28
Mai 14



A Porto Editora assinalou hoje, dia 28 de Maio de 2014, um dia histórico na sua existência.
Depois de 35 anos na Editorial Caminho, o Nobel Português começa a ser publicado com a chancela da Porto Editora.
Na Fundação José Saramago, Manuel Alberto Valente (editor), Vasco Teixeira (administrador da Porto Editora) e as herdeiras Violante Saramago Matos (filha) e Pilar del Rio (esposa) apresentaram as novas edições de 9 livros de José Saramago:
"As pequenas memórias", "As intermitências da morte", "A caverna", "O homem duplicado", "História do Cerco de Lisboa", "A noite", "Manual de pintura e caligrafia", "Ensaio sobre a lucidez", "A viagem do elefante".
A apresentação contou com presença de Pilar Reis (editora de Alfaguara Espanha), Guilhermina Gomes (Círculo de Leitores, responsável pela edição de "Viagem a Portugal" de Saramago e pela criação do "Prémio José Saramago"), João Rodrigues (Sextante),  Francisco José Viegas, editor da Quetzal e responsável pela edição de "José e Pilar"


Manuel Alberto Valente afirmou que não existem alterações ao texto nas novas edições. No entanto, houve o especial cuidado com a fixação e revisão do texto, emendando, assim, pequenas incorrecções existentes.
A grande alteração acontece nas capas compostas pelo Atelier Jorge Silva.  O grafismo respeita a sobriedade outrora existente e é dotado de um valor simbólico especial. 
Sabendo da intransigente defesa da literatura portuguesa por José Saramago, a Porto Editora convidou vários autores portugueses a escrever, com a sua própria caligrafia, os títulos dos livros. 
Assim sendo, Eduardo Lourenço escreveu "A Caverna", Baptista Bastos encarregou-se de escrever "A Noite", enquanto a Mário de Carvalho foi entregue "A Viagem do Elefante". Valter Hugo Mãe (prémio Saramago) escreveu "As Intermitências da Morte, Gonçalo M. Tavares "As Pequenas Memórias" e Dulce Maria Cardoso "O Ensaio sobre a Lucidez". Siza Vieira desenhou o título de "História do Cerco de Lisboa", Júlio Pomar fez mesmo com "Manual de Pintura e Caligrafia". Por último, Lídia Jorge escreveu "O Homem Duplicado".
O Engenheiro Vasco Teixeira afirmou o objectivo em "preservar e perpetuar" a obra de Saramago, depois do Círculo de Leitores ter dado um impulso essencial na obra do autor português, através da edição de "Viagem a Portugal".
Violante Saramago enalteceu "o achado que é estas capas", pois estas revelam "ternura, afecto, sensibilidade"
Devido ao pequeno relevo no título, "é uma capa muito sensorial", afirmou.
Mas o mais importante, numa altura em que " a Cultura é achincalhada e humilhada", é a ética, os valores, a verticalidade que está dentro dos livros e que corresponde ao homem que lá está "dentro", também.
Pilar del Rio manifestou, de forma breve, a vontade de começar um novo ciclo numa nova editora.

No final, Manuel Alberto Valente resolveu esclarecer algumas questões que apareceram nas redes sociais.

Segundo o editor, as herdeiras não ganham nem mais nem menos do que no contrato anterior com a Caminho. A única diferença consiste no apoio à Fundação José Saramago que, sublinhou Manuel Alberto Valente, não recebe dinheiros públicos. A Fundação é sustentada pelas herdeiras e pelos direitos de publicação.

As obras estarão disponíveis a partir de amanhã, dia 29, na Feira do Livro de Lisboa. A editora terá um "stand", dentro do espaço Porto Editora, dedicado ao Prémio Nobel português. 

Os preços variam entre os 13,30 e os 17, 70 EUR.
Ao longo de dois anos serão editados todos os outros livros de Saramago. Tudo está dependente da caducidade dos contratos vigentes com outras editoras.
As próximas obras a serem publicadas são "Levantado do Chão", "Poemas Possíveis", "Provavelmente Alegria" e os Apontamentos. Além das obras de José Saramago serão publicados, também, ensaios oriundos da própria Fundação José Saramago
"Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas", livro ainda não publicado de José Saramago, será publicado em Setembro.
A publicação do romance inacabado acontecerá em simultâneo em diversos países.

A Porto Editora passa a ser, a partir de amanhã, o ponto de encontro entre os livros de José Saramago e os seus leitores.


Mário Rufino
publicado por oplanetalivro às 15:28

22
Mai 14


Manuel Jorge Marmelo (n.1971; Porto) olhou para a história da literatura e fez dela matéria-prima na construção de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” (Quetzal), Prémio Correntes d`Escritas 2014.
O narrador, nunca nomeado, de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” leva consigo um livro intitulado “Cidade Conquistada”, cujo conteúdo foi construído com leituras diversas e apropriação de textos (recortes, transcrições, etc.).
O único exemplar existente de“Cidade Conquistada”, do irreal autor Oscar Schidinski, tem uma capa que prende a atenção dos passageiros/leitores dos transportes públicos.
Conquistada a atenção dos leitores, o narrador recria em cada leitura sua o conteúdo do livro. Personagens como o Homem-Zebra de Polvorosa, o marinheiro Albrecht e a sua maldição, Cassiano Consciência e o seu amigo Afonso Cão e ainda Marcos Sacatepequez habitam o imaginário do contador destas histórias e dos seus ouvintes.
Manuel Jorge Marmelo construiu, desta forma, uma narrativa complexa, formada por vários caminhos que se cruzam, originando um interessante labirinto textual.
“Cidade Conquistada”, Oscar Schidinski e as histórias do narrador não são verdadeiras. No entanto, a verdade, ou melhor dizendo a realidade, é o menos importante.
Se fisicamente pouco ou nada do que é contado existe, o mesmo não se passa no plano intelectual. Se é nomeado, se é referido, existe num outro plano que não o visível.
O aspecto progressivo e mutante da leitura/ recriação por este narrador dota a obra de capacidade de sobrevivência e de interesse. Neste caso, cria-se um facto baseado em algo inexistente. Em consequência, a ficção influencia a realidade, e esta torna-se menos real do que a ficção. “Cidade Conquistada” é tão perfeita e plural, no que respeita a interpretações e adaptações, como uma utopia.
A entrada no cânone está dependente disto mesmo: da constante actualização do texto. A ficção sai do controlo do ficcionista, pois o público interage e muda o decurso da história. A transmissão oral, que remete para os primórdios da literatura, é simbólica. O narrador endossa e espalha a palavra.
A Estética Literária, em interacção com o conceito de Belo, é mutável e produto de “negociação” entre escritor, narrador e leitor.

O cânone, o historicismo, o biografismo, o conceito de Obra Aberta, a intertextualidade, as influências literárias, o “tomar emprestado” ou o plágio são assuntos abordados com muita inteligência por Manuel Jorge Marmelo. O autor consegue a simbiose entre ensaio e ficção. Mesmo para o leitor sem conhecimentos teóricos sobre a Literatura, a construção ficcional motiva a continuação da leitura. Este diálogo com a história e teoria da literatura é declarado na pág. 20:
“é absolutamente fundamental que Schidinski seja sempre o responsável por uma profunda ruptura sistémica na arte narrativa do seu tempo, inaugurando, se assim se pode dizer, um novo e genial capítulo da história da literatura”.
Essa responsabilidade não se esgota no acto de renovação ou inovação; é necessário que o autor, neste caso, Oscar Schidinski, seja celebrado como o génio causador dessa ruptura.
A (procura de) celebridade é uma constante ao longo do texto. O narrador reivindica-a também para si. A ânsia de reconhecimento é assumida quando afirma: “sinto a fama como algo que me seja devido do mesmo modo que um trabalhador tem direito ao seu salário” Pág.44
As deslocações de autocarro, metáfora da viagem na literatura, são um pretexto para o (re) criador de “Cidade Conquistada”. Ele deseja ser reconhecido pelo público. No entanto, uma outra “irrealidade”, tão ou mais Sublime do que a Literatura, mudará o destino do narrador do livro de Schidinski.

Manuel Jorge Marmelo declara, em “Uma Mentira Mil Vezes Repetida”, o seu amor pelo poder transformador da palavra. A Literatura, desde os seus alicerces teóricos até à manipulação da frase, é o principal tema desta obra premiada com o Prémio Correntes d`Escritas 2014.
O leitor tem acesso, através deste texto literário, a uma lição sobre a efemeridade, a instabilidade e a incoerência da formação do gosto.

Uma mentira mil vezes repetidaUma mentira mil vezes repetida by Manuel Jorge Marmelo
My rating: 4 of 5 stars

Manuel Jorge Marmelo (n.1971; Porto) olhou para a história da literatura e fez dela matéria-prima na construção de “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” (Quetzal), Prémio Correntes d`Escritas 2014.

http://oplanetalivro.blogspot.pt/2014...



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publicado por oplanetalivro às 10:40

14
Mai 14



"Satírico, provocador, polémico. Eis “Coração de Cão” (Alêtheia), de Mikhail Bulgakov (n. Kiev; 1891-1940)."

TEXTO EM P3/PÚBLICO:  http://p3.publico.pt/cultura/livros/12015/quotcoracao-de-caoquot-de-mikhail-bulgakov


publicado por oplanetalivro às 07:25

13
Mai 14



Ler Platão é ler parte essencial da formação do pensamento ocidental. A sua obra perdura e influencia a realidade das civilizações ocidentais há cerca de 2400 anos.
Platão é um eterno contemporâneo.

“O Político” (Temas e Debates) é uma obra importante na demonstração da filosofia de Platão (427 ou 428 a.C. - 347 ou 348 a.C.), embora não tenha a preponderância de “A República” ou, numa outra fase, de “Górgias”.
Enriquecido por uma pedagógica introdução de Carmen Isabel Leal Soares, que também assume a tradução e notas, “O Político” situa-se diacronicamente na obra do filósofo grego entre “A República” e “As Leis”, não havendo uma data precisa para a sua primeira edição.
Tanto “As Leis”, considerada a obra derradeira do autor, como “O Político” são contextualizados pela terceira e última fase da produção literária de Platão.
É comummente aceite que esta fase é composta por “O Sofista”, “O Político”, “Filebo”, “Timeu”, “Crítias” e “As Leis”.
Adverte Carmen Isabel Soares que o substantivo “Politikos”, que está contemporaneamente presente no substantivo “Político”, “não corresponde exactamente ao conceito moderno”.
Nesta obra, Platão, através da proposta de Teodoro a o Estrangeiro e a Sócrates, o moço (não confundir com Sócrates, o filósofo), propõe fazer o retrato completo do Homem Político.
Ainda segundo Carmen Isabel Soares, “Estamos, pois, perante um tratado metodológico, que ensina a arte de filosofar”.
O Estrangeiro (relacionado com ser desconhecido em casa onde se discute e não com o aspecto geográfico) procura ensinar ao seu discípulo Sócrates, o moço, a função de três utensílios filosóficos na prática da dialéctica. São eles “a divisão ou diérese, a invenção e interpretação de mitos e os paradigmas funcionais”.
O pensamento platónico vai sendo demonstrado através do dinamismo dialéctico imposto pelos intervenientes. A sistematização do pensamento passa pela relação entre o homem político e as diversas e mútuas influências. Refiro-me ao mito, à constituição do poder, ao bom e à virtude.
Os exemplos de “bom” e de “virtude” são abordados em “O Político”, mas a dado ponto o diálogo não aprofunda e assume outra direcção. O aprofundamento acontece mais em “Górgias”, onde Platão filosofa sobre a desejável ligação entre a arte da Retórica e a Bondade.
Górgias afirma, a certo ponto da sua exposição, que a Retórica deve ser usada como todas as armas de competição. “Lá porque se aprendeu o pugilato, o pancrácio e o combate com as armas de modo a poder vencer amigos e inimigos, não se vai agora fazer uso disso contra toda a gente, a ponto de ferir, trespassar, ou matar os próprios amigos” (em “Górgias”).
O homem político deve, assim, usar o seu poder retórico para alcançar o bem comum e não em proveito próprio.
O Bem, para Platão, é a finalidade da vida, objectivo supremo. Dele depende o conhecimento. É a causa criadora que sustenta o mundo. É objectivo da Dialéctica o apreender a essência de todos seres e substâncias; o ser capaz de distinguir a natureza ideal do Bem, isolando-a de todas as outras coisas.
Na dialéctica platónica, O uso dessa “arma” fundamental é sublinhado, em alguns momentos, pela ironia (ignorância simulada). Em “A República”, livro anterior a “O Político” e pertencente a os quatro grandes mitos escatológicos (Górgias, Fédon, República e Fedro), Trasímaco diagnostica diversas vezes essa ignorância simulada usada por Platão na voz de Sócrates.
Será comparando “O Político” com, precisamente, “A República”, situada na já mencionada terceira fase da produção literária-filosófica do autor, que poderemos perceber as mudanças no pensamento do filósofo grego.
A evolução filosófica de Platão durante o período a começar em “A República”, passando por “O Político”, até chegar a “As Leis”, leva autores como Julia Annas ou Carmen Isabel Soares a denotar a mudança de uma antidemocracia em Platão para a aceitação da democracia como forma de governar os cidadãos.
O ideal “homem pastor”, de “A República”, é derrotado pela consciencialização histórica da sua falibilidade.

Abordar o homem político como homem nobre parece algo distante do pensamento contemporâneo. A retórica ganhou um sentido pejorativo, pois com ela vem, agora, a mentira e a camuflagem da acção.
A lucidez de Platão ilumina o que a mediocridade vem embutindo como normal na nossa realidade; ilumina para eliminar.
 A política é um acto nobre quando vinculado ao conceito de Bem e de Virtude. A Retórica é uma “arma” que deve ser utilizada com parcimónia e sujeita ao cumprimento do bem comum.
A reedição de textos canónicos como os de “O Político”, enriquecida com a qualidade informativa e pedagógica da introdução de Carmen Leal Soares, são sempre de louvar e de (re) ler.
Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com
publicado por oplanetalivro às 14:49

10
Mai 14




O Planeta Livro esteve presente, findava a tarde do dia 09 de Maio, na Livraria Ler Devagar para assistir à apresentação de “Mal Nascer” (Casa das Letras), o mais recente romance de Carlos Campaniço (n.Moura; 1973).
A apresentação ficou entregue a Maria do Rosário Pedreira (editora) e Afonso Cruz, escritor recentemente premiado com o prémio Sociedade Portuguesa de Autores, devido ao seu livro “Para onde Vão os Guarda-Chuvas”.

Maria do Rosário Pedreira caracterizou “Mal Nascer” como “romance de retorno”. Tal qual Ulisses, em “Odisseia”, Santiago Barcelos, personagem principal, regressa à sua terra para perceber que, ao contrário das suas dolorosas memórias, não havia reconhecimento da sua identidade por parte dos conterrâneos.
“Mal Nascer”, finalista do Prémio Leya, é “literatura preocupada com o outro”, segundo Maria do Rosário Pedreira.
Afonso Cruz defendeu também a ideia de retorno num romance contextualizado pelas lutas entre liberais e absolutistas.
Para o autor recém-premiado, que demonstrou ser um exímio contador de histórias, o personagem principal tem questões difíceis de assumir nessa época: Ser-se pobre, ateu e liberal.
Com uma “linguagem cuidada” e um “enredo muito cativante”, “Mal Nascer” aborda a questão política e, principalmente, a situação de pobreza.
Carlos Campaniço, por último, afirmou haver um pensamento sempre presente no seu livro:
Em tempo de guerra, em tempos difíceis, são sempre as mulheres e as crianças que mais sofrem.
“Estar ao lado dos pobres nunca foi o caminho mais fácil”, afirmou.
“Mal Nascer”, tal qual “Os Demónios de Álvaro Cobra” (Teorema), vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada de 2012, baseia-se no Alentejo, região de origem do autor. A cultura alentejana é essencial na criação da sua imagética literária.
A apresentação terminou após algumas perguntas do muito público presente.

O Planeta Livro já teve oportunidade de abordar o livro anterior de Carlos Campaniço: “Os Demónios de Álvaro Cobra”.
Este romance, onde o leitor tem a possibilidade de acompanhar o extraordinário personagem chamado Álvaro Cobra, foi considerado, por Planeta Livro, um dos melhores romances lidos em 2013.
Brevemente, os leitores do blogue poderão ler a crítica a “Mal Nascer”.




LINKS ÚTEIS:

Texto sobre “Os Demónios de Álvaro Cobra”:

OS MELHORES DE 2013:


SITE INTERACTIVO DO ROMANCE:


fotos: Sofia Madalena Escourido



  
publicado por oplanetalivro às 19:18

04
Mai 14


Maio 










The Sweetness of Forgetting (Título original) – Kristin Harmel 
PORTO EDITORA 

Aos 36 anos, Hope Mckenna-Smith está habituada a más notícias A mãe morreu de cancro, o marido deixou-a por uma mulher mais jovem e a sua conta bancária está quase a zeros. O sonho  de  vir  a  ser  advogada  há  muito  que  foi  abandonado.  Agora,  resta-lhe  gerir  a pastelaria familiar em Cape Cod, educar uma filha adolescente problemática e apoiar a avó. 
Rose, a avô, nascida em França, sempre foi alvo de admiração em Cape Cod : os seus bolos ao fim de 50 anos tinham-se tornado lendários. No entanto, Rose encontra-se distanciada da realidade e mergulhada numa confusão intermitente. Num dos seus raros momentos de lucidez  apercebe-se  de  que  é  importante  falar  a  Hope  de  um  passado  longínquo  e desconhecido de todos, que manteve em segredo durante 70 anos e que em breve ficará perdido para sempre.  
Armada de uma lista de nomes e de fragmentos de uma história trágica, Hope parte para Paris em busca de respostas. Para Hope esta será também uma viagem de descoberta: de tradições  religiosas  há  muito  diluídas,  de  histórias  vividas  numa  Paris  ocupada  onde  o amor sobrevive e, sobretudo, da sua capacidade de recomeçar e acreditar em si mesma. 
 ● Kristin Harmel formou-se em Jornalismo e Comunicação na Universidade da Florida. Tem exercido a profissão de jornalista na televisão e em revistas como People, Ladie’s Home Journale Woman’s Day entre outras. Os seus livros estão traduzidos em inúmeros países, onde alcançaram notável sucesso. Atualmente vive em Orlando, na Florida. 

The  Unlikely  Pilgrimage  of  Harold  Fry  (Título  original)  –  Rachel 
Joyce 
PORTO EDITORA 

Para Harold Fry os dias são todos os iguais. Nada acontece na pequena aldeia onde vive com a mulher Maureen, que se irrita com quase tudo o que ele faz. Até que uma carta vem mudar tudo: Queenie Hennessy, uma amiga de longa data que não vê há vinte anos, e que está  agora  doente  numa  casa  de  saúde,  decide  dar  notícias.  Harold  responde-lhe rapidamente  e  sai  para  colocar  a  carta  no  marco  do  correio.  No  entanto,  está  longe  de 
imaginar  que  este  curto  percurso  terminará  mil  quilómetros  e  87  dias  depois.  E  assim começa esta viagem improvável de Harold Fry. Uma viagem que vai alterar a sua vida, que o  leva  ao  encontro  de  si  mesmo,  a  descobrir  os  seus  verdadeiros  anseios  há  tanto adormecidos e sobretudo vai ajudá-lo a exorcizar os seus fantasmas. Com este seu primeiro romance sobre o amor, a amizade e o arrependimento, The Unlikely Pilgrimage of Harold Fry, que recebeu o National Book Ward, para primeira obra, Rachel 
Joyce revela-se uma irresistível contadora de histórias.  
●  Rachel  Joyce  vive  numa  quinta  do  Gloucertershire,  em  Inglaterra  com  o  marido  e  os 
quatro  filhos.  Durante  vinte  anos  escreveu  argumentos  para  rádio,  televisão  e  teatro. 
Também passou pelo palco o que lhe valeu alguns prémios.  
The  Unlikely  Pilgrimage  of  Harold  Fry  foi  o  seu  primeiro  romance  e  recebeu  o  National 
Book Award para primeira obra e foi considerado em vários meios de Comunicação um 
dos melhores livros de 2012. 


L’ipotesi del Male (Título original) – Donato Carrisi 
PORTO EDITORA 

"PROCURO-OS POR TODO O LADO. PROCURO-OS SEMPRE." 
Já todos sentimos o desejo de desaparecer. De escapar para longe. De deixar tudo para  trás. 
Para alguns, esta sensação não passa. Cola-se-lhes na pele, devora-os e acaba por os engolir. Um dia, acabam por se volatilizar sem deixar rasto. Ninguém sabe porquê. 
Em breve, todos se esquecem deles. Todos, menos Mila Vasquez, investigadora que trabalha no Limbo, o departamento de pessoas desaparecidas. 
E DEPOIS, DE REPENTE, ESTES DESAPARECIDOS REAPARECEM PARA MATAR. 


Para os enfrentar, Mila deverá construir uma hipótese convincente, sólida, racional. A Hipótese do Mnal. Mas, para os travar, terá de ela própria mergulhar nas trevas. 
● Donato Carrisi nasceu em 1973 em Martina Franca (Itália).  
Licenciado  em  Direito,  especializou-se  em  Criminologia  e  Ciências  do  Comportamento. 
Dedica-se,  desde  1999,  à  carreira  de  argumentista  de  cinema  e  televisão,  e  escreve regularmente no Corriere della Sera.  L’ipotesi del Male  é o seu terceiro livro, depois do enorme sucesso de  Sopro do Mal e O Tribunal das Almas, já publicados pela Porto Editora. 


Henderson’s  Boys  –  Grey  Wolves  (Título  original)  –  Robert Muchamore  
PORTO EDITORA 

Fay passou 18 meses num Reformatório de Alta Segurança. A única realidade que conhece é a do tráfico de drogas e dos assaltos. Agora, está de volta às ruas e quer vingar-se... 
Os  agentes  da  CHERUB  Ryan  e  Ning  precisam  da  ajuda  de  Fay  para  encontrar  um importante  traficante.  Estes  agentes  apresentam  uma  vantagem  essencial:  nem  os criminosos mais experientes suspeitam que as crianças os possam espiar. Mas Fay fez uma série de inimigos… e o tempo urge. 
Para efeitos oficiais, estas crianças não existem. 
● Robert Kilgore Muchamore nasceu a 26 de dezembro de 1972, em Islington, Inglaterra. Trabalhou durante treze anos como detetive privado, mas abandonou a profissão para se dedicar à escrita a tempo inteiro. 


The Shining Girls (Título original) – Lauren Beukes 
PORTO EDITORA 

CHICAGO, 1931: Harper Curtis, um vagabundo paranoico e violento, dá de caras com uma casa que possui um segredo tão chocante como a natureza distorcida de Curtis: permite o acesso a outras épocas. Ele usa-a para perseguir as suas raparigas cintilantes – e tirar-lhes o brilho de uma vez por todas. 
CHICAGO, 1992: Diz-se que o que não nos mata nos faz mais fortes. Experimente dizê-lo a Kirby  Mazrachi,  cuja  vida  ficou  devastada  depois  de  sofrer  uma  brutal  tentativa  de assassínio. Continua a tentar encontrar o agressor, tendo como único aliado Dan, um ex-repórter de crime que cobrira o seu caso anos antes. 
À medida que prossegue a sua investigação, Kirby descobre as outras raparigas, as que não sobreviveram.  Os  indícios  apontam  para  algo…  impossível.  Mas  para  alguém  que  devia estar morto, impossível não quer dizer que não aconteceu… 
 ● Lauren Beukes é uma escritora premiada, argumentista, realizadora de documentários, autora de livros de BD e, pontualmente, jornalista. Conquistou a cobiçado Prémio Arthur C. Clarke com o seu romance visionário Zoo City.  Vive na Cidade do Cabo com o marido e a filha. 


Fire after Dark (Título original) – Sadie Matthews 
5 SENTIDOS

«Adam  destroçou-me  o  coração.  Partiu-o  em  tantos  e  minúsculos  pedaços  que  uni-los apenas me levaria a ser uma pessoa medianamente feliz.  Mas tudo mudou quando conheci Dominic.  
Dominic  ensinou-me  a  deixar-me  levar,  a  abandonar-me,  como  nunca  experimentei. Mostrou-me o caminho do puro prazer, que é também o da dor. O seu amor ilumina-me, embora  tenha  um  lado  obscuro.  E  conduz-me  aonde  bem  lhe  apeteça;  a  mim  resta-me segui-lo.» 
●  Sadie  Matthews  já  escreveu,  sob  vários  pseudónimos,  seis  romances  de  literatura feminina.  



Salvage the Bones (Título original) – Jesmyn Ward 
PORTO EDITORA 

Uma  tempestade  aproxima-se  perigosamente  da  vila  costeira  de  Bois  Sauvage,  no Mississípi.  Esch  e  os  seus  três  irmãos  vivem  em  parcas  condições  numa  casa  a  que chamam Hoyo, algures numa mata e por entre carcaças de carros abandonados e galinhas. Mas, nas suas vidas, há outras preocupações bem mais importantes do que a chegada do primeiro furacão. 
Skeetah  luta  para  conseguir,  com  pequenos  furtos,  que  os  cachorros  da  sua  premiada cadela pitbull, China, sobrevivam, para depois os vender e levar dinheiro para casa. Randal não para de treinar basquetebol; se for bom, poderá obter uma bolsa de estudos. Junior, o mais  novo,  apenas  quer  atenção.  Esch,  de  quinze  anos  e  responsável  pela  casa  desde  a morte da mãe, descobre que está grávida. A quem contar a notícia? O único adulto da casa, o pai, refugiou-se na bebida. À medida que os dias avançam numa dramática contagem decrescente para a conclusão fatal, que não é mais do que a chegada do furacão Katrina, esta família de crianças retira forças de onde não as há para enfrentar mais um dia.  
●  Jesmyn Ward nasceu em 1977 em DeLisle, no Mississípi. Estudou na Universidade do Michigan, onde ganhou cinco prémios Hopwood de ensaio, teatro e narrativa. Entre 2008 e 2010 conseguiu a Bolsa de Estudos Stegner da Universidade de Stanford e em 2010-2011 a  Universidade  do  Mississípi  nomeou-a  Escritora  Residente  Grisham.  Com  Salvage  the Bones,  o  seu  segundo  romance,  recebeu  o  National  Book  Award  em  2011,  o  galardão máximo das letras americanas, e o prestigiado Alex Award em 2012. 

A Viagem do Tigre – Colleen Houck 
PORTO EDITORA 

Na terceira aventura, a jovem Kelsey Hayes e os seus tigres vão ter de vencer os desafios incríveis propostos por cinco dragões míticos. O elemento-comum é a água, e o cenário de mar aberto obriga Kelsey a enfrentar um dos seus maiores medos.  
Desta feita, o objetivo é encontrar o Colar de Pérolas Negras de Durga e tentar libertar Ren da sua maldição e da repentina amnésia que o acometeu. No entanto, Kishan tem outros planos, e os dois irmãos lutam para ganhar o afeto exclusivo de Kelsey. 
● Colleen Houck é licenciada pela Universidade do Arizona e trabalhou durante dezassete anos como intérprete de linguagem gestual. O primeiro livro da saga, A Maldição do Tigre, foi  inicialmente  publicado  em  formato  eletrónico  e  rapidamente  se  tornou  um  êxito  de vendas.  

Contos Vagabundos – Mário de Carvalho  
PORTO EDITORA 

Nestes dezassete contos, Mário de Carvalho relata-nos várias histórias que se passaram com várias pessoas, e as suas peripécias, que vão acontecendo no quotidiano de cada um, desde contos sobre o que fazer com seres de 30 cm que teimam em manter-se em cima da secretária sem serem convidados; o que fazer quando descobrimos a melhor maneira de uma  traição  não  ser  descoberta;  a  possibilidade  de  existirem  meios  eficazes  para  criar ilusões e mentiras em cima de uma realidade, por mais agradável que esta seja. E quando os binóculos que compramos, para nos sentirmos menos sós, nos mostram que as pessoas não são aquilo que parecem? E se uma epidemia de primos invadir as nossas casas com os 
mais  variados  pretextos?  Pois  são  estes  contos  simples,  hilariantes,  irónicos  e  até absurdos, que se resumem na forma de comédia e paródia do dia a dia do cidadão, que Mário de Carvalho nos oferece neste livro. 
● Mário de Carvalho nasceu em Lisboa em 1944 e é licenciado em Direito. Tem praticado diversos  géneros  literários,  tendo-lhe  sido  atribuídos  os  prémios  literários  portugueses mais prestigiados (designadamente os Grandes Prémios de Romance, Conto e Teatro da APE, o Prémio do Pen Clube) e o Prémio Internacional Pégaso.  

O imenso adeus – Raymond Chandler  
PORTO EDITORA 

O imenso adeus (1953) é considerado pela crítica o mais ambicioso romance de Raymond Chandler.  Escrito  em  difíceis  condições  pessoais,  na  fase  terminal  da  doença  de  sua mulher,  é  também  o  romance  mais  «pessoal»  de  Chandler,  onde  duas  das  suas personagens encarnam aspetos biográficos do autor, nomeadamente o seu problema de alcoolismo. 
Philip  Marlowe  vê-se  envolvido  no  assassínio  da  mulher  do  seu  amigo  Terry  Lennox, depois de ter ajudado este a fugir para o México. Pouco depois recebe a notícia de que Lennox se suicidou e é contratado por um editor para encontrar e proteger um escritor desaparecido, Roger Wade. 
Mais  uma  vez  Chandler  traça  um  retrato  preciso  e  duro  de  uma  sociedade  cruel  num romance  que  envolve  profundamente  o  leitor  e  vai  muito  para  além  de  um  simples mistério policial. 

À beira do abismo – Raymond Chandler  
PORTO EDITORA 

À beira do abismo, originalmente publicado em 1939, é o primeiro romance de Raymond Chandler e um marco decisivo da história da literatura mundial.  Desencantado com o mundo à sua volta, o detetive Philip Marlowe caminha por entre a decadente  e  rica  classe  alta  de  Los  Angeles,  onde  grassam  a  corrupção  e  o  crime. Investigando um caso de chantagem sobre Carmen Sternwood, uma das filhas de um velho milionário,  as  suas  ilusões  de  «cavaleiro  andante»  depressa  se  desvanecem  face  a  um 
mundo sórdido onde o dinheiro, o sexo e o jogo juntam forças contra a lealdade e a honra.  
●  Raymond  Thornton  Chandler  nasceu  em  Chicago  em  1888.  Publicou  o  seu  primeiro conto em 1933 na revista Black Mask, escreveu sete romances protagonizados pelo mítico detetive Philip Marlowe e alguns guiões para Hollywood, que se tornaram clássicos do noir e o levaram a trabalhar com o ator Humphrey Bogart e o realizador Howard Hawks, entre outros. Morreu em 1959 em La Jolla, Califórnia. 

Alguma esperança | Leite materno – Edward St Aubyn  
SEXTANTE EDITORA

Em Alguma esperança, Patrick Melrose, cansado da vida mundana e do vício das drogas, frequenta com relutância uma festa que reúne o melhor da aristocracia britânica, a nata dos arrivistas e a acerba princesa Margarida, irmã da rainha, numa genial sátira às classes altas do Reino Unido.  
Em  Leite  Materno,  a  mãe  de  Patrick,  influenciada  por  uma  dúbia  fundação  New  Age, deserda o filho. Não obstante, pede a este que a ajude a morrer. 
● Edward St Aubyn nasceu em Londres, em 1960, e estudou Literatura Inglesa em Oxford.  
O  quinteto  de  romances  sobre  a  família  Melrose,  constituído  por  Deixa  lá,  Más  novas, Alguma esperança, Leite materno e Por fim, foi aclamado pela crítica e pelos pares e levou à consagração internacional do autor. 

Lisboaleipzig – Maria Gabriela Llansol 
ASSÍRIO & ALVIM 

Como nos diz Fernando J.B. Martinho, neste livro «[…] tempo, espaço, representação são categorias que o texto anula, errante, como as figuras da narradora e sobretudo Aossê, ser da  errância  por  excelência,  de  quarto  em  quarto,  de  casa  em  casa.  Lisboa  em  Leipzig, Leipzig em Lisboa, Lisboaleipzig. Nada de surpreendente. Surpreendente — assim a fixa o texto  —  será  a  proposta  que  Aossê  faz  a  Bach:  musicar-lhe  um  poema,  em  que  está implicado  por  inteiro  o  destino  do  seu  povo.  Um  poema  que,  assim,  se  volva  “canto”, “cântico” e que se “ouça em toda a Europa, que é a parte-mestra do mundo”. […] O que fica é a consolação da escrita, a reiterada insistência nela, para além da dispersão, da loucura, 
da incompreensão que são o preço a pagar, quando se anda “à procura de um final feliz”.  
● Nasceu em Lisboa em 1931. Considerada uma autora cuja escrita é hermética e de difícil inteligibilidade  para  o  leitor  comum,  é,  no  entanto,  apontada  por  muitos  como  um  dos nomes mais inovadores e importantes da ficção portuguesa contemporânea. Levando às últimas consequências a criação de um universo pessoal que desde os anos 60 não tem paralelo  na  literatura  portuguesa,  a  obra  de  Maria  Gabriela  Llansol  faz  estilhaçar  as fronteiras  entre  o  que  designamos  por  ficção,  diário,  poesia,  ensaio,  memórias,  etc.. 
Faleceu em 2008. 

As Leis da Fronteira – Javier Cercas 
ASSÍRIO & ALVIM

Uma  impetuosa  história  de  amor  e  desamor,  de  enganos  e  violência,  de  lealdades  e traições, de enigmas por resolver e de vinganças inesperadas. No  verão  de  1978,  com  Espanha  a  sair  ainda  do  franquismo  e  sem  ter  entrado definitivamente na democracia, um adolescente chamado Ignacio Cañas conhece por acaso Zarco e Tere, dois delinquentes da sua idade, e esse encontro mudará para sempre a sua vida.  Trinta  anos  mais  tarde,  um  escritor  recebe  o  encargo  de  escrever  um  livro  sobre Zarco, transformado nessa altura num mito da delinquência juvenil da Transição. O que o escritor  acaba  por  encontrar  não  é  a  verdade  concreta  de  Zarco  mas  uma  verdade imprevista e universal, que nos diz respeito a todos. Um admirável romance que confirma Javier Cercas como uma das figuras indispensáveis da narrativa europeia contemporânea. 
● Javier Cercas nasceu em Cáceres em 1962. Os seus livros foram traduzidos para mais de trinta  línguas  e  obtiveram  inúmeros  prémios  nacionais  e  internacionais,  entre  os  quais destacamos: Prémio Nacional de Literatura, Prémio Cidade de Barcelona, Prémio Salambó, Prémio da Crítica do Chile, Prémio Llibreter, Prémio Qué Leer, Prémio Grinzane Cavour, Prémio The Independent Foreign Fiction, Prémio Arcebispo Juan de San Clemente, Prémio Cálamo, Prémio Jean Moner, Prémio Mondello, Prémio Internacional Terenci Moix, Prémio Fundação Fernando Lara para a melhor receção crítica (ex-aequo) e The European Athens Prize for Literature. Em 2011 foi-lhe atribuído o Prémio Internacional do Salão do Livro de 
Turim pelo conjunto da sua obra.  
As  Leis  da  Fronteira  é  o  mais  recente  livro  de  Javier Cercas 

 Por que outra noite trocaram o meu escuro – Ana Luísa Amaral 
ASSÍRIO & ALVIM 

O  mais  recente  livro  de  poesia  de  Ana  Luísa  Amaral  é  um  empolgante  volume  onde  a autora  reflete  sobre  a  literatura  e  sobre  as  inquietações  do  nosso  tempo  e  do  nosso quotidiano, e onde surge, com grande fulgor, um diálogo polifónico com Fernando Pessoa e o seu drama em gente. «O lume que as sustenta, / a estas vozes, / é mais de dentro, e eu não o sei dizer».  
●  Nasceu  em  Lisboa,  em  1956.  Ensina  Literatura  Inglesa  no  Departamento  de  Estudos Anglo-Americanos  da  Faculdade  de  Letras  do  Porto.  É  doutorada  em  Literatura  Norte-Americana  com  uma  tese  sobre  Emily  Dickinson.  Poeta,  e  também  autora  de  livros infantojuvenis, está representada em diversas antologias portuguesas e estrangeiras e foi traduzida para várias línguas, como castelhano, inglês, francês, alemão, holandês, russo, búlgaro e croata. A sua obra tem vindo a receber diversos prémios, de que destacamos o Prémio Literário Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas 2007 e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores 2008.  

publicado por oplanetalivro às 09:02

01
Mai 14
Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana

Como Explicar a presença do mal?”

“De fingimentos de verdade e de verdade de fingimentos se fazem, pois, as histórias”[1]
José Saramago

A capacidade de Maria Manuel Viana (n.1955, Figueira da Foz) em desafiar o leitor e em estimular o gosto pela dificuldade é entusiasmante.
Em “Teoria dos Limites” (Teodolito), estamos perante o domínio da possibilidade, do “talvez”, campo tão fértil à criação artística.
O romance é composto por 3 partes: “O que não pode ser dito”, “O que talvez seja dito” e “O que irá ser dito”.
A história tem como ponto central a morte de um escritor afamado e candidato ao Nobel. A sua última e inacabada obra é mitificada. Não existem certezas sobre se o escritor a terminou. Sabe-se, no entanto, que a ideia do romance começou quando ele tomou conhecimento da obra de Leibniz.
Durante o funeral, reúne-se o núcleo familiar composto por a mãe, Mariana (filha), Ana Sofia e Ana Lúcia (sobrinhas) e o irmão. Será este o momento inicial da história narrada de forma complexa, contrastiva, e com uma prosa trabalhada como filigrana.
Logo no início, é demonstrada a dicotomia entre a criação e a morte, entre a ficção e a realidade, entre o pai e o Escritor. A escolha da maiúscula quando o Escritor é referido demonstra a divinização da sua figura. A influência do Escritor é abrangente e angustiante. Apesar de morto, Ele continua a ser fundamental na conduta das personagens. A sua influência limita a independência dos seus familiares e admiradores (as).
Maria Manuel Viana aproveita acontecimentos familiares para estudar o comportamento das personagens e especular, filosoficamente, sobre a literatura. Além de figura paternal (falhada), que não consegue detectar o drama da sua filha, o Escritor impõe o seu pensamento. Não é mais somente um drama de família. Estamos no campo da Teoria da Literatura, mais concretamente na rejeição do Biografismo, na Mimese (mais platónica do que aristotélica) na Morte do Autor (Barthes é muito mencionado) e, principalmente, na bloomiana Angústia da Influência.

A filha Mariana, sob esta influência, “decidira não ir para a faculdade após o secundário e, em vez disso, tirar um curso breve de estenodactilografia para ajudar o Pai que, por essa altura, já só escrevia e começava a ser O Escritor”. Posteriormente, ela decide continuar a escrever o livro inacabado. Mariana procura, constantemente, a aceitação/validação do seu pai/Escritor.
 A fragmentação do “eu-narrativo”, tão próxima da morte do autor e do pensamento de Derrida, afasta a voz narrativa da voz da autora. Através desta estratégia, a autora parece indicar que a única verdade existente é aquela que está no texto, independentemente das inevitáveis ligações com a realidade. “O fingimento” é potencializado pela adopção da voz das várias personagens.
A intertextualidade com outros livros e disciplinas é verificável pelas constantes menções a escritores, mas não deve ser reduzível a essa evidência; há, em “Teoria dos Limites”, intrínsecas influências e interdependências de outras obras e escritores. A mais evidente é com a de Leibniz e com algumas das suas teorias.
Os universos paralelos de Leibniz estão presentes no paralelismo temporal da narração. Na procura da resposta à pergunta de Leibniz “Como Explicar a presença do mal?”, a autora parece seguir a trindade presente na Teodiceia do autor alemão na explicação do mal: a vertente física (abuso sexual de Mariana, morte do Escritor), metafísica (filosofia, teoria literária), e moral (a culpa está muito presente).
O Monadismo, tão mencionado em “Teoria dos Limites”, é sobretudo detectável na Mutiplicidade (na estrutura narrativa e na caracterização das personagens) e na Percepção dos acontecimentos.
Leibniz está para o Escritor como o Escritor está para a filha. Há uma relação problemática com a anterioridade. A relação com a Obra Anterior é uma relação de empréstimo e influência. A fronteira entre “pedir emprestado” e o plágio é conceptualizada, mas não definida. Na Obra Nova existem todos os antecessores lidos pelo autor dessa obra. A dialéctica entre a antiguidade e a novidade é, quando idealizada, produtora de sentidos novos ou actualizados. Isto quando a novidade não é uma versão piorada do texto canónico. Esta é uma problemática presente desde o princípio em “Teoria dos Limites”.
Na sua introspecção sobre a influência, Maria Manuel Viana utiliza a margem de manobra dada por o Romance. A autora portuguesa experimenta os limites deste género narrativo ao utilizar estratégias próprias do ensaio. A miscigenação de géneros é uma característica importante no livro da escritora portuguesa.
“Não estou a falar de um mero jogo de combinações e articulações, à maneira de um puzzle, e sim da literatura como experiência limite, porque a literatura é uma experiência sobre aquilo a que chamamos os limites, sobre o limes, que em latim significava também fronteira, delimitação, portanto, metonimicamente, um espaço onde o confronto e a experiência da morte são possíveis.”

Através do paralelismo temporal e da pluralização de perspectivas, Maria Manuel Viana escreveu uma obra literária com qualidades suficientes para incentivar a releitura; a impossibilidade de apreensão do sentido numa só leitura deve-se à existência de interpretações poliédricas.
Maria Manuel Viana exige do leitor o que exigiu da sua construção literária: a formação do sentido através da pluralização e oposição de pontos de vista. O todo é muito mais do que a soma das partes.
O personagem principal, assim como qualquer ser humano, é composto por vários discursos, por várias narrativas.
O conhecimento possível, oriundo da pluralidade de perspectivas sobre determinada personagem e/ou acontecimento, é a plataforma viável na caracterização dessa mesma personagem e/ou acontecimento. A Verdade é uma utopia para o indivíduo. Não é nem pode vir a ser alcançável devido ao instrumento utilizado para a alcançar: a interpretação. Esta é sempre exterior ao facto.
Na última parte do livro, que reúne os escritos do falecido Escritor, Maria Manuel Viana potencia e amplia as possibilidades de significação do texto. A Palavra associa-se à matemática e à geometria. A interpretação é uma combinação de possibilidades.
Maria Manuel Viana desafia o hábito estabelecido de introdução-desenvolvimento-conclusão ao propor uma estrutura textual em que criador (escritor) e recriador (leitor) têm de reconciliar os códigos de interpretação.
“Teoria dos Limites” é uma obra aberta, muito inteligente e desafiante.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=698558

Mariorufino.textos@gmail.com




[1] “O autor como narrador”, em Revista Ler nº 38, págs. 36 a 41
publicado por oplanetalivro às 13:59

28
Abr 14

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=697237


Harold Bloom apresenta os 100 autores mais criativos da história da Literatura


A Crítica Literária, sendo uma área com regras próprias, é dependente da existência da Literatura. O crítico literário existe por existir um escritor. No entanto, a força da crítica literária pode ser tanta que obrigue o corpus canónico da literatura a abrir para a receber. Poucos autores têm a capacidade de construir um texto cujas características providenciem a sua própria emancipação e existam como Literatura. Refiro-me a Steiner, a Eduardo Lourenço e a Harold Bloom. As respectivas abordagens críticas são, elas mesmas, literatura.

Harold Bloom (n. Nova Iorque, 1930) é um dos mais prestigiados críticos literários da actualidade. Obras como “O Cânone Ocidental” e a “A Angústia da Influência” depressa se transformaram em bibliografia de teses, objecto de estudo e fonte de polémica. Harold Bloom não se limita a diagnosticar e expor. O autor tem capacidade para ser influente e mudar o pensamento. Ele é um elemento da História da Literatura.
Em “Génio - os 100 autores mais criativos da história da literatura” (Temas & Debates/Círculo de Leitores), Harold Bloom continua a delinear o mapa do cânone idealizado, quase 10 anos antes, em “O Cânone Ocidental”. Apesar de afirmar que “claro que não são «os cem mais» no julgamento de ninguém, incluindo o meu. Queria escrever sobre estes”, as afirmações presentes no julgamento sobre diversos autores contrariam esta declaração inicial. Os 26 autores presentes em “Cânone Ocidental” passam a 100 em “Génio”. Mantém-se a mesma metodologia de trabalho. O estudo concentra-se na procura e isolamento das características que tornam os autores em canónicos.
A entrada no corpus canónico acontece através de forças como a Estética, o domínio da linguagem figurativa, originalidade, poder cognitivo e saber.
A obra nova é julgada em comparação com os padrões do passado. Há uma ordem preestabelecida e institucionalizada.
A organização do livro demonstra a intertextualidade presente nas análises do crítico norte-americano. Bloom organizou o livro “em forma de mosaico, por acreditar que é fonte de contrastes significativos e inspiradores.”
Na concepção de “Génio”, o crítico norte-americano afirma que “a imagem das Sefirot cabalísticas permaneceu na minha mente. Os meus dez conjuntos levam os nomes mais comuns para as Sefirot (...) Como os cabalistas defendiam que Deus criou o mundo a partir de si mesmo, sendo ele o Ayin (nada), as Sefirot traçam o caminho do processo da criação”. As Sefirot são fases da criatividade. A análise dos 100 autores assenta nesta estrutura e tem, como paradigma, a Cabala e o gnosticismo, pois de acordo com o autor, após ter passado uma vida em meditação sobre o gnosticismo, o gnosticismo é a religião da literatura.
“Génio” está dividido em dez capítulos, cada um com dois Lustros compostos por cinco autores cada um. A composição dos capítulos e Lustros demonstram várias qualidades dentro de uma hierarquia.
O objectivo de “Génio”, é simples: “despertar o génio da apreciação nos meus leitores, se puder”.
Para despertar esse génio de apreciação, foram escolhidos somente escritores já falecidos. Entre autores como Cervantes, Montaigne, Dante, Virgílio, São Paulo, Maomé, Shakespeare (o autor mais amado por Bloom) existem Luís Vaz de Camões (VII Nezah-Lustro 13), Fernando Pessoa (VIII Hod- Lustro 15) e José Maria Eça de Queirós (IX Yesod - Lustro 17). Note-se a necessidade de justificação por parte de Bloom sobre a ausência de Saramago: o autor português estava vivo (o livro foi escrito em 2002). Sintomático da qualidade e importância da Literatura Portuguesa, quando se pensa na densidade demográfica em Portugal.
Apesar de divididos em capítulos, o autor de “Génio” faz questão de sublinhar as muitas e prolíficas dependências entre vários autores.
A interacção entre escritores implica um processo de interpretação gerador de valor estético. Essa “arte de pedir emprestado” existe e obriga a que, na apreensão do significado, se avalie um autor em contraste e comparação com outros.
Esse processo de influência pode deslizar para a já mencionada angústia. É curioso perceber que o próprio Bloom sente o peso dessa influência:
“O meu herói particular entre estes cem é o doutor Samuel Johnson, o deus da crítica literária, mas não tenho coragem de enfrentar o seu julgamento.”
A grande escrita, segundo Bloom, é sempre reescrita que abre as obras antigas aos sofrimentos recentes. A ansiedade da influência elimina os mais fracos, mas motiva aqueles que se inscrevem no cânone.
A obra canónica sobrevive independentemente da época em que foi escrita. Se há necessidade de contextualizar a obra de um autor para confirmar qualidade, então essa obra está ultrapassada. Daí, a avaliação do historicismo ser, por Bloom, negativa. De acordo com o seu pensamento, o historicismo deve existir na sua forma mais minimalista, pois é quase irrelevante.
Harold Bloom é um autor indispensável na crítica literária. Será lido, arrisco a pensar, durante muitos e muitos anos. Talvez tantos como o seu mestre Samuel Johnson.
“Génio - os 100 autores mais criativos da história da literatura” é um livro indispensável para os estudiosos do milagre da linguagem: a Literatura.
publicado por oplanetalivro às 12:43

26
Abr 14

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=696681

João Tordo: «No fundo, escrevo para não estar sozinho»


“Biografia involuntária dos amantes” é o caminho ficcionado e introspectivo de João Tordo em relação ao “outro”, ao ser humano tão próximo, mas desconhecido. Falámos do seu novo livro, editado agora na Alfaguara, no Festival Literário da Madeira (FLM). O local e a ocasião dificilmente poderiam ser mais adequados. O livro e o evento partilharam a mesma essência: a Alteridade.

Tens seis romances que obtiveram muito sucesso. Vários foram finalistas de prémios e um ganhou o Prémio José Saramago. O que te levou a mudar de registo ao sétimo romance?
Eu não mudei muito de registo. Tentei coisas novas, que eu nunca tinha feito antes. Por exemplo: aquela secção intermédia que é fundamental para a história do livro e que é contada no ponto de vista feminino. Nunca tinha tentado fazer uma coisa semelhante porque alguns dos meus romances eram contados na 3ª pessoa, e a maior parte deles eram contados na 1ª pessoa masculina. Foi com aquela voz da Teresa que eu comecei a escrever o livro.
Este romance foi o que mais tempo me levou a escrever. Foi um ano e meio. Fui parando e recomeçando, o que não é um método habitual. Normalmente, sento-me e escrevo os livros de “rajada” porque sei que tenho aquele tempo disponível e porque gosto de não parar até chegar ao fim. Neste, fui intercalando os tempos narrativos. Comecei por escrever a parte que diz respeito à Teresa e que é contada pela voz dela, o que já em si era um desafio, pois não sabia se conseguiria escrever no ponto de vista feminino.
As mudanças são esta [ponto de vista feminino] e a estrutura, que tem mais interrupções, é menos linear, em que partes do livro são telefonemas, cartas, outras são narração. No fundo, são técnicas narrativas que não têm nada a ver umas com as outras. Uma coisa é estares a narrar os acontecimentos no passado na 1ª pessoa, outra é estares a descrever ou, como jornalista, a parafraseares um telefonema.
Acabei por experimentar essas coisas novas neste romance e gostei de o fazer. Gostei de sair da minha zona de conforto, experimentar algo novo, e também centrar o livro numa personagem feminina, o que não tinha acontecido antes.

Que dificuldade é que essa opção te criou, como escritor?
As dificuldades foram as de verosimilhança, de não cair na tentação de escrever na voz feminina como se estivesse a escrever numa voz masculina, mudando apenas os acontecimentos e não a voz. Quando comecei a escrever, demorei três ou quatro dias a arrancar. Não conseguia arrancar bem, voltava para trás, arrancava outra vez. Mas conhecia bem aquela personagem. A personagem Teresa, em torno de quem o livro todo gira, é inspirada notoriamente em duas mulheres que conheço muito bem porque são da minha família. Tive dificuldade em ter de olhar para elas de uma maneira com que nunca tinha olhado: sem o afecto do parente, mas com o olhar mais minucioso e mais escrutinador de uma pessoa que escreve. As dificuldades foram surgindo, mas ao mesmo tempo que surgiam foram sendo eliminadas pela minha crença de que aquela personagem era verdadeira. Isso acontece-me muitas vezes. As dúvidas que eu tenho, enquanto vou escrevendo, vão sendo eliminadas pelo facto de aquela história ser tão verdadeira, ou aquelas personagens daquela história serem tão verdadeiras para mim.

A adopção de uma voz que nada tem a ver contigo é uma forma de alteridade? De compreenderes o “Outro”?
Sim, eu acho que faço uma literatura do “Nós”, como dizia na “mesa” de hoje [“Conversa Cruzada” - Homens que são como lugares mal situados- Festival Literário da Madeira], que é uma coisa que eu tenho pensado nos últimos tempos. São raros os meus livros que dizem respeito ao próprio narrador, embora grande parte deles tenha um pendor autobiográfico, como  “O Ano Sabático”, por exemplo,  que parte de uma história verdadeira.
Só me consigo rever pela identificação. Só consigo relacionar-me com outro ser humano, com os seus sentimentos, emoções, as coisas pela qual essa pessoa passa, se ao mesmo tempo identificar certas coisas que são comuns a todos nós. Se fores a uma sessão de terapia de grupo, aquilo funciona porque as pessoas se identificam umas com as outras. As partilhas nesse grupo só funcionam porque os outros se identificam com sentimentos, com faltas, com ausências, com angústias, etc. Nesse aspecto, eu não sou um escritor nada “umbiguista”. Quero compreender-me, mas quero compreender-me por identificação com o “Outro”. Essa alteridade talvez tenha a ver com o facto de eu quando nasci ter tido um gémeo idêntico que não sobreviveu. No fundo, passei a minha vida toda à procura de uma identificação que desapareceu. Daí essa necessidade de eu escrever sobre o “Outro”.
«Em nada era diferente daquele homem vestido a rigor no comboio, cuja ilusão se propagava indefinidamente, a ilusão de uma ária de Puccini que, na verdade, não passava de um programa de rádio destinado àqueles a quem a vida oferecia frigoríficos, viagens a Benidorm e a morte» (pág. 72)
O narrador criou uma imagem muito afastada da realidade do outro.
Um dos problemas da vida é esse.
É uma história verdadeira. Eu estava no comboio para o Porto e ao meu lado, mas na outra fila,  estava sentado um senhor bem vestido muito compenetrado, de olhos fechados, com um “smartphone”. Achei um gesto bonito o facto de um homem, dos seus sessenta anos, estar assim ali sentado. Às tantas, ele deve ter carregado num botão errado e eu percebi que ele estava a ouvir um relato qualquer de futebol. E eu tinha a certeza de que ele estava a ouvir música clássica, uma ária qualquer. Deu-me vontade de rir. Aquilo só o tornou ainda mais humano aos meus olhos porque eu estava a imaginar uma coisa que ele não era. Estava a imaginar que aquele homem teria uma vida como eu acho que gostaria de ter quando chegar à idade dele. Provavelmente não vou ter. Provavelmente vou ser exactamente igual a ele. Vou estar no comboio a ouvir um relato de um jogo de futebol do Benfica em vez de estar a ouvir uma ária de Puccini.
Isso para explicar o quê? Philip Roth tem uma frase muito engraçada: “O grande problema da vida são os outros”. É nós não compreendermos os outros. E como não compreendemos queremos compreender. Fracassamos sempre, ou quase sempre nesta tentativa de compreender o “Outro”. O “Outro” é fundamental para nos compreendermos a nós próprios, não tenho dúvidas. Mas claro que nos vamos equivocando. Podemos olhar para esses equívocos de duas maneiras: uma é de ficares de certa forma revoltado por os outros não corresponderem às tuas expectativas; outra maneira de olhares para as coisas é a de que as tuas expectativas são sempre irreais. A realidade mostra-nos constantemente que as nossas expectativas saem goradas porque nós tendemos a procurar o absoluto e a perfeição, quando se calhar deveríamos estar muito mais à procura das falhas dos outros que também temos em nós. Isso é algo que eu tento mostrar nas minhas personagens. Acho que elas quando chegam ao final dos romances, ou a certa parte dos livros, começam a perceber que os seus defeitos são aquilo que as une às outras pessoas.

Redenção?
Há redenção, sim. E a redenção passa por tu te aceitares. E claro aceitar o “Outro”, também. Tu não te podes aceitar se não tiveres muita gente que te aceite também. É algo que acho ser fundamental para qualquer tipo de alegria ou de felicidade que tu possas ter nesta vida.

O narrador acaba por aceitar Saldaña Paris. Apesar de todas as transformações pelas quais Saldaña vai passando, o narrador é compreensivo, quando o mais provável seria afastar-se…
O mais provável seria afastar-se, sim, mas repara que há uma certa parte do livro em que ele passa por ser um antagonista, porque ele olha para o Saldaña, em Paris, como um tipo estranho que não se compreende bem. Há uma cena fundamental no livro em que ele passa pela praça à noite, e o Saldaña Paris está a afagar a estátua e ele em vez de parar e dar atenção ao seu amigo prossegue e vai dormir com a colega da filha. E essa cena é fundamental porque significa que ele escolheu o caminho como todos fazemos. A partir desse momento, essa culpa- e a culpa é talvez a impressão mais pesada que nós carregamos. Fomos criados nesta cultura judaico-cristã em que a culpa está presente- é usada como elemento transformador. Se tu alimentares a culpa, estás tramado. Mas se usares a culpa para deixares de alimentar o passado e deixares de recear o futuro e começares a tentar perceber o presente, aí podes ter essa tal redenção de que falámos.

Há uma grande dependência afectiva entre as personagens. Vi a tua “mesa” e ouvi-te falar em liberdade. Qual é a relação entre o vínculo afectivo e a liberdade individual? São antagónicas?
Não são antagónicas. Tenho descoberto que liberdade não é vontade própria. É algo que eu acho que é muitas vezes confundido. Achamos que temos direito às coisas; temos esta vontade própria que nos diz para fazermos determinadas coisas.  A nossa vontade própria, muitas vezes, tende a enganar-nos no sentido em que há os actos por nossa vontade própria e os actos que estamos a usar na nossa liberdade, mas que estamos no fundo a cortar a liberdade a outras pessoas. Para mim a liberdade tem muito mais a ver com solidariedade. Eu sou tanto livre quanto me conseguir identificar com o próximo. Isso sim, é ser livre. A minha vontade própria até agora trouxe-me mais problemas do que soluções. Ao exercer a minha vontade, ao fazer as coisas à minha maneira, ao fazer aquilo que eu quero e ao não considerar aquilo que os outros querem, incorri frequentemente em egoísmos, nesse encerramento no “eu” que é tão contrário ao “nós” que eu procuro nos meus livros. Tem que haver liberdade, necessariamente, mas é uma liberdade que se confunde com solidariedade. É isso que se passa no romance. É um romance que é profundamente solidário com um homem que dá a mão ao outro e que em troco recebe algo que não estava à espera de receber.

E é possível chegares ao "Outro", à essência das pessoas e das coisas, através da ficção?
Não sei se é possível na ficção, mas também duvido que seja possível na realidade. Na vida quotidiana, somos pessoas a viver de um modo fragmentário, pois estamos condicionados por uma série de circunstâncias exteriores.
Na ficção, tu não tens esses condicionamentos, ou seja tu podes relacionar-te com os outros. Mais uma vez, os meus livros são quase autobiográficos. Admiro escritores que escrevem desta maneira, a começar por Henry Miller, Javier Cercas. São escritores que escrevem como se a ficção fosse mais forte que a realidade, ou que fosse mais importante. De facto, em ficção temos o tempo e o material e talvez a sabedoria necessária para compreender aquela personagem como raramente conseguimos compreender uma pessoa. E com isto não estou a tentar substituir personagens por pessoas. De facto, Saldaña Paris existe. Quando o conheci, havia muitas coisas que não compreendia nele e se calhar com este livro compreendo melhor. Ainda que não seja a história dele!

É um instrumento de reflexão?
Sim, é exactamente isso. É espantoso este poder que os livros têm em nos abrir portas e de nos abrir emoções, que são contrárias à razão, porque a razão tem os seus limites; a razão está sempre a tentar justificar as nossas acções. Nós, como seres racionais, estamos sempre a tentar justificar o que fizemos. Mesmo quando fizemos uma coisa errada tentamos achar uma justificação para essa coisa errada que fizemos. Os livros que eu leio e os livros que eu escrevo -mais os que eu leio porque eu leio muito mais livros do que aqueles que escrevo. Gosto muito mais de ler- abrem-me portas que eu não consigo racionalmente abrir. Se eu estivesse fechado, sozinho, a tentar resolver um problema racionalmente, passaria o tempo todo a arranjar desculpas. Os livros abrem portas que eu não sabia que estavam lá. E são portas emocionais; não são portas racionais.
Temos estado a falar da literatura como um meio de chegar aos outros. Pergunto-te se não será, também, um meio de ser reconhecido pelos outros. Leio as seguintes frases do teu livro. Diz o pai de Saldaña Paris: «Afinal de contas, os escritores vivem do ego, ou não é assim? Querem ser lidos e que digam bem deles. Ou que digam mal ou que digam alguma coisa. Não, senhor. Eu nunca andei cá para alimentar vaidades» (págs. 253/254)
O pai de Saldaña Paris é uma espécie de Cassandra; ela está a avisar sobre a destruição de Tróia e ninguém lhe dá atenção. Ele é um personagem cínico e que ergueu muros muito sólidos na sua relação com o filho e com o exterior, mas dentro desse onanismo ele consegue dizer algumas coisas que são verdadeiras.
Nós, como escritores, evidentemente que dependemos do reconhecimento alheio. Se eu não vender livros, se não der entrevistas, se não aparecer, eu continuo a ser escritor, mas deixo de ser uma figura reconhecida publicamente como autor. Escritor serei sempre e já o era antes de publicar livros.
Se me dá prazer que muitas pessoas leiam os meus livros? Dá-me imenso prazer, obviamente.
Quando alguém me escreve, ou quando alguém vem ter comigo e diz que se identificou com isto ou aquilo, e temos uma conversa sobre isso, é o maior prazer que eu posso ter porque significa que não estou sozinho.
No fundo, escrevo para não estar sozinho.

Nas páginas 228/229 fazes a comparação entre Miguel e o namorado da filha, ou seja entre o pós-doutorado em literatura e o mecânico de automóveis, em que o académico inveja quem suja as mãos: «Carlos sujava as mãos todos os dias, e o fruto do seu trabalho era visível no mundo»Na página 260, o pai de Saldaña diz: «para que é que interessa a poesia agora? Vai resolver o nosso problema?»
A Literatura tem alguma utilidade?
É uma velha questão. Isso recorda-me Aristóteles. Detesto citar, mas recordei-me de Aristóteles. No primeiro ano de filosofia, estudámos Aristóteles. Ele escreveu num livro que a filosofia só é possível quando estamos bem alimentados, bem vestidos, confortáveis.
 Um tipo que está num campo de concentração não tem tempo para pensar em Ética. Não tem capacidade física para se preocupar com as coisas com que nós, que estamos alimentados e bem vestidos e temos uma vida “normal”, “perdemos” tempo. Nessa passagem, o que eu quis mostrar foi que a vida de um professor ou de um académico pode ser muito enriquecedora, mas também pode ser uma forma de te afastares da vida, refugiando-te nos livros. Os livros não são a vida. Os livros são uma reflexão posterior que só quando já tens alguma vivência, ou quando passaste por uma série de problemas e inquietações, podem vir em teu auxílio, ou podem dizer-te alguma coisa.

Saldaña cavou o seu fosso por causa de mentiras, ou verdades incompletas, e acabou por sair desse fosso com a ajuda de mentiras, também. 
É moralmente aceitável mentir para salvaguardarmos alguém?
Se é moralmentea aceitável mentir para salvaguardarmos alguém? Sim. Tenho quase a certeza de que sim e tenho quase a certeza de que se eu estivesse na posição do narrador, faria o mesmo. Todo o romance assenta nessa mentira, e essa mentira vem no tal poema do Dylan Thomas sobre a mentira. Ele mente para salvaguardar o amigo, embora eu tenha a sensação de que ele mente para melhor lhe dizer a verdade. O mundo está tão cheio de maldade e de coisas que são incompreensíveis por estarem carregadas de mal! Neste festival [Festival Literário da Madeira] falou-se imenso disso; Auschwitz, por exemplo. Às vezes não podes encarar esse mal de frente. Não creio que o ser humano consiga encarar esse mal de frente, nem o mal que sucede neste livro, através do personagem Franklim, o tio da Teresa.

Por que razão Saldaña deixa e espalha os seus poemas por onde passa?
Isso é uma espécie de “comic relief”. Conheço o Saldaña Paris, o verdadeiro, o poeta; ele escreve de uma maneira muito curiosa e deixa poemas por toda a parte. Escreve nos cafés e esquece-se dos poemas lá. Tem a gaveta cheia de coisas que nunca publicou. Achei engraçado que o personagem também fizesse isso. Achei que era uma maneira de o fazer mais livre. Ele, que é um tipo tão preso aos seus fantasmas, precisava dessa liberdade.
publicado por oplanetalivro às 18:33

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Abr 14






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SOBRE "A SEGUNDA MORTE DE ANNA KARÉNINA"http://oplanetalivro.blogspot.pt/2014/04/a-segunda-morte-de-anna-karenina-de-ana.html









SOBRE O "O REI DO MONTE BRASIL"http://oplanetalivro.blogspot.pt/2012/11/o-meu-texto-sobre-o-rei-do-monte-brasil.html


PRÉMIO URBANO TAVARES RODRIGUES (Prémio Literário de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues, iniciativa conjunta da FENPROF e SECRE)
publicado por oplanetalivro às 06:53

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