26
Set 11

“O peso da borboleta” - Erri de Luca







“O peso da borboleta”

Erri de Luca

Bertrand Editora



“ Onde pousa a borboleta, ali é o centro” pag.32

Erri de Luca construiu um duelo poético entre dois seres dominados pela obsessão da perseguição e pela expectativa de um duelo.
Em "O peso da borboleta” há uma comunhão de entidades pertencentes a vários círculos existenciais: O animal, o homem, a natureza e o imaterial (a morte, os espíritos). Tudo se move em simultâneo e numa infinita conexão de causa-efeito.
A opção pela narração paralela da evolução dos dois personagens permite avaliar a comunhão da solidão, o avançar melancólico da idade e a perspectiva de finitude. Acompanhamos os caminhos que ambos trilham, a observação mútua e sentimos a aproximação do desfecho que adivinhamos dramático.
“ Chegou-lhe, a subir, o cheiro a homem e ao seu óleo. Pertencia ao assassino da sua mãe. Era ele, subia para abater gamos, sozinho, procurava o seu rei há anos” pág.14
A obsessiva perseguição remete, de forma explícita e implícita, para Ahab e MobyDick. Tal como Ahab, ele é conhecido como o melhor caçador entre os homens, capaz e disposto a ir a locais onde ninguém vai. Chamam-lhe o “Rei dos Gamos” devido à quantidade que matou. No entanto, ele próprio sabe que é um ladrão que vai roubar alimento às montanhas e, ao contrário dos animais, está só de passagem pelo local. Por isso, prefere que o chamem de “ladrão de caça”. Apesar de conhecer as montanhas como nenhum outro caçador, ele não se considera pertencente àquele território. Aquelas montanhas são dos veados, dos cabritos montanheses e dos outros animais. Não são dele.
“O homem na montanha é uma sílaba no vocabulário” pág. 36
A postura do homem em relação à natureza, à sociedade e a Deus é de apropriação, observação e de cinismo. O movimento de ruptura pertence-lhe.
A relação com o Divino é de desconfiança e incompreensão. Ele interroga-se constantemente sobre o papel do “Patrão” na aceitação da morte dos animais através da espingarda. Por que razão Ele não intervém quando as suas criaturas são mortas pela caça? O caçador interpreta-se como algo que corrompe o que Deus criou.
Por sua vez, o vínculo entre homem e gamo, mais do que um confronto com o objectivo de anulação, é de interdependência, onde um complementa o outro.
Eles têm os caminhos cruzados desde muito cedo. O sangue foi derramado pelo caçador e jamais o seu odor saiu das narinas do animal.
“Nas suas narinas de cria entranhou-se o cheiro a homem e a pólvora” pág.7
Em consequência, o gamo torna-se um solitário, inadaptado às regras existentes entre a sua espécie.Odesajustamento é um ponto comum a ambos. Nenhum dos dois se insere no colectivo. O homem posiciona-se à margem da sociedade. Frequenta diversos abrigos ocultos nas montanhas, onde se abriga das intempéries e se esconde do guarda-florestal. Eles são almas gémeas que aprenderam a viver sozinhos.
“Em todas as espécies, são os solitários que tentam experiências novas. São uma percentagem experimental à deriva. Atrás deles, o rasto aberto volta a fechar-se” pág. 28
Mas se o caçador se considera um intruso, o animal vive em perfeita comunhão com a natureza. Enquanto nas tempestades, todos se refugiam nas cavernas, debaixo das árvores, ou em casa, o verdadeiro “Rei dos gamos” adopta a postura inversa.
“ Estava em segurança lá onde todas as criaturas pressentem ameaças. Estava em aliança com o vento, o seu coração batia leve carregando-se da energia arremessada do céu para a terra” Pág. 50
Numa belíssima frase, o autor sublinha a total integração do animal na natureza; algo que não está acessível à limitada capacidade de observação do ser humano.
“ No verão, as estrelas caíam em fagulhas, ardiam em voo apagando-se nos prados. Então, ia para junto das que tinham caído mais perto, para as lamber. O Rei provava o sal das estrelas” pág. 27

II

“Era um dia perfeito, de fronteira nítida entre um tempo caducado e outro desconhecido” pág. 57


Desde o princípio do livro que assistimos à interacção entre o mundo tangível e o intangível. Ao decifrar a representação da borboleta podemos interpretar a Vida como diversamente contínua. A pluralidade de entidades existente no texto é parte integrante de uma Criação una. E observamos, desta forma, a simbiose entre a carne e o espírito.
A borboleta está sempre presente porque representa o espírito viajante e anuncia uma visita ou morte de alguém próximo. Entre os Aztecas, por exemplo, a borboleta é o símbolo da alma, do último sopro que sai da boca do agonizante. É, também, o símbolo do regresso à terra das almas dos guerreiros mortos.[1]
Assim se compreende a contínua presença anunciadora da borboleta e o seu peso no destino dos dois personagens.
Na primeira batalha pela supremacia dentroda manada, o gamo, após a morte do seu adversário, vê diversas borboletas brancas. Uma pousa no chifre ensanguentado e lá fica por gerações de borboletas.
Noutra ocasião, quandose prepara para disparar, uma borboleta pousa sobre a espingarda, desconcentrando-o e impedindo-o de disparar. Ela anuncia o fim, mas impede-o por não ser ainda o momento adequado.
No duelo final entre os dois, os chifres do animal sacodem uma borboleta que nele havia pousado.
“O Rei dos gamos soube de repente que o dia era aquele” pag.59
A borboleta é o prenúncio da morte. É o centro. E é ao pousar no chifreque vincula, definitivamente, os seus destinos. Duas almas que, em essência, são partes integrantes de um todo, unem-se finalmente.
Erri de Luca conta-nos uma história de obsessão, duelo, limites e eminente tragédia. Mas é, principalmente, uma história de dependência entre personagens, de demanda, de simbiose e transformação final.
Ahab e o caçadorficam amarrados às respectivas obsessões. E terminam com elas. Mas há uma pequena variação quando comparado a “MobyDick”: a ligação com o animal é a única aliança que o homem consegue obter. Ficam juntos de forma definitiva.A carne, a natureza e o espírito.


Mário Rufino


[1]“Diccionario de los símbolos” (1986) de Jean Chevalier. Editorial Herder.
publicado por oplanetalivro às 13:57
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23
Set 11

"Em cada acto de leitura, a irremediável alteridade do escritor e do leitor é equilibrada e contrariada por esse desejo de reconhecimento e de compreensão entre os dois parceiros. Como leitores, não podemos ignorar as intenções dos escritores sem incorrer num acto de violência textual que ameaça a nossa própria existência como seres textuais. Mas também nos não é possível preencher por inteiro a lacuna comunicativa e, em muitos casos, temos de reconhecer que tal lacuna é de facto bastante ampla"
Robert Scholes

http://www.brown.edu/Departments/MCM/people/facultypage.php?id=10114
publicado por oplanetalivro às 15:58
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21
Set 11

“Hoje preferia não me ter encontrado”
Herta Muller (Prémio Nobel 2009)
D. Quixote




“Não queria pensar em nada, porque mais nada sou, para além de intimada” pág. 47


Em “Hoje preferia não me ter encontrado”,Herta Muller interroga tudo, de forma dura e sem piedade, não se colocando no exterior do objecto de análise. Todos são vítimas e culpados da alienação da liberdade individual. Os vigiados também vigiam e os vigilantes têm medo de ser vigiados.
O “eu” narrativo permite a aproximação dos acontecimentos narrados à dor e experiência própria da autora. Herta Muller, romena e nascida numa comunidade de língua alemã, esteve sob o regime fascista de Antonescu e, posteriormente, sobre o regime comunista de Estaline. A própria mãe da autora foi deportada, juntamente com cerca de 80 mil romenos de língua alemã, para um campo de trabalhos forçados.

A narradora viaja sentada num eléctrico com destino a mais um interrogatório. Enquanto o eléctrico avança, a sua memória recua e revela segredos e recordações mais ou menos distantes.
No decorrer da leitura percorremos círculos concêntricos em torno de um sentimento de desagregação humana, seja na sua individualidade ou sociabilidade.
A beleza é deturpada e destruída: Albu, o interrogador, beija-a na mão deixando um rasto de cuspo enquanto lhe aperta os dedos até ela quase gritar de dor; na foto do casamento com Paul, os dois estão de cabeça encostada, num dia feliz, mas no presente mais lhe parecem as duas ameixas, símbolo da aguardente com que o marido diariamente se embebeda.
As ligações familiares incluem o seu ex-sogro, um “comunista perfumado”, que deportou os avôs dela e nacionalizou os respectivos bens, o desejo erótico pelo seu pai e o decadente casamento com Paul que se autodestrói devido ao álcool.
O “comunista perfumado” afirma que o tempo em que os avós dela passaram dentro de uma campo de detenção já lá vai e que são somente desculpas para não terem vencido na vida. A ironia de se “ouvir” deste personagem uma frase baseada no “darwinismo social” e tão ligada ao capitalismo exemplifica a presença constante da ironia em “ Hoje preferia não me ter encontrado”
O presente fecha qualquer esperança e tenta enterrar e branquear um passado de dor. A memória, essencial ao património cultural da sociedade e do indivíduo, é pressionada pelo esquecimento. Herta Muller luta pela manutenção da memória, contra a paranóia e a loucura.

Já divorciada do primeiro marido e em casa de Paul, ela pergunta-lhe o que é um comunista.
“Quem era suficientemente pobre tornava-se comunista. E também muitos ricos, que não queriam ir para os campos de trabalhos forçados. Agora o meu pai [fascista e, posteriormente, comunista] está morto e, tão verdade como o céu existir, lá em cima ele diz que é cristão.” Pág.173
Ela e Paul são despedidos por práticas subversivas contra o Estado. A deterioração económica acentua-se.
“Aquilo de que precisam eles [os russos] mandam despachar para Moscovo e empanturram-se com o nosso cereal e a nossa carne. A fome e a porrada eles deixam para nós.” Pág. 29
Apesar de a desconfiança estar enraizada devido a questões histórico-políticas (fascismo e comunismo), alguns elos afectivos ainda prevalecem. Lilli, amiga e colega de trabalho da narradora, é a única pessoa, além de Paul, em quem ela confia. No entanto, ela é assassinada a tiro e esventrada pelos cães quando, motivada pelo amor a um homem, tenta ultrapassar a fronteira com a Hungria. A presença rara destas relações sublinha a substituição do afecto pela desconfiança e paranóia entre as pessoas.

A sociedade está dividida entre ostentação e pobreza, onde as classes sociais mais desfavorecidas sofrem com o flagelo do álcool, e a liberdade de expressão não passa de um conceito impraticável.
 “O nosso socialismo até põe os seus trabalhadores a sair da indústria em pelota…” pág. 86
A vida, a rotina diária, é pesada e os dias arrastam-se uns atrás dos outros.
“ Seria pedir de mais que as coisas a que me habituei me servissem de alguma coisa. Elas até servem de alguma coisa, mas não a mim. Quer dizer, servem quando muito à vida, a vencer o dia. Mas não se espere que elas nos encham a cabeça de felicidade” Pág. 24
A redução do humano ao seu instinto animal é sublinhada no episódio da feira da ladra, dia em que conhece Paul, onde muita gente precisa de usar uma decrépita casa de banho pública. O polícia encostado à parede abdica de exercer autoridade perante a desordem. E a ansiedade domina as pessoas que esperam para entrar no pútrido cubículo. A avaliação da narradora é mordaz.
“Só lá fora voltei a ser um pedaço de esterco humano” Pág. 144


 “Hoje preferia não me ter encontrado” é um texto pleno de ironia, despido de autopiedade e muito crítico em relação a ideologias, à sociedade dessa altura e ao próprio indivíduo.
Herta Muller não poupa nada nem ninguém.
“Neste entardecer vermelho da cidade, o que agora se recomenda é a cegueira, há olhos de vidro para todos. Mas os pregos do caixão troam especialmente por aqueles que querem construir a sua felicidade dançando ao som de uma canção em que a gente se farta do mundo.” Pág. 117

publicado por oplanetalivro às 12:25

12
Set 11

“Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”
J. Rentes de Carvalho
Quetzal


I
“O caso do senhor Mandel acabou por se fundir na minha memória (…) Alguns factos que inventei tornaram-se «verdade» à força de repetições.” Pag. 126

“Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” é composto por 30 narrativas escritas com a mestria de quem sabe contar bem uma boa história. J. Rentes de Carvalho surpreende-nos com a sua ironia queirosiana e com a fluidez de uma prosa equilibrada, que transmite a sensação de que tudo o que é necessário está em cada frase, em cada conto, na proporção exacta.
 Se partirmos para uma análise por decomposição dos contos
(estudo fónico, das personagens, da acção, do espaço, etc.), podemos afirmar que a temática, dadas as características inerentes a uma compilação de narrativas curtas, é plural. Seguimos histórias de amor e adultério (“Um amor em Sevilha”), origem e exercício de autoridade (“Lord William”), crime passional (“A prisão nova”), contrabando (“o outro lado da paisagem”), sobrenatural (“Os medos de então”) e muito mais.
 As narrativas não se limitam a uma área geográfica. J. Rentes de Carvalho, usando as suas próprias experiências pessoais e profissionais, coloca acção a decorrer em Lisboa (em “O incêndio de Lisboa” diria mesmo que Lisboa é a personagem principal), no Brasil (para onde foi viver por razões políticas), no Norte de Portugal (onde nasceu e viveu), na Holanda (onde vive desde 1956. Foi docente na Universidade de Amsterdão), Paris e Nova Iorque, onde viveu durante algum tempo. No aspecto lexical, esta experiência faz-se notar em diversos diálogos com personagens oriundas do Brasil. Nesta situação, ele credibiliza a narração manipulando o léxico e sintaxe das frases quando assim é necessário.
“- Que besteira é essa de quatro dias que você continua falando? Duas horas, rapaz! Eu mando o avião te pegar e ele te deixa mesmo diante da porta. Tem pista.
Assim aprendi que, usadas por um mortal de bolsa modesta ou um multimilionário, as mesmas simples palavras com que convida alguém para almoçar encerram mais do que a diferença entre dois mundos” (Gente de outro planeta, pag.297)
Em “Gente de outro planeta” é feita uma análise mordaz sobre as desigualdades sociais e a consequente modelação dos valores morais: “E não me refiro ao conforto nem às facilidades que o dinheiro compra, mas a todo um comportamento e sistema de valores que só em aparência tinham alguma coisa de comum com os do mundo em que a minha vida decorria” pag. 298
“O incêndio de Lisboa” talvez seja o que detém mais memórias pessoais e menos ficção. O narrador é o próprio autor. Não se “esconde” atrás de nenhuma personagem. Como foi dito anteriormente, Lisboa é a personagem principal. Ao contrário de muitas outras histórias neste livro, a geografia não contextualiza, somente, o enredo. Lisboa é o que o ele quer contar. A narração é substancialmente diferente. Aproveitando a deambulação pela cidade o autor caracteriza-a em diversos períodos temporais e faz questão de mencionar o quanto valoriza Eça de Queiroz: “Nos jornais e em todos os livros de Eça- o maior dos nossos romancistas, nessa altura para mim um deus e hoje ainda longe o meu favorito – o Chiado resplandecia, era único” pag.307 
A fronteira entre a realidade e a ficção dilui-se até quase à inexistência, não fosse a memória ser mutável com o tempo. O autor refere-se ao seu primeiro romance e, desta forma, sublinha o seu próprio papel dentro do enredo: “ O meu primeiro romance, Montedor, acabava então de ser publicado…” pag. 311
Esta dialéctica entre a realidade e a ficção é permanente. Se analisarmos, por exemplo, “O caderno de Hakim” poderemos detectar mais uma referência a entidades ou pessoas que, de facto, existem. Hakim, homem dotado de adivinhação, afirma que Gabo viria a ser ainda mais conhecido do que Sartre (à época o autor mais conhecido). Ao gritar para Gabo que ele viria a ser muito conhecido, “Gabo respondeu com um gesto obsceno e continuou a ler o jornal” pag.227
Gabriel Garcia Marquez (Gabo) passou a ser um personagem real dentro da ficção.
A unidade entre os vários e diferentes textos é conseguida através dos recursos estilísticos utilizados, pela dialéctica entre ficção e realidade e pela prosa contida e equilibrada. J. Rentes de Carvalho consegue contar de forma irrepreensível. A conjugação dos elementos anteriormente analisados por decomposição é concretizada de forma homogénea. Por vezes parece que ele está ao nosso lado, sentimos que nos conta tudo como se estivesse a falar connosco.

II

Se há género literário em que o título se destaca, então é o conto. Principalmente quando, numa colectânea, o título do livro remete para ele.
Segundo Armando Moreno (1987)[i], “O título de um livro deve funcionar assim como uma palavra plurissémica, contendo os principais traços semânticos de cada conto e sendo, simultaneamente, uno e vário, signo de cada conto e signo dos contos reunidos”
No conto “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” existe uma ligação imediata entre a apresentação e o desfecho. Os limites deste género narrativo são traçados com exactidão. “Os Lindos Braços de Júlia da Farmácia” apresenta-se como acção selectiva e sem dispersão e tudo (inclusive o título) está ligado à acção principal.
No entanto, J. Rentes de Carvalho, noutros contos, flexibiliza as características próprias de uma narrativa curta quando informa que não poderá fugir ao facto de ter de utilizar vários pormenores, que, por motivos de objectividade, não fazem parte do conceito de conto. Se em “ um amor em Sevilha” afirma que “ mau grado a riqueza de detalhes com que em geral acompanhava as recordações, neste caso particular, a sua narração era sóbria e breve, quase como se tantos anos depois, ainda lhe fosse doloroso pôr no retrato mais do que estritamente essencial” pag.9 já em “ Le Beuret” afirma algo diferente: “ certas histórias, mesmo comezinhas, só se podem contar de maneira satisfatória quando se lhes acrescenta um luxo de pormenores. A compreensão de outras necessita do apoio de referências: data, momento histórico, circunstâncias, antecedentes…Em vez da meia dúzia de folhas planeadas enche-se com elas um caderno” pag.29
Conhece as “regras” e não hesita em manipula-las e transgredi-las com segurança.
Sabemos que utilizou muitas experiências pessoais na construção dos seus textos, mas ele não se limita ao realismo. É o realismo real?
Em “Le Beuret”, aproxima-se o mais possível do realismo, do mundano: “Mais adiante contarei como era meu hábito diário pedir a monsieur Antoine « un grand créme er un croissant beurre, s`il vous plaît» Seria estranho escrever, recorrendo aos dicionários: « Senhor António, faça favor de me dar uma xícara grande de café com leite e um pãozinho (ou bolo) amanteigado em forma de meia-lua». Além de não parecer a mesma coisa e fazer rir, até o cheiro e o sabor se tornariam outros na imaginação do leitor» pag.29, mas em “Os medos de então” interroga-se sobre os limites desse mesmo realismo: “ Na minha infância o sobrenatural ainda existia e amedrontava (…) O mundo era maior do que é hoje” pag. 88
A dialéctica entre o artifício e a realidade não se esgota aqui. Em “A quinta do Mobutu” é demonstrada a “promiscuidade” existente entre ambos. O artifício não elimina a realidade. Enquanto o narrador volta a casa, à aldeia onde cresceu, e sente que a memória é traída pelo presente e a realidade não encaixa com o que ele recordava daquele local, o “velho” quer ouvir as histórias sobre tudo o que se passa no exterior, nas cidades. Aqui é demonstrado o quão pouco fiável pode ser o narrador: “ Pensei desiludi-lo, mas quando o vi assim prostrado na cadeira de encosto, os olhos semicerrados, já a gozar, pareceu-me que seria crueldade. E então fantasiei-lhe deboches, bordéis de luxo, ruas de pecado como em parte nenhuma existem” pag. 166

Não se pode deixar de referir uma das principais riquezas deste livro: a capacidade de transformação por parte de quem conta.
Opta-se, raras vezes, pela narração na 3ª pessoa do singular (ou não-pessoa, segundo Benveniste). A narração é concretizada num “eu” que ouviu ou assistiu directamente ao que vai contar. A adopção desta técnica literária permite ao autor manipular com brilhantismo a hibridez da identificação do narrador e conjugar o artifício com a verosimilhança.
A característica que talvez mais impressione é a incerteza na identificação da voz narrativa (discurso indirecto livre). Muitas vezes não sabemos quem narra. A narração acomoda-se à personagem, cola-se a ela e a voz do narrador adapta-se à forma de pensar e falar da personagem. Esta “terceira pessoa próxima” é um pacto íntimo entre os dois. Esta situação acontece em várias histórias e é executada com mestria. Se em alguns casos é muito difícil identificar o narrador, existem outros onde existe auxílio: “Ou pelo tom sigiloso, pelo seu modo expressivo de narrar, ou pela minha natureza excessivamente impressionável, o certo é que no momento em que o senhor Pontes começa a descrever a sua entrada na casa do morto, a barbearia e o cliente deixam de existir, eu deixo de ser eu próprio. As palavras que ouço são as que digo, no meu cérebro há uma amálgama de pensamentos alheios, observações, memórias de uma vida diferente, sinto no corpo o cansaço de muitos anos” pag. 334

III

José Rentes de Carvalho tem controlo absoluto sobre as técnicas narrativas que aplica na arte de contar. A leitura é fluida, não existem perdas de sentido, malabarismos estéreis nem petulância no léxico utilizado.
Há momentos de brilhantismo.
Arrisco em dizer que esta obra não é somente (?) um belíssimo livro onde coexiste a narrativa e a poética; é uma lição de bem escrever.
Em suma, deve congratular-se a Quetzal Editores por divulgar em Portugal um escritor exímio, que trabalha os textos até atingir o equilíbrio (quase) perfeito. Fica a alegria de sabermos que há muito mais para ler deste autor.

Mário Rufino




[i] MORENO, Armando (1987) “ Biologia do conto”, Livraria Almedina, Coimbra
publicado por oplanetalivro às 08:52

08
Set 11




“Não Humano”
Osamu Dazai (pseudónimo de Tsushima Shuji)
Eucleia Editores


I
“A minha vida é vergonhosa.
Não consigo sequer imaginar como deve ser viver como um ser humano” pag.13

Osamu Dazai criou, em “Não Humano” (e em outros livros) um mundo estranho e inóspito. Yozo, personagem principal, representa o que mais há de primário no ser humano. Ao entrarmos em “Não Humano” partilhamos os medos e obsessões do próprio autor. A sua vivência pessoal, a tentação contínua que o puxava para a morte (concretizado num duplo suicídio com a sua amante), as drogas, o álcool, sexo, tudo é exorcizado perante o leitor de uma forma honesta e, em consequência, cruel. Este tipo de ficção dita confessional levou a que o autor seja considerado um dos principais autores japoneses do século XX.
O que mais impressiona em “Não Humano” não é a descrição de violência física ou mesmo a tortura psicológica. O que mais impressiona neste livro é a indiferença à dor própria e alheia. A estrutural moral e social é outra, se é que existe. Yozo está sempre à margem das emoções (excepto de um medo primário de animal), não se envolve socialmente e vê o sentimento como um sintoma de doença.
“ (…) alguns anos mais tarde, observei, em silêncio a violação da minha própria esposa.
Tentei, na medida do possível, evitar envolver-me nas complicações sórdidas do ser humano.” Pag. 61
A personalidade é escondida atrás de inúmeras brincadeiras, palhaçadas segundo o próprio, impedindo o “outro” de o observar, de o conhecer. É uma vida representada, irreal.
O suicídio é uma obsessão pela qual se deixa seduzir por duas vezes. A primeira vez que se tenta suicidar, Yozo/Osamu é resgatado por um barco de pesca. Não o tentou sozinho. Uma mulher saltou com ele e afogou-se. Ele jamais conseguiu ultrapassar o sentimento de culpa. A necessidade/capacidade do autor se desnudar emocionalmente perante o leitor é autêntica e mostra a singularidade deste livro. “Não Humano” é um mundo à parte.
 A simbiose entre ficção e realidade proporciona uma viagem da qual não queremos sair.
O percurso de Yozo é, em essência e nos principais acontecimentos, paralelo ao de Osamu Dazai.
É importante mencionar que, ao analisar a estrutura do romance (confessional), o narrador não chega a conhecer a personagem. Ao sabermos que o enredo é muito moldado aos acontecimentos da sua vida, podemos especular que há, pelo menos, duas perspectivas no autor: Aquele que sofre e o que se analisa. E a separação entre ambos é dramática: “Nunca tinha visto tão impenetrável rosto num homem” pag 12

Poucos autores conseguem criar mundos diferentes, livros que causem impacto no leitor.
 O mundo “Não Humano” de Osamu Dazai é um desses mundos literários criados para nos abanar e, estranhamente, seduzir-nos a percorrê-lo e acabar a viagem.
“Tudo passa.
Essa é a única coisa que achei assemelhar-se a uma verdade na sociedade dos seres humanos onde até agora vivi como se num inferno.
Tudo passa” pag. 122


Mário Rufino
publicado por oplanetalivro às 22:47

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