimento, mas uma grande perda também. Como mãe, eu estou constantemente consciente que parte do meu trabalho é contar mentiras aos meus filhos: ficções simples, reconfortantes e encorajadoras que moldam para eles o mundo doido e encoraja-os a enfrentarem os seus desafios. Por exemplo, eu tenho muito medo do primeiro Natal em que eles deixarão de acreditar no Pai Natal…

De certa forma, é uma tarefa do escritor revelar e/ou esconder o que se pode ver no mundo que ele/ela cria? Que poder tem como escritora? 

Um grande poder, mas não absoluto. O livro sai para o mundo como uma criança e o escritor não tem mais controlo sobre o que acontece com ele… 

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com




RoomRoom by Emma Donoghue
My rating: 4 of 5 stars


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Para Adquirir:

O Quarto de Jack - www.wook.pt
publicado por oplanetalivro às 11:25

09
Out 11
Introdução:

Pedro Rosa Mendes e a "Peregrinação de Enmanuel Jhesus"



Bem-vindos.O objectivo deste blogue é promover a leitura aprofundada de "Peregrinação de Enmanuel Jhesus" de Pedro Rosa Mendes.Ao longo dos próximos 4 a 5 anos irei estudar a obra em questão e a sua relação com a História da Literatura em Portugal. O livro deste excelente autor é uma criação extraordinária que dialoga com autores consagrados como Fernão Mendes Pinto, interroga a construção canónica dos géneros literários e  realça a influência da Literatura de viagens.Tudo o que reside em si é essencial. A utilização da linguagem é feita com mestria.É um livro que, na minha modesta opinião, deve ser estudado e mantido como um marco na Literatura Portuguesa Contemporânea. "Peregrinação de Enamnuel Jhesus" é muito mais do que um livro publicado em 2010. É um livro que nos traz as tradições do século XVI, é uma construção simbólica de abordagem ao "Outro" e um exemplo de impossibilidade da concretização total de "Alteridade".Não deixarei, no entanto, de apresentar dados do autor que eu achar relevantes no seu percurso. Isto inclui a leitura de outras obras suas.Espero transmitir, dentro das minhas capacidades, alguma da extrema riqueza que o livro detém.Bem-hajaMário
publicado por oplanetalivro às 21:39

07
Out 11
Este blogue, referente à página do facebook: https://www.facebook.com/planetalivro ,atingiu os mil visitantes.
publicado por oplanetalivro às 09:36

04
Out 11
Apresentação de "Peregrinação de Enmanuel Jhesus" (vídeo- seleccionar link)
publicado por oplanetalivro às 14:19

Outubro 2011
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